Notas iniciais
Olá, pessoal! Cá estou eu com mais um capítulo! Desta vez, trazendo um pouquinho mais da Cataclysmus pra vocês. Espero que gostem!

"If I should die before I wake

It's cause you took my breath away

Losing you is like living in a world with no air, oh

I'm here alone, didn't wanna leave

My heart won't move, it's incomplete

Wish there was a way that I can make you understand"

(Se eu morrer antes de acordar

É porque você tirou meu fôlego

Perder você é como viver em um mundo sem ar

Eu estou aqui sozinho, não queria partir

Meu coração não se move, está incompleto

Gostaria que houvesse um jeito de fazer você entender)

No air — Jordin Sparks (feat. Chris Brown)

X

− Já pode vestir a camisa. – O comando, dado através de um microfone acoplado na máquina de ressonância magnética, avisou. Levantou-se imediatamente, sentindo as costelas um pouco doloridas pela noite passada, mas vestiu-a e jogou o casaco por cima. – Me encontre na saída de sempre.

Anuindo com a cabeça, seguiu oculto pelos corredores até parar no beco que levava para os fundos do hospital. A médica o encarou, as rugas de cansaço evidenciada pelos anos de trabalho. Havia aprendido a ler pessoas como ninguém e sabia quando esperar uma notícia ruim.

− Não faça rodeios – disse. – Apenas me diga de uma vez e de forma que eu possa entender.

Era difícil. Aquela era a parte da profissão que menos gostava. Mas continuava aparecendo como o fantasma do Natal passado para assombrá-la.

− O tumor voltou a crescer, Sr. Harper. – A médica foi direta. – Existe uma pequena hemorragia que se parece com um gotejamento em um encanamento. Acontece que é justamente esse tumor que está impedindo que se espalhe. Mas se ele crescer muito mais, temo que a pressão exercida irá matá-lo. Eu estou pronta para tentarmos uma cirurgia. Posso contatar especialistas mais acurados na área para ajudá-lo.

Ele digeriu as palavras dela. Aquela médica, que cuidara dos ferimentos do Team Arrow desde sempre, era a mais sigilosa e verdadeira de todos os médicos que ele já havia conhecido—e em seus anos como encrenqueiro nos Glades tinham sido muitos.

− Isso é por causa do Mirakuru, não é? – Sua voz soava rouca. Ele se sentia cansado, para não dizer exausto.

A doutora sopesou o que ele havia dito. Vinha acompanhando Roy Harper na rotina clínica desde o caso com o Mirakuru e embora seu sistema estivesse livre daquilo, os efeitos colaterais causados pela mutação nas células permaneceu. Infelizmente, para Harper, parte do Mirakuru havia se alojado em seu cérebro na forma de um tumor que, ironicamente, impedia que seu cérebro sangrasse até ele morrer. Tirar aquele tumor era uma faca de dois gumes, mas permitir que ele crescesse era ainda mais arriscado.

− O tumor pode ter tido a influência do Mirakuru.— concluiu. – No entanto, acho que algo acelerou o processo. Você tem tomado alguma coisa?

A pergunta o pegou desprevenido, mas Roy apenas sorriu em uma negativa.

− E as dores de cabeça? As luzes? – Ela prosseguiu com o questionamento, pouco convencida.

− Tenho dores de cabeça. As luzes não incomodam mais. – mentiu sobre a última parte.

− Os sonhos acordado?

Roy lembrou-se de Sin e de como havia atirado a flecha em sua direção. A culpa o corroía por dentro desde que recuperara aquela lembrança. Tentou se manter limpo desde então. Mas a Cataclysmus era o que mais aliviava aqueles sintomas e a dor insuportável que sentia atrás dos olhos.

− Não mais. Eu estou limpo desde aquele episódio.

