Notas iniciais
Agradeço por todos os comentários que tenho recebido ultimamente. Tão me inspirando muito pra escrever. Peço desculpas pela demora, é porque tive uns problemas familiares, mas to de volta a ativa! Preparem-se para as emoções!

“Fiat Justitia Ruat Caelum”

(Que a Justiça seja feita, nem que caia o céu)

The Good Wife

X

O seu corpo todo doía. Desde os músculos do pescoço até as pontas dos pés, mas o que mais doía era a sua nuca onde havia levado a pancada de Slade. Quando entreabriu os olhos, Felicity teve uma visão que outrora teria sido bela.

Estava no topo de um arranha-céu de Starling que tinha visão para praticamente toda a cidade, e as luzes que iluminavam a noite eram lindas como estrelas presas no chão.

“Milhares de estrelas presas no chão. Como se o céu estivesse do avesso.”

Esse pensamento passou por sua mente, e Felicity achou ridículo que, num momento como esse, estivesse pensando naquilo. Suas mãos estavam amarradas, uma em cada braço da cadeira onde se encontrava com Silver Tape. Sua boca também.

Sentiu a visão embaçar ligeiramente, embora estivesse de óculos.

Estava prestes a desabar, mas no fundo de seu coração, acreditava que eles a salvariam. Sabia que Oliver e Sara a tirariam dali pois a encontrariam através do micro-rastreador em seu celular.

X

Ela chegou na base e achou estranho não encontrar Felicity ali. Provavelmente teria achado que ela tinha ido embora mais cedo, mas ainda assim seria altamente estranho tendo em vista que agora Felicity não tinha um emprego.

“Ela poderia estar procurando outro emprego”, Sara poderia pensar.

Se não fosse a nota que havia visto escrita no computador de Felicity por dedos que certamente não eram os dela. Talvez se não fosse por aquela nota, nem tivesse pensado em nada tão desesperador assim.

Mas ela estava lá.

“Estou com sua hacker, Arqueiro. Quando o relógio der a décima segunda badalada, eu tirarei de você o que tirou de mim: seu grande amor.”

Foi como se o sangue tivesse se tornado gelo em suas veias. Sara entreabriu os lábios para dizer algo, qualquer coisa, mas não conseguiu. Naquele ínfimo momento, tudo o que conseguiu foi observar a tela.

Poucos minutos depois, Oliver entrou atrás dela acompanhado de Nyssa mas ela sequer comentou a respeito.

– Sara, o que foi? – ele perguntou aproximando-se devagar.

– Levaram ela, Ollie. – ela murmurou, baixo demais para que ele pudesse escutar. – Levaram a Felicity.

Havia um tremor em sua voz, tão sutil que Oliver não teria percebido se não a conhecesse tão bem. Infelizmente para Sara, Nyssa também a conhecia.

– É a garota dos computadores, não é? Achei que estivesse saindo com ela, Oliver. – havia algo em seu tom que parecia ácido, algo que Oliver nunca havia notado quando se dirigia na presença de Sara.

– Eu? Não. – ele respondeu, talvez rápido demais. Era verdade que sentia algo por Felicity que ainda não tinha uma descrição certa em sua mente. Na verdade ela sempre estava por perto e só o fato de ser Felicity era o suficiente porque ela sempre o puxava de volta para a realidade quando as sombras pareciam prestes a consumi-lo por completo.

E mesmo agora com a morte de sua mãe e o enlouquecimento de sua irmã era ela quem sempre estava ao seu lado. Ele não conseguia mais sentir essa segurança perto de Laurel, talvez porque a advogada se mantivesse tão distante por conta de seus próprios problemas, mas ele sabia que de alguma forma, em algum nível ainda possuía algum sentimento também por ela. Na verdade, Oliver estava completamente despedaçado, e sentia como se Felicity estivesse juntando seus cacos.

– Não é hora pra isso. – a voz de Sara era cortante como uma navalha e Nyssa sentiu isso. Algo estava diferente e ela não gostava. Não era porque havia libertado Sara da Liga que a queria livre de suas amarras. Ainda a amava e havia deixado isso claro em sua última missão. – Felicity está por aí, e sabemos quem fez isso, Ollie. Precisamos salvá-la.

Era desespero que ouvia em sua voz? Nyssa ainda tentava identificar, mas não sabia. Ela saberia em breve, mas agora não era o momento para isso.

– É, vamos salvá-la. – sua voz saiu seca, Sara notou. – Têm ideia de por onde começar?

