Wanna Play?
25 Legacy
Notas iniciais
“And so I tread the only road
The only road I know
Nowhere to go, but home
Nowhere to go
Maybe our time is up
But still you can't abandon
All the principles of love”
(E então eu ando pela única estrada
A única estrada que eu conheço
Nenhum lugar para ir, só o lar
Nenhum lugar para ir
Talvez nosso tempo acabou
Mas você ainda não pode abandonar
Todos os princípios do amor)
Love is the End – Keane
X
Não havia vida em seus olhos. Apenas aquela escuridão oblíqua, atípica dos olhos vivazes como um céu tingido por aquarela azul. Agora eram poços vazios que tragariam tudo ao seu redor.
Tudo.
− Roy... – Sara tentou chama-lo à luz da razão, mas o sorriso em seus lábios dizia que ele não estava muito propenso a isso.
− Sara?— Felicity chamava pelo ponto. – O que está acontecendo?
A hacker apenas havia escutado sobre a suposta transformação de Roy. Mas não tinham visão do local. Havia se desesperado a princípio quando Sara não lhe respondeu, mas agora escutando a voz dela, ao menos sabia que ela estava viva. E esperava que bem.
− Roy. – Scorpia o chamou. Desta vez, a postura de Roy tornou-se alerta, os músculos firmemente tensionados por baixo do tecido vermelho de sua roupa.
− Sim, minha senhora?
O estômago de Sara se contorceu. Faltava apenas ele começar a treinar reverência.
− Acabe com ela.
Os olhos de Sara se fixaram nos de Roy. Da tubulação, Thea engoliu em seco, os punhos se fechando firmemente. Ele não faria isso, faria?
− Como queira. – Ele estalou os nós dos dedos e partiu na direção de Sara.
Ele faria. Era real. Aquele não era mais o seu Roy.
X
− Droga!— Felicity sentia-se perdida e completamente inútil dali. Noah a observou em um silêncio taciturno e ajeitou o colarinho da camisa social que usava.
− Confia nela? – perguntou ele. Caitlin e Ray sabiamente arrumaram coisas para fazer enquanto o pai de Felicity falava.
A hacker, por sua vez, o encarou com ódio no olhar.
− É claro que confio. – rebateu.
− Então confie. – Noah suspirou. – Ela vai resolver essa situação.
Felicity não queria apenas confiar. Queria estar lá. Queria ajuda-la. E queria ajudar Roy também.
Mas estava de mãos atadas atrás da tela de um computador.
X
Malcolm e John observaram a torre que espalharia todo o gás de Scorpia pela cidade. Tinham vinte minutos quando saíram do esconderijo. Pelo contador do relógio de John agora tinham apenas oito minutos e meio.
Oito minutos e meio para subir, instalar o dispositivo e parar o gás.
Malcolm desmontou da garupa da moto e viu quando dois brutamontes que estavam na entrada da torre relógio voltaram a atenção para ele em suas roupas pretas acompanhado de um homem com uma máscara estranha.
− É melhor você não me atrapalhar. – disse para John.
− É melhor você não me atrapalhar. – O ex-soldado rebateu.
Malcolm apenas sorriu de canto e sacou as katanas das costas.
− Faça seu trabalho e eu me preocupo em fazer o meu.
Partiu para cima dos dois homens que se armavam apenas com as próprias mãos enquanto John partia na direção da torre, subindo para parar aquele gás antes que fosse tarde demais.
X
Eric não sabia o que acontecia lá dentro. De onde estava, não podia ver. Mas achava que aparecer lá naquele momento não amenizaria a situação. Ele precisava aguardar. No momento certo, pegaria Scorpia. E se fizesse isso, teriam uma chance.
Sara era forte. Sara conseguiria.
E ele também.
Era um homem invisível.
Era o Corvo.
X
Os super soldados seguravam Sara com tanta força que ela tinha dificuldade de libertar-se. E Roy avançava em sua direção lentamente, aquele sorriso cheio de maldade pintando seus lábios.
Quando ela havia perdido a memória, sentia-se uma estranha no próprio corpo. Como se os movimentos não fizessem sentido para a sua realidade. Os saltos elaborados, a elasticidade, os reflexos super apurados. E a cabeça enevoada, incapaz de reconhecer rostos ou vozes por mais que se esforçasse.