Ele havia corrido para a doutora assim que se lembrara daquela cena. Sin havia insisto que a droga fazia mal a ele, mas tudo o que Roy queria era um alívio para aquilo que havia se tornado insuportável, sobretudo depois que Thea havia ido embora. Era como se todos os sintomas tivessem piorado. Mas ficar sem a droga o deixava completamente inútil. Havia se escondido desde então, a vergonha o corroendo por dentro. Nas vezes em que tentara usá-la novamente, incidentes semelhantes aconteceram com bandidos. Então estava tentando evitar. Mentira, é claro, sobre o período. Mas já tinha três dias... três dias desde a última vez.

− Pode checar se quiser.

Ela deveria, mas decidiu acreditar no rapaz.

− O que quer fazer, Roy? – questionou por fim.

Ele suspirou, os olhos fixos no céu azul. Há quanto tempo não saía durante o dia? A pergunta circundou sua mente, tanto quanto os rumores que escutara sobre uma outra droga. Algo mais potente que a Cataclysmus. Algo que talvez pudesse ajudá-lo.

− Posso pensar sobre isso? – Os olhos se fixaram nos dela, tão cansados de mais um plantão.

− Só não demore demais. A vida é curta, Roy.

Era. Ele sabia bem disso.

X

Quando a campainha de seu apartamento tocou, muito depois da meia-noite, Laurel quis morrer. Provavelmente por conta da dor de cabeça insuportável que sentia por conta das noites mal dormidas. Ela e Sin—agora recém-contratada como assistente pessoal da promotora e usando o nome real, Cindy—haviam mergulhado fundo nos casos a respeito da Cataclysmus ao mesmo tempo em que tentavam encontrar o paradeiro de Roy, este segundo sem sucesso.

A garota passava grande parte do tempo em seu apartamento, mas sempre dava um jeito de escapar quando Eric passava a noite lá—coisa que havia se tornado um tanto frequente também.

Laurel fingiu que não era real. Fingiu que era apenas um sonho, mas grunhiu um palavrão muito feio quando a campainha persistiu.

− Deve ser a Sin, Eric. – murmurou, a voz arrastada. – Deve ter perdido a chave de novo. Pode abrir?

A princípio, quando viu a garota ali, Eric sentiu estranheza. Mas a reconheceu dos Glades e logo se tornaram grandes amigos. Ele havia perguntado a Laurel se era um hobby pessoal seu angariar pessoas de lá, ao que ela apenas lhe lançou um olhar atravessado dizendo que ela era como a irmã mais nova de sua irmã. O que, indiretamente, a fazia responsável por ela.

No começo, admitia, a adaptação tinha sido difícil: Sin se recusava a aceitar aquela vida normal onde tinha que ir à escola no período da manhã e trabalhar com Laurel no período da tarde. As noites eram livres, mas o toque de recolher era 23:00, exceto nos finais de semana, onde Sin podia chegar a hora que quisesse, desde que sempre avisasse antes o local onde estava.

Ela se mostrou uma garota de personalidade e ótima organizadora de papéis. Sua mesa havia adquirido outro aspecto, completamente organizada e as fichas foram todas arquivadas por ordem datada, o que tornou os casos muito mais fáceis de achar. A parte digital havia sido completamente atualizada também, ao que Sin se mostrou muito útil em tarefas que Laurel demorava dias fazendo. Além disso, ela tinha muitos contatos nos Glades, o que fez o caso da Cataclysmus ganhar destaque até mesmo nos jornais.

Foi difícil, mas finalmente um nome havia aparecido: Scorpia.

Sin havia escutado os burburinhos a respeito desse pseudônimo em uma das boates onde estava fazendo bico como DJ substituindo um amigo que já havia salvado sua pele mais de uma vez. Um dos caras havia comentado sobre Scorpia, dizendo que uma nova droga estava a caminho. Algo completamente novo e infinitamente melhor. Algo que não apenas os livraria do cansaço, mas até mesmo curaria injúrias.

Ao passar essas informações para Laurel, ela imediatamente buscou no banco de dados na polícia com Quentin, mas não obteve nada concreto. Ainda assim, já era algo.

