Wanna Play?

8 Laços de Sangue


Notas iniciais
Primeiramente peço desculpas pela demora, mas explicarei tudo nas notas finais. Curtam aí esse capítulo e se preparem para ver um lado mais familiar!

“Amar é destruir. E ser amado é ser destruído.”

Jace — Cidade das Sombras

X

Foram treze horas de uma cirurgia longa e complicada. Segundo os médicos, Sara havia tido sorte de não ter nenhuma lesão mais grave, mas até que ela acordasse, eles não sabiam, de fato, o que poderia acontecer. Durante aquele período, Laurel e Felicity haviam permanecido na recepção, tardiamente acompanhadas por Oliver e Diggle.

“Ela ficará na UTI no dia de hoje, apenas por precaução. Geralmente quando pacientes têm um acidente tão grave quanto o que ela teve, nós fazemos isso por garantia. A família poderá entrar pra visitar, mas só a família.”

Era já por volta das dez da manhã quando Laurel se levantou.

– Eu tenho um caso agora, infelizmente não posso cancelar a audiência ou pedir outro advogado já que sou a promotora principal. Além disso... eu não tive coragem de contar ao meu pai por telefone, então farei isso pessoalmente. Obrigada... pelo apoio. – ela disse baixinho para Felicity e deu um sorriso para a garota. Nunca haviam sido amigas, mas lhe admirava a preocupação dela com Sara.

– Não precisa agradecer. Sara é minha amiga também, Laurel. – ela sorriu de volta, os olhos cansados da noite insone.

Laurel acenou com a cabeça e se aproximou de Oliver, dando um abraço apertado no amigo.

– Conversaremos depois sobre isso. – ela disse, lhe dando um beijo no rosto. – Se cuide, Ollie.

– Certo, você também. Quer que eu te acompanhe até o tribunal?

– Tudo bem, posso ir sozinha. Mas gostaria que estivesse lá quando eu for falar com meu pai. – ela disse, agora meio insegura da reação de Lance.

– Certo, eu te encontro quando sair.

Laurel acenou com a cabeça e despediu-se de Diggle, enquanto saía do hospital.

– Eu também preciso resolver algumas coisas, aproveitarei o tempo antes do tribunal. Vocês dois deveriam descansar. Eu pedi ao Roy que fizesse a ronda da madrugada, então agora ele deve estar descansando. Mas eu devo encontra-lo logo.

– Vai até lá? – Diggle perguntou.

– É... preciso. – Oliver suspirou e aproximou-se de Felicity. – Ela vai ficar bem, Felicity. Vá pra casa. Daqui você não poderá fazer muita coisa por ela.

Era isso o que mais doía, Felicity pensou. Não poder fazer nada. Se Sara fosse um computador, poderia consertá-la. Mas era um desastre com pessoas.

– Eu sei, mas queria ficar mesmo assim. – ela murmurou num muxoxo.

– Felicity... descanse. Assim poderá vê-la em breve, quando ela sair da UTI.

Ela suspirou, exasperada, mas concordou.

– Tudo bem, eu irei.

Afinal, ainda havia coisas que queria resolver.

X

Quando Felicity pisou em seu apartamento, nunca o sentiu tão vazio como naquele momento. As coisas iam de mal a pior e agora com Sara internada tudo o que conseguia era sentir a culpa que lhe consumia. Se ela não fosse fraca... se não fosse frágil... e era tudo sua culpa.

Fechou os olhos, jogando-se no sofá e retirou os óculos. Sua cabeça latejava de dor pela falta de sono, mas ela não queria simplesmente dormir—fato é que estava elétrica apesar de tudo. E agora que havia parado, ela sentia as palavras de Slade retornarem, mesmo que a preocupação com Sara ainda fosse sua prioridade.

(Existe um cara com quem trabalhei há alguns anos... seu nome era Steve. Ele não era excepcional como você, Srta. Smoak, ele era perfeito)

Ela quase podia ouvir a voz de Slade sussurrando isso em sua mente. Podia sentir o cheiro de álcool que o impregnava e aquilo lhe causou náuseas. Ela não sabia muito sobre o pai além do que a mãe já havia lhe contado. Só sabia que ele era uma pessoa excepcionalmente inteligente, que havia herdado esses genes dele—sua mãe dizia que não eram nada parecidas—e que ele a havia abandonado. Portanto, bem, ele não estava na lista das pessoas que mais desejava conhecer. No entanto o fato de minimamente ter alguma ligação com Slade a incomodava, mesmo que essa ligação pudesse não existir mais.

