Wanna Play?
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Notas iniciais
“Let the wind carry you home
Blackbird fly away
May you never be broken again
Beyond the suffering you've known
I hope you find your way
May you never be broken again”
(Deixe o vento te levar para casa
Pássaro Negro, voe para longe
Que você nunca se machuque de novo
Além do sofrimento que você conheceu
Espero que ache seu caminho
Que você nunca se machuque de novo)
Blackbird – Alter Bridge
X
Depois de uma semana, a guerra fria havia cessado. Slade Wilson havia ido com força total contra eles. Moira Queen estava morta, e sabia-se lá Deus se algum dia Thea Queen recobraria sua sanidade depois de tudo o que havia visto.
O estado de Oliver era deplorável, e por mais que Felicity quisesse ver Sara, a desejava longe desse inferno naquele momento. Ela tinha medo pelo que poderia acontecer se o ódio de Slade por ela fosse maior do que era por Oliver.
Ele havia perdido a empresa. Sua mãe. Sua irmã estava em um manicômio sendo tratada como louca.
O que mais poderia acontecer?
Seu software de rastreamento não encontrava Slade, mas ele era capaz de encontrar a todos. Só esperava que estivessem seguros na base, pois sequer em sua casa Felicity conseguia sentir paz, mesmo que Slade não estivesse focado nela. Tinha medo por Oliver, ele havia passado a dormir na base e se afastado de todos. Não falava. Havia desaparecido por três dias antes de retornar e sequer havia ido para o funeral de sua mãe, mas Felicity entendia e perdoava tudo aquilo.
“Pois não sei como agiria se fosse comigo. Mesmo que odiasse sua mãe, Oliver, eu não a desejava morta. Mas ela pagou pelos pecados dela... como todos os outros que você matou antes disso. É por isso que não sou a favor de mortes, Ollie... mas as vezes elas são necessárias. Não que a de Moira fosse.”
Dias atrás, tinha dito essas palavras para ele. Não eram as mais reconfortantes do mundo, mas foram suficientes para que ele recobrasse um pouco da sanidade mental. Para se distrair daquilo tudo, Roy fazia a vigia na cidade por mais tempo que era necessário. As vezes ele visitava Thea. Mas ela raramente dizia algo coerente, dopada pelos medicamentos.
Quando não estava, gritava de pavor.
E tudo o que Felicity podia fazer era trabalhar como suporte para eles. Mas mesmo que encontrasse Slade, não tinha certeza do que Oliver poderia fazer, sobretudo porque agora ele planejava um exército de pessoas como ele.
Se isso acontecesse, estariam acabados.
Cansada, ela apoiou os óculos na bancada e massageou as têmporas. E desejou que magicamente uma solução caísse dos céus.
X
Quando pisou em solo firme, agradeceu a Deus mesmo que não acreditasse nele. Odiava o mar, viagens pelo mar. As baniria de sua vida se fosse possível.
– O seu pedido de ajuda será pensado pela Liga, Sara. O meu pai pesará a balança, mas eu falarei pessoalmente com ele. Mas antes, eu quero que pense direito se é isso o que quer. Pois estará novamente ligada a nós.
Sara suspirou cruzando os braços sobre o peito.
– Eu verei como está a situação, mas quero que esteja preparada, Nyssa. Eu não sei como as coisas estão por aqui. Passamos uma semana longe. E talvez Ollie já tenha resolvido isso, mas eu... não acredito muito. Ele é perigoso e poderoso. Não sei se o Arqueiro pode resolver isso da sua maneira e com seu juramento de nunca mais matar.
Ela queria acreditar que era correto seguir a nova filosofia de Oliver, mas matar era tudo o que havia aprendido para sobreviver. E era doloroso saber que pensava assim.
– Muito bem. – ela se aproximou, circulando-a e ficando de frente para Sara. Segurou seu queixo e o ergueu. – Quero que saiba que nunca me esqueci de você, Sara. E que minha proposta ainda está de pé.
Sara desviou o olhar e afastou-se do beijo que Nyssa antes que ele se concretizasse, sentindo-o em sua bochecha.
– Eu sei disso. E pensarei a respeito. Mas não agora. Eu preciso... preciso voltar.
