Wanna Play?
9 Memories
Notas iniciais
“O tempo pode vir e levar a dor embora
Só quero que as minhas memórias permaneçam
Ver seu rosto
Ouvir a sua voz
Não há um momento sequer que eu apagaria”
Regina Spektor – How
X
Felicity não sabia em que ponto da conversa ou das lágrimas ela havia caído no sono, mas o fato é que simplesmente acontecera e, como quando ela era jovem, magicamente havia aparecido em sua cama, mas desta vez não haviam escadas como obstáculos.
Quando ela abriu os olhos, tinha certeza de que lá fora era de noite, porque não entrava claridade nenhuma pela janela, embora as persianas estivessem fechadas. Mas ela sabia que era noite. Sua vista estava embaçada e a cabeça latejava como se tivesse bebido uma garrafa inteira de vinho.
Com muita dificuldade, a hacker sentou-se na cama, tocando os pés descalços no chão gélido. No mesmo instante, ela sentiu como se uma onda elétrica percorresse seu corpo dolorido.
– Mocinha, onde você pensa que vai? – a voz de sua mãe ecoou da porta do quarto. A Sra. Smoak aproximou-se da cama, apoiando as mãos sobre os ombros de Felicity.
– Mãe, eu preciso levantar... onde está o meu telefone? – ela perguntou, vasculhando com os olhos o quarto.
– O que você precisa é descansar. Estava queimando de febre quando eu te coloquei na cama, Fel! – ela disse.
“Ah, então foi assim. Todos os anos de magia destruídos..”, Felicity permitiu-se abrir um sorriso fraco naquele momento, mas de verdade ela queria saber o que estava acontecendo na vida distante da sua. Sara ainda estava hospitalizada, ela queria notícias a seu respeito, porque da última vez ela só escutara dos médicos que ela estava estável e na UTI. Isso não era o que queria. Felicity queria estar ao seu lado, segurar sua mão, saber que ela estava bem.
– Eu sei, mãe, mas eu preciso saber como ela está. A Sara. Oliver deve ter me ligado ao menos para dizer.
A mãe de Felicity suspirou pesadamente. Estava realmente preocupada com a filha, porque há muito tempo não a via ficar doente ou chorar tão copiosamente. De verdade, ela só se lembrava de uma única vez, e havia sido quando Steven havia ido embora. Felicity ainda era muito pequena, mas quando o pai as deixou, chorou sem parar até que adormeceu. Exatamente da maneira como havia acontecido naquele dia.
E não importava o quanto Felicity dissesse que estava bem, seu coração de mãe sempre diria o contrário. Com uma das mãos, ela acariciou suavemente os cabelos louros de sua filha e seu rosto. Já fazia tanto tempo que Felicity havia crescido, mas para ela sempre seria sua garotinha. Sua pequenina. Um gênio. Seu orgulho.
– Você está no seu limite, Fel. Você precisa saber quando parar. – ela disse com um sorriso fraco e cansado no rosto. – Entendo que está passando por uma situação difícil e até devolverei seu celular para que tenha notícias de sua amiga, mas precisa parar um pouco, tudo bem? Você precisa descansar.
Felicity sabia que aquela era a maneira de sua mãe agir porque estava preocupada com seu bem-estar. Nunca, em todos esses anos, havia recorrido à ela. Na verdade, sempre fugira do embaraço que a mãe lhe causara em público, mas depois daquele ataque que haviam sofrido juntas, na qual sua mãe havia sido raptada só porque ela era o suporte de Oliver, haviam se aproximado mais. E Felicity permitia que a mãe fosse mais presente em sua vida.
E aquela era a forma que a Srta. Smoak demonstrava sua preocupação, o que era perfeitamente aceitável para uma mãe que havia criado sozinha sua filha. O que a levava novamente à questão de seu pai, mas não era algo que discutiria com ela agora. Não enquanto Sara estava em uma cama de hospital.
