Wanna Play?
26 Moving on
Notas iniciais
"A saudade queima, sabe? A saudade é tão forte que é um sentimento quase físico. Não é só uma memória. Não são apenas pensamentos. São mãos que apertam o peito, a garganta, que cutucam os olhos só pelo prazer de ver as lágrimas jorrarem feito cachoeira."
No meio do caminho tinha um amor
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− Alvo avistado. Eles estão fazendo a troca agora, Canário.— A voz de Thea ressoou pelo ponto que compartilhavam.
− Algum ponto cego que não avistamos, Observadora? – Agachada sobre o alto de um dos contêineres, Sara tinha uma visão diferente de onde Thea se encontrava, no ponto oposto.
− Não. Eles são um total de oito. O navio chegará trazendo a mercadoria. — respondeu Felicity. — Agora que a notícia de que Scorpia foi presa se espalhou, os traficantes locais tentam assumir sua coroa.
Aquilo era verdade.
Desde que Scorpia havia sido presa, quatro meses antes, as notícias se espalharam rapidamente e até mesmo traficantes maiores, de cidades periféricas, haviam tomado a frente para tentarem assumir o posto de reis em Star City. Ray Palmer, o atual prefeito da cidade, havia entrado com uma contramedida contra traficantes para limpar as ruas da cidade.
No entanto, a violência acumulada por anos de displicência por parte dos últimos prefeitos havia deixado a cidade em uma situação lastimável.
− Ao meu comando, Speedy. – Sara ergueu-se, flexionando as pernas e preparando-se para alçar voo.
− Hn.— Thea permaneceu parada onde estava, a flecha com bomba de fumaça pronta para ser atirada.
− Vão!— O sinal veio de Felicity, que observava tudo através das câmeras.
− Atire! – Sara ordenou. A flecha atingiu o chão, espalhando fumaça por todos os lados enquanto ela mergulhava naquela direção. Thea a acompanhou, deslizando através de uma corda após atingir uma flecha em um contêiner mais baixo.
Seu legado. Aquele era o seu legado. Por Oliver, que havia lhe passado aquela responsabilidade. Por Roy, que havia permitido que seguisse em frente. Que havia acreditado nela de todo coração.
X
O funeral de Roy foi simples e com poucas pessoas. A responsabilidade de avisar a família, havia ficado por conta de Sara. E foi com pesar que ela havia dito para a mãe do garoto que ele havia morrido como um herói.
Jamais foi dito a ela quem ele realmente era. Jamais foi dito a ela, também, sobre seu envolvimento com um vício que aparentemente não tinha cura.
Sua mãe não tinha estrutura ou palavras para falar de um filho que mal aparecia em casa, mas que a ajudava como podia com os irmãos mais novos.
Ray Palmer, que se identificou como patrão de Roy, disse que ela não ficaria desamparada. Ela seria agraciada com um seguro de vida que a Palmer Tech proporcionava aos funcionários, que permitiria que ela e sua família tivessem uma boa condição pelo resto da vida.
Felicity e Sara tinham garantido que Ray não precisava fazer isso, mas ele havia afirmado que aquele era o mínimo que podia fazer por uma mulher que sentia tanta dor pela perda de um filho tão jovem.
E ele se sentia culpado.
Caitlin havia permanecido na cidade para o enterro, mas teria que partir em breve. Havia trabalhado incansavelmente com Ray em busca de uma contramedida contra o gás e encontraram algo próximo da resposta. Agora ela trabalharia de Central City enquanto ele permaneceria ali.
Os dois haviam entrado em um acordo: iriam atrás de qualquer mal que Scorpia pudesse ter feito para remediá-lo. E para fazer isso, Cisco seria de uma valia sem tamanho, tal como Felicity que trabalharia em conjunto com Ray para isso.
Quando o caixão desceu, após o pastor dizer algumas palavras de conforto, Thea ficou responsável por falar algo sobre o namorado. Ela ainda sentia o peso do corpo dele em seus braços. Ainda sentia o gosto férreo do último beijo que haviam compartilhado.
Thea Queen estava completamente anestesiada, como no dia da morte de sua mãe. Exceto que havia perdido o pai e o namorado de uma única vez. E agora, Oliver era sua única família.