Calada, Nyssa a viu partir. Mas sentia que algo em Sara havia mudado. E não gostava disso.
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Como um pássaro de volta ao ninho, o primeiro lugar para onde foi era a casa de Felicity. Pensou em primeiro passar na base, mas o Verdant estava fechado e estranhou isso. Será que alguma coisa havia acontecido?
Por conta disso, resolveu ir direto para a casa de Felicity. E assim que chegou ao terceiro andar e tentou abrir a janela, deparou-se com ela trancada pela primeira vez – não que uma tranca fosse realmente um problema para ela.
Mas sequer teve que invadir, pois a viu adentrando o quarto e dando um pulo para trás ao nota-la ali na janela. Aquilo sempre lhe arrancava risadas.
– Sara, está caindo um toró aí fora! – ela disse, ainda separada pelo vidro. Sara apoiou as mãos sobre as orelhas como se não ouvisse e apontou a trinca. – Ah!
Felicity destrancou a janela e Sara empoçou o piso de seu quarto, encharcada.
– Você precisa de um banho! – ela ralhou. Provavelmente tinha muitas coisas que queria dizer, mas aquela foi a primeira que lhe veio à cabeça para fugir do buraco que havia se aberto entre elas desde aquela noite.
– Eu estou bem, sério. – Sara disse, mas já estava sendo encaminhada para o banheiro, recebendo uma toalha e uma muda de roupas de Felicity.
Enquanto Sara se ocupava em tomar banho para não pegar um resfriado, Felicity foi até a cozinha preparar um chocolate quente. Mas seu coração batia com tanta força contra o peito que não conseguia ordenar seus próprios pensamentos. Depois de uma semana, não sabia exatamente como agir, mas na verdade estava feliz por Sara finalmente ter voltado. Se perguntava que tipo de coisas ela andara fazendo durante esse período e se era realmente coerente ela estar ali. Afinal, Slade Wilson estava agindo e isso preocupava a hacker.
Pouco tempo depois, ela viu Sara com uma toalha sobre os ombros, vestindo um confortável pijama de flanela com estampas de coelhinho e um par de pantufas do Scooby Doo.
– Espero que não se importe. Meus sapatos estavam molhados também. – Sara abriu um sorriso sem jeito, mas na verdade se sentia confortável naquelas roupas estranhas, mas que tinham o cheiro de Felicity.
Ela deu uma risada, aproximando-se dela com uma xícara de chocolate quente fumegante. Tinha um marshmallow dentro dele, canela e um cheiro tão delicioso que Sara não conseguiu esconder o aguar em sua boca.
– Parece delicioso. – ela murmurou, segurando a xícara entre as duas mãos e girou-a lentamente, se sentando no sofá com Felicity ao seu lado.
– Prove. – ela encorajou, dando um gole na própria xícara e se escondendo atrás dela. Parecia mais confortável e seguro do que a conversa que poderia se seguir disso. E nem fazia ideia de como começar a contar as coisas que vinham acontecendo na cidade para ela, se é que já não sabia.
Sara provou o chocolate quente, e para sua alegria estava tão gostoso quanto os que sua mãe costumava fazer quando ainda era criança. Tinha sabor de natal.
– Você é um desastre na cozinha, mas isso aqui está uma delícia, Fel! – ela exclamou, dando outro gole e outro, até colocar a língua para fora com os olhos lacrimejando por ter se queimado.
– Tome cuidado! – Felicity deu uma risada, e queria que o momento tivesse durado para sempre antes do silencio constrangedor que se seguiu.
O que deveria ser dito depois disso? De repente o chocolate quente parecia muito interessante para ser observado.
Felicity não queria tomar a iniciativa dessa vez. A última conversa havia sido desastrosa e unilateral, e como para não terem que conversar sobre, tinha terminado em sexo – o que não havia sido de todo ruim. Mas embora 80% de uma relação fosse o sexo, os outros 20% entre elas estava deixando a desejar mesmo que a principio quisessem algo somente casual.
A gente não escolhe por quem ou quando vai se apaixonar.
Não que esse fosse um assunto para ser colocado em pauta no momento.
– Onde você est—
– Senti sua falta. – Sara falou por fim, cortando seu raciocínio.