Sua mãe pouco falava nele, o que a fazia acreditar no quanto ele havia feito ela sofrer. Apesar das diferenças que Felicity tinha com a mãe, a amava. Jamais aceitaria de braços abertos um homem que nunca a havia ajudado para nada. Ela havia dado um duro danado para cria-la e só de se lembrar disso, Felicity sentia um aperto no peito. Tinha muito tempo desde sua última ligação com ela, e sentiu um nó na garganta. Antes que percebesse o que estava fazendo, já discava seu número ouvindo o som da chamada ecoar.

“Alô?”

– Mãe? – sua voz saiu rouca, chorosa, mais do que ela desejava. Não queria chorar mas se sentia devastada naquele momento. Queria falar com alguém.

“Docinho, é você?” – Felicity podia ouvir o barulho alto no fundo, barulho de carros e buzinas. O trabalho de sua mãe era em uma lanchonete bem no centro da cidade e, não importava a hora do dia, estava sempre movimentado. A despeito de Felicity ter uma condição melhor para ajuda-la ela nunca havia largado esse emprego. Como Felicity desejava que sim.

– Sim, mãe. A senhora está bem? – ela engoliu o choro, não queria trazer a ela preocupações desnecessárias, mas seus olhos ardiam e queriam chorar. Ela queria colocar tudo para fora.

“Claro, estou bem! Tem tanto tempo, querida, o Ben acabou se mudando, sabe, mas não estávamos dando muito certo. Além disso, eu estava pensando em te fazer uma visitinha, Fel. Fel, está tudo bem?”

As lágrimas vieram antes que pudesse freá-las, e Felicity não era exatamente o tipo de pessoa que tinha um choro silencioso, muito pelo contrário. Ela era aquele tipo de pessoa que não chorava por nada, e isso fazia com que acumulasse todos os sentimentos ruins para liberá-los de uma única vez. Era assim que se sentia agora ao ouvir a voz de sua mãe, uma voz que, apesar de estridente e irritante, era tudo de que precisava agora.

“Fel, o que houve?”

– Mãe... mãe, ela está no hospital. A culpa é minha. – sua voz se perdia em meio às lágrimas e às buzinas. Havia muita gritaria dos fregueses do outro lado da linha.

“CALEM A BOCA, ESTOU FALANDO COM MINHA FILHA!”

Foi como se até o barulho da rua cessasse. Por um momento Felicity achou que o telefone havia ficado mudo, mas logo ouviu a respiração pesada de sua mãe do outro lado da linha. Ela estava ali, ela estava lhe ouvindo chorar. E Felicity nunca seria tão grata a ela quanto naquele momento.

“Eu estou aqui, Fel. Me diga o que houve.”

– Um acidente no meu trabalho. – um soluço ecoou pela linha. – Fui sequestrada, minha amiga foi me resgatar—

“—você o quê?!” – A mãe de Felicity só escutou a palavra sequestro. Tudo o mais não era importante. Mesmo a amiga de Felicity havia perdido o significado. Ela não sabia quem era, mas para sua filha estar naquele estado deveria ser importante, e ela sabia que sua pequena Fel precisaria dela naquele momento. Felicity podia ser forte, mas ninguém é tão forte que as vezes não precise de um suporte e a Sra. Smoak se sentia feliz por ser esse suporte.

Mãe... – ela mordeu o lábio inferior, se sentindo de repente tão fraca que não queria nada além do colo dela.

“Fique em paz, docinho. Mamãe chega aí no fim da tarde. Estou indo.”

Ela queria dizer que não precisava, que aquilo era uma bobagem, mas tudo o que conseguiu falar foi um obrigada muito baixo que sua mãe nunca ouviu; ela já havia desligado o telefone.

X

De frente para o Asilo, Oliver achou que nunca se sentiria tão vazio quanto naquele momento. Thea havia enlouquecido. Aquilo era tão fora da concepção da realidade de Oliver que ele sentia como se estivesse em algum tipo de universo paralelo, como se de repente Deus – se é que Ele existia – tivesse decidido brincar com sua vida.