− Roy foi... Roy foi uma pessoa incrível. – Thea começou a dizer. Usar o pronome no passado doía. Ver a terra cobrir o caixão e saber que nunca mais veria seu sorriso doía também.
‘Esse é o seu legado. O seu legado.’
Thea não sabia se queria ter algum. Suas pernas tremiam tanto e ela se segurava tanto para não chorar que achou que teria um colapso nervoso. Quando ergueu o rosto na direção das árvores, uma sombra lhe chamou atenção. Ela arregalou os olhos, sentindo a mão de Oliver em seu ombro, todos os olhares voltados para si.
− D-desculpe. Eu não consigo. – Ela se retirou e todos resolveram que o melhor era dar espaço a ela.
Oliver estava prestes a dar um passo a frente quando Felicity tocou seu braço.
− Posso? – Ela pediu. Havia tanta dor em seus olhos quanto nos olhos de Thea. Oliver sabia que Roy havia sido uma muleta para Felicity em seus piores momentos e sentiu-se mal por não ter feito o mesmo, mergulhado nas sombras de seu próprio ser. Nyssa entrelaçou os dedos aos do marido, fazendo um sinal para que permitisse.
− Claro. Vá em frente. – Oliver ofereceu a ela seu melhor sorriso, mas desconfiava não ter conseguido animá-la como gostaria. Na verdade, sentiu-se aliviado por Felicity querer tomar a palavra, pois a culpa o corroía por dentro.
A verdade era que todos ali sentiam uma parcela da culpa. Sara era apenas uma sombra ao lado de Felicity, e os poucos olhares se voltaram na direção da hacker.
− Roy foi muito mais do que qualquer um de nós é capaz de descrever. – Suspirou pesadamente, sentindo as lágrimas se formarem no canto dos olhos. Ela choraria, mas não ali. Ali ela seria forte. Por ele. – Quando alguém precisava de ajuda, ele era o primeiro a se prontificar. Seu abraço era o melhor lugar para derramar lágrimas e sua risada era como um sopro de vida em todos nós. Ele estava se esforçando... se esforçando para ser alguém na vida. Mesmo com dificuldades em certas matérias da escola, ele vinha até nós e... nós o ajudávamos. Como podíamos.
“Ele sempre acreditou que fazer o bem era o correto. Que ajudar aquela pessoa que não podia se defender era o que realmente importava. E lutou da maneira que podia, como podia, apesar das adversidades. Ninguém nunca compreenderá o herói que ele foi, mas eu sim. E cada um de nós aqui que teve a oportunidade de ter a vida tocada por ele. Alguns mais do que outros.”
Naquele momento, Felicity olhou para Sin. A garota apertou-se entre as irmãs Lance, que a acolheram em um abraço fraterno. Era como se agarrar a uma última ponta de desespero, porque agora ela não tinha ninguém além delas. E ainda lhe custava acreditar que Roy havia partido daquele jeito. Sem que ela pudesse sequer se despedir, pois nos últimos dias não tinham conseguido se ver. Sua última lembrança era aquela flecha atirada em sua direção. Lembrança esta que insistia em assombrá-la na forma de pesadelos, mas que agora Sin lentamente superava para dar lugar ao herói e grande amigo que Roy havia sido para si.
− Não apenas isso. – Sin tomou coragem sem medo de mostrar as lágrimas que manchavam a pesada maquiagem que usava. – Mas toda vez que alguém tentou me ferir nos Glades ou até mesmo me ameaçou de morte, Roy me protegeu. Perdi as contas de quantas vezes ele ficou comigo por causa disso, ou me abrigou escondido na sua casa, Sra. Harper. Me desculpe por isso.
A mulher apenas acenou com a cabeça, emocionada com quantas vidas seu filho havia tocado sem que ela sequer imaginasse.
− O Roy... – Sara engoliu em seco, apertando mais os braços em torno de Sin. – Ele era corajoso. Ele não tinha medo de entrar em um incêndio para resgatar uma menininha se fosse necessário. Ele faria qualquer coisa pelos seus amigos. Daria seu coração se fosse necessário. Seu sangue. E muitas vezes ele fez isso. Quando... quando estive no pior de mim, ele continuou ao meu lado. E não posso ser grata o bastante por isso.
Oliver olhou para Nyssa e ela compreendeu que ele também tinha algo a dizer. Soltou a mão do esposo e ele tomou a frente, indo até a mãe de Roy e segurando suas mãos entre as dele.
