Wanna Play?
10 My Side of the Story
Notas iniciais
Cold wind blows, I am shivering
My body aches as my heart is breaking
Why is life making me hollow?
Why is happiness casting me in the shadows?
In the shadows
(O vento frio sopra, estou tremendo
Meu corpo dói como se meu coração estivesse partido
Por que a vida me deixa oco?
Por que a felicidade está me lançando nas sombras?
Nas sombras)
My Side of the Story — Jt Hodges
X
Eles estavam no topo da torre relógio da cidade naquele dia, o lugar que Sin costumava dividir com Sara e onde mais ia para pensar. Depois de sua ronda noturna, Roy apareceu por lá para ver como ela estava, visto que não conseguia encontra-la em lugar nenhum dos Glades.
– É perigoso pra você ficar rondando por aí sozinha, Sin. – o garoto se sentou ao seu lado, deixando o capuz vermelho de seu casaco favorito cair por cima dos ombros. A mochila que ainda continha a roupa do Arsenal residia ao seu lado, mas ele não se importava nem que Sin a abrisse. Ela já sabia de tudo, talvez há muito mais tempo que todos os outros, porque sempre soubera do seu desejo por tornar-se um herói como o Arqueiro. Desde que era muito novo.
– Eu sei me defender. – ela acariciou o taco de baseball ao seu lado, um sorriso quase permeando seus lábios. Quase. O taco era de madeira, mais pesado que os de alumínio, e Roy tinha certeza de que sim, ela saberia se defender muito bem caso precisasse.
– Mesmo assim, não custa nada a gente prevenir, Sin. – ele disse num muxoxo baixinho, curvando um pouco o corpo para frente. Ele não se sentia à vontade para perguntar de Sara, não depois de todo o incidente, a perda de memória. Ele ainda se lembrava da expressão de choque que captara na amiga, como se todo o mundo tivesse ruído aos seus pés. Roy nunca havia tido ninguém que olhasse por ele. Não antes de entrar para o Team Arrow. E sim, ele também se preocupava com Sara, mas sabia que não podia lidar com os próprios sentimentos agora, tanto que os estava trancafiando em uma caixa, ao lado de tudo o que sentia por Thea naquele momento.
– Pare de se preocupar. Eu é quem devia me preocupar. Você que é o herói aqui, Arsenal. – ela lhe deu um soquinho no braço. Devia ser leve, mas Roy já havia se esquecido como aquela garota tinha a mão pesada. Massageou de leve o local atingido, permitindo-se um sorriso enquanto observava as ruas mortas lá embaixo. Quase ninguém se atrevia a sair naquele horário, principalmente nos dias atuais, depois da execução quase pública de Slade realizada por Nyssa.
– Eu ainda sou o mesmo Roy, sabia? – ele fez uma careta, permitindo-se olhar para ela por um minuto apenas. Seus olhos pareciam cansados e inchados. Ele sabia que ela devia estar chorando durante muito tempo antes de ele chegar. E pensar em tocar naquele assunto era doloroso, pois quando Thea havia sido internada, ele havia passado por algo semelhante e seu coração ainda doía com o pensamento.
– Eu não diria que você é o mesmo Roy. – seus olhos, escuros como poços de meia-noite, encontraram-se com os dele. Sin podia estar na pior situação do mundo, mas o lápis preto ainda os delineava, junto com o rímel. Ainda que do seu jeito gótico, Roy não podia deixar de reparar que de algum jeito, sua amiga era sim bonita. E quem não enxergava isso era um tremendo babaca. E ela sempre seria a coisa mais próxima que ele tinha de uma família nos Glades.
– Como não? Eu não mudei, Sin. – ele rebateu.
– Mudou sim, seu cabeça oca. – ela lhe deu um cascudo. – Mas isso não quer dizer que seja algo ruim, sabe? – ela cruzou os braços, perdendo seu olhar novamente no céu escuro. A lua era um sorriso fino, como o de um gato Cheshire, o frio chegava a ser um pouco incômodo, mas ela já estava acostumada a passar por coisas piores. – Você se tornou mais centrado... mais... sério. Mas também se tornou alguém que pensa muito mais pelos outros. O velho Roy está aí. – ela apontou para seu peito. – Mas eu gosto do que você se tornou.
As palavras dela o deixaram emudecido por um momento. Ele não esperava escutar isso de alguém, quanto mais dela. Que havia mudado. Que era... uma pessoa melhor. E sentiu os olhos arderem, mas se recusou a chorar, voltando-se para frente.
– Hah, você também se tornou alguém melhor. Quem diria que aquela guria birrenta e que arrumava briga com todos os valentões dos Glades se tornaria essa garota capaz de lidar com situações tão difíceis? Eu gosto de você, Sin. Gosto de nós.
Ela concordou com a cabeça, apoiando-a sobre o ombro de Roy e entrelaçando os dedos aos dele.