Sem saber se Sara voltaria ou se conseguiriam resgatar Roy—mas ainda mantendo as esperanças—, Sin havia se adaptado à rotina de forma surpreendentemente rápida. Laurel era turrona e mandona, mas ela não podia reclamar. E até mesmo gostava... de estar ali na promotoria. Ninguém nunca lhe dera uma chance e, depois do sumiço de seu pai, apenas Sara olhara por ela.

− Tudo bem, – Eric arrastou o corpo para fora da cama. – mas o café da manhã é por sua conta.

Laurel grunhiu qualquer coisa em resposta, afundando a cabeça contra o travesseiro.

− Claro, − disse Eric, em tom de brincadeira. – panquecas de banana estão ótimas para mim! – cantarolou e apanhou o molho de chaves começando a destrancar a porta.

Como morador vitalício dos Glades, Eric deveria estar acostumado a desconfiar de qualquer batida diferente e sempre, mas sempre olhar através do olho mágico. Ele havia feito isso? Claro que não.

− Sin! A Laurel disse que—

Eric nunca terminou a sentença, sentindo-se imprensado contra a parede e o ar roubado dos pulmões muito antes que pudesse compreender o que havia acontecido. Era como se tivesse voltado à prisão, na época em que os maiores e mais fortes agiam como se pudessem fazer o que quiser dele. Exceto que agora não podiam.

Ele mal registrou a cena de quem lhe atacara ao ponto de suspender seus pés no chão antes de atingir uma joelhada contra o estômago de seu agressor. Mesmo assim, apesar da dor sentida, ela não o largou.

Ela.

Estava apanhando para uma garota?!

− Sara! – A pessoa exclamando o nome de sua agressora era uma loira calçada em saltos altos que a deixavam um pouco mais alta que ela. Eric a reconhecia de alguns portfólios, mas enquanto sua traqueia era esmagada pelo antebraço poderoso que o prendia contra a parede, Eric não conseguiu pensar de onde.

− O que foi? – questionou.

− Eric, o que—Ai meu Deus, Sara, você vai matá-lo! – Essas não eram as primeiras palavras que Sara esperava ouvir ante o seu retorno, mas supôs que pela coloração arroxeada que o rosto do homem tomava, ela estava certa. Portanto, Sara o largou.

− Achei que era algum ladrão invadindo sua casa.

Laurel revirou os olhos.

− Um ladrão que abre a porta?! – exclamou.

− Eu tentei avisar. – Felicity encolheu os ombros. – Sinto muito, moço.

Ela ofereceu um sorrisinho gentil para Eric, que, humilhado perante a situação, não sabia sequer o que dizer.

X

Cinco minutos depois, estavam todos sentados na pequena sala de Laurel, desfrutando de uma deliciosa xícara de café preparada pela promotora.

− Quem é ele? – Sara quis saber, olhando de esguelha para Eric. O rapaz mantinha o olhar cabisbaixo, ainda humilhado por ter apanhado para uma garota. Uma garota que nem havia cedido diante de uma joelhada certeira!

Laurel olhou na direção de Eric e entreabriu os lábios como se fosse responder, mas ele foi mais rápido.

− Eric D’raven. Sou namorado dela. E você? – Ainda na defensiva, o rapaz questionou.

− D’raven? Tipo no filme do Corvo? – Felicity não resistiu.

− É, meio que—

− Namorado. – Foi a única palavra que Sara registrou. Laurel não negou o fato e abriu um sorrisinho, feliz com a afirmação de Eric. Um rótulo que até então não haviam discutido. – Sinto muito. Sou Sara. Sara Lance. Irmã mais nova de Laurel.

Somente naquele momento, Eric pareceu registrar as semelhanças entre as duas: as maçãs do rosto acentuadas e bem delineadas, os olhos vivamente azuis embora os de Laurel fossem um grau mais escuros, os cabelos loiros...

− Você é forte. Desculpe pelo... – Ele apontou na direção da barriga dela, onde havia atingido a joelhada.

− Ah, isso. Não foi nada.