– Tudo bem, mãe. – ela disse, segurando as mãos da senhora. Ela parecia tão jovem aos olhos de Felicity, talvez apenas porque agisse como tal. – Eu vou descansar, mas me devolva o telefone. Preciso saber como a Sara está.
Ainda que relutante, ela concordou com a cabeça e tirou do bolso o telefone celular de sua filha, entregando-o à ela. Felicity agradeceu e abraçou a mãe por um momento antes que ela se afastasse.
– Eu vou fazer um chá pra você enquanto isso, tudo bem?
– Tudo bem, mãe. Mas sem limão. – Felicity fez uma careta ao que sua mãe apenas riu, dirigindo-se para a cozinha.
Com o celular em mãos, Felicity desbloqueou a tela do aparelho.
[5 chamadas perdidas]
[Oliver — 15:30 – PM]
[Roy – 19:03 – PM]
[Roy – 19:03 – PM]
[Roy – 19:04 – PM]
[Roy – 19:05 – PM]
Agora eram 19:30. Felicity franziu o cenho ao ver tantas ligações perdidas de Roy. Havia apenas uma de Oliver, mas ela achava que o que quer que fosse poderia esperar. Roy não. Por isso ligou para ele, esperando que, o que quer que fosse, não tivesse conexão com Sara.
X
Quando Oliver saiu da delegacia com Laurel, tudo o que ele queria era esganá-la.
“Como você foi contar a ele que Sara estava internada e acabamos juntos, Laurel?!”
“Você não viu a cara dele, Oliver. Ele não está bem ainda, não está preparado para uma notícia assim.”
“E o que fará se ele descobrir?”
“Ele não vai. Não se você me ajudar.”
A conversa entre os dois não havia sido nada amigável, sobretudo porque Oliver não queria sustentar aquela mentira na qual ele e Laurel terminavam em um falso namoro. Mas ele sabia o que ela queria dizer sobre Lance e sobre o fato de ele não estar recuperado.
Ainda que não agisse mais nas ruas, ele era aquele que o auxiliava quando agia como o Arqueiro. Ele lhe dava o suporte e as informações que precisava para chegar em lugares que provavelmente não conseguiria ou que demoraria mais tempo sem a sua ajuda.
E Oliver sabia o quanto o arruinaria saber que sua menininha estava em uma cama de hospital apenas porque estava ao seu lado na luta contra o crime. No fim das contas, como sempre acontecia quando o assunto era Laurel, ele acabou cedendo.
E era exatamente por isso que, naquele momento, ele batia na casa dos Lance, segurando um buque de rosas que havia comprado apressadamente junto de uma garrafa de vinho antes de dirigir-se para lá.
Oliver não tinha muita cabeça para relacionamentos naquele momento. Seu coração ainda estava ferido e magoado por ter perdido Felicity para Sara, mas no fundo ele sabia que a culpa daquilo era toda sua. Quando Felicity estava apaixonada por ele, tão completamente apaixonada que seria capaz de qualquer coisa, Oliver a havia afastado por medo. Ele imaginava que mais ou menos naquela época Sara deveria ter se aproximado dela. Talvez com segundas intenções, mas ele nunca saberia ao certo.
O fato dele ter descoberto sobre as duas daquela maneira o fez se sentir traído, mas na verdade não havia traição alguma ali. Ele não havia se envolvido com Felicity porque não queria que a ferissem, mas não podia impedi-la de se envolver com outras pessoas. Ele sabia que não.
E Laurel... as coisas com Laurel sempre haviam sido complicadas e não resolvidas. Ele simplesmente não conseguia se ver novamente em um relacionamento com ela. Quando a advogada abriu a porta, ele foi recebido com um sorriso cordial e amigável.
– Ollie está aqui, papai! — ela anunciou, lhe dando um beijinho no rosto. – Obrigada pelo vinho, Ollie, mas estamos evitando isso aqui.
– Ah, droga! Eu me esqueci. Desculpe, Laurel. – ele disse quando ela demonstrou a medalha de sobriedade. Já fazia mais de seis meses que não colocava uma única gota de álcool na boca e estava muito orgulhosa por isso.