− Roy foi mais que apenas meu aluno e cunhado. Ele foi meu amigo. – disse ele. – E aprendi com ele muito mais do que poderia ensinar. Descobri nele um amigo valioso, um companheiro para todas as horas. Para o que der e vier. Ele me mostrou que existe mais de um tipo de coragem e que com força de vontade, você é capaz de chegar onde quiser. Ele me ensinou sobre não desistir quando eu já não acreditava mais. E quando não tive forças, ele permaneceu ao lado da minha irmã até que ela se curasse. Ele me ensinou sobre a vida, Sra. Harper, e por isso sou muito grato a ele.
A mulher, que não tinha palavras, apenas abraçou-se a Oliver, chorando copiosamente. Ele a abraçou de volta, o queixo apoiado sobre sua cabeça enquanto encarava Sara e Felicity.
Era difícil, todos eles pensavam, enquanto as duas se aproximaram junto de Sin para acolher a mulher em um abraço.
Mas teriam que seguir em frente. Cada um deles. E viver por Roy também.
X
A missão, relativamente fácil para o padrão delas, acabou com êxito e com todos os traficantes presos. Sara, de um jeito um pouco sutil, ainda conseguiu informações sobre onde as outras cargas estariam. Thea disse que poderia cuidar daquilo sozinha, e ela resolveu dar um voto de confiança à garota que vinha indo tão bem.
Após a morte de Roy, Thea havia se dedicado de corpo e alma a aprender o ofício. E Sara não era uma professora boazinha, como Malcolm também não havia sido. Ela pegou pesado dia e noite até achar que Thea estava preparada para estar em campo. Não cometeria erros com a irmã de Oliver agora que ele não estava por perto.
Mas precisava deixar ela agir sozinha para aprender um pouco sobre como a vida nas ruas funcionava também, pois nem sempre Sara estaria por perto para salvá-la. Era como as coisas funcionavam. O que não significava que um dos mini-rays não estivesse sempre observando.
Sara aproximou-se de Felicity, abraçando-a por cima dos ombros, beijando o topo de sua cabeça. As imagens na câmera mostravam Thea em ação, sempre calma e comedida como Sara jamais achou que ela seria, já que das primeiras vezes mal queria lhe escutar. Mas seu espírito selvagem e indomável pareceu ceder aos poucos a cada vez que Sara e Felicity a acordavam para o que o mundo realmente era e o que Roy desejava a ela.
− Como nossa aprendiz está se saindo? – Sara perguntou, enchendo de beijinhos o pescoço de Felicity. A hacker abriu um sorriso fraco, expondo-o um pouco mais para que Sara tivesse mais acesso.
− Muito melhor do que esperávamos. Todo aquele desejo impulsivo de se jogar de cabeça nas batalhas parece ter sumido aos poucos. É como se ela fosse outra pessoa. – A respiração de Felicity ia se tornando um pouco mais pesada à medida que os beijos desciam junto das mãos de Sara, que abaixavam lentamente as alças do vestido que usava. – Hum... ainda tem energia?
Em resposta, mordiscando sua orelha, Sara entrelaçou os dedos aos de Felicity, sentindo por um momento o anel de noivado. O silêncio pairou brevemente entre elas, como a confirmação muda daquilo que já sabiam. O olhar de Felicity pairou sobre o anel, um suspiro pesado escapou de seus lábios quando Sara girou sua cadeira, virando-a em sua direção.
Quatro meses.
Com a morte de Roy, o crime superpopuloso em Star City e todos os problemas, o casamento havia ficado em segundo plano, sempre sendo adiado por um motivo ou outro. Não porque os sentimentos ou a certeza entre elas tivesse mudado, mas porque simplesmente não conseguiam. Era como se houvesse uma pedra onde antes estava escrito felicidade e nenhuma das duas conseguia ter forças para movê-la.
A dor era forte, as feridas demoravam demais para cicatrizar. Felicity havia se dedicado de corpo e alma nas tarefas de limpar a cidade e ajudar Ray e Caitlin no que pudesse a respeito do projeto.