− Ouch. Um golpe no ego do garoto corvo. – Felicity soltou sem querer. – Desculpe.

− Tudo bem. – Eric encolheu os ombros e levantou-se, vestindo a camisa depois de terminar a xícara de café. – Acho que já vou. Deixar vocês colocarem o papo em dia.

Laurel queria negar, mas pelo olhar que trocou com a irmã, sabia que tinham muito a conversar. E sequer havia tido tempo para abraçá-la.

− Eu o acompanho até a porta. – Felicity se ofereceu e Laurel agradeceu, despedindo-se com um selinho leve do agora namorado.

− Te ligo. – prometeu ele. Laurel acenou com a cabeça enquanto Felicity o acompanhava até a saída.

− Sinto muito por ela. – Felicity apoiou-se no batente da porta com um sorrisinho um pouco sem graça. – Sabe como é, filha de policial. – Deu uma risada nervosa.

− É, sei como é. – Ele encolheu os ombros. – Até mais....

− Felicity. – Ela estendeu a mão para Eric, ao que ele apertou. – Felicity Smoak. Prazer em conhecê-lo, Eric.

Um lampejo de reconhecimento passou pelo olhar sombrio de Eric por um momento.

− O prazer é meu.

Felicity podia jurar que algo na voz dele havia mudado, mas apenas encolheu os ombros e encostou a porta, vendo as duas irmãs abraçadas.

Laurel chorava no ombro da irmã mais nova.

− Achei que tivesse te perdido novamente. Achei que Ollie... onde ele está?

Felicity e Sara trocaram olhares culpados.

− Sara?

− Sente-se, irmãzinha, − disse Sara. – temos muito o que conversar.

X

Roy havia passado os dois últimos meses sondando cada traficante daquela cidade, cada pessoa que pudesse lhe dar uma resposta a respeito do que a Cataclysmus significava. Ele havia escutado, por intermédios, que existia uma nova droga muito melhor sendo fabricada. E que o responsável por isso se chamava Scorpia.

Não era fácil chegar até ele, era preciso mostrar seu valor. Mas Roy não tinha tempo para isso. Ele havia feito escoltas e programado tudo para atacar naquela noite.

Bem, atacar não era a palavra certa. Ele apenas precisava descobrir quem era o alvo. Pois tudo o que tinha era um nome.

De escolta no prédio onde as operações acontecia, sentiu a cabeça latejar novamente e pontos de luz brilharam em sua visão, fazendo-o dar um passo em falso. Para a sua infelicidade, um guarda passava por ali naquele momento.

− Temos um invasor! – Passou pelo rádio.

− Droga. Droga!— Roy praguejou baixinho e atirou uma flecha naquela direção. A bomba de fumaça explodiu e ele se viu em um impasse: correr para dentro e descobrir quem estava por trás disso ou fugir.

Se corresse, poderia perder a única chance que realmente tinha de conseguir uma cura. Algo que talvez pudesse aliviar as dores de cabeça tão fortes que sentia, pois naquela mesma tarde, a doutora havia lhe comunicado que mesmo os especialistas temiam que remover aquele tumor poderia significar sua morte. O sangramento dificilmente seria contido. Não. O que Roy Harper precisava era de um milagre. E tempo para que Thea voltasse e pudesse cumprir sua promessa de estar ali quando ela chegasse.

Ele tomou a decisão naquele momento e, com o arco em punhos, mergulhou na direção da sede de Scorpia.

X

− Então o que está me dizendo é que nesses dois meses, Roy sumiu? – A voz de Felicity falhou diante dessa informação. – E John?

− O QG estava completamente abandonado. – Laurel sentenciou. – Sin me contou que John levou uma flechada para salvá-la. Roy estava... perturbado. Tem usado a Cataclysmus.

− A droga que você citou. – Sara cerrou os punhos, sentindo-se mais culpada do que nunca. – Se vocês estivessem aqui...

− Então você não estaria. – Felicity cortou o pensamento da noiva. – Oliver confiou na gente, Sara, para protegermos a cidade. Podemos fazer isso.

