Wanna Play?
11 Nightmare
Notas iniciais
On the ground I lay
Motionless in pain
I can see my life flashing before my eyes
Dead I fall asleep
Is this all a dream
Wake me up, I'm living a nightmare
(No chão eu me deito
Imóvel em dor
Eu posso ver minha vida passando diante dos meus olhos
Morto eu adormeço
Isso é tudo um sonho
Me acorde, eu estou vivendo um pesadelo)
Time of Diying – Three Days Grace
X
Uma vez quando Felicity era pequena, ela sonhou em um dia ser uma grande cientista e fazer diferença no mundo. Ela se sentaria em uma daquelas cadeiras de couro macias, pensaria em algo impactante – como a cura do câncer – e todos reconheceriam seu trabalho. Ela acreditava que assim, algum dia, seu pai que havia fugido retornaria para casa e diria o quanto era orgulhoso dela.
Os anos se passaram, ela se formou na faculdade e se tornou ajudante de herói. Mas por mais que fizesse diferença no mundo, seu pai nunca saberia sobre seu trabalho. Nem ninguém.
X
Quando ela despertou naquela manhã, seu corpo estava renovado, mas ainda se sentia um lixo humano. Era como se parte da sua vida tivesse perdido o sentido e ela odiava se sentir assim por alguém. Seria diferente se tivesse simplesmente levado um pé na bunda de um cara qualquer. Ela se sentiria mal por uma semana inteira, comeria sorvete enquanto via filmes depressivos e passaria as noites ouvindo Lifehouse.
Mas ao invés disso, Sara a havia apagado de sua vida, como se nunca tivesse existido e aquela era a coisa mais dolorosa que poderia acontecer a alguém. Justo quando as coisas iam indo bem, quando havia encontrado alguém que a amava e que amava de forma igual, quando a cidade finalmente parecia em paz, tudo havia acontecido de vez. E o pior naquilo tudo é que Felicity não conseguia parar de se culpar pelo ocorrido. Afinal, ela havia sido raptada por Slade. Ela era a pessoa indefesa do grupo. Se não fosse por ela, Sara talvez não tivesse levado aquele golpe quase fatal que lhe tirou a memória. E isso era torturante demais para que pudesse suportar.
No entanto, Felicity sabia que sua vida não podia parar e mesmo que a cidade estivesse mais tranquila depois da morte de Slade, os criminosos não tiravam uma folga enquanto ela se afogava em barras de chocolate e brigadeiro de panela.
Então ela se forçou a ficar de pé, arrastando seus pés pelo chão até o banheiro. Tiraria a sua roupa de sonhar e sairia para o trabalho, tentando pensar em qualquer coisa que não fosse a sua vida desastrosa.
X
Roy estava preocupado. Era difícil não ficar ao ver Felicity digitando tão freneticamente assim, buscando por algo, qualquer coisa que a distraísse. Ele queria animá-la de alguma forma, mas dentre todas as pessoas ali, era o que mais compreendia o que Felicity estava passando naquele momento. Havia acabado de descer do bar depois de arrumar o estoque de bebidas. Naquela noite, teriam uma grande festa e Sin lhe ajudaria a organizar tudo. Agora que Thea estava afastada, era ela quem lhe ajudava a tocar o bar.
– Ei, Felicity, — ele se aproximou, as mãos no bolso do jeans surrado. – não há nada hoje. Nós fizemos a limpa nas ruas nessas últimas semanas e até mesmo os criminosos estão assustados depois do que houve com Slade. Pode não ter sido o Arqueiro que fez aquilo, mas eles entendem que sim. E a notícia se espalhou rapidamente pelos Glades.
Sin, é claro, havia se encarregado disso. Roy sabia que Oliver não gostava daquela faceta para a sua máscara, mas na verdade havia sido bastante eficiente e havia dado a todos eles o tempo merecido de descanso, sobretudo porque a mulher de John, Lyla, teria o bebê naquela semana e todos os dias eram dias de espera, de falsos alarmes.
– Nunca se sabe, Roy. – ela disse, sem desviar os olhos do monitor. Sua busca pelas câmeras permanecia focada em dois dos monitores, mas no outro ela pesquisava algo diferente.
– Ei, isso não é a deep web? – Roy se inclinou para frente, espiando por cima do ombro de Felicity. Ela se virou para olhá-lo e lhe deu um tapa de leve no braço quando ele tentou tocar no mouse.
– Essa é a minha área, bonitão. A sua é lá fora, batendo em bandidos.