E havia o instinto assassino.
Era como um grito no vazio, a consciência sentada em seu ombro que sussurrava baixinho em seu ouvido como deveria agir e o quê deveria fazer.
Parecia simples para Sara.
Avançar e matar, avançar e matar, avançar e matar.
Se não fosse por Nyssa, provavelmente teria assassinado metade de Starling City naquela época. Mas ela a ajudou a compreender suas habilidades e a dominar aquele instinto. Aquele instinto...
E talvez fosse assim que Roy se sentisse naquele momento.
Eram três.
− Três contra um. – disse Sara. – Parece bem equilibrado para mim.
Scorpia apenas sorriu com a ousadia da heroína, desacostumada a ser desafiada desde que havia assumido o posto de rainha do submundo das drogas. Ela não sabia mesmo com quem estava falando.
− Pode se divertir um pouco, querido. – disse para Roy, que apenas olhou de soslaio em sua direção.
− Claro.
A malícia era palpável em sua voz.
Sara esperou pacientemente enquanto ele se aproximava.
Então, dois tiros irromperam da escuridão. As flechas eletrocutadas atingiram os super soldados que caíram eletrocutados com uma voltagem alta. Direto no peito.
Sara não quis olhar. Ela apenas aproveitou-se da distração de Roy e dos braços livres para agachar-se.
− Roy. – chamou. Quando o rapaz voltou-se em sua direção, Sara abriu um sorriso pequeno. – Sinto muito.
Com o corpo flexionado, Sara deu um mortal para trás, a ponta da bota atingindo o queixo de Roy com toda a força fazendo-o voar para trás. O facão bem aplicado poderia ter deixado qualquer homem inconsciente. Do chão, seus olhos observavam a figura encapuzada que havia surgido segurando o arco. Os olhos de Sara também se voltaram naquela direção.
A boca de Scorpia formava um ‘o’ ao ver que seus soldados continuavam inertes no chão.
− Você... – Sua voz perdeu-se por um momento enquanto a silhueta vestida de verde saltava do local onde estava para o chão.
− Voltei por você. – disse ela. – Voltei porque precisava de mim.
X
Os homens nem tiveram a chance de saber o que os havia atingido. Eles podiam ser super soldados, um pouco mais resistentes e mais fortes do que homens normais, mas ele era Al Sa-her. E não era qualquer um que poderia derrubá-lo.
Ele desconfiava que ninguém jamais poderia.
Quando olhou para o relógio digital, viu que tinha menos de dois minutos para subir a torre. Se fosse pelas escadas, jamais chegaria a tempo, então preferiu a praticidade de simplesmente atirar uma flecha no topo da torre e içar-se para cima.
O cheiro do veneno lá já era forte, e Malcolm cobriu o rosto com o tecido de sua máscara, puxando-a para cima de modo que aspirava quantidades mínimas dele. Encontrou John agachado diante do dispositivo, praguejando algo.
− O que foi? – Aproximou-se até ficar pareado com o homem negro.
− Não está funcionando, cara! Não está funcionando! – disse para Felicity através do ponto.
X
− John disse que o dispositivo não funciona. – Felicity havia se preocupado tanto com Sara que deixara o outro lado da missão nas mãos do pai. Mas sequer pensou que ele poderia traí-la. Ele seria capaz? Depois de dizer que queria se aproximar? E ela seria tão ingênua?
− Funciona. – rebateu ele. – Vai impedir que o gás saia de lá. Mas parece que há algo errado. – Noah estreitou os olhos.
− Você é o que há de errado! – Felicity finalmente explodiu. – O que fez com o dispositivo de Ray?! Esteve aqui esse tempo todo apenas para caçoar de mim? Para me fazer de idiota enquanto eu tentava acreditar que queria se aproximar?!
− Felicity, eu não fiz isso! – Noah jamais achou que palavras pudessem ferir, mas naquele momento, sua garotinha o atingia em cheio. – Sei que tem todos os motivos do mundo para não acreditar em mim, mas estou aqui por você. Poderia ter acabado com essa cidade, mas decidi ajuda-la. Porque quero me aproximar de você. Quero fazer parte da sua vida.