Ele sabia que a vida de vigilante não seria fácil. Quando assumiu para si a tarefa de limpar aquela cidade, sua visão era completamente diferente. Ele não se importou em manchar suas mãos com sangue para que sua cidade respirasse em paz. Naquela época ele sequer cogitou a possibilidade de a cidade ser uma espécie de câncer. Não importava que ele destruísse algumas células, elas continuariam a se multiplicar.

Sua visão mudou um pouco após a morte de Tommy em seus braços. Ele havia decidido que sua luta agora seria outra, que não mais mataria. Havia aprendido o que era ter suporte ao lado de Felicity e Diggle. Felicity era sua luz e ele a amava. De alguma forma intensa, sabia que a amava, mas que nunca a teria. Sua vida era perigosa e agitada demais e agora que sabia do relacionamento dela com Sara, embora fosse doloroso de imaginar, se sentia feliz mesmo sabendo dos riscos que ela corria. Aquele sequestro havia sido uma prova disso.

A morte de sua mãe o havia afetado em diferentes níveis, sobretudo por ela saber quem ele era sem nunca ter lhe revelado. Os dois estavam brigados pouco antes disso e a culpa o consumiria para sempre mesmo que ela tivesse morrido sem jogar esse fardo em suas costas. Moira Queen era uma mulher com muitos defeitos, mas que havia feito, literalmente, tudo por sua família. Ela não se importava com nada, nem com manchar suas mãos de sangue, destruir sua reputação. O que importava era a família, nada mais.

Mesmo que de seu jeito distorcido, ela havia mantido Oliver e Thea unidos a ela. E ver a morte da mãe diante de seus olhos havia sido demais para a garota. Oliver sabia o quanto sua irmã era forte, mas também sabia como era fácil quebra-la. E agora ela estava quebrada e precisava de sua ajuda.

Ele sabia que Roy a visitava todos os dias e muito mais do que ele. Lhe dizia que o progresso era lento e que muitas vezes as medicações pesadas a deixavam letárgica. Momentos de lucidez eram raros e deviam ser aproveitados, mas ele era otimista. Oliver desejava ser assim também.

– Sr. Queen, Sr. Harper? Ela está na área de recriação lá fora. Vocês podem ir até lá. Parece que é um dos dias bons. – a enfermeira solicita disse abrindo um sorriso para os dois. Oliver desconfiava que era porque eram bonitos, mas não se atentou a isso naquele momento. Estava cansado demais para pensar.

– Obrigado, Laura. – Roy respondeu pelos dois, cumprimentando a mulher com um sorriso cordial enquanto caminhava ao lado de Oliver para a área de recriação externa.

– Parece bem familiarizado com as coisas aqui, Roy. – Oliver comentou sem nenhum motivo especial para isso. Roy acenou com a cabeça afirmativamente.

– Venho aqui todos os dias, geralmente pela manhã. É o horário em que ela está melhor. – ele respondeu com as mãos no bolso e um sorriso fraco. Oliver enxergava as olheiras escuras abaixo de seus olhos.

– Obrigado, Roy. – ele disse sinceramente antes de passarem pelas portas duplas. – Eu vejo o quanto você ama Thea e acho isso bonito. Quero que vocês dois deem certo, mas, por favor, não permita que ela se machuque. Ou eu irei afastá-lo dela.

Oliver sabia que aquelas palavras não eram exatamente de incentivo, mas depois do que havia acontecido a Sara por tentar proteger Felicity ele não podia arriscar. E sua irmã era tudo o que tinha naquele momento, ele venderia sua alma para estar no lugar dela embora soubesse que nada poderia fazer a esse respeito.

– Eu não vou feri-la, Oliver, não se preocupe. Vá, fale com ela. Eu esperarei aqui. – Roy disse, com as mãos no bolso enquanto observava Thea de longe. Ela estava sentada sob um dos bancos de pedra que havia ali, ao lado de uma fonte com um Anjo Cherub jorrando água. Oliver o encarou nos olhos por um momento, ponderando se havia exagerado ou não, mas decidiu não opinar a esse respeito. O dia estava morno e a brisa era amena. Ficar ao lado de fora era realmente bom.