– Tudo bem, é o protocolo, Ollie. Eu não te culpo. – ela piscou, deixando a garrafa de lado para colocar as flores em um vaso com água.
– Sinta-se em casa, Oliver! Eu estou terminando o jantar! – Lance anunciou da cozinha. O que quer que fosse que ele estava preparando, cheirava muito bem e aguou Oliver.
Laurel o puxou pela mão na direção da sala antes que Oliver tivesse a chance de responder, mas ele acenou para o pai de Laurel quando passaram pelo corredor. Ele vestia um ridículo avental cor de rosa que Oliver se lembrava ter sido um presente de dia dos pais das meninas quando eram mais nova, visto que Lance adorava cozinhar.
– Alguma notícia dela? – Oliver perguntou baixo para não alarmar Lance.
– Eu passei no hospital depois do tribunal, mas ela ainda estava dormindo. Cheguei a entrar no quarto no horário de visitas, mas não fiquei muito tempo. O médico permaneceu com a mesma conversa, dizendo que não sabia quando ela acordaria, mas acreditava que suas chances eram boas. Só espero que sim.
Sua expressão parecia abatida e preocupada e Oliver preocupou-se com isso. Ele deu um suspiro exasperado, apertando suavemente o ombro de Laurel. Às vezes ele se esquecia como ela parecia frágil diante daqueles tipos de situação. Ainda não haviam tido tempo para conversar sobre o que havia acontecido, e ele tinha noção de que sua mente devia estar fervilhando de perguntas, mas no momento estavam se focando na recuperação de Sara, pois era o que deveria ser feito.
– Ela vai ficar bem, Laurel. Ela é forte, já passou por coisa pior. Acredite. – seus olhos pareciam encorajadores, e até suas palavras, mas Oliver não estava menos preocupado do que ela com a situação de Sara, sobretudo porque se culpava por isso. Ele sentia que poderia ter impedido Slade, mas no fim das contas seus esforços haviam sido em vão e Nyssa ainda o havia matado.
Não que ele estivesse completamente infeliz com isso. Seu lado mais sombrio aprovava a morte dele, no entanto não era esse o tipo de pessoa que queria ser. Não mais.
– Obrigada, Ollie. – ela murmurou, apoiando o rosto em seu peito. Aquele era o tipo de atitude que o fazia quebrar. Uma Laurel completamente frágil e desprotegida. E era exatamente esse o tipo de coisa que ele queria evitar.
– Não se preocupe. – ele lhe beijou o topo da cabeça, exatamente no momento em que Lance passou por eles, dirigindo-se para a mesa de jantar. Ele carregava consigo uma travessa fumegante com algo que cheirava a batatas assadas e molho de laranja.
– Quer ajuda, papai? – Laurel praticamente saltou do sofá.
– Está tudo certo por aqui, querida. – ele abriu um sorriso para Laurel, no entanto ela insistiu e acabou indo até a cozinha para pegar a salada.
– Venha, Oliver, vamos comer.
– Claro. – erguendo-se do sofá, ele caminhou até a mesa do jantar já servido. – Parece que não perdeu seus dotes culinários, Sr. Lance.
– Não posso dizer que estou na minha melhor época, mas ainda não perdi a mão. – ele riu, servindo-se do pato assado.
Oliver compreendia por que Laurel havia relutado em contar para seu pai a respeito de Sara, no entanto ele perguntava se aquela era a melhor decisão a ser tomada. Ele compreendia que Lance estava feliz naquele momento por ter sua vida de volta, por Laurel estar se recuperando do alcoolismo junto com ele e por – até onde ele sabia – Sara estar viva e bem. Ele compreendia totalmente.
– Está uma delícia, papai. Não é, Ollie? – Laurel deu um beijo estalado na bochecha do pai, deliciando-se com a comida.
– Sim, Sr. Lance. Superando todas as expectativas. – o rapaz respondeu, dedicando a ele seu melhor sorriso. Era verdade que a comida estava deliciosa, mas descia como se fosse uma rocha no estômago de Oliver.