− Acha que está conectado ao hacker que atacou mais cedo? – Sara questionou. Para ela, era impossível não sentir culpa quando Oliver havia ficado por sua causa. Laurel também sentia o peso da culpa, pois fizera Oliver prometer que traria sua irmã de volta a qualquer custo.

Felicity estreitou os olhos. Não sabia que tipo de pessoa o pai era. E se estivesse por trás disso? E se ele fosse o tal Scorpia? Um novo nome para um novo ataque...

− Hacker? – Laurel inclinou a cabeça para o lado.

Então, Sara e Felicity explanaram para ela sobre o ocorrido. Como estava com Eric, não havia se atentado às notícias e praguejou por isso. Mas, bem, não podia dizer exatamente que se arrependia.

− Acha que pode descobrir quem ele é? – Laurel perguntou.

Felicity ponderou se deveria ou não dizer que já sabia quem era, mas não como detê-lo. Insegurança a dominou, pois mesmo que não conhecesse o pai e ele tivesse sido pintado por R’as Al Ghul como um vilão, queria acreditar que ainda existia algo do homem cujo qual sequer reconheceria o rosto se o visse na rua. Queria ouvi-lo dizer porque havia abandonado sua mãe...

− Fel? – Sara entrelaçou os dedos aos dela e apertou sua mão. – Tudo bem?

− Ah? Sim, eu só... estou um pouco cansada.

Sara deu um sorriso compreensivo para a noiva.

− Tenho certeza que Felicity poderá descobrir em breve quem ele é.

− Até porque tentou revelar suas identidades. Tome cuidado, Sara. – Laurel pediu. Agora que a irmã havia retornado, faria o possível para protegê-la. – Mas mudando de assunto... noivas então?

Foi impossível para as duas não sorrirem diante da expressão radiante de Laurel.

− Quem diria que aquela hacker tímida seria a pessoa que fisgaria o coração da minha irmã? Meus parabéns.

Ela abraçou as duas, lembrando-se dos momentos de angústia que ela e Felicity dividiram no hospital quando Sara havia ficado entre a vida e a morte devido ao ataque de Slade. Então, um lampejo percorreu sua mente e a ideia pareceu simplesmente atrativa demais.

− Hey, Sara, pode me ajudar com um negócio aqui no quarto? É rapidinho.

− Eu... claro. – Acenou com a cabeça, mas quando fez menção de levantar-se, viu o olhar de Felicity perdido novamente. – Está tudo bem mesmo?

A hacker pensava em mil coisas, dentre elas a culpa que a corroía por não estar perto de Roy quando o garoto mais precisara de sua ajuda. Ele, que havia recolhido os cacos de seu coração e que tinha sido um suporte inabalável com tudo o que havia acontecido com Sara. E Thea havia ido embora, deixando-o para trás. Como se lendo os pensamentos por trás dos olhos preocupados da amada, Sara apertou sua mão novamente trazendo uma onda de conforto bem-vinda pela loira.

− Vamos rastreá-lo. – disse. – Estamos aqui agora e vamos ajudar ele. Podemos ver como reabilitar ele. Não vamos desistir. Mas sobre essa droga... você não tem aqueles amigos em Central City que poderiam ajudar com isso?

Foi como se Sara trouxesse luz ao seu mundo mais uma vez. Snow! Caitlin Snow era cientista, uma bio-engenheira! Se alguém poderia entender a respeito da fórmula daquela droga era ela. E talvez assim... talvez assim pudesse ajudar Roy.

− Você pode não ser eu, mas é um gênio. Eu te amo! – Felicity deu um beijo estalado na boca de Sara, deixando a outra loira atordoada. Mas ela riu, e aquela gargalhada gostosa a preencheu com felicidade que fez seus olhos arderem com lágrimas.

− O que foi? – Sara perguntou.

− Nunca mais achei que ouviria essa risada novamente. Que me preenche com uma alegria inominável.