– Roy?
– Hm?
– Você pode ficar aqui essa noite? Eu não quero ficar sozinha. – sua voz saiu embargada. Sin não queria demonstrar fraqueza, mas se não pudesse ser assim com Roy, com quem mais ela seria? Ele era seu alicerce, a sua força naquele momento.
– Eu não poderia querer estar em outro lugar, sua boboca. – ele passou um dos braços por cima de seu ombro, beijando-a no topo da testa. Era de momentos assim que sentia falta de estar ao seu lado. E nada poderia ser melhor do que estar com sua amiga e fazendo-a esquecer-se de seus problemas junto com os próprios.
X
Felicity passou a noite toda presa em seus próprios pensamentos, incapaz de entregar-se ao sono, ainda que seu corpo pedisse por descanso. Quando chegou no apartamento após a visita à Sara, sua mãe começou a ralhar com ela por ter saído sem avisar quando devia ter ficado descansando. No entanto, ao ver na expressão da filha aquela tristeza tão intensa estampada, ela não foi capaz de dizer mais nada, deixando-a sozinha com seus próprios pensamentos.
A Sra. Smoak não fazia ideia do que estava acontecendo, mas ela sabia detectar quando as coisas estavam realmente mal.
Felicity não soube dizer em que momento havia pego no sono, mas despertou com o som que vinha da cozinha, descobrindo que não estava sozinha ali e que sua mãe ainda estava no apartamento. Quando olhou para o relógio digital ao lado da cama, constatou que era quase meio-dia e aquilo a fez dar um salto da cama que alarmou sua mãe.
– Felicity? – a voz dela soou pelo corredor junto com os passos ritmados pelo salto alto que ela insistia em usar mesmo que estivessem dentro de casa.
Antes que Felicity pudesse se dirigir para o chuveiro, as mãos espalmadas de sua mãe repousaram em seus ombros, fazendo-a se sentar na cama; o que não havia sido muito difícil, já que estava sentindo como se um caminhão tivesse passado por cima de seu corpo e dado ré.
– Mãeee, eu preciso trabalhar! – sua voz soou pior do que ela imaginava. Na verdade, trabalho era a última coisa na qual queria pensar. Seus pensamentos estavam total e completamente voltados para Sara, e agora ela havia se dado conta que tinha sonhado com ela e com o fato de não lembrar-se de si.
– Francamente, Felicity Smoak! – ela disse num tom de voz mais sério. – Eu deixei que ontem você escapasse de minha supervisão, mas hoje não. Seu chefe ligou mais cedo e eu disse a ele que você estava doente. Eu não vou deixar que você fique por aí piorando até que isso se transforme numa pneumonia, entendeu bem?!
Era raro, mas sempre que sua mãe usava aquele tom de voz autoritário, Felicity não conseguia fazer outra coisa que não fosse obedecê-la. Então, cinco minutos depois que a discussão havia começado, ela estava deitada na cama, enrolada em seus edredons, tomando uma sopa de legumes que ela havia preparado para que pudesse melhorar.
– Eu sei que as coisas não são tão simples quanto parecem, Fel. – sua mãe suspirou, apoiada na cabeceira da cama, sentada ao seu lado, garantindo que tomaria toda a sopa. – Mas você precisa saber quando parar, te disse isso ontem. Você não pode continuar por esse caminho.
Felicity abaixou a colher por um momento, passeando com ela pela sopa. Ela queria dizer para sua mãe que recuaria, mas isso não era verdade. Esse não era o tipo de pessoa que ela era.
– Sinto muito, mamãe. – foi tudo o que ela conseguiu dizer. – Sinto muito por te preocupar, por ter te tirado do seu trabalho. Sinto muito por toda essa situação.
A mão da Sra. Smoak percorreu o rosto de Felicity por um momento, virando-a para si e segurando-o, pressionando de leve suas bochechas contra as palmas.
– Ah, Fel, por que você sempre age dessa maneira, se auto-destruindo? – ela negou com a cabeça, mas já sorria naquele momento. – Tudo bem, essa sempre foi você, forte e destemida. Mas para estar tão abalada assim... quem é essa Sara, Fel? Ela é toda a causa de sua tristeza?
Ela torceu levemente o edredom em suas mãos, agora a colher repousava sobre a sopa, e parecia muito mais interessante olhar para ela do que para sua mãe, que ainda segurava seu rosto. Felicity nunca havia conversado com sua mãe sobre Sara, nada além do fato de que havia uma pessoa especial em sua vida. E isso era tudo.
Mas sua mãe podia ser lerda para muitos assuntos, no entanto esse não era um deles.
– Ah, Felicity... – o tom da voz dela fez com que Felicity se sobressaltasse. Nunca, e todos os seus anos de vida, havia debatido com a mãe a possibilidade de ficar com outras garotas.