Sua mãe havia insistido para que prosseguissem com o casamento, mas ela não conseguia. Como poderia ter o momento mais feliz de sua vida quando simplesmente não conseguia superar aquilo que ainda parecia tão recente? E aquilo doía nela, o olhar que Sara lhe dedicava a cada vez que tentavam seguir em frente. Porque ela sabia que ela carregava o mesmo peso.
E para completar, seu pai havia desaparecido depois daquele dia. E não havia nenhum sinal a respeito dele. Sentia-se traída de alguma forma, mesmo que não soubesse explicar exatamente o motivo. O que estava esperando? Que ele simplesmente se entregasse às autoridades e tivesse um julgamento justo no qual seria condenado? Era esperar demais.
Sara, conhecendo a noiva tão bem depois de tanto tempo convivendo ao lado dela e sabendo como sua mente trabalhava, apenas sorriu para ela, agachada diante de Felicity e beijou cada um de seus dedos, dedicando um beijo especial para aquele que carregava o anel de noivado.
− Não pense nisso. – Sara disse, erguendo-se enquanto a enlaçava pela cintura. As alças do vestido iam deslizando conforme o zíper na lateral era facilmente aberto pelas mãos hábeis da heroína. – Não dessa forma que está pensando, mas pense que estarei aqui para quando estiver pronta. Para quando estivermos prontas. Quero que seja o momento mais feliz de sua vida até que eu possa te fazer ainda mais.
Era aquela compreensão, Felicity pensava. Aquela compreensão de Sara que a atingia tão profundamente e a fazia ter certeza daquilo que queria.
A dor pela morte de Roy permaneceria ali. As desculpas sempre apareceriam para que não conseguissem superar, para que adiassem aquilo que certamente não seria um momento triste. Porque isso não era o que ele iria querer e era o que vinham dizendo repetidamente para Thea no intuito de fazer com que ela seguisse em frente e se permitisse novamente.
Felicity também precisava se permitir. E permitir a Sara, que permanecia ao seu lado.
Roy estava morto, mas elas estavam vivas. E ele jamais a perdoaria se escolhesse estagnar isso por sua causa.
− Quero fazer isso. – ela disse, tomando a atenção de Sara, que no momento se ocupava em despi-la completamente. – Quero me casar com você.
Sara balbuciou um ‘o quê’ quase ininteligível e Felicity sorriu, ajudando-a a deslizar o vestido pelo próprio corpo até o chão, ficando apenas com as botas de couro que calçava e a lingerie vermelha. Sara achou aquilo especialmente sexy, embora as palavras de Felicity ainda flutuassem em sua mente como uma pedra atirada no lago que ondula até criar uma tsunami do outro lado do mundo.
− Quero me casar com você, Sara. – Felicity repetiu. – Não no ano que vem, ou no mês que vem, mas o mais rápido possível.
O olhar dela refletia aquela verdade. Sara sentia através de suas palavras aquela certeza. A certeza de que nem tudo estava bem, de que os pesadelos continuariam e de que a dor ainda era real. Mas a certeza de que seguiria em frente mesmo assim, de que estava pronta para isso. E aquilo a enterneceu completamente, mesmo quando Felicity continuava a despi-la.
Talvez isso fosse o mais engraçado nelas: mesmo diante das adversidades, mesmo em uma conversa tão séria como aquela, continuavam em frente. Mesmo que a dor estivesse presente, mesmo que a superação fosse lenta e difícil, continuariam.
− Vou avisar Ollie e Nyssa. – Sara disse.
− Agora? – O tom rouco que Felicity usou ao pé de seu ouvido enquanto mordiscava sua orelha deixou Sara doida.
Ela sorriu de canto, lembrando-se de como tudo havia começado exatamente ali naquele esconderijo, e olhou de canto para a câmera que mostrava que Thea estava se saindo muito bem, obrigada.
− Não. – respondeu Sara enquanto a empurrava na direção da parede, imprensando o corpo contra o seu daquela maneira tão incisiva que deixava bastante claro quem mandava ali naquele momento. – Agora não.
Os lábios dela colaram na orelha de Felicity, enquanto suas mãos deslizavam pelo corpo dela, uma delas se prendendo firmemente à cintura enquanto a outra deslizava por cima da peça íntima entre suas pernas, arrancando-lhe um suspiro sôfrego de antecipação daquilo que tanto desejava.
− Agora... – murmurou Sara em lânguida voz. — ... agora eu vou te deixar doida. Como na primeira vez em que nos beijamos.