– É uma pena que Sara não possa estar aqui conosco essa noite. Ela disse quando retorna, Laurel?
Oliver e Laurel trocaram um olhar rápido.
– Não, papai. Mas assim que ela entrar em contato, eu aviso o senhor. Onde ela está, o telefone não pega.
Lance acenou positivamente com a cabeça.
– Teremos outras oportunidades, eu tenho certeza.
Eles queriam acreditar que sim.
X
Sin ainda parecia estar em choque agora ao lado de fora do hospital, onde ela e Roy se encontravam após terem sido expulsos pelo segurança do local. Ela estava sentada em um dos bancos enquanto Roy andava de um lado para o outro, deixando-a nervosa enquanto tentava ligar para todas as pessoas de sua lista de contatos sem sucesso.
Ela simplesmente não conseguia aceitar aquilo. Sua memória vivida ainda demonstrava uma Sara confusa, completamente isenta de lembrança alguma que fosse. Ela tentou argumentar com os médicos, mas na verdade agora que parava para pensar a respeito, achava que estava histérica e que esse era o real motivo para terem sido expulsos do hospital.
Seu rosto era uma trilha negra de lágrimas e rímel, e ela não sabia mais como respirar sem puxar o ar pelos lábios.
Roy havia tentado acalmá-la nos primeiros dez minutos, mas agora ele parecia realmente preocupado em conseguir avisar alguém.
Por fim, parecendo desistir da tarefa ou tendo conseguido algum sucesso, ele pareceu se acalmar um pouco—pelo menos mais do que ela.
– Eu liguei para o John, ele está a caminho. Disse que ia passar na casa de Felicity, porque ela não me atende. — ele suspirou pesadamente. – Laurel deve ser notificada pelo hospital, e não somos próximos. Oliver também não atende ao celular.
Ele imaginava que num dia como aquele, Oliver deveria ficar colado no celular. No entanto não havia sinal dele desde que haviam visitado Thea. Talvez ele simplesmente não quisesse falar nada sobre aquilo e por isso o estava evitando.
Roy se sentia pelo menos 10 anos mais velho depois daquela cena no quarto. Ele e Sara podiam não ser os melhores amigos do mundo, mas ela era uma parte do Team Arrow, e uma integrante importante da equipe. E, de alguma forma, em algum ponto daquela batalha contra o crime, havia se afeiçoado à ela.
Sim, ele poderia dizer que eram muito amigos.
De cabeça baixa, ele entrelaçou os dedos e respirou fundo. Sin estava ao seu lado, no pior estado possível, e ele sequer sabia o que pensar ou o que dizer para a amiga, porque sabia que Sara era como uma irmã mais velha para ela.
– E se ela nunca mais recuperar a memória, Roy? – o início da conversa partiu dela. Sin não olhava para nenhum ponto em especial. Apenas encarava a rua, esperando que de repente tudo aquilo não passasse de um sonho. Uma mentira.
– Não pense dessa forma, Sin. – ele ajeitou a postura, e passou uma das mãos sobre os ombros dela. – Acho que essas coisas são normais, sei lá. Acordar meio desnorteado. Ela vai ficar bem.
As palavras de Roy não eram muito encorajadoras, mas Sin sabia que ele estava fazendo o melhor que podia. Com tudo o que vinha acontecendo e com a situação atual de Thea, muito lhe admirava que ele não tivesse desmoronado completamente. Ela queria ser tão forte quanto ele, mas na verdade agora se sentia completamente derrotada.
Ia dizer mais algo, mas foi interrompida pelo toque do celular de Roy.
– É a Felicity, eu preciso...
– Tudo bem, atenda. Eu vou lavar o rosto.
Ainda que Roy estivesse preocupado, ele sabia que Felicity era a pessoa que deveria ser informada. Afinal, descobrira há pouco sobre o relacionamento dela com Sara. E ele não iria querer ser o último a ser alertado. Mas também não queria ser o portador dessa notícia.