– Mãe, eu.... eu realmente gosto dela. – foi tudo o que conseguiu dizer. Sentia as lágrimas encherem seus olhos, mas se recusaria a chorar.
Aquele lampejo de compreensão passou pelos olhos dela. Claro que jamais imaginou Felicity daquela forma. Ela havia tido sua fase rebelde na faculdade, isso havia ficado para trás. Mas não uma experiência homossexual.
– Você não precisa falar dessa forma, como se precisasse se desculpar por algo. Se você gosta dela, então tudo bem. – ela a abraçou. – Eu só quero que você seja feliz. Ela te faz feliz, meu anjo?
Felicity apoiou o queixo sobre o ombro da mãe, suspirando de alívio e se deixando ser envolvida por aquele abraço.
– Eu amo ela... – sussurrou baixinho. A mãe apenas sorriu.
– Então isso é tudo o que importa.
X
(Naquela noite, Sara não sonhou com o barco ou com as coisas que lhe faziam acordar gritando normalmente. Ao invés disso, ela havia sonhado com alguém cujo qual não conseguia lembrar-se do rosto, embora soubesse que suas feições eram suaves e que sua presença lhe trazia uma alegria incalculável.
No sonho, estavam andando de mãos dadas em um parque, conversando sobre qualquer coisa sem importância alguma enquanto comiam cachorros quentes. Era engraçado, porque mesmo sendo um sonho, ela sentia o gosto ácido da mostarda em sua boca.
Finalmente, sentavam-se em um banco do parque, observando as crianças que brincavam.
“Um dia quero ter crianças também”, ela dizia, aquele sorriso tão bonito em seus lábios.
“Eu também”, Sara quis dizer, mas despertou antes disso)
Quando seus olhos se abriram, a claridade imediata a incomodou. Ela continuava não gostando daquelas paredes brancas que lhe cercavam onde quer que estivesse e tudo ali era muito confuso para ela, além da comida ser péssima, embora ela tivesse certeza de que já havia comido coisa pior.
Não havia ninguém no quarto, e ela suspirou baixinho fazendo um muxoxo. De verdade, queria sair dali e não sabia quando isso seria possível.
Pegou-se pensando na noite anterior, em todas as visitas que havia recebido e em como se sentira incomodada com a presença daquela mulher de cabelos loiros. Havia algo nela que lhe causava uma sensação de intensidade tão grande, como se Sara fosse feita de fogo e entrasse em combustão quando ela estava por perto. Além disso, nas poucas vezes que a havia tocado, seu corpo parecia emitir uma descarga elétrica. Aquilo era simplesmente apavorante para alguém recém-acordado de um coma.
Ainda assim, a imagem dela em prantos não saía de sua mente...
Felicity.
Esse era o nome dela. Como Felicidade. Como todo o sentimento que ela havia lhe trazido um dia, embora Sara fosse incapaz de lembrar no momento. Agora tudo o que ela lhe causava era um intenso incômodo com seu toque eletrizante e uma tristeza angustiante com suas lágrimas e com aquele sorriso que a havia alcançado de alguma forma.
Felicity.
Lido de trás pra frente podia soar como destruição.
– Sara? – ela havia se perdido tão profundamente em seus pensamentos que mal havia escutado quando a porta do quarto se abriu. – Me desculpe, eu não queria assustá-la.
A garota que se aproximou devia ter mais ou menos sua altura e também era loira, embora o tom de seus cabelos fosse alguns graus mais escuro, quase puxados para o castanho. Ela também tinha os olhos claros, muito parecido com os seus e os traços muito belos. Vestia-se com um terninho preto bem alinhado e por baixo usava uma camisa social branca.
Sua expressão era preocupada, como a de todas as pessoas que entravam naquele quarto, mas ela não tentou abraça-la ou fazer nada do tipo. Apenas se aproximou.
– Posso? – ela perguntou e Sara acenou para a estranha positivamente com a cabeça, dando um espaço na cama para que se sentasse. – Como está se sentindo hoje? O médico disse que tem se alimentado sozinha, e que seus reflexos respondem bem até demais.
– Parece que eu fui atropelada por um ônibus. – ela respondeu, e parecia muito natural conversar com ela de alguma forma. – Mas acho que vou sobreviver.
– É, acho que sim. – Laurel não conseguiu deixar de rir da piada da irmã. Mesmo que sua memória tivesse se perdido, ela ainda era a mesma Sara. Ela ainda estava ali, e aquilo a deixava feliz, quase aliviada.
Passaram quase um minuto inteiro em silêncio enquanto Sara a analisava. Ela era parecida consigo em muitos aspectos físicos, mas não queria arriscar nenhum palpite.
– Eu não consigo me lembrar quem é você. Isso é muito ruim do nível da garota que esteve aqui na noite passada? – Sara fez uma careta e por fim desviou o olhar.