– Felicity programou um rastreamento para o celular de todos nós. É assim que sempre sei como nos localizarmos. Com sorte, Slade não notou que o celular estava com ela e a encontraremos. – ele começou a digitar uma série de coisas no teclado do computador.

Se mostrava calmo para todos eles. Na verdade, não poderia aparentar nervosismo, embora Felicity estivesse em sua mente naquele momento. Ele sabia que se beirasse ao desespero... simplesmente perderia tudo. Perderia Felicity. Para sempre.

“E não posso me dar ao luxo de perder mais ninguém.”

– Está funcionando! – Sara falou, apontando para o mapa da cidade onde havia um ponto indicando a localização do aparelho de Felicity.

– É. Parece um prédio que fica na parte comercial da cidade. É perto da minha empresa.

– Ex-empresa. – corrigiu Nyssa enquanto olhava para o ponto do mapa. – Muito bem, eu contatarei a Liga.

– Não temos tanto tempo assim. Se o que ele diz é verdade, então à meia-noite alguém morrerá. E não estou certa quanto ao seu alvo. Quem é o seu grande amor? – Sara questionou virando o rosto na direção de Oliver.

– No momento... temos que nos concentrar em salvar Felicity. Pensaremos na charada depois.

A resposta dele era vaga, como todas as coisas que geralmente o envolviam. Aquilo preocupou Sara. Pois se Oliver realmente amasse Felicity... aquilo seria mais doloroso do que ela imaginava.

X

– Boa noite, Srta. Smoak. Espero que esteja apreciando a vista da cidade. – Slade abriu um sorriso para ela e retirou a silver tape de sua boca. Felicity sentiu gosto de sangue e passou a língua pelos lábios parando para observar Slade naquele momento. Não trajava mais a armadura, mas terno e gravata. Passou por Felicity caminhando até os vitrais enquanto segurava uma taça de vinho, balançando-a elegantemente sem derrubar nenhuma gota do líquido escarlate no carpete.

– Um pouco difícil apreciar a bela vista da cidade... quando se está meio enrolado. – ela tentou abrir um sorriso para ele, mas não sentia vontade de sorrir para Slade.

Ele, no entanto, riu secamente e sorveu um gole do vinho.

– Sabe, eu a convidaria para beber comigo, mas então estragaria todo o clima dos heróis que vêm resgatar a mocinha que usa um aparelho rastreador.

Ela não conseguiu esconder a surpresa em seu olhar.

– Ora, vamos, Srta. Smoak. Você realmente acha que eu nasci ontem? – ele a encarava pelo reflexo do vitral com um sorriso vitorioso.- É claro que eu sabia sobre o seu aparelhinho. E eu o deixei exatamente onde estava porque queria que eles viessem até aqui.... todos eles.

Felicity teve uma sensação estranha. Como se seu sangue de repente tivesse se tornado viscoso como piche amolecido antes de endurecer no asfalto. Aquele era seu trunfo e agora Slade puxava seu tapete. A tecnologia era sempre tudo o que tinha a seu favor.

– Conheço seus talentos, Srta. Smoak. Até mesmo fora do país você é reconhecida por eles... e tem muito cuidado em tudo o que faz, mas... já ouviu falar que uma andorinha sozinha não faz verão? Existem limitações humanas e, infelizmente para você, Fel, está presa a elas.

Havia algo em seu sorriso, no tom de sua voz... algo extremamente perturbador e insólito. Felicity achava que era o tom insolente com o qual ele tratava as palavras, mas poderia ser algo mais.

Fel, ele havia dito.

É claro que sabia sobre ela e Sara. E claro que usaria isso a seu favor.

– Eles descobrirão. – ela disse com uma certeza que arrancou um sorriso de Slade. – Descobrirão e acharão um jeito de vencê-lo. Eles não vão perder para você.

– Oh, não? Eu acho que irão. Todos eles irão cair perante o meu poderio, Srta. Smoak, e você assistirá tudo de camarote. Um a um seus coleguinhas caírem... por terem ousado a me desafiar. Não é mesmo, Shado?

O olhar de Slade se perdeu por um momento em algo que não estava ali ao seu lado realmente. Felicity não demorou a compreender.

Shado.

“Eles não irão cair.”

Precisava se apegar desesperadamente a essa ideia. Ou enlouqueceria.

X

– Muito bem, então devo deduzir que você tem um plano. – Nyssa perguntou enquanto via Oliver se preparar se munindo com a maior quantidade diversificada de flechas que já havia criado.