− Você vai ter a vida inteira para se acostumar. – Sara lhe deu um beijo no rosto, ao que os gritos da irmã, que logo acordariam todos os vizinhos, a despertaram. – Já estou indo!

Sara se levantou e foi ver o que a irmã queria. Encontrou-a com uma caixinha de veludo no quarto.

− Ele já...

− Não, sua boba! – Laurel exclamou e lhe deu um soquinho no ombro. – Ainda não. É muito cedo.

Sara abriu um sorriso para a irmã mais velha e aproximou-se para ver o anel na caixa. Era uma aliança de ouro branco, trabalhada com detalhes folheados com pedras de esmeralda e um pequeno diamante no centro.

− É a aliança da mamãe... – Sara murmurou.

− Sim. Ela me deu quando Ollie e eu íamos nos casar, mas nunca usei e também não devolvi a joia. Não sei como sobreviveu aos meus tempos de bêbada. – Uma risada seca soou de Laurel. – Agora é sua.

Sara não sabia o que dizer quando a irmã estendeu a joia para ela.

− Mas... mas você é a herdeira, Laurel. Você é a irmã mais velha.

Laurel negou com a cabeça. Aquela joia era uma herança de família dos Lance, que vinha passando de geração em geração pela família de Quentin. Havia pertencido à sua mãe e, antes dela, à mãe dela. Mesmo quando Dinah havia se separado dele, Quentin insistiu que ficasse com a aliança até que Laurel tivesse idade para recebê-la quando fosse se casar.

− Você está dando esse passo primeiro. – pontuou. – E quero que dê isso a ela. Se é a pessoa que você escolheu—a sua pessoa—quero que dê isso a ela.

Emocionada demais para dizer qualquer coisa, ela apenas se atirou nos braços da irmã.

− Sua bobona. Você anda vendo séries demais.

Laurel riu. Ia dizer algo quando Felicity irrompeu no quarto, mas apenas teve tempo para escorregar a caixinha de veludo para o bolso da jaqueta de Sara.

− Houve um ataque em uma instalação perto do porto da cidade, Sara. O que vocês... – Felicity parou a frase no meio, ao ver o sorriso nervoso que as irmãs trocavam.

− Nada. Detectou algo incomum?

As feições de Felicity se tornaram sérias novamente e ela mostrou a gravação de uma câmera que havia hackeado das proximidades.

− Roy. – Sua voz estava carregada de preocupação e uma falsa esperança de que as coisas poderiam se resolver. – Eu encontrei Roy.

X

− Ele ainda está no prédio, Observadora? – A voz de Sara soava como um trovão, alta acima dos motores potentes da moto de 1200 cilindradas que ela pilotava. Esta, claro, com algumas modificações feitas por Oliver.

“Sim. O rastreador na roupa dele indica que está no andar superior. Tome cuidado, Sar—Canário, não sabemos se ele está no controle ou não.”

Usar os apelidos havia se tornado crucial, pois Feliicty sabia que seu pai podia entrar em seus sistemas a qualquer momento. Não fazia sentido, é claro, o silêncio dele. Felicity esperava que em breve ele atacaria com força total. Mas o que ele queria? Testá-la? Algo maior? Estaria por trás dessa droga? Ela queria muito acreditar que não.

− Cheguei. – A voz de Sara a tirou dos devaneios. Com o bastão em mãos, a Canário avançou para dentro, notando os homens caídos pelo caminho—mas felizmente vivos.

“O que você e Laurel estavam conversando no quarto? Esquerda.”

A curiosidade de Felicity a venceu enquanto ela monitorava as câmeras do local. Sara tomou a saída da esquerda.

− Ela só queria me mostrar uma coisa. Conseguiu falar com seus amigos? – Sara desconversou.

“Tem dois homens armados no próximo cômodo. Roy está nas escadarias abaixo. O leitor de calor detecta quatro pessoas naquela sala. E sim, falei com ela. Enviei a fórmula em anexo. Estou aguardando uma resposta. Que coisa?”