– Mas bem que a sua podia ser lá com essa mão pesada. – ele fez uma careta, brincando com Felicity, mas acabou por abraça-la por cima dos ombros ao notar sua expressão. Não era muito difícil saber como ela estava devastada; ele próprio estava. Não só por Sara, mas por Thea também. – Eu sinto tanto, Felicity. – ele disse baixinho.
Ela não queria que ele sentisse, porque isso fazia com que todos os seus sentimentos viessem à tona de uma vez. Ela não sabia dizer quando Roy havia se tornado uma parte tão importante da sua vida, mas ele era o irmão mais novo que Felicity nunca havia tido e sempre que ia para as ruas com aquele uniforme vermelho, ela rezava para que voltasse bem—todos eles na verdade. E só de pensar nisso, seu coração doía. Porque Sara ainda estava lá, naquele hospital. E a ideia de que a culpa era sua não se afastava.
Um verdadeiro pesadelo.
– Eu só quero que ela fique bem. – ela queria que sua voz tivesse soado mais firme, mas na verdade sentiu que vacilava.
– Eu sei. – ele respondeu, apertando-a consigo. Era muito difícil para Roy vê-la assim, porque era uma das pessoas com quem mais se dava bem. Ele se agachou diante dela, apoiando os braços sobre suas pernas e franziu a testa. – Mas ela é a Sara, lembra? Ela não vai vacilar. Eu tenho certeza de que vai se recuperar. Vocês vão conseguir voltar a ficar juntas, eu tenho certeza.
Ele era um garoto tão doce. Felicity não sabia como não tinha visto isso antes, mas Roy Harper era um garoto muito doce, e com pouca sorte na vida. Ela se pegou por um momento distante de seus problemas com Sara, esquecendo-se do fato de que procurava qualquer coisa a respeito de seu pai, e deixou Oliver e Starling de lado um pouco. Ela pensou em Roy, indo todos os dias ao Hospital Psiquiatrico visitar Thea desde que ela havia ficado internada por conta daquele episódio. Roy, que sempre estava disposto a fazer horas de ronda a mais. Roy, que estava agora ali para ela sem tentar nada além de ser seu amigo.
– Thea também vai sair dessa, Roy. – ela disse baixinho, inclinando-se para dar um beijo na testa dele, deixando ali uma marca de batom. – Eu tenho certeza.
Ele concordou com a cabeça, abraçando ela mais uma vez.
Ao menos daquela vez, estaria ali por Roy. Não deixaria que ele aguentasse tudo sozinho naquele pesadelo vivido que estavam presenciando.
X
Oliver estava a caminho do escritório para tratar alguns assuntos com Palmer a respeito de alguns arquivos dos quais o novo proprietário queria tomar conhecimento quando ele recebeu o telefonema. Não tinha tempo agora para ver quem era e, sinceramente, não queria falar com ninguém. No entanto, a persistência rude da pessoa que ligava o fez ponderar na importância daquela ligação—e sempre podia ser Felicity, ele sabia que havia passado do limite com ela na noite anterior e desculpar-se parecia a melhor saída.
As coisas entre ela e Sara ainda eram muito recentes, avançar da forma que havia feito tinha servido apenas para acuar a hacker, e isso não era o que ele desejava. Mesmo que não pudesse ver quem ligava, ele atendeu.
“Oliver.”, a voz soou trêmula do outro lado da linha. Por um momento ele pensou que fosse Felicity, mas logo reconheceu aquele choro, aquela voz triste e abatida.
– Laurel? O que aconteceu? Onde você está? – ele não pôde evitar sentir uma intensa preocupação pela amiga. Aquela situação não vinha sendo fácil para ela e Oliver se perguntava como ela ainda não havia desabado de fato.
“No hospital. Eu...Ollie... ela sumiu. A Sara sumiu.”
Ele freou a moto no mesmo momento, ouvindo a buzina alta dos carros. Seus olhos perderam o foco por um momento, e ele ouviu o xingamento de um motorista que cortou pela lateral de sua moto. Não se importou.
– Fique aí, eu já estou a caminho. – ele desligou o telefone, refazendo seu caminho e tocando a discagem automática para Felicity. Seu coração pesava como uma pedra ao pensar em como ela reagiria àquela notícia, mas sabia que a hacker era a única que podia encontra-la.
X
Felicity havia passado por muitas fases em sua vida. Ela havia sido uma garotinha geniosa, uma garota rebelde durante a faculdade, com alguns pequenos desvios de condutas, e uma não tão importante funcionária da Queen’s Consolity, que agora trabalhava numa posição muito mais importante para Ray Palmer, seu novo e bonitão chefe. E era ajudante de herói.