Foi se aproximando a passos lentos, os pés quase não fazendo barulho em contato com a grama macia. Quando chegou perto de Thea notou como seus cabelos estavam bagunçados, algo inconcebível para a irmã que se importava tanto com sua aparência. Com as mãos no bolso, ele ficou de frente para ela, os olhos azuis demais procurando algum resquício da antiga Thea; não vida nada. Não via ninguém.

– Thea? – ele a chamou baixinho. Inicialmente achou que ela não o tivesse ouvido. Tinha um caderno de desenho nas mãos e um lápis. Oliver reparou que ela desenhava a paisagem ao redor com traços bonitos e finos. Ele não sabia que sua irmã sabia desenhar e isso o surpreendeu. – Belo desenho.

Ela não o respondeu inicialmente e isso preocupou Oliver, mas quando terminou de captar uma parte da imagem, suas mãos se uniram na frente do desenho e ela encarou Oliver, agora agachado diante dela para que ficassem da mesma altura.

– Ei, Ollie. Quanto tempo. – sua voz não expressava amargura mesmo que fosse o irmão o culpado por estar ali. Seus olhos eram um pouco vagos, perdidos, mas havia uma pequena chama dentro deles, como se Thea tentasse se libertar daquele estado de torpor. – Tenho desenhado muito ultimamente. Quando você esteve fora, morto, eu aprendi a desenhar. Tomei aulas particulares de pintura também, era uma atividade relaxante e mamãe considerava melhor do que quando eu comprava drogas às escondidas. – ela deu um riso de escárnio.

– É uma ótima atividade, Speedy. – Oliver comentou, passando uma das mãos por seus cabelos para desembaraçar os fios. Thea se recolheu um pouco na defensiva, mas depois deixou que o irmão a tocasse. – Sinto muito. – ele disse, afastando a mão.

– Tudo bem, eu... só não me sinto muito bem com contatos físicos ainda. Nada pessoal, Ollie. – ela desviou o olhar.

– Eu sei, Thea. Tudo bem, sério. – ele abaixou o rosto. Não sabia muito bem como agir ou o que dizer. – Como você está?

– Você sabe... na maior parte do tempo não sei quem sou. Pode ser que comece a gritar com você a qualquer momento. – ela riu baixo. – E o Roy? – ela olhou de canto na direção do rapaz. Ele acenou para ela, meio sem jeito. Thea acenou de volta.

– Está bem. Fiquei sabendo que a encontra todos os dias aqui.

– Sabe como é, vendo o pior de mim pode ser que desista de suas investidas amorosas. – ela deu um sorriso meio torto.

– Não fale assim, Speedy. Sei que você vai superar isso. Estou aqui com você. – Oliver respondeu, segurando suas mãos firmemente. Dessa vez Thea não o afastou e seus olhos buscaram nos dele a segurança de que precisava.

– Sinto tanto a falta dela, Ollie. – sua voz enfraqueceu. – A todo momento vejo aquela imagem... de Slade trepassando ela com sua espada, e seu olhar firme e forte sem nunca desistir até o fim. Ela morreu por mim, Ollie, como posso superar isso? – as lágrimas correram por seu rosto, era impossível contê-las. Oliver se sentiu impotente porque carregava a mesma culpa só que de maneira muito pior. Afinal, no seu caso, a culpa era realmente dele. Slade era seu inimigo e havia matado sua mãe apenas porque ele não havia sido capaz de mata-lo no passado. Claro que agora, com a investida de Nyssa ele estava completamente morto. E isso o tornava uma pessoa muito pior por sentir-se realmente bem com isso.

– A culpa não foi sua, Speedy. Mamãe fez o que precisava fazer. – ele a abraçou com força. Thea começou a chorar copiosamente e muito alto, agarrando-se às suas vestes. De longe, Roy apenas observava os dois pensando no quão doloroso aquilo deveria ser. Ele nunca havia tido uma família fica, então não sabia como era perder laços. Thea era a primeira pessoa por quem se apaixonava e, antes disso, o laço mais firme que tinha era com Sin, a quem considerava como sua melhor amiga e pessoa que procuraria em breve. Precisava falar para ela sobre o que havia acontecido com Sara.

– Sinto que sou culpada, Ollie, todos os dias. Porque briguei tanto com ela e, apesar de tudo, ela era nossa mãe. Eu falhei, Ollie, falhei com ela! – sua voz se tornava alta e estridente. Ela chorava muito, e desesperadamente. Oliver podia sentir como ela tremia em seus braços, tão pequena e frágil. Aquilo lhe cortava o coração.