Aquilo realmente a deixou sem palavras, porque ela não esperava algo assim de Sara. Na verdade, havia lhe deixado completamente sem reação. E por fim pousou a xícara pela metade sobre a mesinha de centro.
– Você não me disse nada. – ela murmurou baixinho, sem coragem para encará-la.
– Eu... eu não queria te colocar em perigo, Fel. Principalmente se Slade está na cidade, eu... sinto muito. Fiz o que achava ser melhor.
Ela parecia realmente arrependida, mas isso não diminuía a mágoa que Felicity sentia.
– No bilhete você foi vaga, Sara. Disse que retornaria, mas poderia não ter retornado. – ela entrelaçou os dedos das mãos.
– Poderia não ter retornado. – ela reafirmou a frase de Felicity e ergueu o rosto em sua direção. – Mas estou aqui agora.
– Mas isso não significa que ficará para sempre, não é?
Sua frieza espantou até ela mesma. Na verdade, Felicity já havia sido magoada tantas vezes por tantos namorados diferentes que era difícil não criar uma barreira natural contra o sofrimento. Sobretudo quando aprendia a gostar dessa pessoa mesmo que contra a sua vontade.
– Eu... – ela queria mentir naquele momento e dizer que sim, que ficaria. Mas não achava justo com Felicity. – Eu preciso tirar Slade daqui, Fel. E talvez as únicas pessoas que possam me ajudar sejam eles.
– A Liga. – ela disse com certo pesar. – Então estou certa em pressupor que você esteve com eles, não é? Foi por isso que sumiu? Um favor pelo outro, Sara?
Sua voz estava ligeiramente irritada naquele momento. Ela não sabia exatamente o motivo dessa irritação. Mas achava que era porque Sara tinha escondido as coisas dela. Não que ela lhe devesse alguma explicação nem nada do tipo. Ao menos não romanticamente, mas isso não diminuía o fato de que ainda eram amigas. A considerava uma amiga, parte do Time Arrow. E se ela não conseguia pensar assim, então não sabia sequer porque estavam tendo essa conversa.
– Não é tão simples assim, sabe Fel. – ela suspirou pesadamente deixando a xícara vazia ao lado da dela e apoiou as mãos nos joelhos. – Uma vez que você faz parte da Liga dos Assassinos, nunca está completamente livre. Eu não devia nem te contar isso, mas não vejo muita escolha já que me imprensou assim contra a parede. Existe alguém lá que é perigoso... talvez tanto quanto Ra’Al Ghul. Porque sua mente é perigosa. E ele gosta de bancar o jogador. Ele me procurou uma noite em que eu estava aqui. Naquela ligação...
– Naquela ligação no seu celular. – de repente as memórias retornavam para Felicity. O modo como Sara havia agido, parecendo natural, mas de repente notando pequenas alterações em sua expressão. Na hora não parecia importante. Não sabia o que teria feito se tivesse notado também.
– Exato. Ele me disse que não deveria dizer a ninguém. É um protocolo normal. Eu não sabia quem era até encontra-lo. Ele precisava de mim, e eu precisei fazer isso. Negar um pedido da Liga é praticamente uma sentença de morte. Se Ollie não tivesse matado Macolm Merlyn, ele estaria sendo caçado. Apesar de ter sido liberado, ele... cometeu erros que fizeram Ra’Al Ghul pensar que nenhum outro membro deveria. Nyssa desafiou o pai quando decidiu fazer o mesmo comigo. Não sei se ele sabe que fui enviada para essa missão. Mas se sabe, não negou a vontade de seu servo.
Eram informações demais sendo despejadas sobre ela, e Felicity sequer sabia como encaixá-las no quebra-cabeças de sua mente. Sinceramente, apenas podia ficar calada escutando.
– Essa missão... o que era?
Sara suspirou.
– Você quer mesmo saber?
Ela não queria. Apenas negou com a cabeça, temendo o que podia ser. Mas na verdade no fundo queria que ela compartilhasse aquilo, que não guardasse tudo sozinha. Mas era demais para uma noite. Oliver carregava mortes em seu passado. Talvez Sara carregasse muito mais.