− Eu testei o dispositivo, Felicity. Esse não é o problema. – Ray resolveu se intrometer. – Escute.
E ela escutou. Mesmo que não tivessem tempo, ela escutou.
X
− Havia um homem na escada. – John suspirou, sentindo o peso daquilo atingi-lo como um raio prestes a parti-lo no meio. – Eu tive que enfrentá-lo, mas ele me pegou desprevenido. Deve ter avariado o dispositivo. Que merda!
Malcolm, no entanto, não perdeu a calma. Ele retirou o pequeno frasco do bolso e coletou uma parte do gás que já extravasava. E entregou a John.
− Tenho uma ideia. – disse ele. – Leve isso para a cientista. Ela disse que precisaria para a cura, não é?
− Não vou entregar o destino da cidade nas suas mãos. – John trincou os dentes.
− Você já estragou tudo, não é mesmo? – Malcolm debochou. – Deixe que eu conserte a merda que você fez.
− Desgraçado! – John partiu para cima de Malcolm para imprensá-lo contra a parede, mas o assassino esquivou-se com facilidade.
− Quando você sonhava em entrar para o exército, eu já assassinava homens. – disse ele, prendendo-o contra o chão com o joelho firme em suas costas enquanto segurava ambas as mãos de John. – Mas não tenho tempo para discutir isso agora. Pegue a droga do gás e saia. Eu não me importo com essa cidade. Poderia queimá-la por inteiro. Matar cada pessoa imersa nesse gás e em desgraça. Mas a minha filha está aqui. E eu não vou permitir que isso aconteça com ela.
John sentia-se, acima de tudo, humilhado.
− Deixe que ele aja, Espartano.— Felicity disse através do ponto. Não acreditava nas próprias palavras. Mas havia visto o olhar de Malcolm para Thea. E tudo o que ele havia feito por ela. Ele estava falando a verdade.
− Observadora... – John tentou alertá-la.
− Tem uma ideia melhor? — Felicity foi dura nas palavras. Não o culpava, mas aquele erro poderia custar toda a operação. Fazer com que tudo fosse em vão. – Tem menos de 40 segundos, Malcolm.
− É o suficiente. – O assassino sorriu. – Tire esse seu traseiro de soldado americano daqui e me deixe trabalhar. Pode descer pela corda que vim.
− E você?
Malcolm apenas sorriu.
− Vou fazer um show de mágica acontecer.
Ele disse mais algo para John. Algo que Felicity não foi capaz de ouvir.
X
Roy se levantou ao ver Thea ali. Ele não podia ver seu rosto através da máscara, mas sabia que era ela. E seu coração doía por isso. Tudo veio de vez, todas as coisas ruins que havia feito. E como não era merecedor dela.
Mas Thea avançou em sua direção e o abraçou, arrancando uma exclamação indignada de Scorpia.
− O que pensa que está fazendo?! – questionou ela. – E quem é você?!
Thea não lhe deu atenção, mas Sara deu um passo adiante.
− Ela é a esperança que renasce das adversidades. E vai trazê-lo de volta para nós. – Sara respondeu. – Acabou, Scorpia. Desista.
− Isso está apenas começando. O meu gás destruirá essa cidade e vocês estarão em ruínas antes que isso acabe! – O olhar dela. Sara reconhecia-o de tantas outras pessoas. O olhar ensandecido que vira em tantos membros da Liga. No próprio R’as Al Ghul.
− Me perdoe. – murmurou ele baixinho. – Senti tanto sua falta. Quis tanto estar com você. E só fiz besteira. Eu estraguei tudo... – Roy envolveu a cintura de Thea com os braços fortes. Sentiu seu cheiro, perdeu-se nele...
− Está tudo bem agora. Eu estou aqui. Vai ficar tudo bem. – Tranquilizou-o.
− Isso está longe de estar bem. – A mulher estreitou os olhos e tirou uma arma da cintura apontando-a naquela direção.