Persistente e curiosa. Seria difícil despistá-la. Mas, naquela situação, ela se sentiu como se tivessem retornado para sua primeira missão solo. Onde tudo havia começado. Sara olhou de esguelha para a sala e esperou um dos homens estar mais perto da porta. Usou seu bastão para prender o pescoço dele e sufocá-lo até que desacordasse. O gemido chamou a atenção de seu companheiro, mas quando o viu, era apenas um corpo caído e antes que percebesse Sara chegar, ela atingiu o bastão em sua clavícula. O creck! do osso se partindo causou arrepios em Felicity. Em seguida, Sara o desacordou também.

− Bobagem. Não era nada de mais. – Sara encolheu os ombros. Ela sabia que Felicity continuaria a lhe encher com perguntas, então inventou algo. – Era a ficha. Do AA. Ela não queria mostrar na sua frente. Está limpa. Sete meses.

“Oh. Sinto muito—quer dizer, não por ela ter parado de beber! Isso é ótimo, não é?” Riu nervosamente. “Sinto muito por fazer tantas perguntas. Por desconfiar de você.”

Sara se sentiu a pior namorada-noiva do mundo.

− Tudo bem. – Parou ao pé da escada, tentando ouvir algo. Não parecia que estavam lutando, mas conversando.

X

Havia sido difícil derrubar todos os homens ali, mas medidas desesperadas pedem ações desesperadas. E por isso Roy não recuou, agradecendo cada grama de força extra que a adrenalina lhe proporcionava agora. Mas o corpo começava a lhe cobrar, a dor de cabeça se tornando insuportável.

Ele havia chegado ao laboratório onde a droga era produzida. Impressoras 3D trabalhavam no processo de produzir as cápsulas enquanto outros elementos eram sintetizados.

− Se veio aqui para fechar o nosso laboratório, saiba que esse não é o único. – Um homem se manifestou. Era o único ali que não estava armado.

− Você é Scorpia? – Roy questionou.

Um sorriso repuxado que lembrava muito um certo palhaço cortou seus lábios.

− Todos somos Scorpia.— respondeu. – Matem ele.

− Espere! – Roy pediu. O homem arqueou as sobrancelhas, fazendo um sinal para que não atirassem. – Não quero... não quero minar o negócio de vocês.

Vergonha se espalhava por seu rosto naquele momento.

− Preciso de ajuda. Preciso saber quem é Scorpia. Preciso que ela me ajude.

Um brilho perigoso cintilou no olhar do homem.

− O que quer? – sibilou. Como uma cobra.

− Cura. – ele respondeu. – Cura para uma doença fatal.

X

“O que houve, Canário Negro? Por que está parada?”

Sara, que poderia muito bem ter usado o fator surpresa em seu favor naquele momento, permanecia parada e calada.

“Canário?”

Sem resposta. Felicity só sabia que ela estava bem pela respiração lenta e pausada que ouvia através do ponto.

Doente. Roy estava doente. Era para isso que ele queria a droga.

X

− Tem minha atenção, jovenzinho. – O homem que também tinha a aparência semelhante a uma cobra por conta de seu rosto longilíneo sibilou novamente.

− Ouvi falar de uma nova droga. Algo que pode curar até mesmo injúrias. Pensei que... pensei que se podem fazer algo assim, talvez pudessem curar o meu problema. – Roy desviou o olhar.

O homem que se identificara como Scorpia sorriu. Estava prestes a dizer algo quando seu telefone tocou. Ele o atendeu.

− Sim, sim, minha senhora. Sim, ele está aqui. Claro, claro. – Sua voz era mansa e submissa ao telefone. Ele o estendeu para Roy. – Para você.

− Quem é?

Scorpia.

Roy engoliu em seco.

− Alô?

Arsenal? Ouvi dizer que tem um problema.

Do outro lado, Sara observou Roy pegando o telefone.

O celular. Hackeie o celular.

Sua voz era mais alta que um sopro. Felicity começou a digitar rapidamente, compreendendo que Sara queria escutar o que quer que fosse. E ela também.