– Agora estou de volta, Fel. – ela segurou uma de suas mãos entrelaçando os dedos aos dela. – Eu não pretendo ir embora a não ser que seja estritamente necessário. Esse é meu lar. Starling City é meu lar. Com você.
Ouvir isso lhe enchia de alegria embora Felicity soubesse que era egoísmo. Ela sabia a respeito do passado de Sara com Nyssa, embora nada estritamente detalhado. Mas naquele primeiro encontro da filha do demônio com Sara havia ficado claro o tipo de relação das duas.
– Nyssa sabia da missão? – ela perguntou, talvez com uma pontada de ciúmes em sua voz.
– Ela esteve comigo. – respondeu. Achava que a essa altura, esconder as coisas de Felicity era errado. Na verdade contar a ela, simplesmente a envolvia demais. Mas ela descobriria de uma forma ou de outra. Que fosse ao menos por sua boca.
Aquilo incomodou um pouco Felicity de forma que ela se moveu de maneira um tanto desconfortável no sofá.
– Claro. Claro que ela estava. Sim, foi bom? Quer dizer, reencontrá-la, não que tenha rolado algo entre vocês. – como sempre, se atrapalhava nas palavras, no que queria dizer.
– Felicity.
A hacker ergueu os olhos na direção de Sara. Ela sorria.
– Eu disse que quero ficar ao seu lado. Eu não mudei de idéia. – ela disse de maneira bastante centrada. – Eu quero ficar com você.
– Eu só não vejo... eu só não vejo por quê. – ela murmurou baixo.
Sara acariciou seu rosto com as costas da mão e abriu um sorriso para ela novamente. Ela era uma graça de todas as formas possíveis. Como era possível não gostar dela quando de sua forma ela simplesmente cativava todos ao redor?
– Porque é você. – ela respondeu, colando os lábios aos de Felicity.
Era totalmente diferente da sensação que havia tido com Nyssa em todas as vezes em que ela havia tentado lhe beijar. E mesmo nas que havia beijado durante a missão. Não era porque os lábios de Felicity eram diferentes, mas simplesmente porque era ela. A sensação, o sabor, o sentimento. Tudo era diferente com ela.
“Porque eu quero estar ao seu lado.”
Ela entreabriu os olhos quando esse pensamento atravessou sua mente. A queria tanto, não podia esconder isso. Não havia mais motivos na verdade. Felicity era a melhor coisa que já havia acontecido em sua vida. E mesmo em tão pouco tempo havia conquistado seu espaço de maneira que nem mesmo Oliver havia conseguido.
Era estranho pensar dessa forma, porque nunca havia acreditado em amor à primeira vista. E agora estava vivenciado algo parecido com isso, se bem que não se podia chamar de à primeira vista.
Aos poucos foi a deitando no sofá. As roupas se separando do corpo enquanto a despia e se despia. Não queria saber de mais nada, nem mesmo de Slade naquele momento, embora fosse uma pergunta importante a ser feita. Mas naquele momento ela queria apenas Felicity, nada mais.
Seus dedos passeavam pelo corpo dela, arrancando suspiros de prazer. Depois de algumas vezes, já sabiam exatamente seus pontos mais sensíveis, onde tocá-la, onde beijá-la, o que fazer.
As costas eram o ponto mais sensível. Quando seus lábios se arrastavam por ela, Felicity se movia, gemendo baixinho. Quando as mãos tocavam seus seios acariciando os mamilos, os gemidos se tornavam mais altos.
Quando Felicity passava as mãos pelo abdômen de Sara e lhe beijava o colo, ouvia seus suspiros. Ouvia ela lhe chamar por seu nome.
Fel, Fel, Felicity.
Ela gostava daquilo. Gostava de saber que Sara não era a única capaz de lhe dar prazer, mas que o oposto também ocorria. E escorregou uma das mãos entre as pernas dela, deslizando-as até o interior da vagina, penetrando um de seus dedos e movendo-o lentamente enquanto sentia a boca dela em seu pescoço.
Era uma sintonia perfeita, porque uma sabia o que a outra queria. Era bom, era certo. Não tinha nada de errado em desejar alguém assim. E de repente um segundo dedo invadiu Sara, enquanto Felicity virava o rosto para que sua boca se encaixasse na dela.