Sara arregalou os olhos, vendo a cena acontecer em câmera lenta. Estava longe demais. Não tinha mais penas para atirar. Lembrou-se de Oliver, da promessa que havia feito a ele. Pensou em tudo o que havia acontecido para aquela garota tão forte chegar até ali.
− THEA! – Sara gritou. Não apenas um grito, mas o grito potente de seu dispositivo. Tarde demais. O estampido da arma havia sido abafado. Mas não o tiro.
Scorpia estava ao chão, o corpo de Eric recobrindo o seu enquanto o garoto a aprisionava. Ela gritava, mas seus ouvidos eram incapazes de captar qualquer coisa. Não havia nada. Apenas a expressão de Sara. Apenas aquela cena horrível que se desenrolava. E sangue. Sangue demais.
X
Felicity ouviu o tiro e o grito de Sara e se desesperou. Da última vez, havia sido na perna. Mas e agora? Ela tinha medo de perguntar. Medo de dizer qualquer coisa.
Ouvia apenas o silêncio.
Silêncio que perdurou menos de cinco segundos antes que uma explosão deixasse o ponto de John mudo.
O desespero a permeou por todos os lados.
Não iria chorar. Estava tudo bem. Confiava nela. Confiava em sua equipe. Não iria chorar.
Mas estava desabando por dentro.
E quando seu pai segurou a sua mão no único gesto de conforto que podia oferecer enquanto Caitlin e Ray se abraçavam, ela não o repudiou. Apenas pediu a Deus para que todos eles estivessem bem.
Para que, por favor, todos eles estivessem vivos e bem.
X
Sangue.
Era sangue demais.
Da última vez que Sara vira tanto sangue, havia sido quando tinha matado alguém sem experiência alguma.
O sangue extravasa, voa para todos os lados. Quando você atinge uma artéria principal, ele respinga em todas as direções. Não há como contê-lo. Como um único tiro poderia fazer um estrago tão grande?
− Roy! ROY! – Thea sentiu o corpo do namorado tombar sobre o seu e segurou-o entre os braços, ajoelhando-se com ele. – Por favor, não faça isso... não faça isso...
− Cheguei tarde demais. – Os olhos de Eric eram a total ausência de luz enquanto ele pressionava o corpo de Scorpia contra o chão. A mulher mal conseguia respirar. – Sinto muito.
− Você fez o seu melhor. – Sara não estava ali para amenizar nada. Ela poderia ter agido antes? Deveria ter previsto algo assim? Não sabia. Em uma batalha, todos sempre estão em risco. Ela não sabia o que dizer enquanto via Thea pressionar o ferimento com ambas as mãos, o sangue extravasando do peito de Roy.
Se a roupa que ele usava fosse feita de kevlar... não. Aquela não era uma bala comum. Era por isso que sangrava tanto. Bala dumdum. De ponta oca. Roy já estava morto. Mesmo que seu coração batesse. Sara não tinha dúvidas disso.
− Roy... – As lágrimas de Thea tocaram o rosto do rapaz. Ele estendeu uma das mãos sentindo o sangue preencher a própria boca.
− S-sinto muito... – Ele também chorava. Não pela dor. Não pelo desespero da morte iminente—não era burro o bastante para acreditar que aquele ferimento não era letal.
− Não sinta... não fale nada. Vamos cuidar de você. – Ela olhou ao redor, até encarar Scorpia. – Faça alguma coisa! Conserte ele!
Um riso seco escapou dos lábios de metal da mulher. O clink! causava uma sensação incômoda especialmente quando ela gargalhava.
− Conserte ele.— repetiu ela. – Como se fosse uma máquina. Uma peça quebrada. Vocês são tão engraçados. – Scorpia não conseguia parar de rir.
− Amo você. – Roy disse. – A... amei desde o primeiro instante. O verde... a esperança... ela combina com você, Thea. Não a abandone. Lute... viva. Você é forte.
− Não... eu não quero, Roy! Não quero! – Thea jogou o corpo sobre o dele, chorando copiosamente, apertando-o contra si. Roy arfou.
− Precisa continuar... precisa, Thea... é o seu legado. – Roy cuspiu sangue, apertando o peito enquanto o corpo lutava para sobreviver. – Ajude ela, Sara...p..or...f..av..or.