– Felicity?
– Roy, aconteceu alguma coisa? Achei que estava em perigo, por céus. Você está bem, não está? Foi algo na cidade? Eu posso ajudar? Eu—
– Calma. – ele pediu, interrompendo-a e puxou o ar pelos lábios. Felicity deve ter escutado, porque de repente se calou. – Eu estou aqui no hospital com a Sin. Nós viemos ver a Sara e—
– Ela está bem, não está? – era inevitável interrompê-lo. De repente Felicity sentiu o coração dar uma cambalhota dentro de seu peito. Ela só queria que Sara estivesse bem.
– Ela acordou. – declarou. – Ela está bem, eu acho—quer dizer.... – ele passou uma das mãos pela nuca, nervoso.
– O que, Roy? O que?!
– Felicity, eu sinto muito...
Ela nunca havia gostado daquelas palavras. Nunca.
X
Sara não gostava de hospitais.
Ainda que ela não se lembrasse de mais nada, isso era claro em sua mente, tão claro quanto a cor daquelas paredes brancas que a cercavam.
Seus olhos de um azul intenso brilhavam enquanto ela encarava aquele vazio que também ocupava sua mente por completo. Quando Sin estava de frente para ela, o rosto lhe pareceu estranhamente familiar, como se o conhecesse de algum lugar. Mas antes que pudesse se agarrar à memória, ela havia desaparecido de sua frente.
Ela conseguia se lembrar de coisas e de lugares. Ela ainda sabia como fazer cálculos matemáticos, e possivelmente como manejar uma arma. Ela não havia se esquecido que a água era translúcida, e que seu suco favorito era de morango.
Mas não conseguia se lembrar de mais nada e aquilo era desesperador.
Aquela garota que se identificou como Sin gritou desesperadamente para que se lembrasse dela, de que eram quase-quase irmãs. Ela havia dito outras coisas como o nome Canário, mas nada disso era familiar para Sara.
Quando olhava para as próprias mãos, ela identificava uma série de calos em suas formações, que não condiziam com o seu padrão de beleza, mas examinando o próprio corpo quando o médico fizera uma inspeção geral, ela descobriu uma série de cicatrizes que talvez explicasse uma vida da qual ela era incapaz de se lembrar.
Sara estava assustada, mas quem poderia culpa-la?
Ela tinha apenas flashes de momentos, todos pouco lúcidos e a imagem de uma tempestade que a tragava para um imenso vazio. Não sabia bem o que era isso, mas era desse sonho que havia despertado e a simples imagem dele a sufocava.
No decorrer daquela noite, ela não havia recebido mais visitas, mas também não sabia se as queria.
Havia sido transferida para um quarto – um apartamento – e embora não fosse muito diferente da UTI, a vista da janela era melhor e o lugar era mais silencioso.
Enquanto seus pensamentos vagavam, tentando se lembrar de qualquer coisa de sua vida – qualquer mínima memória – ela ouviu o click da porta se abrir. Inconscientemente, seus músculos se contraíram e ela quis buscar uma rota de fuga, mas permaneceu parada onde estava, as íris intensamente azuladas mergulhando nas pupilas negras. Ela não sabia o motivo de ter aquela reação, mas parecia que estava programada para perceber o perigo constante, ainda que não tivesse nenhuma arma à vista.
Foi naquele momento que seus olhos se cruzaram com aquela pessoa diante de si. Aquela pessoa cuja qual a reação foi de uma paralisia quase imediata. Sara quase podia sentir os músculos dela se contraindo de maneira involuntária, um quase sorriso se formando em seus lábios trêmulos. Ela sabia que aquilo era uma sensação de alívio, mas quando ela cortou o curto espaço entre elas, abraçando-a, sua reação foi simplesmente a de recuar.
– Sara?
Novamente aquele nome. Havia sido o mesmo nome que Sin havia lhe chamado. Sara. Não era tão familiar para ela quanto Canário, mas ela começava a imaginar que deveria mesmo ser o seu nome, embora os médicos nada tivessem dito a esse respeito quando ela perguntou.