A língua dela passeava por sua boca, agora já tão conhecida. Sentia o sabor do chocolate e do marshmallow, tudo levemente adocicado com um toque de felicidade instantânea que Felicity trazia para si.
Então se encaixou entre as pernas de Felicity, movimentando o quadril junto dela, a beijando nos lábios até que os pulmões ardessem pela falta de ar. E quando seus lábios alcançaram o pescoço de Felicity, sentiu ela virar o rosto para o lado e lhe mordiscar de leve a orelha.
“Não vá embora essa noite”, sussurrou em seu ouvido, antes de tomar seus lábios novamente.
“Eu não vou.”, ela respondeu entre o beijo.
Queria dizer que não iria nunca mais, mas não podia fazer essa promessa.
X
– Eu não passei o tempo todo na ilha. – ela falou para Felicity, com as pernas entrelaçadas entre as dela. Estavam deitadas no tapete da sala, a mesinha de centro afastada enquanto a tv permanecia ligada em algum filme antigo. – Como eu disse, fui recrutada pela Liga dos Assassinos depois do que aconteceu com Slade. Eu e Ollie acabamos nos separando... quando eu caí no mar outra vez.
Ela fechou os olhos. Aquela era uma memória dolorosa. Toda vez que tinha que encarar uma grande quantidade de água como um oceano ou até mesmo um lago se apavorava. Até mesmo banheiras ela preferia evitar.
– Você não precisa me contar se não quiser. – Felicity se aninhou junto dela, pegando um punhado de pipoca e colocando na boca.
– Eu quero. Quero que você saiba das coisas. Não é justo estar com alguém e não saber, não é? – nessa hora Felicity olhou para ela, não conseguindo esconder a surpresa em seu olhar.
– Estar com alguém? Eu achei que... – Sara pousou o indicador sobre o lábio dela e beijou-o de leve.
– Quando eu acordei da segunda vez, eu estava em uma prisão. Achei que as coisas não podiam piorar. Dia após dia, não conseguia saber o que se passava. Não sabia se estava sendo prisioneira ou não. Nem se me matariam. Não sabia se Oliver havia sobrevivido. Só sabia que estava presa em algum outro lugar. Cheguei até a pensar que havia morrido. E que aquela era a forma que Deus havia encontrado para me punir por meus pecados.
– Você não é uma pessoa má, Sara. Já a vi ajudar muitas pessoas. Inclusive entrar em um prédio em chamas para salvar uma garotinha. – Felicity passeou os dedos por seu rosto, sentindo o frio da janela acariciar sua pele. Lá fora ainda chovia forte.
– Você pode pensar da maneira que quiser, mas eu cometi muitos erros, Fel. Minha mãos estão sujas de sangue de modo que jamais poderei me redimir outra vez. Não importa quantas menininhas eu tire de prédios em chamas.. isso não apagará meus pecados.
Felicity sabia que apenas ela e Oliver poderiam se compreender. No fim das contas era uma dor que carregariam pelo resto de suas vidas pelas decisões que haviam tomado. Mas era algo necessário para a sobrevivência. Quem poderia culpar ela por isso?
– Enfim... quando eu estava perdendo realmente as esperanças de que algo aconteceria, Nyssa apareceu para mim. Ela me disse que só não havia feito isso antes porque estava ocupada resolvendo as coisas com seu pai. Mas conseguiu convencê-lo a me deixar entrar para a Liga. Caso eu não aceitasse, estaria morta e ela de mãos atadas. Não havia mais nada que ela pudesse fazer por mim. Caso aceitasse, eu receberia uma alcunha e faria parte deles. Seria treinada e me tornaria uma assassina. Uma ferramenta para a Liga. Às vezes penso que deveria ter escolhido a primeira opção.
Era algo doloroso de se ouvir e de se dizer também. Provavelmente era por isso que Sara acordava gritando todas as noites de seus pesadelos. Achava que cada pessoa que ela havia assassinado voltava para assombrá-la. Era como viver constantemente no inferno e sinceramente Felicity não sabia o que teria feito no lugar dela mas achava que não teria estômago para isso.
“Mas talvez Sara não tivesse também... quando foi para aquela ilha.”