Durante todas essas fases da sua vida, ela havia passado por muitos problemas, dentre eles a morte de sua avó e o desaparecimento completo de seu pai de sua vida, problema que ela estava mais do que disposta a resolver, embora até o momento, todas as pistas que tinha encontrado tivessem lhe levado até becos sem saída.
No entanto, ela sempre via o lado positivo das coisas, até mesmo quando terminava seus curtos namoros, ou quando as coisas não iam muito bem. Mas infelizmente, quando o assunto em pauta era Sara, ela simplesmente perdia todo seu chão.
E era assim que se sentia naquele momento: completamente sem chão.
Roy estava ali ao seu lado, inconsolável. Os olhos de Felicity ardiam pelas lágrimas que ela insistia em segurar naquele momento. Mas parecia que todo o mundo havia parado em um silêncio surdo, incômodo, desesperador.
Tudo o que Felicity queria naquele momento era gritar. Gritar até sua garganta doer. Gritar até seus pulmões arderem por falta de ar. Gritar, gritar e gritar. Mas ela sentia que mesmo que tentasse, nenhuma voz sairia. Apenas um triste ruído. Um gemido balbuciado em uma voz rouca.
– Repita de novo, Oliver. – ela se sentiu surpresa por sua voz ter soado tão calma, porque tinha a impressão que explodiria por dentro.
“Ela sumiu, Felicity. Laurel recebeu a notícia por telefone e foi imediatamente até lá. Ela não quis colocar a polícia nisso para não envolver o pai, e de qualquer forma não acho sensato. Ela esta sem memória, não sabemos do que é capaz.”
Ela não sabia como se sentir a respeito da afirmação de Oliver. Ela sabia que Sara era tão perigosa e letal quanto ele, mas não conseguia acreditar que ele podia cogitar a possibilidade de ela ferir um civil ou quem quer que fosse. Essa Sara havia ficado para trás e não era a perda de memoria que a transformaria em uma assassina.
– Felicity... – Roy respirou fundo e fez menção de tocar seu ombro, mas a hacker se desvencilhou. Ela não podia se dar ao luxo de parecer frágil naquele momento. Não quando não sabiam onde Sara estava ou como. Ela poderia estar assustada ou ferida. Ou os dois. Embora ela não acreditasse muito nisso.
– Tudo bem, eu vou trabalhar nisso. – ela disse, os dedos trabalhando rapidamente. – Procure ela pelas ruas, eu vou monitorar as câmeras. – e desligou.
Roy permaneceu com os olhos fixos nela. Se sentia devastado pela notícia, mas não imaginava como as coisas deveriam estar sendo difíceis para ela naquele momento.
– Eu vou ajudar. – ele limitou-se a dizer, caminhando até seu traje.
Felicity apenas acenou positivamente com a cabeça, não sabendo exatamente de que forma deveria reagir, mas tendo a certeza de que aquele pesadelo parecia muito distante do fim.
X
Quando Nyssa avistou o sinal de fumaça ao longe, ela não teve duvidas de quem mandava ele, embora fosse claramente um sinal da liga. Não havia nenhum membro presente na cidade, Nyssa os havia dispensado de volta para Nanda Parbat para que retornassem ao treinamento. Ela sabia que em breve também teria que voltar, porque não podia fugir de suas responsabilidades, mas ainda não sabia como faria isso, porque abandonar Sara estava fora de cogitação, mas também não sabia se queria arrastá-la de volta para aquela vida que a deixava infeliz pelas escolhas que às vezes precisavam tomar.
Ela havia deixado Sara em um dos bunkers da Liga, porque não a queria ali. Não com ele.
– Achei que estivesse morto. Seria melhor para você se tivesse permanecido na moita, Al Sa-Her. – a lâmina de sua adaga sai estava sobre o pescoço de Malcolm antes que ele tivesse a chance de reagir, ainda que estivesse oculto nas sombras. O brilho azulado de seus olhos emitia uma sensação divertida, mas Nyssa o odiava.
No passado, havia admirado ele, com toda sua perspicácia e sua lábia. Havia dado a ele o título de Mago justamente pela sua incrível habilidade de distorcer a realidade ao seu redor, para que tudo seguisse seu curso, de acordo com seus planos.