– Não é culpa sua... não é. – ele murmurou beijando o topo de sua cabeça, mas a imagem já estava formada na mente de Thea. De repente via-se ajoelhada novamente ao lado da mãe. Oliver estava impotente e Slade sorria, olhando para ele.

“Escolha, Queen. Sua mãe ou sua irmã?”

– VOCÊ DEVIA TER ME ESCOLHIDO, OLLIE! DEVIA TER ME ESCOLHIDO PRA MORRER! EU NÃO ACEITO ISSO, NÃO QUERO VIVER COM ISSO! TRAGA MINHA MÃE DE VOLTA! TRAGA MINHA MÃE DE VOLTA! – ela começou a se rebater em seus braços. Sem saber como agir, Oliver apenas a segurou com força, tentando acalmá-la.

– Eu não poderia fazer isso, Thea! Como poderia escolher entre vocês? Preferia tanto ter morrido... – confessou.

– MÃE! MÃE! SLADE MALDITO, EU IREI MATÁ-LO! IREI MATÁ-LO! – ela gritava enquanto os médicos se aproximavam, aplicando uma injeção nela. Aos poucos o brilho desaparecia de seu olhar, o pouco resquício de sua personalidade sã. – Eu irei...

– Ele está morto. – Oliver sussurrou em seu ouvido enquanto um dos enfermeiros o afastava para segurar os braços moles de Thea. Ela virou os olhos em sua direção e a sombra de um sorriso passou por seu rosto.

– Está...? – sua voz era um fio em meio à penumbra. Oliver sentiu que a brisa se tornava gélida naquele momento por não sentir nada ao dizer isso. Ele era uma pessoa horrível, mas isso não significava que deixaria sua irmã ser também.

– Acalme-se, senhorita Queen. – o enfermeiro disse enquanto Thea ia apagando em seus braços. A colocou numa cadeira de rodas enquanto outro enfermeiro a levava embora.

– Ela ficará bem? – Oliver perguntou.

– Bem, esses surtos têm diminuído um pouco, mas não se pode dizer ao certo. O trauma que ela sofreu foi em nível profundo. Ela precisará de tempo. – ele suspirou, sem uma conclusão certa a respeito. Oliver acenou com a cabeça, vendo-o se afastar sabendo que ele não poderia lhe dar uma resposta melhor. Ela poderia se recuperar ou ficar assim para sempre. Enquanto caminhava na direção de Roy, ficou pensativo sobre isso. Se perdesse sua irmã não teria mais nada além da vida de vigilante e tinha a impressão de que Arsenal se sentia da mesma maneira.

– Até que você conseguiu manter uma boa conversa com ela. – ele disse de maneira bastante conformada.

– Quer dizer que tem dias piores?

Ele não obteve nenhuma resposta além do sorriso triste de Roy. E isso o fez se sentir ainda pior por ver que seu escudeiro mirim suportava isso tudo sozinho e calado enquanto ele se afundava em sua segunda vida.

X

Ela estava saindo do tribunal naquele momento. Havia agido de maneira tão automática que teve que pedir para adiarem a sentença para a outra semana. A juíza não ficou nada feliz em ver sua atuação, sabia que Laurel era uma ótima advogada e agora trabalhando para a Promotoria ela não podia vacilar. Mas contou a ela sobre seus problemas e para sua sorte, a juíza vinha passando por uma situação semelhante com seu marido. A liberação foi conseguida facilmente.

Por ter saído mais cedo do que planejava, ela imaginou que Oliver estivesse ainda ocupado, pois seu celular só dava caixa postal. Ela pensou em insistir mais um pouco, mas imaginou que ele deveria ter ido ver a irmã. A situação de Thea era ruim, ela sabia pois a havia visitado apenas alguns dias atrás.

Sua cabeça pesava e optou por pegar um táxi ao invés de dirigir. Sentia um desejo muito intenso de beber naquele momento, mas não se entregaria a isso. Já tinha algum tempo que frequentava as reuniões do AA e não gostaria de manchar a vontade de sua irmã largando tudo apenas porque ela estava a beira da morte—embora esse fosse sim um motivo muito justo.