Sara sentiu o choro travar na garganta e cerrou os punhos com força. Mas as lágrimas correram livres por seu rosto, descendo por baixo da máscara. Ela se manteve ao lado dos dois, apenas uma sombra telespectadora do fim.
− Sempre estarei aqui por ela, Roy. Sempre.
Através do ponto, ela ouvia o choro desesperado de Felicity que sequer podia ver nada. Talvez fosse melhor assim. Sua doce Felicity não suportaria ver o melhor amigo padecer assim.
− P..od..em me per..doar? – Os olhos de Roy perdiam o brilho conforme falava. Mas agora olhava para Sara, que se agachou ao seu lado e segurou sua mão, sussurrando para a noiva um breve ‘ele está falando conosco, Fel’.
− Não precisa pedir perdão por nada. – Sara abriu um sorriso para ele e tirou a máscara, de costas para Scorpia, para que Roy visse seu rosto uma última vez. – Estamos aqui por você. Até o fim.
Ele anuiu com a cabeça.
− Felicity...? – Roy chamou baixinho. Sara acoplou o próprio ponto no ouvido dele para que pudessem conversar.
− Não me peça perdão depois de tudo o que fez por mim. — disse ela, a voz incapaz de disfarçar o choro. – Não me peça perdão por ter sido uma pessoa maravilhosa para mim. A única pessoa que me ajudou quando tudo desabava ao meu redor quando Sara perdeu a memória. Não me peça perdão depois de ter carregado sozinho o fardo de estar doente, o fardo dessa cidade, o fardo de Thea... quando eu deveria estar ali por você. É claro que cuidaremos dela. E de Sin também.
Sin.
Ela jamais o perdoaria. Sara pareceu compreender.
− Ela está bem. – Sara murmurou, sentindo o aperto de Roy fraquejar um pouco. – Está morando com Laurel e trabalhando com ela. Voltou a estudar. Ela... é incrível, Roy. Vamos cuidar dela. Eu prometo. – Uma promessa a qual Sara apenas reforçava.
Thea se desmanchava em lágrimas.
− Amo você. – ela disse baixinho.
Roy apenas sorriu fracamente quando ela inclinou-se sobre ele e beijou seus lábios, sentindo o gosto do sangue ao fazê-lo. Quando afastou-se, sentiu que o coração dele não batia mais.
Roy Harper estava morto.
X
Não havia palavras para a sucessão de acontecimentos depois daquilo.
Felicity garantiu que Quentin Lance fosse o primeiro policial a chegar no local. Junto com um pelotão especial, eles invadiram e liquidaram os poucos soldados que restavam. Sara, Thea e Eric haviam escapado do local—Thea precisou ser carregada por Eric enquanto Sara levava o corpo de Roy. Mas quando realizavam a fuga, os policiais os encontraram.
E viram o corpo de Arsenal.
O silêncio atingiu a todos. Inclusive um certo loiro disfarçado que havia escutado assim que colocou os pés em Star City o que estava acontecendo. Ele não se moveu de onde estava quando viu o corpo de Roy sendo carregado por Sara. Até que um policial tentou erguer a arma. Mas Quentin fez um sinal para que ele não se movesse, embora Oliver estivesse pronto para desacordar o policial.
− Se atirar em qualquer um deles, oficial, considere-se morto. – A voz dele, trêmula e séria ao mesmo tempo, expressava tudo o que sentia. O policial abaixou a arma. – Oficiais, saúdem-no!
Todos os policiais, sem exceção, bateram continência. Não estavam devidamente vestidos, com as fardas completas, mas reconheciam em Roy a bravura de um herói que havia morrido em serviço. Um corredor foi formado e Sara passou carregando o corpo dele, com Thea a tiracolo de Eric, que usava uma máscara improvisada. Sara reconheceu-o entre a multidão, buscando Nyssa com os olhos, mas sabia que ela deveria estar escondida em algum lugar não muito distante.
Enquanto passavam para sair dali, ela a observou no topo de um casebre, apontando uma flecha na direção do oficial que a ameaçara. Apenas trocaram um olhar.
Não havia palavras para aquele momento.