– Isso não é jeito de receber um velho amigo, Nyssa. Principalmente se ele traz informações para você. – ele tinha as mãos para cima em sinal de rendição. Nyssa não estava muito disposta a afastar a arma de seu pescoço, deixando um filete de sangue escorrer por ele enquanto pressionava a pele, sentindo que abaixo dela se encontrava a jugular. Bastava pressionar um pouco mais...
– Eu ainda estou te ouvindo.
Ela não queria dar muita trela ao azar, porque sabia do que Malcolm Merlin era capaz. No entanto, havia ido até ali por um motivo – em sua mente para acabar com ele –, mas não custaria nada ouvir as palavras de um homem morto.
– Er Notur está na cidade. – ele disse em um tom pausado, sem respirar mais que o necessário. – Estou certo de que você sabe o motivo disso.
– Sara. – ela estreitou os olhos por um breve momento.
– Bem, pode ser que sim. – ele sorriu. – Eles já sabem a respeito da amnésia dela, Nyssa. Não se iluda em pensar que seu pai não tem espiões te observando. Se eu fosse você, ficaria esperto.
– O que ganha me dizendo isso, Al Sa-Her? – ela questionou.
Se havia algo que Nyssa tinha aprendido com o passar dos anos e com toda a sua experiência é que nada era de graça, sobretudo se tratando de Malcolm Merlin.
Ele apenas sorriu, solicito. Era assim que as coisas funcionavam e ele ficava feliz de saber que Nyssa o conhecia o suficiente para saber que ele sempre queria alguma coisa.
– Bem, você sabe como as coisas são, não é? Estou morto e quero continuar assim, nas sombras. Se seu pai descobrir a meu respeito, não terei mais paz. E não pretendo ficar em Starling por muito tempo. Preciso de distração para Oliver e para os demais. Não causarei nada. Não farei alarde. Preciso apenas que os distraia.
Ela trincou os dentes e franziu o cenho. Não queria ter que se envolver com Oliver ou nenhum dos outros. Queria apenas deixar a cidade com Sara e depois decidiria o que iria fazer.
– Ou eu posso te matar aqui e agora. – parecia muito mais tentador.
– Vamos, Nyssa, eu e você sabemos que as coisas não são bem assim.
Ela teve um lapso. Foi apenas um segundo quando ia dizer a ele que estava rendido. Ela não soube o que aconteceu, mas estava de joelhos com a espada de Merlin apontada para sua nuca.
– Eu te ensinei alguns truques, sabe? Não se esqueça disso. – o sorriso torto dele a enojava. Nyssa queria acreditar que todos os seus anos de treinamento haviam servido para algo, mas agora se sentia completamente inútil. Como um pássaro aprisionado em uma gaiola. – E antes que diga que eu posso te matar, bem, eu poderia. Sou um fantasma afinal. Mas eu não ganho nada com isso, e nem Sara, não é?
Ela abaixou o rosto por um momento, sentindo a raiva borbulhar em seu peito. Quando pensou em reagir, ele já havia desaparecido em uma nuvem de fumaça.
X
Sara estava sentada sobre uma das latas do bunker onde Nyssa a havia deixado pouco antes de partir. Ela não entendia por que não podia acompanha-la ou a razão de Nyssa agir tão estranhamente ao ver aquele sinal de fumaça, mas de alguma forma, a boa sensação que a outra mulher lhe passava, fazia com que a loira confiasse nela totalmente. Ela tinha quase certeza de que poderia entregar a própria vida nas mãos dela sem sequer pestanejar com isso e não só porque achava que ela a protegeria a todo custo, mas a protegeria também.
Ela sabia que algum tempo já havia se passado, e esperava que Nyssa não demorasse demais, porque ali não havia muito o que fazer.
O bunker em si era um espaço pequeno e havia sido construído de tal forma que poucas pessoas seriam capazes de encontra-lo. Nyssa havia lhe contado que na organização da qual ela fazia parte e que a própria Sara costumava fazer, eles eram comuns em cidades para o caso de precisarem de reforço militar ou um lugar para passarem a noite sem chamar atenção.
Ela imaginava que abaixo daquela estrutura havia muito mais escondido, mas de qualquer forma não se sentia muito exploradora naquele dia. As armas que estavam a vista, em sua grande maioria, eram espadas e adagas, mas também via algumas armas de fogo em exposição. Qualquer um que tivesse acesso pleno aquele local, poderia montar um pequeno exército que certamente daria dor de cabeça para qualquer força tarefa policial.
Sozinha, ali, teve tempo para organizar suas próprias ideias e se pegou pensando na irmã que até então desconhecia, falando com ela com tanta naturalidade e coerência. Ela havia gostado de Laurel, mas não compreendia por que ela havia mentido a respeito de Nyssa – se é que havia mentido.