– Eu fico feliz que não tenha escolhido apesar de tudo. Sei que isso pode soar egoísta, mas... eu estou feliz que esteja aqui agora, Sara. Só queria que pudéssemos ter nos conhecido em outra ocasião. Sem ilhas ou Ligas.
– E então eu seria uma patricinha sem graça e drogada.
Elas riram.
– Obrigada por estar ao meu lado, Felicity.
– Obrigada por estar ao meu.
Se beijaram à luz da televisão. O resto da noite passaram vendo aquele filme na sala. Até que adormeceram.
X
Não foi difícil encontra-lo depois que Felicity lhe contou tudo pela manhã. Sara se sentia até mesmo um pouco culpada por não ter dado prioridade a Oliver, mas sinceramente não se arrependia.
Ela sabia que aquela noite era necessária para as duas, tanto quanto sabia que Oliver precisava de seu apoio agora. O encontrou no cemitério, na frente do túmulo de Moira. E embora usasse um moletom com capuz o reconheceria em qualquer lugar.
Se aproximou dele devagar, e depositou sobre o túmulo um lírio branco colocando o guarda-chuva sobre a cabeça de Oliver. Na verdade, ela não tinha muitas memórias com Moira. A mulher era um exemplo de garra, mas sempre havia desconfiado que havia algo estranho nela. Era verdade que havia, mas nem por isso ela deixava de ser a mãe de Oliver. E não imaginava a dor pela qual ele passava agora. Por isso apenas se aproximou e o abraçou por trás, apoiando a testa em suas costas.
Oliver a sentiu ali. Na verdade a havia sentido chegar. Estava fragilizado, as coisas estavam realmente ruins.
– Eu perdi a empresa, Sara. Minha mãe.... está morta. E agora minha irmã está internada em alguma instituição para loucos, eu... eu não sei mais o que fazer. – os ombros dele se moviam de maneira pesada, de forma que Sara sabia que ele estava chorando. Não havia nada que ela pudesse dizer que o faria se sentir bem agora, então ela simplesmente ficou ali ao seu lado, pois era o melhor que podia fazer.
– Eu estou aqui. – disse depois de algum tempo. – Você ainda tem a mim, Felicity, Diggle e Roy. Sei que as coisas pra ele também não devem estar fáceis.
– Ele tem feito a ronda no meu lugar várias vezes. Diz que isso distrai a sua cabeça.
Ela concordou ainda abraçada a ele, mas o virou em sua direção.
– Escute, Ollie... eu não sei como está a sua cabeça nesse momento, mas eu sei que precisamos dar um fim no Slade. Sei que prometeu nunca mais matar... sei que não tenho o direito de te pedir isso e nem acho que podemos fazer isso sozinhos.
Ele acenou com a cabeça. Sara não tinha certeza do que ele queria dizer com isso, mas o sentiu abraçar-lhe e derrubar seu guarda-chuva no chão. Naquele momento ela soube que precisaria da ajuda de Nyssa. Mesmo que isso lhe tirasse tudo o que tinha naquele momento.
– Vamos, vamos voltar. – ela disse, segurando sua mão e se afastando.
– Vai na frente, eu... quero ficar mais um pouco aqui. – ele murmurou lhe beijando o topo da cabeça. Sara acenou positivamente, sabia que ele precisava de espaço. – E Sara?
– Hum?
– Obrigado por ter voltado... mesmo que eu tenha pedido pra você partir.
Ela sorriu para ele. Como poderia abandoná-lo outra vez?
– Não precisa agradecer. Eu vou indo na frente. Fique com o guarda-chuva. – ela o deixou em suas mãos antes de dar as costas e caminhar para a saída do cemitério.
– Você pode sair agora.
Ela abriu um sorriso caminhando na direção dele.
– Olá, Oliver. Será que tem um tempinho para conversar?
A filha do demônio. Ela deveria ser mesmo para estar ali quando ele mais estava disposto a vender sua alma.
X
A cena de Oliver no cemitério ainda martelava em sua cabeça quando Sara saiu de lá. Ela sabia o que devia ser feito e da maneira que devia ser feito, mas ainda assim algo fazia com que hesitasse. Sempre que pensava em retornar para a Liga, seu coração apertava. Ela só não sabia dizer se de receio por deixar Felicity ou por causa das mortes. Ou pelos dois.