Felicity sentiu que se desmancharia em desejo, e as mãos alcançaram as costas nuas de Sara, arranhando de leve quando os dedos que passeavam pela peça íntima deslizaram rapidamente por dentro dela, acariciando sem pudor algum a área que já conhecia tão bem. Passando suavemente pelos grandes lábios até que um deles alcançasse o clitóris de um jeito que a fez gemer um pouco mais alto—Sara adorou.
− Quer mais, Fel? – A voz provocante ameaçava levar Felicity à loucura. E ela abraçaria a insanidade sem nem sequer se importar com aquilo. Abriu um pouco mais as pernas, dando espaço à Sara, que massageava lentamente ao redor do clitóris apenas para provocá-la a dizer aquilo que queria ouvir.
− Você é má... – Felicity não podia deixar de sorrir, pois adorava quando ela a provocava daquela maneira.
− Você quer...? — A boca escorregou por seu rosto até a mandíbula de Felicity, até que seus lábios estivessem a uma respiração de distância. Os olhos de Sara eram pura malícia enquanto os de Felicity praticamente suplicavam para que ela seguisse em frente com aquilo. Para que deixasse a tortura de lado e a preenchesse de prazer.
− Quero.— Aquela única palavra dita daquele jeito tão sexy acendeu todos os instintos predatórios de Sara. Mas foi Felicity quem enlaçou o pescoço dela e a beijou, uma das pernas envolvendo sua cintura enquanto Sara a pressionava contra a parede, mantendo seu equilíbrio.
Dois dedos a penetraram de vez enquanto o polegar continuava massageando o clitóris da hacker. O beijo era intenso, mas ao mesmo tempo familiar. Havia aquele jeito afoito, o desejo de tirar o fôlego em meio aos gemidos. As unhas de Felicity deixaram linhas avermelhadas que se juntariam às cicatrizes de Sara por algum tempo antes que desaparecessem. Mas algumas marquinhas seriam eternas e Sara gostava disso.
Quando as bocas se separaram, Felicity escondeu o rosto na curva do pescoço de Sara, deixando uma marca de mordida quando a intensidade de seus movimentos aumentou. Sara deixou uma exclamação prazerosa escapar quando seu corpo todo se retesou com aquele ato que não esperava. E ela se afastou, deixando Felicity um pouco indignada no processo. Porque ela queria mais. Muito mais que aquilo.
− Sempre impaciente. – A risada rouca escapou de Sara e aproveitando uma das pernas enroscadas em sua cintura, impulsionou-a a enlaçar a outra. Felicity deixou um gritinho escapar e quando notou, Sara a segurava com as pernas entrelaçadas em sua cintura e suas costas estavam coladas na parede, deixando-a um pouco mais alta que ela. – Não se preocupe, eu não vou te deixar cair.
− Sei que não. – Felicity sorriu, as mãos apoiadas nos ombros de Sara e a beijou. Era sempre diferente a sensação de um beijo para o outro. Como se fosse novo, como se pequenas explosões acontecessem dentro de sua barriga, com borboletas que se movimentavam de maneira inquieta no estômago.
Havia ali muito mais que apenas um beijo: havia cumplicidade, desejo e compreensão mútua. Sara a ajeitou no colo, o beijo prosseguindo até que os pulmões ardessem pela falta de ar.
“Está segura?”, perguntou para Felicity e a hacker acenou positivamente com a cabeça, pois a boca se ocupava em beijar o pescoço de Sara. A heroína aproveitou a sensação boa de choque que aqueles beijos lhe traziam e caminhou com Felicity nos braços até aquela cama dobrável que tinha tantas histórias para contar quanto um livro.
“Sempre estou segura com você.”
Aquelas palavras atingiram Sara de maneira mais profunda quando a deitou suavemente na cama, o barulho das molas rangendo. O azul do céu de Felicity encontrou-se com o azul oceânico dos olhos tempestuosos de Sara. Os dedos de ambas se entrelaçaram e naquele momento, se entregaram a um beijo mais lento, mais carinhoso.
Entregaram-se de corpo e alma aos sentimentos que por tanto tempo ficaram aprisionados pela dor.
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Thea achou que não conseguiria suportar e atravessar a dor. Ela achou que fosse seu pai. E por dias a fio, tentou buscar aquele vulto que havia enxergado no funeral de Roy sem sucesso algum.