– Não sei dizer o nível de ruim que foi ontem à noite, mas eu diria que é bem ruim. – ela tentava manter o humor em sua voz. – Laurel Lance. – ela disse. – Advogada e atual promotora de Starling City, filha do delegado Quentin Lance e sua irmã mais velha.
Aquilo era definitivamente estranho. Ter uma vida toda antes daquele incidente e não conseguir se lembrar disso. Era quase assustador. Quando ela havia adormecido na noite passada, achou ter sonhado com um anjo antes de mergulhar naqueles milhares de sonhos, mas ao acordar deparou-se com uma carta que em poucas palavras dizia que ela retornaria. Estava assinado por Nyssa, um nome que lhe trazia alguma familiaridade e conforto.
– Então meu nome é Sara Lance. – embora seu tom fosse afirmativo, havia uma certa ponta de duvida nele. – Como eu vim parar aqui nessa cama de hospital?
– Não sei muito a respeito dos detalhes, — ela começou, recostando-se na cabeceira ao lado de Sara. – mas você estava ajudando o Arqueiro, nosso vigilante, a combater um cara chamado Slade. – ela fez uma pausa ao ver a expressão de Sara.
– Então é por isso que eu tenho tantas cicatrizes? – ela questionou ao lembrar-se da careta de pavor que o residente havia escondido ao ver suas costas. Sequer conseguira contar todas as marcas que Sara possuía.
– Bem, não exatamente por isso, mas talvez uma parte. – ela suspirou. – Acho que é informação demais para você processar de vez, então vamos por partes, sim?
Sara odiava ter que concordar com ela, mas sua cabeça já girava com tão poucas informações. No entanto ainda havia algumas coisas que ela queria saber.
– E aquela garota...? A da noite passada. Quem era ela? – ponderou antes de perguntar, mas a verdade é que ainda estava incomodada.
– A Felicity? – ela perguntou e pareceu pensativa a respeito. Oliver havia lhe dito muito pouco e ela mesma não era próxima o suficiente de Felicity para perguntar, mas no dia em que haviam trazido Sara para o hospital naquele taxi, ela notou o desespero da hacker e aquilo não podia ser simplesmente um ato de solidariedade. Com certeza havia muito mais do que Ollie havia lhe dito. – Hum... eu não sei a respeito da ligação que vocês possuem, na verdade nem sabia que eram tão chegadas. Mas foi ela quem me ajudou a te trazer pro hospital no dia do seu incidente e parecia muito preocupada. Na verdade, eu nunca a tinha visto daquele jeito. Não como no dia que a trouxemos. Nem como ontem. Ela também ficou devastada enquanto esperávamos por noticias suas. Acho que realmente gosta de você.
Sara não sabia bem como reagir diante de todas aquelas informações. Ela havia sentido uma sensação tão estranha sobre Felicity que achava que uma simples amizade não seria capaz de descrever. Isso a incomodava um pouco.
– E Nyssa? Você já ouviu falar de uma tal de Nyssa? – ela tornou a perguntar.
Laurel ficou em silêncio por um momento, ponderando sobre a pergunta da irmã mais nova. Ela sabia que Nyssa a havia mantido protegida enquanto fazia parte da Liga dos Assassinos, e que talvez fosse melhor excluir aquela parte da vida de Sara em definitivo. No entanto, se fizesse isso e Sara recobrasse a memória, talvez nunca a perdoasse e não sabia se queria conviver com isso.
– Nyssa... – ela repetiu o nome, como se o saboreasse. -... não. Eu não ouvi falar sobre nenhuma Nyssa. – ela dirigiu seu melhor sorriso para Sara.
Talvez fosse melhor nunca obter seu perdão do que vê-la mergulhada naquela escuridão outra vez.
X
Embora sua cabeça estivesse cheia de problemas, a cabeça do Arqueiro não estava e era por isso que agora Oliver se dedicava ao seu treinamento. Ele havia recebido um sms de Felicity, dizendo que ainda não se sentia bem da gripe, e que sua mãe a havia obrigado a ficar em casa até segunda ordem. Ele mal podia imaginar uma Felicity de cama com o nariz escorrendo sem dar risada, mas agora queria se dedicar a focar em apagar a mente forçando seu corpo ao limite.
Sequer ouviu as passadas velozes que desceram as escadarias do bar até que John Diggle estivesse ali parado com os braços cruzados e se pronunciasse.
– Até quando você vai ficar se escondendo aí, Oliver? – ele questionou.
O rapaz saltou das barras, deixando-a pendurada no quinto sulco e apanhou uma toalha para limpar o suor.
– Não sei do que você está falando, John. – ele limitou-se a responder.
– Você sabe sim. Felicity está doente, Sara no hospital. Roy fez as rondas da noite, e você continua preso aqui como se nada lá fora importasse.