Se sentia mal por isso. Seu amigo estava em perigo junto com todos de Starling e não havia o que pesar. Sua família, todos. Até mesmo Felicity estava em perigo. Não podia pensar no próprio bem estar.
“É melhor que você esteja viva para me odiar do que morta por causa da minha hesitação.”
X
– O que você quer? – Oliver perguntou, erguendo os olhos claros para ela. Estavam vermelhos, Nyssa notou. Talvez de tanto chorar. Isso era o tipo de sentimento que ela jamais compreenderia. Não havia sido criada para senti-los.
– Bem, o certo seria perguntar o que você quer, não é? – ela contra argumentou com os braços cruzados. – Eu estive com Sara esses dias... tivemos uma missão em conjunto, mas isso não vem ao caso. Ela recorreu a mim com esse seu probleminha Slade. – ela abriu um sorriso presunçoso.
“Você nem faz idéia do que Slade realmente é.”
Oliver suspirou.
– Eu não acho que vocês possam ajudar mais do que nós. – ele respondeu. – É sério, Nyssa. Slade está fora dos padrões humanos.
– Por causa do Mirakuru? – ele arqueou as sobrancelhas em sinal de surpresa. – É, eu fiz minha lição de casa, Queen.
– Se sabe o que é o Mirakuru então sabe com o que está lidando, Nyssa. Esse assunto não é pra vocês. E se puder evitar que a Sara se envolva novamente com a Liga, eu vou fazer isso.
Ela abriu um sorriso de canto e se aproximou dele. Tão próximos que poderiam se beijar.
– Eu estou aqui justamente por isso, Queen. Eu não a quero envolvida com a Liga novamente.
– Não quer? – ele não pôde esconder a surpresa em sua voz ou expressão. – Mas achei que a queria ao seu lado.
Ela respirou fundo dando as costas para ele. De repente parecia frágil.
– Pode até parecer que sou um demônio sem sentimentos e você tem razão sobre isso. Mas ela... ela não é, Oliver. A Liga a destruía dia a pós dia. Por isso permiti que fugisse. Por isso a ajudei a vir até aqui.
– Você a ama, Nyssa. – Oliver murmurou, aproximando-se dela.
– Tem que me jurar que vai protege-la, Oliver. Se puder me jurar isso... então eu comprarei sua briga. Mas se algo acontecer a ela....
– Eu juro. Nenhum mal acontecerá a ela.
X
As coisas na cidade estavam silenciosas naquele dia. Felicity achou estranho, mas parecia que o vereador-prefeito havia surtido efeito. E de qualquer forma, era melhor assim.
“Depois da tempestade vem a calmaria”, pensou.
Mas ela sabia que logo logo algo aconteceria. Não conhecia Slade bem como Oliver ou Sara, mas ele já tinha provado do que era capaz.
Foi naquele momento que ela viu seu reflexo pelas telas do computador. Usava uma máscara, mas ela tinha certeza de que reconheceria aqueles olhos em qualquer lugar.
– Senhorita Smoak, que surpresa... um prêmio de consolação que eu não esperava.
Ela engoliu em seco e tentou lutar contra ele, agarrando spray de pimenta que deixava ao seu lado e lançou na direção de seus olhos.
– Argh, maldita! – mesmo sem enxergar ele lhe desferiu uma pancada forte contra o rosto com as costas da mão, lançando-a contra o chão.
“Preciso avisar ao Oliver ou Sara..”
Ela sentiu o peso do telefone celular no bolso interno de sua jaqueta, mas antes que pudesse fazer qualquer coisa, sentiu Slade lhe agarrar pelos cabelos e suspendê-la.
– Até que pra uma secretária, você é bastante ousada... – ele a aproximou de seu corpo, travando seus movimentos e lhe apagou com uma pancada na cabeça. – Vamos ver o que o Sr. Queen vai achar... quando eu estiver com seu suporte ao meu lado. – sorriu por trás da máscara, levando-a em seu ombro.
Aquilo era muito melhor do que deixar sua base de pernas para o ar.
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