A pessoa diante de si tinha cabelos loiros e ligeiramente ondulados, os olhos mais bonitos que Sara conseguia se lembrar e a pele ligeiramente corada como se estivesse febril – o que de fato Sara confirmaria se fosse médica, mas não podia ter certeza naquele momento. Ela tinha traços suaves, e os cabelos estavam presos em um rabo de cavalo que lhe caía muito bem, mas seus olhos pareciam inchados como se tivesse chorado por muito tempo.
– Sou eu, Felicity.
“Como Felicidade?”
De alguma forma, aquele pensamento pipocou em sua mente enquanto a olhava, sentindo um vórtice de emoções a invadir. Ela não sabia o motivo de estar se sentindo assim, mas era quase tão sufocante quanto a sensação daquele sonho, portanto quando ela tentou se aproximar novamente, Sara recuou.
Quando Roy havia dito que talvez Sara não a reconhecesse, Felicity não quis acreditar naquelas palavras. Era doloroso demais pensar que tudo o que haviam vivido no decorrer daqueles meses simplesmente havia se apagado como se nunca tivesse existido, mas quando Felicity a olhou nos olhos, ela sabia que era exatamente isso o que havia acontecido. Ela não encontrou a alegria de sempre, o desejo. Apenas um misto de confusão e desordem, algo semelhante ao caos.
– Sara? – agora sua voz beirava ao desespero. Todos estavam ali, ao lado de fora, e haviam concordado em deixar que Felicity fosse a primeira a vê-la, já que, segundo Oliver, ela havia sido a última pessoa com quem Sara tivera contato. Laurel mal podia esperar para ver a irmã, mas diante do fato de confiar em Oliver acima de qualquer coisa, ela quis acreditar que aquilo era o melhor.
Eles haviam abandonado o jantar no meio, dando uma desculpa qualquer a Lance, mas Laurel não sabia por quanto tempo poderia sustentar aquela mentira.
Sara permaneceu em silêncio por mais algum tempo. Algo nela lhe era familiar, ela achava que era o perfume doce ou os traços. Quando fechava os olhos, aquele cheiro ainda permeava suas lembranças mais doces, no entanto também havia algo sufocante naquilo e Sara não queria se sentir daquela forma agora.
– Me desculpe, eu... não sei quem é você. – ela desviou o olhar.
Até então, Felicity retinha uma doce esperança de que ela se lembrasse. Depois de todas as juras de amor, de prometer que ficariam juntas, ela tinha essa doce esperança que as princesas sempre possuem de que seu príncipe de armadura brilhante nunca se esquecerá do seu amor.
Mas contos de fada não existem e Sara não era nenhum príncipe.
Foi como se uma pedra tivesse se instalado bem no meio de sua garganta e milhares de facas rasgassem-na de dentro para fora. Esses sentimentos tão intensos que Felicity nunca havia sentido por ninguém e pelos quais havia sido tão grata por se sentir tão completa na presença de Sara agora a traíam, dilacerando-a por dentro com a mais sincera tristeza e agonia. Ela nunca pensou que algo tão bonito pudesse ser tão doloroso assim. Seu coração batia descompassado, querendo uma explicação para isso. Ela sabia que havia alguma – lógica e relativa ao trauma – mas sua mente não trabalhava assim agora e por essa razão não conseguiu reprimir o soluço ou as lágrimas.
– Não chore. – Sara pediu e embora não soubesse o motivo, aquela imagem cortou seu coração. Ela quis estender a mão para secar suas lágrimas, mas o choque do contato fez com que se afastasse.
“Ela nem consegue me tocar”
Aquilo foi pior do que tudo, como se de repente um imenso abismo tivesse se aberto entre elas. Sara era um pássaro livre voando para longe e Felicity não tinha asas para alcança-la.
– Eu... – ela mal notou quando as lágrimas começaram a cair. Forçou um sorriso, afastando-se alguns passos.