Decidiu ocupar a mente com o treinamento ou se entregaria à loucura outra vez. E uma voz sussurrava no interior de sua mente que talvez não fosse tão ruim assim.
Infelizmente, Oliver não podia ficar. Ela havia descoberto que ele agora era R’as Al Ghul e tinha obrigações como tal.
Havia se tornado um assassino? Não, a não ser quando a situação pedia. Mas a Liga estava mudando lentamente. De dentro para fora. Pessoas que não tinham para onde ir, descobertas pelos espiões de Oliver e Nyssa, eram levados para lá. Deveriam acatar as leis, o treinamento, e trabalhar em prol de conseguir um objetivo para a própria vida. Havia um código a ser seguido, uma doutrina. Mas agora eles buscavam trabalhar em conjunto com a ARGUS, articulando-se e moldando-se para espionar, buscar e impedir coisas como ataques terroristas.
Nyssa estava à frente da maior parte dos treinamentos, e Oliver a acompanhava. Se eram felizes juntos? Estavam tentando. Aos poucos, começavam a se conhecer um pouco mais, ambos feridos por razões iguais e diferentes. Não era fácil abrir-se, para nenhum dos dois, mas era um processo lento que estava começando a acontecer e gerar frutos. O importante era que não se odiavam.
− Sei que não será fácil para você daqui pra frente, e não estou te abandonando, Speedy. Saiba que sempre terá um lar ao meu lado. Pode nos acompanhar de volta se você quiser. E treinar conosco. E se encontrar.
A proposta era deveras tentadora, mas as palavras de Roy continuavam ressoando em sua mente: seu legado, o seu legado. Seguir em frente.
E a esperança tola de que Malcolm podia estar vivo.
− Não, Ollie. – disse ela, a máscara do sorriso que havia aprendido a colocar tão bem tomando suas feições. – Você precisa ir, mas o meu lugar é aqui onde meu coração está. Eu carregarei o seu legado, o manto do Arqueiro Verde. Eu farei o sacrifício de Roy valer a pena.
Oliver não poderia ficar mais orgulhoso da irmã, mas certamente teria ficado se soubesse das loucuras que ela fez.
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O casamento foi anunciado para os poucos amigos que queriam convidar. Laurel foi a primeira pessoa para quem Sara contou e Felicity ligou logo para a mãe. A explosão de felicidade de ambas fez com que criassem um grupo para apressar os preparativos. Felicity falou com Caitlin e Ray, chamando Barry e Cisco também. Sara avisou Oliver e Nyssa, pois agora a tecnologia levemente implantada em Nanda Parbat permitia que se falassem com uma frequência um pouco maior. Mas a ARGUS não tinha acesso à ilha para que essa informação não caísse em mãos erradas; sua localização permanecia um enorme mistério para a maioria das pessoas.
Quentin estava radiante. Finalmente sua filhinha se casaria! Tudo ia de vento em popa apesar dos últimos acontecimentos. E, aparentemente, todos seguiam em frente porque as feridas começavam a cicatrizar.
E assim, ficou combinado e com a ajuda de Ray (sem nenhuma extravagância, queremos algo simples e ao ar livre!), conseguiram organizar tudo em tempo recorde. Foi muito difícil, unindo ele, Donna, Quentin e Laurel que as coisas não saíssem do controle.
No final daquela mesma semana, o casamento de Sara e Felicity aconteceria. E até mesmo Thea sentia-se feliz por elas.
X
Durante o primeiro mês, Thea tentou se matar três vezes jogando-se em situações perigosas até que ele apareceu.
− Precisa parar de se colocar em perigo assim. – A voz de Malcolm permanecia comedida e divertida como sempre. – Lembra-se do que eu te disse a respeito da calmaria?
Thea jogou-se nos braços do pai, ao mesmo tempo em que esmurrava seu peito. Malcolm, que pouco conhecera a respeito de afeto e carinho, sentiu naquele abraço todo o amor que não havia sido capaz de dedicar ao filho mais velho por sempre ver o rosto da falecida esposa nos traços dele. E se arrependia amargamente disso agora que Tommy estava morto.
− Por que sumiu?! – bradou, exigindo uma resposta. – Por que não ficou comigo?! Eu precisei de você!