Ele suspirou pesadamente.
– E o que quer que eu faça, John? – ele se apoiou na bancada encarando o amigo.
– Não é questão de eu te dizer o que deve ou não fazer, não é mesmo?
Pensativo sobre as palavras do amigo, ele sentiu sua mente pairar para outro lugar. Na verdade era fácil para ele dizer algo assim quando sua vida já estava estabilizada, com uma filha por nascer e uma bela esposa. Mas ele? Ele nunca poderia se dar a esse luxo a não ser que conquistasse Felicity, pois era a única pessoa que queria ao seu lado.
– Tem razão. – apanhou uma camiseta e vestiu-a.
– Para onde vai?
– Fazer o que eu devo fazer.
John não sabia o que ele queria dizer com isso, mas esperava que fosse algo bom.
Evidentemente, ele não conhecia bem Oliver Queen.
X
– Você tem certeza de que não quer que eu fique mais alguns dias? – sua mãe questionou enquanto via Felicity empurrá-la na direção da entrada.
– Não se preocupe, mamãe, você não pode ficar faltando ao trabalho assim por minha causa. Eu estou bem, vou melhorar da gripe com o tanto de remédios que você me fez tomar. Tudo o que eu quero agora é dormir bastante. – ela abriu um sorriso e, embora não fosse dos seus melhores, foi ao menos suficiente para convencer sua mãe.
– Tudo bem, mas tem que me prometer que vai descansar. – ela disse. – E que vai se cuidar, e que vai me chamar caso precise de algo, tudo bem?
– Sim, mamãe, tudo bem. E, ah, só mais uma coisa. – ela parou por um momento, como se o lampejo de uma lembrança a tivesse atingido. Estavam perto da porta, mas ela não queria que esse assunto esperasse por mais tempo, ainda que Sara fosse sua maior preocupação. – O papai... por que ele foi embora?
A expressão sempre doce da mãe de Felicity deu lugar à uma nostalgia que ela pouco se lembrava, mas agora, olhando-a, veio-lhe à mente noites a fio nas quais havia visto sua mãe chorar pela falta de seu pai. Talvez tivesse sido indiscreto perguntar assim dessa forma.
– Seu pai... – ela começou, segurando as mãos de Felicity. – Central City era pouco demais para ele, minha querida. Seu pai... era além dessa realidade. Além de todas as coisas que existem ou que ainda vão existir. Ele era um gênio... como você se tornou. – ela sorriu, agora mostrando certo orgulho da filha. – Eu tenho certeza de que se ele for capaz de te ver, onde quer que esteja, estará orgulhoso do que se tornou. Agora preciso ir.
Existia uma série de coisas que Felicity queria perguntar a respeito do pai, mas ela não achou que sua mãe seria capaz de responder. Ela percebeu o quanto havia sido doloroso para ela apenas tocar no assunto e somente naquele momento se deu conta de que ela o havia amado tão intensamente quanto ela amava Sara. E que isso era assustador, porque nunca havia pensado na sua mãe de outra forma que não fosse como mãe. Mesmo que ela fosse uma mãe adolescente as vezes.
– Tudo bem. – ela limitou-se a dizer e abraçou a mãe, abrindo a porta para ela. – Se cuida, tá? E me avise quando chegar.
– Pode deixar, meu docinho. – ela lhe deu dois beijos estalados no rosto e se afastou no mesmo momento em que Oliver se aproximava, o que para Felicity foi uma surpresa.
– Oliver? Ah, céus, eu estou de pijama! – ela já ia fechando a porta em sua cara quando ele colocou o pé na fresta.
– Hey, não me deixe pra fora de novo, tudo bem. Eu só vim ver como você estava. – ele sorriu para Felicity, aquele sorriso branco e perfeito que um dia havia arrebatado seu coração.
– Tudo bem, Fel? – sua mãe perguntou, lançando um olhar na direção de Oliver.
– Não se preocupe, mãe. Ele não vai fazer nada. – ela garantiu e sua mãe acenou com a cabeça.
– Bem, cuide-se querida. E bonitão. – ela acrescentou dando uma piscadela para Oliver. Ele não soube como reagir, apenas dando um sorriso sem graça a respeito antes que Felicity fechasse a porta quando sua mãe desapareceu no corredor.
– Não sabia que ela estava na cidade, eu deveria ter avisado que viria. – Oliver foi caminhando na direção do sofá, observando os detalhes do apartamento de Felicity, visto que nunca havia ido até lá pessoalmente. Não havia nenhuma desordem ou bagunça. Ela era até uma pessoa bastante organizada apesar de atrapalhada.
“Essas coisas, Oliver, são coisas que você deve conhecer sobre a pessoa que gosta.”, pensou o loiro.
– Tudo bem, ela não podia ficar muito mais tempo. Já estava a-a-atchim! – ela espirrou, escondendo o rosto em um lenço para que Oliver não a visse naquele estado deplorável.