Falou automaticamente o endereço da delegacia. Na verdade não queria ter que encarar o pai sozinha, mas não via outra opção. Havia deixado um recado para Oliver, caso ele saísse mais cedo a encontraria lá. Mas ela não achava que isso aconteceria.

Ela já sabia que sua irmã era a Canário, desde a última vez que Nyssa havia estado lá. Ela sabia do perigo que Sara corria todo dia, mas nunca imaginou a irmã naquele estado. Oliver ainda não havia lhe explicado nada do que havia acontecido e Felicity não havia querido entrar no mérito da questão por julgar ser melhor ela escutar as palavras do próprio Oliver. Desde então não haviam tido tempo para conversar e isso a estava matando por dentro. Não gostava de não ter o controle da situação, já lhe bastava as vezes que havia se entregado à bebida. Ela gostaria de ter passado mais tempo com a irmã e de ter brigado menos com ela. Agora parecia estúpido ela ter se sentido mal por tanto tempo por causa do que havia acontecido entre ela e Oliver. Quando a recuperou da morte havia se convencido que o melhor que tinha a fazer era deixar isso para trás. A amava e isso era o mais importante. Mas novamente havia se deixado levar pelas coisas e não aproveitado o suficiente.

Nunca se perdoaria se Sara morresse agora sem que pudesse dizer para ela o quanto era importante.

“Não, isso não vai acontecer. Ela irá se recuperar.”

Com esse pensamento em mente ela pagou ao taxista e desceu na frente da delegacia. Sentiu toda sua coragem se esvair ao ver o pai sentado fazendo relatórios. O sorriso dele a desarmou completamente.

– Minha pequena Laurel! – ele abriu um sorriso largo indo recebe-la com um abraço e um beijo na testa. – O que foi que houve, o caso não deu certo? Te dei umas dicas legais!

– Não, eu... pedi para adiarem. – ela disse, o sorriso dele se esvaindo enquanto a encarava.

– O que foi que houve, filha? Você não parece bem. Foi algo? Você não voltou a beber, voltou? – ele ralhou, fechando a expressão. Sempre que fazia isso uma ruga aparecia bem no meio de sua testa e ele unia as sobrancelhas. Esse era o único traço que ele e Sara tinham em comum.

– Não, papai, não é isso. – ela queria encontrar forças para dizer a verdade a ele, mas não conseguia. Queria o apoio de Oliver naquele momento mas teria que fazer isso sozinha.

– Filha, você pode me dizer o que quiser. – ele disse com as mãos sobre seus ombros. O encarando agora ela via como o pai parecia envelhecido. A morte de Sara no passado havia tragado muito de suas forças, e agora que ele revivia novamente ela arrancaria isso abruptamente dele.

– Sei disso, papai. – ela respondeu com um sorriso fraco nos lábios. Não poderia contar a ele jamais o que havia acontecido. E se ele descobrisse jamais a perdoaria. – Eu apenas queria pedir para que jantássemos juntos, eu e você.

– Ah, que ótimo! – um sorriso se iluminou em seu rosto. – Talvez possamos chamar a Sara, ter um jantar em família. Ela me disse que estava saindo com alguém e queria me apresentar essa pessoa.. talvez seja uma boa hora pra isso.

“Sara saindo com alguém?” – o pensamento lhe cortou o raciocínio e a culpa de mentir para o pai por um momento. A irmã não havia lhe dito nada disso, talvez fosse isso o que queria dizer a ela naquela mensagem de texto que havia deixado quando retornou de sua rápida viagem.

– Uhn, bem, ela não está na cidade, papai. Foi a uma viagem. Disse que tentou avisá-lo mas não conseguiu. Foi também uma das coisas que vim te contar.

– Entendo. – ele abaixou o rosto, murchando um pouco. – Sobra mais pizza para nós!

– Sr. Lance. – ele ouviu da porta. Laurel virou o rosto para trás para encarar Oliver que havia acabado de chegar. Pelo olhar dela e pela felicidade aparente de Lance ele concluiu que ela não havia contado a verdade para ele.

– Oliver, meu bom rapaz. – o policial acenou para ele. – O que manda? Algum problema com a justiça novamente?

– Não, não dessa vez. Eu vim aqui justamente encontrar a sua filha... – os olhos dele pousaram em Laurel, acusadores. Ela apenas desviou o olhar.

Lance olhou os dois por um momento. Ele tinha o dom de entender as coisas errado.