X
Felicity soube exatamente o momento em que Roy parou de respirar, pois tudo havia se silenciado. Ela não sabia o que havia acontecido com Malcolm e John. Não sabia se eles estavam bem. Sequer se estavam vivos.
Tudo o que ela sabia era que doía. Doía feito o inferno.
Ela tinha noção de que Sara lhe falava algo através do ponto poucos minutos depois. Sobre como sair dali sem que a polícia os atalhasse, pois ela os havia acionado—mais especificamente Quentin—para que ninguém escapasse.
Felicity não conseguiu dizer nada e Noah estava ocupado tentando resolver o outro lado da missão. Sara seguiu o caminho que a levou direto para a polícia. E depois apenas murmurou que estavam retornado par ao QG.
Em algum momento de seu estado de choque, Felicity se deu conta de Ray a afastando dos computadores, de Caitlin conversando com alguém e de seu pai a abraçando.
Ela queria dizer que não queria aquele abraço.
Mas queria.
Seu melhor amigo estava morto.
E ela não sabia como processar essa informação.
X
Tudo o que Sara enxergava se resumia ao preto e branco. Ela não conseguia encarar a própria irmã. Ela não conseguia pensar em nada naquele momento. Apenas em Felicity.
Por isso, voltou para o QG.
O silêncio taciturno do ambiente chegava a ser incômodo. Ela apenas sentia como se seu coração tivesse sido esmagado no momento em que Roy parou de respirar.
Quando chegou ao esconderijo embaixo do Verdant, viu rostos conhecidos e aquilo lhe trouxe certo conforto. Catilin murmurou um “ela está ali com o pai” e Sara apressou o passo até o local onde Oliver havia deixado uma cama de armar que permanecera lá desde então.
Noah ergueu o rosto ao ver Sara se aproximando. Acariciava os cabelos loiros de Felicity, que permanecia com a cabeça deitada em seu colo, chorando baixinho. Ele percebeu então que aquele momento não era mais dele quando a atmosfera mudou. Como se Sara carregasse consigo alguma espécie de aura protetora para com sua filha. E ele sabia que ela a faria feliz.
− Fel, ela chegou. – Noah murmurou baixinho em seu ouvido. Somente naquele momento, Felicity ergueu o rosto inchado de tanto chorar. Mas ao ver Sara, as lágrimas retornaram e ela recomeçou o choro.
− Tudo bem. – Sara disse, sentando-se ao seu lado e abraçando-a. Sequer havia tirado a roupa. Apenas a máscara foi deixada de lado. – Coloque para fora. Não prenda o choro ou você não consegue respirar.
− Ele se foi, Sara... ele se foi... – ela murmurou baixinho. – Cheguei a pensar... cheguei a pensar que havia sido você...
O choro tornou-se mais alto, mais intenso. Todos decidiram respeitar a privacidade das duas. Noah finalizou os sistemas, pois não havia mais nada a ser feito. Caitlin e Ray foram para a Palmer Tech trabalhar no antídoto, incapazes de oferecer algum conforto. Thea sequer havia descido e Eric a observava. John foi embora sem ser notado por ninguém.
− Ei, ei... – Sara segurou o rosto dela com ambas as mãos. – Eu prometi a você, não prometi? – perguntou ela. – Que nunca mais te deixaria outra vez.
Felicity acenou com a cabeça, mordendo o lábio inferior. Não conseguia conter as lágrimas. Não conseguia parar de chorar. Sentiu o abraço protetor de Sara envolve-la novamente e escondeu a cabeça em seu peito. A heroína apoiou o queixo sobre a cabeça da noiva, sentindo as lágrimas correrem por seu próprio rosto.
Roy Harper estava morto. Morto.
X
Roy havia lhe dito que o verde era a sua cor porque ela representava a esperança. Mas Thea não se sentia nada esperançosa quando John aproximou-se dela. E ouviu tudo o que ele tinha a dizer. E não conseguiu processar suas palavras.
“Sei que foi a meu pedido que vocês vieram aqui, então não é fácil falar o que tenho para dizer sabendo o que você está passando. Seu pai... ele ficou para trás para parar o gás, Thea. Houve uma explosão. Ele me pediu para dizer que... você foi a esperança que o fez enxergar o mundo de outra maneira. E que ele a amava. Incondicionalmente. Eu sinto muito. Falhei com você."