– Você está péssima, Felicity. Sua mãe tinha razão em te mandar ficar em casa. – ele disse, aproximando-se e passou uma das mãos por seus ombros para que se sentasse no sofá. – Fique aqui, eu vou preparar um chá pra você. Por sorte trouxe algumas ervas, pensando que você poderia não estar melhor.
– Ah, mais chás? Eu não aguento. – ela fez um muxoxo, vendo Oliver se afastar na direção da cozinha e virou o corpo para acompanhar ele com os olhos.
– Vai ter que aguentar se quiser melhorar. Sei que deve estar te matando ficar o dia todo de molho. – Oliver deu uma risada enquanto procurava pela chaleira e começou a aquecer a água no fogão, separando as ervas que havia trazido.
– Você sabe que homens normais trazem flores e não ervas, certo? Fica até parecendo que você é um traficante—não que você seja, eu sei que não é. Heróis não são traficantes, mas—
– Se acalme, Felicity. – ele lhe dirigiu um sorriso terno enquanto amassava as folhas, deixando subir aquele aroma característico delas que Felicity sentia apesar da distância em que se encontravam.
Vendo aquele sorriso novamente, ela sabia o motivo pelo qual havia se apaixonado por Oliver em um passado não tão distante. Ele era realmente cativante, e não era de se surpreender que já tivesse tido um passado amoroso com Laurel, Sara, a Caçadora e – apenas em sua mente – com ela.
Ele era bonito, mas não era apenas isso. Era extremamente bondoso e atencioso, mas ela sabia que por trás daquela faceta, a faceta do Oliver Queen, as sombras do Arqueiro o impediam de ser feliz. Ele havia construído um muro de espinhos ao seu redor, impedindo toda e qualquer pessoa de se aproximar demais. Talvez se não fosse por Sara, ela ainda estivesse presa no torpor que havia sentido por ele, o que não significava que o sentimento de todo havia ido embora. Ainda sentia um carinho muito grande por Oliver, e sentimentos tão fortes assim não se vão de uma vez.
Mas ela sabia que seu coração, há muito tempo, já estava em outro lugar, o que a fez pensar novamente em Sara, desviando o olhar.
Não soube quanto tempo ficou nisso, pois quando se deu conta, Oliver estalava os dedos diante de seu rosto corado pela febre. Ela abriu um sorriso para ele.
– Desculpe, acho que me perdi pensando.
– Parecia até que estava em outra galáxia, Felicity. – ele disse, estendendo a xícara de porcelana para a garota. – Aqui, beba tudo. O gosto não é dos melhores, mas com certeza vai se sentir outra pessoa.
O que ele disse não foi muito animador, e o cheiro do chá também não era, mas visto que não tinha outra escolha, ela começou a beber, fazendo caretas tão ótimas que arrancaram gargalhadas de Oliver.
– Isso é horrível! – ela disse ao terminar a bebida.
– É, mas Shado sempre dizia que suas ervas eram capazes de curar qualquer coisa. Eu não tenho dúvida disso. – ele se permitiu sorrir por um momento e limpou o canto de sua boca com um guardanapo que havia trazido.
Seus olhares se cruzaram por um mínimo momento. Ele era bonito, isso não podia nem ser discutido. Havia algo em Oliver que chamava atenção, mas não era apenas a beleza ou seu lado sombrio. Felicity acreditava que por trás de todas aquelas camadas de espinhos que ele havia construído ao redor de seu coração, existia um homem bom e disposto a amar. Infelizmente, um homem que havia aparecido tarde demais e ainda que mexesse com ela de alguma forma, ela tinha plena certeza de onde seus sentimentos estavam.
Pareceu a ela que ele diria algo, mas Felicity se adiantou.
– Você soube mais algo a respeito de Sara? – ela questionou.
Aquilo, para Oliver, foi como um banho de água fria. Mas o que estava pensando? Ele próprio estava confuso a respeito de seus pensamentos, do que realmente queria. Parecia que somente agora, ao perder Felicity verdadeiramente, havia se dado conta do quanto ela era importante para si. E a ideia de não tê-la era torturante, mas ela não parecia disposta a ceder, sempre querendo saber a respeito de Sara. Por quê?
Era verdade que ele próprio já havia namorado Sara. Ele sabia o quanto a garota podia ser encantadora, no entanto também conhecia seus defeitos, e acreditava que a própria Felicity já havia visto uma boa parte deles, mas permanecia ali, firme e forte querendo saber sobre ela.
Bem, ele não podia esperar que ela simplesmente deixasse para lá do dia para noite, não é? Isso seria até mesmo insensível, e sim, isso fazia dele um canalha.