Não dava para saber o que de fato era real ou não, e o que mais incomodava Sara era o fato que nenhum fragmento de sua memória parecia se restaurar. Com um suspiro ruidoso e baixo, ela afundou a cabeça entre os braços, o olhar perdido no chão de concreto. Tudo o que queria era reavivar suas memórias, compreender o que estava acontecendo. Mas uma parte dela, bem interna, lhe dizia que talvez ela não quisesse. Que talvez fosse melhor esquecer.
E ainda tinha aquela garota, Felicity, que lhe trazia aquela estranha sensação. Ela não havia aparecido depois daquele episódio, mas Sara também não sabia se voltaria a vê-la, já que o plano de Nyssa era para que deixassem a cidade o mais rápido possível, embora ela própria não fizesse ideia de para onde iam.
Aquilo a incomodava um pouco, deixar sua irmã para trás e talvez outras pessoas que fizessem parte de sua família. Mas se Nyssa pensava ser o melhor, Sara não conseguia discordar. Aquela mulher realmente trazia para Sara uma confiança que ela não havia sentido com mais ninguém.
Não soube quanto tempo se passou, mas acabou por se sentar no chão e escorar-se na parede. E quando dormiu, ela sonhou.
X
(Sonhou que era uma adolescente daquela vez. Ela sabia porque sua boca tinha sabor de cereja, e era um gloss da Mary Kay que ela passava diante do espelho. Ao seu lado, sua irmã mais velha falava algo a respeito de ela ter que ir para a universidade, que não poderia ficar naquela vida para sempre, mas Sara não se importava. Tudo o que ela queria estava bem ali: festa e diversão.
De repente, a cena mudou para um quarto. Seus braços estavam entrelaçados sobre o pescoço de um rapaz muito bonito. Ela gargalhava roucamente e todo o mundo girava ao seu redor quando ele lhe deitou na cama, beijando seu pescoço.
– Vamos eu e você pelo mundo. Podemos viajar, deixar isso tudo pra trás. Nos divertir, Sara. – ele fazia uma trilha de beijos por seu pescoço, as mãos correndo livremente por seu corpo, extasiando-a com tanto prazer.
– E quanto à Laurel, Ollie? – a pergunta que fazia não tinha um pingo de culpa. O sorriso que pintava seus lábios não carregava nenhum sentimento ruim. Mas também pudera, estava bêbada e drogada.
– Ela não precisa saber disso, Sara. É o nosso segredinho. – ele piscou para a garota e tomou seus lábios em um beijo intenso)
X
Felicity havia se esquecido de todo o resto enquanto mapeava a cidade em busca de Sara. Ela havia rodado as câmeras desde a noite anterior, pois conhecia Sara o suficiente para saber que ela não tentaria fugir durante o dia, mesmo que Oliver insistisse no fato de ser uma Sara desnorteada e confusa. Felicity havia conversado com ela na noite anterior, havia enxergado lucidez em seus olhos e sabia que a garota não estava lelé da cuca como todos pensavam. Era apenas uma perda de memória a respeito de suas lembranças, mas ela não estava louca ou demente.
E era isso o que machucava Felicity.
O fato de que ela se lembrava das coisas ao redor, exceto todas as pessoas importantes em sua vida.
Ela já havia descartado o fato de Sara aparecer pela porta da frente do hospital, e pelas câmeras internas dos corredores ou do elevador não havia detectado nada, o que significava que ela havia saído pela janela de seu quarto, mesmo que esta se encontrasse no quarto andar – o que a fazia pensar, obviamente, que ela não havia perdido suas habilidades como escaladora de prédios e saltadora de janelas. O que era uma benção, ou teriam patê de Sara naquele momento.
Lhe custou quase a manhã toda, mas finalmente uma das câmeras da cidade havia apontado Sara na noite anterior. Ela havia entrado em um fast food, acompanhada. A principio, Felicity não reconheceu a pessoa que estava de costas, mesmo com os cabelos negros ondulados e perfeitos e a altura proporcional com um lindo corpo malhado. Quando a viu de perfil, seu sangue gelou imediatamente e Felicity redobrou seus cuidados nas buscas.
Era Nyssa.
A cria do demônio.
Com sua Sara.
Sua.
– Aquela desgraçada... – ela trincou os dentes, e agora estava ainda mais empenhada na busca. E ela não desistiria. Não até encontra-la.