– Felicity?
Já de costas, a loira parou, sentindo como se uma mão invisível tivesse envolvido seu coração.
– Eu sinto muito.
Aquelas palavras terminaram de dilacerar-lhe. Sua voz era quase indiferente ao fato de que ela estava ali. Talvez Sara realmente sentisse muito, mas sequer sabia o motivo daquilo. Tudo apagado de sua mente de uma maneira tão cruel assim. Felicity não fazia ideia de como era aquela sensação, mas certamente ser a parte que assistia não era muito melhor.
Murmurou alguma coisa, mas provavelmente Sara não entendeu. Quando ela saiu do quarto aos prantos e Oliver tentou pará-la, Felicity apenas disse que queria ir para casa. Com um olhar de compreensão que ele trocou com Diggle e Roy, ele disse a Laurel que a deixaria em casa e ela concordou com isso, dizendo que tentaria falar com a irmã, mas Oliver disse que talvez fosse melhor deixar essa visita para outra hora.
Laurel não entendeu o motivo e queria muito vê-la, mas achou melhor não discutir diante da seriedade das palavras de seu eterno amigo de infância. Ele saiu com as mãos sobre os ombros de Felicity, sentindo o clima pesado que pairava ao redor. Não disse que sentia muito, porque estaria mentindo.
X
O caminho de volta para o apartamento dela foi silencioso. Ele havia ido de moto, mas trocou as chaves com Diggle ficando com o carro do companheiro para que Felicity pudesse ter algum tipo de conforto. Ele sabia que Sara costumava usar a moto e não parecia uma boa ideia carregar qualquer tipo de lembrança sobre ela naquele momento.
Oliver se sentia mal por não estar culpado por isso.
Era óbvio que ele sentia muito por Sara, ela era uma das pessoas que mais amava no mundo e tinha se dedicado para que Felicity estivesse ali a salvo e bem. E saber que ela havia perdido a memória havia sido um choque para todos, no entanto, o egoísmo no fundo de sua mente dizia que agora o caminho estava aberto para ele.
O médico havia dito que a perda de memória em traumas como o que Sara havia sofrido podia ser extremamente normal. As vezes a memória poderia retornar rapidamente, mas as vezes isso poderia demorar anos.
Eles haviam passado por muitos tipos de tortura no decorrer dos anos que haviam passado na ilha e ele não imaginava como Sara podia estar passando por algo assim naquele momento, mas ele pensava que se pudesse apagar tudo aquilo de sua mente, talvez fosse outra pessoa. E talvez Sara estivesse melhor assim.
Ele queria se convencer disso apenas para não pensar que se sentia bem com o fato de ter uma nova chance com Felicity. Na verdade, isso era um pensamento amargo e mesquinho, mas que ser humano não o é?
Quando eles pararam diante do apartamento, Oliver deu um suspiro baixo. Felicity havia chorado silenciosamente durante todo o caminho, sem dizer uma única palavra a respeito do que havia acontecido no quarto, mas Oliver imaginava exatamente o que havia acontecido.
– Obrigada por me deixar em casa. – sua voz saiu embargada quando ela se levantou para sair do carro, mas Oliver segurou a manga de seu casaco sutilmente, puxando-a para si naquele momento.
Quando ele o abraçou, Felicity sentiu o calor de seus braços, e havia se esquecido como aquilo era bom.
Em outros momentos, talvez, ela tivesse se derretido por ele, pois em algum ponto de sua vida o havia amado como a nenhum outro homem. No entanto, Sara havia apagado de sua mente o torpor no qual Oliver a havia colocado por tanto tempo, alimentando a esperança de que poderiam ficar juntos sem que isso nunca acontecesse de fato. Mas ele ainda era seu amigo – o seu melhor amigo – e isso não mudaria. Nem o fato de que aquele abraço pareceu juntar todos os pedaços quebrados que haviam ficado dentro de si.
Sem que notasse, o rio de lágrimas tornou a correr por seu rosto.