“De marca maior”
– Laurel foi ver ela hoje de tarde. Disse que perguntou muitas coisas. – ele falou. – Mas não quis entrar em detalhes sobre sua vida como Canário para não confundi-la. Me disse também que ela perguntou a respeito de Nyssa.
Parecia até mesmo estúpido que ele dissesse justo esse ponto, quando ela também havia perguntado a respeito de Felicity. Oliver não sabia por que estava agindo dessa forma, o que o estava motivando, mas ele acreditava – e tentava se convencer – que depois de tê-la quase perdido, o lugar de Felicity era ao seu lado e com ninguém mais.
No entanto, se ele soubesse o tamanho do sentimento que Felicity carregava por Sara, talvez tivesse dito algo a mais ou simplesmente tivesse omitido esse detalhe. Expressiva como era, ela não conseguiu esconder como aquilo havia lhe atingido. Ela sabia que antes dela, Nyssa havia sido uma das pessoas a quem Sara mais amara, e aquilo a havia atingido com o impacto de um raio, capaz de destruir tudo em que tocava.
– Entendo. – foi tudo o que conseguiu dizer, sua voz saiu tão embargada que Oliver quase se arrependeu do que havia dito. Se ao menos fosse mais perceptivo e não pensasse apenas no bem que poderia trazer a ela, pois era disso o que tentava se convencer.
– Tudo bem, Felicity? – ele questionou, ainda que fosse óbvio que não estava tudo bem.
– Eu... só estou cansada. Podemos conversar outra hora? Quero realmente descansar, me recuperar disso tudo.
Ainda que parte de si quisesse permanecer ali, ele concordou com a cabeça, acompanhado até a porta por Felicity.
– Sabe que se precisar de mim pode falar comigo, não é? Eu te manterei atualizada. Descanse o quanto precisar, eu, Roy e Diggle daremos conta enquanto você estiver fora de combate. – ele se aproximou e lhe beijou a testa.
– Tudo bem. – sua resposta soou seca e vazia, e ela fechou a porta antes que Oliver chegasse até o corredor, rescostando-se nela e deslizando até o chão frio.
Ela podia aceitar que Sara não se lembrasse de ninguém. Podia aceitar, embora fosse doloroso para ela. Mas o fato de ela perguntar a respeito de Nyssa foi algo doloroso. Era ela quem havia ido visita-la na noite passada, tentar saber como estava. E era de Nyssa que se lembrava?
Seu coração doía diante dessa imagem e, encolhida ali no chão, quebrando sua promessa, Felicity chorou, esperando que aquele pesadelo acabasse logo.
X
Nyssa não retornou até que a noite tivesse caído novamente. Ela não queria chamar atenção desnecessariamente, nem queria que outras pessoas soubessem que ela estava ali. Ela sabia que não deveria estar, mas não conseguiu deixar a cidade sem ter certeza de que Sara estava bem e, agora, com a informação de que ela havia perdido a memória, tinha a oportunidade perfeita para tê-la de volta ao seu lado.
Ela sabia que a vida como um membro da Liga dos Assassinos era arriscada e imprecisa, e afastaria Sara disso se pudesse, mas o fato de poder tê-la novamente, deseja-la... só o fato de ter uma chance de amá-la novamente, enchia de vida a filha do demônio, por mais irônico que isso pudesse parecer.
Sara era sua luz no meio de toda aquela escuridão. Nyssa havia sido treinada para praticar o mal, matar e sobreviver. E isso ela fazia bem. Mas Sara havia lhe mostrado um outro lado da vida que a mulher desconhecia, e uma vez que você tem contato com a luz, não quer retornar para a escuridão total nunca mais.
Ela já estava conformada com aquela vida, a frieza de um mundo sem Sara, vendo apenas de longe o brilho das asas de seu pequeno Canário. No entanto, ali estava ela, receptiva ao seu contato na noite anterior.
Nyssa queria dizer que sentia muito por Felicity, mas de verdade não sentia. A única pessoa pela qual ela possuía algum apreço era Sara, ninguém mais. Nem mesmo a seu pai, que nunca aprovara sua união com Sara. Ele era o pior de todos, mas ao menos talvez aceitasse Sara de volta na Liga, desde que ela possuísse perícia o suficiente para isso.
Quando adentrou pela janela, soturna como um felino, ela viu o sorriso de Sara abrir-se em sua direção.
– Achei que não fosse aparecer. – ainda que Laurel tivesse dito que não conhecia nenhuma Nyssa, a sensação que sentia ao lado dela era boa demais para ser ignorada.
– Eu disse que viria, não foi? – ela se inclinou sobre Sara e segurou seu rosto, beijando-lhe a testa com cuidado.
– Sim, você disse. – ela brincou com o papel que havia escondido de todos embaixo de seu travesseiro. – Mas já estava ficando entediada. Hoje conheci minha irmã. Isso soa muito estranho?