X
O que Nyssa mais queria naquele momento era encontrar-se com Sara, mas as informações de Malcolm Merlin a haviam deixado em um estado de completo alerta. Agora, todos os poros de seu corpo buscavam freneticamente por um perseguidor que ela sequer sabia se existia ou não, mas quando o assunto era Er Notur, ela sequer cogitava a possibilidade de brincar.
Será que seu pai levava tão pouca fé assim em seu trabalho?
Ela negou com a cabeça, ciente da localização de Oliver. Iria até ele, seria uma distração. E no momento certo, voltaria para seu Canário.
X
Não havia o que ser feito no hospital além de encontrar Laurel e acalma-la, mas Oliver optou por leva-la até um café onde poderiam conversar com mais calma. Em muitas situações, a havia visto fora de controle e imaginava que quando Sara e ele haviam supostamente morrido, era exatamente assim que ela havia ficado: vazia.
Seus olhos claros como espelhos d’água, não demonstravam nenhuma emoção. Fora a voz trêmula durante ligação, não havia mais nada. Apenas uma indiferença que ele considerava perigosa demais para ela no momento. Não queria imaginar que aquilo pudesse leva-la para uma recaída, não quando ia indo tão bem em sua recuperação com o alcoolismo ao lado de seu pai. Mas ele sabia que uma situação como aquela poderia ser demais para qualquer um. Ele próprio sentia o peso, Sara era como uma irmã para ele.
– Felicity já está trabalhando nisso, Laurel, tenho certeza de que logo a encontraremos. – ele disse, notando o silêncio prevalente da amiga. Estava quase no fim de seu expresso, mas o café de Laurel permanecia intocado.
– Hum. – sua resposta foi seca, os olhos perdidos e vagos em lugar nenhum.
– Laurel... – ele estendeu uma das mãos, tocando a dela, mas ela recuou como se tivesse levado um choque.
– Não, Ollie. – os olhos se tornaram frios e duros. Havia tristeza ali, ele sabia. Uma tristeza quase palpável, como se estivesse revivendo tudo aquilo novamente, e ele tinha quase certeza de que era exatamente isso que passava pela mente de Laurel naquele momento. – Não é a primeira vez, parece que não será a ultima. Se sempre que ela desaparecer eu tiver que considera-la morta, Ollie, então eu...
Ela parou de falar antes de concluir a sentença, mas para ele era claro.
“Então eu prefiro que ela continue assim.”
Aquele era um pensamento egoísta, mas Oliver sabia que todo ser humano era levado por eles. Até mesmo os mais altruístas.
– Você sabe que não foi culpa dela. Não tem memória, Laurel, qualquer coisa pode ter acontecido. Mas ela ainda é a Sara, a nossa Sara. – ele se forçou a pegar a mão dela novamente e desta vez, Laurel não o repudiou.
– Eu não sei, Ollie, não a reconheço mais. Não reconheço nenhum de vocês, pra ser sincera. Parece que.. – ela fez uma pausa dramática antes de prosseguir. — ...parece que morreram naquela viagem, naquele barco. Parece que voltaram apenas as cascas, com uma personalidade completamente distinta. Não é que eu repudie o que se tornaram, mas sinto falta... sinto falta da minha irmã problemática. Sinto falta de você, Ollie.
Havia algo crescendo nos olhos dela, algo que Oliver sabia identificar muito bem. Um desespero genuíno, quase palpável. Uma dor tão grande que somente aqueles que haviam ficado para trás compreenderiam. Oliver se lembrava de ter visto a mesma dor nos olhos de seu amigo, Tommy, muito antes dele descobrir a verdade a respeito de sua identidade. Tommy sempre seria um fantasma que o assombraria, Oliver jamais se perdoaria pelo fato de tê-lo perdido naquele dia.
– Passamos por muita coisa, Laurel. – ele ponderou antes de dizer isso. Seus olhos se fixaram nos dela porém, querendo lhe transmitir alguma confiança e conforto. – Não é fácil relembrar o que aconteceu, tampouco compartilhar isso. As vezes... as vezes é melhor compartimentar tudo, sabe? Viver a vida como se nada daquilo tivesse acontecido. Mas não dá pra fingir totalmente. Não dá pra deixar de lembrar.. tudo.
Laurel não entendia, mas ela sabia que teria que aceitar aquela realidade. E de qualquer forma, sabia também que se preocupava com Sara e queria sua irmã de volta.
– Prometa que vai trazê-la, Ollie. Prometa que vai trazer ela de volta para mim.