– Ela não se lembra de mim, Oliver... – ela disse baixinho, as mãos se fechando sobre o tecido de sua roupa enquanto soluçava. As palavras custaram a sair, mas quando o fez, seu choro se tornou mais alto.
– Eu sei. – ele disse, afagando seus cabelos devagar e aspirando o cheiro deles. Oliver havia se esquecido como era boa aquela sensação e deveria se sentir um canalha por isso. – Mas ela não se lembra de ninguém, Felicity. E talvez, por enquanto, isso seja o melhor para ela.
Ela mordeu o lábio inferior, acreditando que as palavras dele eram uma espécie de encorajamento. No entanto ela não se sentia assim. Uma Sara esquecida e quebrada era pior do que ter apenas uma Sara quebrada que ela poderia consertar.
– Como pode dizer isso, Ollie? – ela nunca o chamava assim, Oliver sabia. E aquilo soou estranho vindo de sua boca.
– Sofremos muitos traumas, Felicity. Traumas severos. – ele murmurou, beijando sua testa suavemente e apertando-a mais contra si. – Eu sei que você tentou ajuda-la, da mesma forma que tentou me ajudar. Mas isso... isso é algo insuportável. Talvez esquecer tenha sido o melhor para Sara.
Felicity nunca havia pensado daquela forma e aquilo foi doloroso em seu coração.
Oliver, no entanto, sabia que aquilo era verdadeiro e mal imaginava o tamanho do amor e da consideração que Felicity tinha por Sara e como a hacker fazia bem à heroína, que vinha se tornando outra pessoa ao seu lado.
A felicidade realmente permeava as duas e como ele havia descoberto isso há pouco tempo não tinha noção disso. Para ele, a intensidade de Sara era algo passageiro como tudo em sua vida. E o sacrifício que ela havia feito por Felicity se devia ao fato de que ela queimava como o fogo e amava como o fogo. Mas isso se extinguiria e restaria apenas a amizade, como havia acontecido com ele e com Nyssa também. Sara era esse tipo de pessoa e não era alguém correto para Felicity ter ao seu lado. Convencer-se disso era bastante fácil também.
– Eu devo ser uma pessoa horrível por não desejar isso, não é? Que ela se esqueça. – um sorriso fraco correu pelos lábios de Felicity. Quando ela olhou para Oliver, ele pensou que jamais havia visto algo tão belo em sua vida. Nem tão triste.
– Não pense assim. – ele disse, correndo os polegares por seu rosto e limpando a trilha de lágrimas deixada por ele. – É normal que queiramos o bem das pessoas que mais gostamos, não é?
Ele tornou a beijar-lhe a testa, mas Felicity pensou que ele não poderia estar mais errado.
Ela não simplesmente gostava de Sara, a amava.
Mas ficou em silêncio sobre isso naquele momento e limitou-se a chorar mais no ombro de Oliver.
X
Sara olhou para a janela por um momento, tendo o vislumbre de uma sombra. Estava escuro, mas ela não conseguia dormir e seus olhos demoraram a se acostumar com a silhueta que havia penetrado ali.
No início ela teve medo, mas uma calma aterradora a invadiu quando aquele rosto se formou diante dela, tão aconchegante e familiar de alguma forma.
– Um passarinho me contou que você despertou.
Um sorriso de moldou em seu rosto, contente com aquele toque que não lhe causava nenhuma sensação de choque, apenas aconchego.
– Eu conheço você?
– Melhor do que você imagina.
O sorriso, o som aveludado de sua voz. Ela sentiu as pálpebras pesarem no momento em que pousou um beijo sobre sua testa.
– Descanse, Ta-Er Al-Sahfer. Você precisa.
Ela concordou com a cabeça, ouvindo-a cantar baixinho. Havia algo extremamente bom naquele canto, naquela voz e, antes que percebesse, Sara pegou no sono, acreditando que daquela vez não teria pesadelos.
Nyssa sorriu. O que quer que tivesse acontecido com Sara, cuidaria dela. Isso era uma certeza.
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