– Laurel, não é? – Nyssa se sentou ao seu lado na cama, colocando uma mecha de seus cabelos loiros atrás da orelha, sem deixar de lhe acariciar o rosto sutilmente. De alguma forma, aquele toque lhe trazia segurança.
– Sim, como você sabe?
– Digamos que nos vimos uma vez ou outra. – ela respondeu.
– Estranho. Ela disse que não conhecia nenhuma Nyssa.
Seus olhos se afinaram numa estreita linha negra. Se Sara tivesse sua memória intacta, saberia o quanto aquele olhar era perigoso.
– Ela disse, é? Não deve se lembrar, não foi um encontro muito marcante. – exceto pelo fato de que Sara quase havia morrido pelo veneno letal de Liga para salvar sua existência.
– Entendo. Mas eu me sinto bem ao seu lado. – ela respondeu com um sorriso doce nos lábios.
Nyssa se lembrava daquele sorriso e em como ele aquecia seu coração.
– Eu também me sinto bem ao seu lado, meu pequeno Canário. – ela disse, passando o polegar suavemente pelos lábios macios. Queria ver Sara sorrir assim mais vezes. Queria ela ao seu lado.
– Fico feliz. – ela não sabia exatamente o motivo daquilo, mas realmente se sentia bem ao lado de Nyssa, ainda que algo em seu âmago dissesse que não podia ignorar aquela sensação que tinha com aquela outra pessoa cujo nome invadia sua mente até quando tentava não pensar nela.
– Me diga... – Nyssa a encarou por um momento. – Você se sente bem o suficiente para sair dessa cama?
– Nada me faria mais feliz. – ela disse com um sorriso largo. – Talvez só um Cheeseburguer. Nossa, nem sei por que pensei nisso. – ela riu.
– Bem, podemos pensar num Cheeseburguer se é o que você quer. E em sair dessa cama também. Veja, eu trouxe algo pra você. – Nyssa estendeu uma mochila que havia trazido consigo.
Vasculhando-a, Sara encontrou roupas comuns: um jeans, camisa branca e um casaco de couro com um cheiro peculiar e deveras familiar. Além disso, havia uma roupa totalmente preta, semelhante à que Nyssa usava.
– Eu me lembro disso. Não sei por que, mas me lembro. – ela disse, a respeito da jaqueta.
– É mesmo? Fui eu quem te dei. – ela sorriu para Sara. No entanto, o perfume era o mais marcante, aquele cheiro... ela sabia que era familiar. E era algo que lhe trazia uma imensa paz. – Eu o peguei no lugar onde você estava, mas não importa. Vista as roupas negras, quando estivermos em um local mais afastado, iremos comer o tal Cheeseburguer.
– Você fala como se nunca tivesse comido isso. – Sara não conseguiu deixar de sorrir enquanto se trocava. Por algum motivo, não se importou de fazer isso na frente dela, talvez porque fosse comum para ela ser esse tipo de pessoa.
– E eu nunca comi. – Nyssa respondeu naturalmente.
– Fala sério! – ela exclamou, vestindo por último a jaqueta, aquele cheiro tão familiar a envolvendo, doce e suave. – Vamos quebrar esse tabu hoje. – Preciso mesmo da máscara?
– Precisa. É assim que você se veste, Ta-Er Al-Sahfer. – ela se aproximou para ajeitar a máscara sobre seu rosto e abriu um sorriso. Estavam tão próximas... tão próximas e sentir Sara assim, tão perto era uma sensação da qual sentira falta, pois da última vez em que haviam se encontrado, parecia distante, diferente da Sara que conhecera buscando por sua ajuda e que um dia havia lhe amado.
– Nyssa? – ela perguntou baixinho ao sentir as mãos sobre seu rosto e o choque preencheu seu rosto quando ela aproximou o rosto do seu.
– Senti tanto a sua falta, Sara... – ela sussurrou com a voz languida e roçou os lábios aos seus antes de beijá-la.
Em choque, Sara permaneceu paralisada nos primeiros segundos, sem saber ao certo como reagir. De alguma forma, mesmo que os lábios dela se encaixassem perfeitamente aos seus, mesmo que se sentisse tão bem ao seu lado... de alguma forma ela sentiu como se algo se quebrasse dentro de si, como se algo estivesse completamente errado.
“O que está acontecendo comigo?”
Mas ainda que quisesse, incapaz de resistir ao impulso, viu a si mesma beijando-a de volta, acreditando que se Nyssa estava fazendo isso, deveria existir alguma explicação lógica para tal, uma explicação da qual não conseguia se recordar.
“Por que isso é tão doloroso?”
Ainda assim, aquela sensação permaneceu, como se mil agulhas atravessassem seu corpo e sem que soubesse o motivo, pegou-se pensando em Felicity novamente e naquele ínfimo pensamento que a havia acometido mais cedo.
Lido de trás para frente, Felicity soava como destruição.
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