– Ah.... agora eu entendi tudo. – ele abriu um sorriso para os dois. – Então era isso o que queria me contar, filha? Você e Oliver novamente? Sei que ficou mal quando ele estava com a Sara, mas acho que isso pode ser superado. Eu já não o culpo mais pelo que aconteceu, passei uma borracha nisso já que minha menininha está comigo e você também. Oliver se tornou uma outra pessoa também. Eu não me oporia ao relacionamento de vocês dois.

A expressão interrogativa de Oliver merecia uma fotografia para virar meme naquele momento.

– É... é isso mesmo papai. – ela se adiantou antes que o loiro tivesse tempo de se defender, e segurou suas mãos, entrelaçando os dedos e o encarando como se buscasse ajuda.

– É... Sr. Lance. Eu e sua filha... novamente. – o descontentamento era visível em suas palavras quando Oliver a abraçou de maneira protetora mas Lance era tapado demais para perceber isso.

– Ótimo! Então cancelaremos a pizza. Eu farei um jantar para nós três essa noite e não aceitarei um não como resposta! – a sua animação era evidente. – É uma pena que Sara esteja viajando, mas não tem problema. Quando ela voltar repetiremos a dose com a nova pessoa especial da vida dela. É bom saber que largou aquela filha do demônio... nada contra ela, mas a garota me dava arrepios.

Oliver deu um suspiro pesado apertando os braços em torno de Laurel e sussurrou em seu ouvido.

– Precisamos conversar.

Ela concordou com a cabeça, embora não quisesse, de fato, ter essa conversa.

X

Ele a encontrou no mesmo lugar de sempre, o Glades, em um bar que costumavam frequentar juntos apenas para jogar sinuca. Quando Roy apareceu a chamando para sair, Sin logo se animou achando que iriam fazer algo juntos como nos velhos tempos.

– E então, o que conta de novo, Roy? – ela questionou, quando pararam sentados nos degraus de uma casa qualquer. Estava com uma coca-cola gelada nas mãos e deu pequenas goladas nela.

Ele suspirou pesadamente, e a partir daquele momento ela sabia que, o que quer que viesse dali, era ruim.

– O que houve, cara? Foi algo com a Thea? Ela pirou de vez? Porque se foi isso, eu te disse...

– Não, Sin. Não é a Thea. – ele franziu a testa, esfregando a ruga que se formava entre suas sobrancelhas.

– Roy, o que foi? – seus olhos se voltaram completamente para ele e esqueceu-se da coca em suas mãos. Não tinha mais importância mesmo que tivesse sido paga por ele.

– Olha... é complicado, mas... a Sara se feriu gravemente. – ele disse. – Calma, ela não morreu, mas seu estado é grave. Ela passou por uma cirurgia e... está na UTI. O médico disse que ela tem boas chances de se recuperar, mas temos que aguardar.

Existem momentos na vida em que nós nos sentimos como se estivéssemos em um filme preto e branco. Você tenta dizer algo, mas o som simplesmente não sai. Sin se sentiu exatamente daquela maneira quando Roy lhe deu aquela notícia, porque a Sara que ela conhecia era uma mulher extremamente forte. Ela não simplesmente se feriria gravemente por qualquer coisa.

– Sin...?

– Você está mentindo, Roy. – ela disse, amassando a lata em suas mãos. – Está mentindo!

– Sin, eu não mentiria sobre algo tão sério! Ela está mal, Slade fez isso.

– E onde ele está? – seus olhos, tão cheios de ódio, o encararam. Quando todo mundo virou as costas para ela, achando que não era nada além de uma droga de marginal, Sara a acolheu e cuidou dela. Ensinou-a que era uma pessoa de valor e não uma escória da sociedade.

– Morto. – respondeu com pesar.

– Você não parece feliz com isso. – ela disse secamente.

– Não é como se a morte de alguém, mesmo que seja merecida, me deixe feliz Sin. Não deveria deixar você também. – Roy a encarou com certa preocupação. Ele sabia que a reação de sua amiga a essa notícia não seria positiva, mas lhe preocupava que ela pudesse fazer alguma besteira por conta disso. – Quando... quando eu estava sob o controle do Mirakuru e fiz aquelas coisas horríveis... foi você quem me ajudou, Sin. Você me fez enxergar o quanto era errado eu querer destruir uma vida, o que infelizmente acabou acontecendo contra minha vontade. – Roy cerrou os punhos. – Eu não quero que você tenha esse tipo de desejo perverso. Você não é assim e nem Sara iria desejar algo do tipo.