Eram aqueles olhos novamente, tão suplicantes como ele costumava se lembrar.
– Eu prometo.
Como ele poderia negar?
X
Foi um pouco difícil, até mesmo para ela, encontrar Sara. Mas quando Felicity se empenhava em algo, ela só podia alcançar o sucesso porque não desistia até de fato conseguir.
A localização da ultima gravação era a mais recente, as câmeras indicando um local mais afastado que levava a uma área onde antes havia sido uma instalação para testes militares e que agora encontrava-se completamente abandonada.
Por ali, não existiam câmeras, e ela não tinha cem por cento de certeza, mas tudo lhe fazia crer que aquele era o local certo, até porque as gravações que havia pesquisado de Nyssa, haviam indicado que a morena retornava justamente daquela direção—e que não estava com Sara naquele momento, o que era mais importante.
Mas naquela direção não havia nada além daquele lugar abandonado, o que a fazia crer que era o único ponto onde poderiam chegar. Ela estacionou seu carro, colocando-o em um beco onde achou que estaria protegido e seguiu em frente onde encontrou o portão arrombado.
– Espero que pelas garotas e não por marginais. – ela disse para si mesma, as mãos dentro do sobretudo que usava. Estava um pouco frio naquele dia, embora nada se comparasse aos dias chuvosos pelos quais já haviam passado, quiçá pelos dias de neve. Felicity sempre ficava agradecida quando via um indicio de que o sol apareceria no céu.
Seguindo pelo caminho, ela encontrou a trilha contraria dos passos de Nyssa, o que a fez se perguntar se ela era mesmo uma assassina, porque qualquer amador poderia chegar até elas assim. Mas então pensou que talvez ela simplesmente confiasse demais naquele esconderijo ou fosse uma armadilha, porque em dado momento as pegadas simplesmente desapareciam, dando em um beco sem saída.
Felicity sabia que estaria totalmente perdida, motivo pelo qual ela havia tomado a liberdade de ‘pegar emprestado’ os óculos de visão de calor que havia pego de um projeto de Ray Palmer para criar um dispositivo semelhante para Oliver, ou ao menos tentar. Mas isso era algo que exigiria a ajuda de um amigo ou dois com os quais ela não tinha tido tempo de entrar em contato ainda.
– Vamos lá... se for do jeito que Ray me disse, é só eu apertar esse botão e...Wow! – era impressionante como o mundo podia ter tantos tons de vermelho como naquele momento. Felicity era capaz de captar qualquer coisa que respirasse e emitisse calor, ainda que ele fosse mínimo. Ela testou a distância e a capacidade em algumas aves que tinham ninho e sobrevoavam o local até se sentir segura o suficiente para caminhar ao redor.
– Okay.... então, Sara, eu sei que você está aqui, provavelmente não me ouvindo, mas aqui vou eu. É, foco, Felicity, você consegue. Talvez fosse melhor ter pedido ajuda do Roy, claro, ou do Oliver. Esse, definitivamente, não é o lugar para você estar.
Parecia ridículo falar dessa forma, ela sabia que não agiria de outro jeito porque a pessoa em questão era Sara, mesmo sabendo do perigo que corria caso Nyssa retornasse. Mas o amor nos torna burros, ela tinha certeza que em alguma época e em algum lugar, algum filósofo havia dito isso.
Finalmente ela havia detectado. Uma onda de calor maior do que as outras. Ela sabia que jamais teria encontrado aquele lugar se não fosse pelo invento de Ray.
– Senhor Palmer, o senhor merece um beijo. – ela sorriu, imaginando que ele concordaria com isso e balançou negativamente com a cabeça. Não sabia o que esperar, mas encaminhou-se para o lugar onde Sara estava, sentindo que seu coração se tornava menor a cada passo que dava.
X
Ela observou calmamente enquanto ele tomava café com Laurel. Observou quando ele caminhou com ela até o carro e quando se despediu dela. E quando seus olhares se encontraram; ela não havia feito questão nenhuma de se esconder. Quando Oliver caminhou na sua direção, Nyssa apenas permaneceu onde estava até que ele chegasse.
– Achei que já tivesse deixado a cidade, mas eu devia imaginar que tinha algo com o sumiço de Sara, não é?
Nyssa apenas encolheu os ombros, mas não negou.
– Ela fez a própria escolha. Eu não posso impedi-la de seguir o próprio caminho, Oliver, nem mesmo você. – seu sorriso era pretencioso.