As lágrimas corriam quente pelo rosto de Thea. Malcolm a abraçou com força, suspirando baixinho enquanto a acalentava.
− Não achei que precisasse de mim. – confessou. – Estava cercado pelos seus amigos e... eu estava contaminado.
Malcolm então explicou que havia conseguido escapar a tempo da explosão, mas que os vestígios do gás penetraram em seu sistema respiratório. Ele teve que se afastar, temeroso do que aquilo pudesse causar. Antes da explosão, no entanto, havia deixado um recado com John para que passasse a ela, com receio de que realmente morresse depois de tudo.
− Procurei pela cientista que ajudava vocês e pedi segredo a ela sobre estar vivo, porque não sabíamos se conseguiríamos resultados. – Malcolm prosseguiu quando finalmente conseguiu acalmar Thea. – Ela me pediu para acompanhá-la às pressas até o laboratório onde trabalhava em Central City, mas não me deu garantias.
“Entenda que eu não queria deixá-la sozinha, mas que tipo de pai eu seria se te alimentasse esperanças de que me curaria e de que tudo ficaria bem sem saber se era verdade? E você estava bem, tinha Oliver e Sara ao seu lado. Todos os seus amigos. Você se tornou forte, Thea. Não achei que precisasse de mim.”
− Você é meu pai. – Thea disse por fim, as palavras que Malcolm tanto esperara para ouvir, mas, com toda a resistência de Thea a respeito daquilo, nunca esperou escutar. – Sempre vou precisar de você.
Malcolm sorriu, depositando um beijo carinhoso na testa da filha, como costumava fazer ao entrar escondido no quarto dela sem que ninguém desconfiasse.
− Então fique viva e aja com calma. Eu sempre estarei por perto como sua sombra. Mas ainda preciso fazer mais algumas coisas, fases do tratamento. Promete que vai ficar bem?
− Prometo.
E Malcolm nunca mais a abandonou.
X
Com todos os preparativos prontos, o local escolhido foi na casa de Oliver, pois o espaço ao ar livre ali era grande e bastante arbóreo. O clima colaborou para o casamento ao ar livre como as duas haviam tanto desejado—esse era o topo da lista de desejos de Felicity em seu diário rosa.
Apesar da insistência de Felicity e Sara para um casamento simples, uma orquestra havia sido contratada por Ray, e fontes de gelo ponteavam o local, com a imagem linda de querubins que soltavam água pela boca.
Não tinha jeito. A extravagância de Ray, combinados com a animação de Laurel, Donna e Quentin transformou aquele casamento em um grande evento que foi anunciado para – pasmem – a cidade inteira, com convites distribuídos falando de um grande casamento organizado pelo prefeito e por Oliver Queen para suas melhores amigas.
Era o acontecimento do ano e mesmo que a princípio Sara e Felicity quisessem algo simples, toda a atenção havia afastado os pensamentos ruins de suas cabeças.
Oliver e Nyssa chegavam no dia seguinte e o casamento estava marcado para o domingo, com a previsão de um clima maravilhoso e ensolarado. Tudo lindo, perfeito e maravilhoso.
As duas haviam se mudado temporariamente para um dos quartos da casa de Oliver a pedido de Thea, que vinha morando naquela mansão sozinha, até mesmo para a organização de todo o evento.
− Ansiosa? – Sara perguntou, juntando-se a ela na cama após um dia exaustivo de combate ao crime. Pois além de prosseguirem com os planos do casamento, não podiam parar de agir em suas identidades secretas.
− Você não? – Felicity devolveu a pergunta. Não sabia mais o que era ter uma noite completa de sono há dias com sua mãe insistindo em ver vestidos de noiva, sabores de bolo e a enlouquecendo até que Felicity explodiu, dizendo que não queria se casar de branco, que já tinha um vestido e que o sabor do bolo poderia ser decidido por ela e por Laurel—fato que a deixou mais feliz do que indignada.
− Estou tremendo. – Sara riu, depositando um beijo leve em seus lábios e a abraçando. – Mas sei que vai ficar tudo bem quando estiver ao seu lado.
O sorriso de Sara iluminou Felicity com alegria e a fez transbordar de amor.
− Obrigada.
Sara arqueou as sobrancelhas.
− Pelo quê?