Ela sentiu raiva de Roy, mas ele tinha razão e aquilo a trouxe um pouco de volta para a realidade.

– Ela está bem?

– Vai ficar. – Roy respondeu.

– Acha que posso visita-la?

– O médico disse que apenas a família poderia, mas... podemos providenciar isso. – ele disse abrindo para ela um sorriso cumplice. Ali estava o Roy que conhecia, que sempre a ajudava apesar das dificuldades.

– Eu vou aceitar isso como um sim. – ela disse, abrindo um sorriso para ele. Apesar de tudo, eram uma família também.

X

Ela não quis chorar, mas isso não significava que conseguia segurar as lágrimas. Quando a campainha de seu apartamento tocou, Felicity se moveu tão veloz até a porta que Barry teria ficado com inveja dela. Ao abri-la e encarar a mãe, toda a força que havia reunido para não chorar na frente dela se esvaiu de uma única vez.

– Mãe... – ela murmurou baixinho, sentindo a mulher passar os braços ao redor de seus ombros, inicialmente sem dizer nada enquanto entravam no apartamento.

– Oh, Fel... vai ficar tudo bem. — ela respondeu, acariciando os cabelos desgrenhados da filha. Felicity nunca havia sido muito vaidosa, mas isso não significava que era o tipo desleixado e aquilo cortava seu coração. O que quer que tivesse acontecido era pesado demais para ela suportar sozinha, pois a Sra. Smoak sabia como sua garotinha era forte.

– Ela se feriu por minha culpa, eu... – ela não conseguia impedir as lágrimas desenfreadas, era impossível. E ter sua mãe ali naquele momento era a única coisa que lhe mantinha de pé.

– Tudo bem, tudo bem... pode chorar, minha pequena.. – lhe beijou o topo da testa, apertando-a em seus braços. – Depois você pode me contar tudo, está certo?

Concordou com a cabeça, sentindo que derreteria nos braços de sua mãe, mas, naquele momento, não quis saber de mais nada. Ela só queria chorar até que toda aquela dor fosse embora. Até que pudesse ter Sara de volta para si.

X

Seus olhos se abriram no momento em que Sin colocou os pés no local. Graças a Roy não havia sido muito difícil entrar sem ser descoberta, mas ela sabia que não teria muito tempo. Quando se aproximou, vendo Sara naquele estado, ela achou que iria chorar. Mas mal teve tempo para dizer qualquer coisa antes que ela a encarasse com os olhos vividos.

– Sara? Que bom... – as lágrimas ardiam em seus olhos quando a viu acordada. Sabia que o certo era chamar um médico, mas queria aproveitar um pouco de sua presença. – O Roy me disse o que aconteceu, eu quase—

– Quem... quem é você? – ainda desnorteada, Sara perguntou a encarando.

Sin sentiu-se como se o chão estivesse se desfazendo embaixo de seus pés enquanto ouvia Sara falar.

– Sara....?

Os olhos ainda desfocados a encaravam. Quando a enfermeira perguntou quem era ela, não respondeu.

– Ela se esqueceu... ela se esqueceu de mim. – disse baixo, as lágrimas correndo por seu rosto.

– Quem... quem sou eu?

O desespero se tornou maior. Aquilo não podia ser real. Não podia ser.

Notas finais
Bem, esse capítulo demorou bastante pra sair, mas o motivo é que meu estágio final começou. Agora vem TCC, entre outras coisas... eu saio de casa as 7 da manhã e chego... bem, não tem horário kkk E no meio disso tudo ainda escrevendo! Sobre o capítulo em si, ele era necessário embora pareça apenas enrolação. É o desenvolvimento dos personagens, seus medos, o que devem encarar a partir de então. O final com Sara foi algo que acabei decidindo depois de muito pensar. E agora? Como Felicity reagirá a isso? Aliás, só deixando claro que não sou fã de Oliver e Laurel (DETESTO!), mas na falta de Olicity... bem, vamos ver o que se sucede! Por favor, não deixem de comentar, sinto saudades de todos vocês! Beijos, Anne