– O que você disse a ela, Nyssa? – seus olhos se estreitaram. Ele sentia a raiva fervilhando em seu interior. Há poucos dias, lutavam do mesmo lado. Agora estavam de lados opostos novamente.
– Eu não precisei dizer nada, Oliver, para que ela decidisse que se sente melhor ao meu lado. – ela cruzou os braços. – Mas achei que devia dizer a vocês para não ficarem procurando a esmo.
– E de repente se tornou altruísta? – ele não conseguia acreditar naquilo, que Nyssa havia retornado apenas para lhe avisar.
– Bem, pense como quiser. Eu vim apenas para avisa-lo e deixaremos a cidade hoje. – ela deu as costas para ele.
– E acha que simplesmente vou aceitar isso assim? – seus olhos queimavam. A promessa feita para Laurel tão recente. Ele não simplesmente deixaria ela se safar assim.
– Nós dois sabemos, Oliver, que é assim que as coisas terminam.
Ele ia responder quando seu telefone tocou.
– Fique aí. – ele apontou um dedo na direção de Nyssa. Por incrível que parecesse, ela estava solicita naquele momento.
– Oliver...é a Thea.
Ele imediatamente reconheceu a voz de Roy, mas seu coração já havia parado de bater com o inicio daquela frase.
– O que tem ela?
Só podia ter piorado. Seu estado deveria estar critico. Ele deveria ter sido um irmão mais presente.
– Me contataram da clinica psiquiátrica. O quarto dela foi invadido. Ela desapareceu.
Oliver ficou em silêncio, encarando Nyssa. Nem todas as palavras do mundo seriam suficientes para expressar o que sentia naquele momento.
– Oliver? Oliver? Eu já estou a caminho, só achei que gostaria de saber.
– Ache-a. – ele desligou antes de esperar uma resposta. Porque conseguiria as suas por bem ou por mal.
– E então? – Nyssa, que estava com os braços cruzados, não esperava o segundo ataque surpresa naquele dia. Ainda que estivessem em um lugar ligeiramente movimentado ele não se conteve, imprensando-a contra a parede, suspendendo seus pés do chão.
– Onde ela está, Nyssa?! – os olhos injetados de fúria a encaravam. A lâmina de uma faca oculta abaixo do pulso se projetava contra seu pescoço.
– Eu já disse... ela escolheu o próprio caminho. – seus olhos faiscavam de ódio. Ela o atingiu entre as pernas, inutilizando-o momentaneamente, mas foi o suficiente para fazê-lo lhe largar. Não fosse a explosão de adrenalina que o envolvia, essa dor teria sido muito mais intensa.
– Thea... a minha irmã! – novamente Oliver partiu para cima dela, mas desta vez Nyssa estava preparada e ergueu o antebraço para proteger-se do golpe. Girou o corpo no ar e atingiu um chute nas costelas de Oliver, fazendo-o recuar.
– Não sei do que está falando, Oliver, não tenho interesse algum na sua irmã.
De repente as palavras de Malcolm fizeram sentido. O ser uma distração.
– Então quem?! – ele explodiu de raiva, mas desta vez não fez nada, sobretudo porque as pessoas olhavam ao redor.
– Al Sa-Her... – as palavras saíram antes que pudesse contê-las e Oliver a olhou com um misto de surpresa e indignação.
– Você vai vir comigo, Nyssa. Vai me dizer o que sabe. Ou, juro por Deus e por tudo o que é mais sagrado nessa terra, não importa quem seja o seu pai, eu vou te matar.
Ela não duvidou dessas palavras e, embora não temesse a ameaça dele, sentia que deveria ter um olho em Malcolm Merlin, saber o que ele planejava.
– Preciso ir ate Sara primeiro.
– Minha irmã primeiro.
– Isso não é uma negociação.
– Tudo bem. Vamos até Sara. E você me conta no caminho. Minha moto está ali. – ele apontou a direção e seguiu para la, jogando as chaves para Nyssa. Não tinha nem mesmo um segundo a perder. Não quando o que estava em jogo era sua irmã.
X
Quando Sara ouviu os passos que se aproximavam, ela presumiu ser Nyssa e imediatamente dirigiu-se para a entrada. Não era algo que ela teria feito se tivesse sua memória, no entanto sua situação era completamente outra e aquele sonho a havia incomodado o suficiente para que não quisesse ficar parada.
Assim que a entrada do bunker se abriu, entretanto, ela sentiu como se todo seu sangue tivesse se tornado um líquido viscoso e gélido, parando até mesmo as batidas de seu coração e emudeceu.
Não era Nyssa.
Definitivamente não.
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