“Estamos dentro.”

− Preciso de ajuda. Preciso testar a sua droga nova. – Roy sabia que era perigoso. Sabia como ser a cobaia de um experimento novo poderia acabar mal. Mas não tinha tempo. Não havia tempo.

Vou ajudá-lo a ter o que tanto deseja. Mas para isso... livre-se da invasora que está escondida na escadarias.

“Saia daí, Sara!”

A voz de Felicity a despertou no momento em que Sara viu o assobio de uma flecha que se cravou no chão ao seu lado.

− Saia daí. – A voz rouca de Roy lhe causou um arrepio de aviso; Sara obedeceu e ele arregalou os olhos. – Canário? Você voltou?

Estava entre a cruz e a espada. A invasora era Sara?

− Abaixe esse arco, Arsenal. Volte comigo para o esconderijo e daremos um jeito no que quer que seja.

Ele engoliu em seco. Não podia atacá-la, mas se não fizesse isso...se não convencesse Scorpia de que estava ao seu lado...

Scorpia está esperando, meu jovem. – O homem sibilou por entre os dentes e por um momento, Roy imaginou se uma língua bifurcada não habitava sua boca.

Ele trincou os dentes. Se não atacasse, atirariam nela. Se não atacasse, perderia sua única chance de cura. Ainda que fosse remota. A sua última esperança.

− Sinto muito, Canário.

Ele levantou o arco. E atirou.

“SARA!”

O grito de Felicity ecoou no ar. Pois a flecha de Roy não foi o único disparo a ser ouvido.

Roy arregalou os olhos. Quando foi que havia vendido os amigos em troca da própria vida?

Mas antes que pudessem pensar em algo, as sirenes ecoaram ao fundo; a polícia havia chegado.

− Vamos. Vamos embora. – Ordenou o homem. – Tem que decidir agora, garoto. Ou vem com a gente ou volta para a sua corja.

Roy olhou na direção de Sara, para a bala enterrada em sua perna. Sua flecha havia passado longe, muito longe. Mas o homem já sabia disso. Por isso deu a ordem silenciosa para que seus capangas atirassem.

− Sinto muito. Diga a Observadora... diga a ela que sinto muito. Diga ao Arqueiro... a todos... – Ele correu, seguindo ao lado do cientista, amargurado e arrependido pelas escolhas que havia feito em sua vida. Pelo seu próprio caminho.

A vida era curta, a doutora tinha razão. E uma escolha podia mudar tudo. Para sempre.

Caitlin observou o e-mail de Felicity e a fórmula passada por ela. Suor escorreu pela sua nuca e ela empalideceu no momento em que viu aquela fórmula. Estava em seu apartamento e sentiu o sangue gelar. Não podia ser. Não podia. Mas era. Rapidamente, ela discou um número que sabia apenas de memória; não tinha no celular. Três toques depois, uma voz sonolenta atendeu.

Alô?

− Ray? Sou eu, a Caitlin. Ela voltou, Ray. Ava voltou. Eu estou indo para Starl—Star City. Precisamos conversar.

Notas finais
Mais um domingo, mais um capítulo! Essa saga está vindo com a corda toda! Quem será Ava e quais são seus planos? Há muito por trás dessa droga! Muito mais do que posso revelar aqui, hehe. Nesse capítulo, infelizmente, não tive espaço para abordar muito o pai de Felicity. Como ainda estamos na mesma noite do ocorrido, não quis vir com outro ataque por parte dele, mas voltei ao núcleo secundário. E então, o que acharam do reencontro das irmãs Lance? Gostaram? Odiaram? E essa Laurel boazinha cedendo a joia da família para a Sara? E Felicity escondendo a verdade sobre seu pai? Pois é, muita água ainda via rolar por baixo dessa ponte. E ainda tem esse mistério que traz para nós Caitlin Snow do núcleo Flash! O que ela e Ray tem com essa tal Ava? Só lendo pra descobrir! Até a próxima, pessoal! Comentem pra me dizer o que estão achando!