Se Eric ouviu algo, soube disfarçar muito bem. Thea queria apenas manter-se abraçada ao corpo morto do namorado, mas foi impedida de fazer isso. Ray disse que cuidaria dos preparativos para o velório—Caitlin garantiu que não seria nada exagerado desta vez.
− Eu não preciso de uma babá, sabe? – Ela disse, olhando-o de soslaio. – Pode ir embora se quiser.
− Estou bem. – Garantiu Eric. Não era como se tivesse para onde ir, embora imaginasse que a notícia de dizer a Laurel e Sin que Roy estava morto ficaria sob sua responsabilidade.
Thea soltou um riso nasalado.
Malcolm Merlin era O Mago. O homem que podia atirar cinco shurikens de uma vez e atingir o mesmo alvo no mesmo lugar em todas as cinco vezes. O homem que havia assassinado um sem número de pessoas que havia se colocado em seu caminho. O seu pai.
Ele não estava morto.
Thea caminhou para o lado de fora, sentindo a brisa atingir seu rosto. Foi quando o viu. Vestido de policial, parado diante da entrada do Verdant.
− Thea. – Oliver a chamou. Ela reconheceu a mulher ao seu lado como a ex-namorada de Sara, mas não deu atenção ao fato. Uma espécie de euforia a envolveu ao ver o irmão e correu para os braços dele, envolvendo-o.
Poucas horas atrás, fizera o mesmo com Roy.
O choro veio imediato, como das vezes em que ela ralava o joelho e Oliver vinha socorrê-la.
− Ollie, ele... – Thea mordeu o lábio inferior. Não conseguia dizer.
− Eu sei. Sinto muito. – Oliver a apertou em seu abraço.
Nyssa acenou com a cabeça para o rapaz vestido de preto. Ele a cumprimentou de volta e montou em uma das motos.
Estava na hora de fazer sua parte também.
X
Eric teve receio de bater na porta de Laurel, mas quando o fez, não recebeu o tapa que estava esperando. Ela o abraçou, sabendo de tudo o que havia acontecido através de seu pai.
Eles conversaram brevemente e Eric deu um relato mais apurado de tudo o que havia acontecido enquanto observavam Sin adormecida no sofá. Ela havia chorado até pegar no sono, Laurel lhe dissera.
Eric não notou que o alvorecer começava a pintar o céu em tons alaranjados até que Laurel lhe chamou para o telhado.
− Quase bebi por sua causa. – disse ela. – Ia me entregar, desistir completamente quando Sin apareceu. Ela não me deixou desistir. – Soltou um riso fraco e acendeu um cigarro. Não era um vício seu, sequer gostava daquilo. Mas sentia que precisava de algo naquele momento ou ficaria louca. Eric não a julgou e aceitou um cigarro quando ela lhe ofereceu, acendendo-o em seguida.
− Eu disse que não era digno disso. – Eric abaixou o rosto, debruçado sobre a sacada enquanto olhava para baixo.
− Exceto que você é. – Laurel mexeu nos cabelos, nervosa. – Pensei tanto nisso, Eric. Tanto. E quis te matar. Quis acabar com sua raça e fiquei com raiva... porque eu te amo. E então você mergulha de cabeça com a minha irmã para salvar um amigo nosso e percebo que estou perdidamente apaixonada por você. Porque quando meu pai apareceu aqui... quando ele falou... achei que pudesse ter sido você. E então ele falou sobre Roy e... me senti aliviada de certa forma. Porque você e Sara estavam bem. Isso me devastou, porque Roy... ele foi um amigo especial. Ele foi importante para Sin e Sara e eu estava começando a conhece-lo e me senti horrível. Sou uma pessoa horrível, Eric. Não você. Você errou. Poderia ter me procurado e eu teria ajudado. Mas estou disposta a te perdoar. Porque a vida é pequena demais e eu não quero te perder.
Eric não sabia o que dizer diante daquela declaração. Então a beijou.