− Por ter esperado por mim, por ter respeitado todo o tempo em que não conseguia parar para pensar em nossa própria felicidade. – Felicity tomou uma de suas mãos e beijou as costas da mesma.
Sara sorriu novamente, puxando seu rosto para perto e selou os lábios de ambas. Quando se afastaram, seu sorriso era ainda mais bonito.
− Eu te esperaria para sempre se fosse preciso. Nunca desistirei de você, meu amor.
− Meu amor. – Felicity repetiu. – Soa bem aos meus ouvidos.
Ambas riram.
− Soa bem aos meus ouvidos também, mon amour.— Tentou, desta vez, em francês. – Parece um ótimo lugar para a lua de mel, não é?
− E a cidade? – Felicity perguntou.
− Acho que Ray e Thea podem dar conta uns dias.
Porque agora, o cientista havia insistido para fazer parte do Team Canário, e Sara vinha treinando-o nos últimos meses para isso em seu tempo livre.
− Amo você. – Felicity disse.
Sara apoiou-se nos cotovelos e deu repetidos selinhos estalados em Felicity.
− Amo você também, futura esposa.
Riram, ajeitando-se para dormir. Teriam um looongo dia.
X
Para Sin, a superação nunca veio, mas ela vinha de um lugar que ser forte era uma característica básica para sobreviver. Portanto, seguiu em frente. Ela sabia que Roy iria querer que ela fosse alguém na vida, então estudar e trabalhar para Laurel tornou-se tão comum quanto respirar.
De dia, era Cindy, assistente de promotora e estudante exemplar que havia deixado todos os professores de queixo caído ao ponto de considerarem que ela conseguiria uma bolsa na faculdade com a carta de indicação que a própria promotora havia feito à punho. De noite, era Sin, e não mais andava pelos Glades em busca de confusão, mas ajudando crianças perdidas como ela a encontrarem um norte.
Ela e Eric as encontravam nas ruas e as levavam a abrigos, falando a respeito de seus próprios passados tortuosos e sombrios, contando como com a inspiração de amigos e ajuda, haviam conseguido sair de lá.
O próprio Ray Palmer vinha implantando projetos recreativos que permitiam aos jovens dali alguma chance para o futuro. E tudo isso vinha ajudando-a.
Chorava quando podia, mas seguia em frente. Sempre em frente.
Ela viveria por Roy e por todas aquelas almas que nunca tiveram uma chance de se salvar.
X
Quase em Star City, Nyssa acordou Oliver que havia adormecido ao seu lado. Havia aprendido a pilotar a estranha nave que sua irmã tinha mandado de presente como um pedido de desculpas por tudo o que havia feito de errado.
As instruções complexas, ela havia descartado. Mas se parecia com um avião comum que havia aprendido a pilotar com Oliver nos meses anteriores.
− Chegamos, esposo dorminhoco. – anunciou.
Oliver espreguiçou-se, deixando um riso escapar e deu um beijo no rosto de Nyssa. Ela torceu os lábios, ainda acostumando-se com as demonstrações de carinho. Mas olhando-o daquele jeito, com aquela cara de sono, via como ele era bonito. E como talvez poderia amá-lo algum dia.
− Não morremos no caminho? Estou desacreditado! – brincou ele, recebendo uma ameaça com uma lâmina no pescoço.
Os dois saíram do avião parecido como um morcego que se camuflava muito bem de noite e era ótimo para missões. Oliver e Nyssa perderam um bom tempo para ocultá-lo, e finalmente entraram na mansão.
− Acho que eu poderia morar aqui. – Nyssa disse.
− É mesmo? – Oliver arqueou as sobrancelhas, um tanto surpreso com aquela afirmação repentina. – Criar dois filhos e um cachorro?
− Não exagere. – A resposta veio marrenta e ela acotovelou entre as costelas de maneira bastante dolorosa, mas Oliver apenas gargalhou. – Talvez um filho. E dois cachorros. De caça.
− Ainda temos muito tempo para pensar nisso, esposa. – Alfinetou enquanto entravam na mansão.
Era difícil que superassem tudo o que haviam vivido, os amores impossíveis e profundos que os haviam marcado de tantas maneiras diferentes. Mas a convivência trazia consigo certos benefícios e os dois começavam a compreender que, dentro de suas próprias peculiaridades, ambos podiam aprender a amar outra vez.
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