X
Oliver havia levado Thea para casa junto com Nyssa. Não foi surpresa nenhuma para os empregados verem o Sr. Queen voltar sem nenhuma explicação. As contas continuavam se pagando e isso era tudo o que importava para eles.
O dinheiro já teria acabado há muito tempo se ele não fosse casado com Nyssa Al Ghul agora e fosse o próprio R’as Al Ghul.
Estavam em seu antigo quarto depois que Thea havia pegado no sono e Oliver se sentira tranquilo o suficiente para sair do lado dela. Nyssa saiu do banheiro da suíte apertando o roupão de seda preta que havia encontrado em um dos closets.
Oliver estava na sacada, de costas, e ela aproximou-se, pensando se deveria abraça-lo ou não, mas optando por fazê-lo. Eram casados agora. E ele estava passando por um momento difícil que ela não era totalmente capaz de compreender.
Aspirou o cheiro dele, o perfume familiar que a agradava. Oliver pressionou os dedos fortemente contra a barra da sacada do quarto.
− Ele era meu pupilo. – ele disse. – Me pediu insistentemente para treiná-lo e eu neguei tantas vezes. Tantas vezes. Até que o aceitei. Não sei bem como aconteceu, não consigo me lembrar. Mas de repente, ele era o meu suporte. E se transformou em um herói.
Nyssa não sabia o que dizer, então apertou um pouco mais o abraço, distribuindo beijos nas costas nuas do marido, em cada cicatriz deixada ali por uma batalha diferente.
− Acha que teria feito diferença se eu tivesse chegado a tempo? – Oliver perguntou.
− Acho – Nyssa virou-o em sua direção, enlaçando sua cintura. – que pensar nisso apenas causará tortura à sua mente. Acho que se Sara estava lá e não conseguiu remediar a situação, você também não conseguiria. Confia nela, não confia?
Não era uma pergunta que soava como acusação, apenas um fato. E Oliver confiava. Confiaria sua vida à Canário. E ela tinha razão. Nyssa sempre tinha razão, ele aprendera.
− Com todo o meu coração. – ele respondeu, depositando um beijo suave em seus lábios. Não sabia dizer quando havia aceitado aquela situação, mas os dois estavam bem. Oliver sabia que ela não havia esquecido Sara, mas tampouco ele superara Felicity ainda. O processo de cura seria lento.
Ela anuiu com a cabeça. Sabia que Oliver não estava bem, mas não sabia como consolá-lo. Nesse sentido, ainda estava aprendendo. E demoraria um pouco. Sara havia lhe ensinado como amar. Oliver estava lhe ensinando como ser humana.
− Venha, esposo. – Nyssa o puxou pela mão. – Vamos nos deitar.
Oliver não resistiu aos desejos carnais da esposa. Entregou-se a isso para esquecer da dor. Ainda que momentaneamente.
X
Felicity havia adormecido em seus braços e Sara não quis tirá-la dali, ainda que a posição tivesse deixado seu ombro dormente e o braço dolorido. Ela havia repassado a cena milhares de vezes na própria cabeça, tentando encontrar uma brecha, tentando saber se havia algo que poderia ter feito.
− Não havia. – A voz de Felicity tirou-a de seus devaneios. – Não havia nada que você pudesse fazer, Sara.
Ela a conhecia tão bem.
− O que me denunciou? – Sara perguntou.
− O seu coração. – disse ela. – Ele dói.
Sara anuiu, apertando-a contra si.
− Sinto muito por não ter conseguido salvá-lo, Fel. – murmurou, a voz rouca. Felicity sentiu que ela prendia o choro.
− Você fez tudo o que estava ao seu alcance, mas ele decidiu... decidiu salvá-la, Sara. – Felicity ergueu o rosto para encarar a noiva. – Quem sabe o que ele estava passando? A dor que sentiu? Você ouviu aquele grito. Aquilo... não era humano.
Ela não falava de Roy, mas do processo, Sara sabia. E concordou com a cabeça, apertando-a mais contra si.
− Ele deixou um legado para trás. – Sara disse. – E vamos honrá-lo.
Felicity concordou com Sara. Não sabia mais o que dizer. Ainda não sabia como passar por aquela dor. Mas passariam por aquilo juntas. Disso tinha certeza.
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