– Tirar Felicity de lá em segurança. – ele respondeu categoricamente, fazendo-a arquear as sobrancelhas.

– Isso soa como suicídio coletivo para mim. E não tenho planos para morrer hoje à noite, Queen. – ela respondeu de forma tão categórica quanto ele. Sara apenas assistia enquanto os dois se engalfinhavam.

– Detesto ter que concordar com Nyssa, mas conhecemos Slade. E se o conhecemos tão bem assim, podemos não contar com o elemento surpresa a nosso favor, Ollie. – ela não queria pensar. Na verdade só queria invadir aquele lugar e chutar a bunda de Slade. E trazer Felicity a salvo de volta para a segurança ao seu lado.

Ele suspirou exasperado e apoiou as mãos sobre a mesa.

– E então o que sugere que façamos? Não existe uma cura milagrosa para o milagre Slade. Não há nada a ser feito. Você mesma sugeriu que a morte dele era a única solução. – os olhos cansados de Oliver se voltaram para Sara e ela mordeu o lábio inferior.

– Talvez não tenhamos uma cura em mãos, claro, nesse momento. – Nyssa gesticulou com uma das mãos olhando para os dois. – Mas isso não significa que monsieur Slade seja imune a venenos, não é?

Ela segurava um pequeno frasco nas mãos e tinha um sorriso que poderia muito bem ser demoníaco. Sara reconheceu o líquido semi-transparente nele. Era o veneno muito potente de uma cobra africana. O mesmo que quase a havia matado pouco antes de Nyssa declarar que estava livre da Liga.

“Mas não dela”, uma voz falou no fundo de sua mente.

– Mas este está potencializado. Não há riscos de falhas ou chance para cura. Não sei se é o suficiente para matar alguém que possui o Mirakuru em seu sangue, mas certamente servirá para deixa-lo fora de órbita tempo o suficiente para finalizarmos o serviço e voltar com sua princesa em segurança para cá.

– Ela não é minha princesa. – os dois falaram em uníssono, o que gerou um silêncio desconfortável após uma troca ainda mais desconfortável de olhares. E que foi o suficiente para Nyssa.

– Ah. – ela murmurou, os olhos tomando um tom completamente azeviche por um momento. – Bem, eu esperarei lá fora enquanto os pombinhos... decidem o que quer que tenham para decidir sobre moral de heróis e coisas do tipo. Só lembrando... já passa das dez. – e subiu na direção do abandonado Verdant.

Houve aquele momento de silêncio constrangedor entre os dois no qual nenhum deles sabia realmente o que dizer. Sara tentou mover a boca diversas vezes, pensando no que deveria dizer mas não sabia.

– Então... você e ela...

– É... – ela queria ter dito algo melhor do que apenas “é”, mas todas as palavras fugiram de sua boca.

– Quanto tempo? – seus punhos se fecharam levemente.

– Mais ou menos duas semanas, talvez um pouco mais. – ela respondeu, passando uma das mãos pelos cabelos de maneira desconfortável.

– Sabe que deveria ter me contado. Quer dizer... eu achei que fossemos amigos. Que pudéssemos ter esse tipo de conversa.

Sara ergueu os olhos para ele descrente. Estavam correndo contra o relógio e ele queria esse tipo de conversa?

– E o que eu deveria supostamente dizer? Ei, Ollie, eu terminei com você porque estava insegura sobre ter um relacionamento sério, mas adivinhe só? Estou traçando a sua secretária! E, por Deus, como ela é gostosa!

– Talvez de uma maneira mais sutil. – ele desviou o olhar.

– Pelo amor de Deus, Ollie! – ela deu as costas para ele, cruzando os braços fortemente contra o peito.

– Não é ela, Sara. – ele disse de repente.

– Não é ela o quê?

– Não é ela a pessoa que eu amo. – ele disse finalmente.

– Não é? – seu rosto se voltou na direção dele por um momento.

– Falaremos disso depois. Não podemos mais perder tempo.

Ela concordou com a cabeça passando uma das mãos pelo rosto. Estava cansada.

– Certo. Mas teremos essa conversa, Ollie.

Ele anuiu pesadamente segurando o arco entre os dedos, sentindo seu peso novamente.

“Serei um assassino novamente. Mas não me importo se for por ela.”

X

O plano, na verdade, era muito simples: pressupor que Slade sabia de tudo e lutar contra isso. Na verdade, não lutar era o plano ideal. Se pressupunham que Slade sabia de tudo, isso significava que ele sabia que estavam a caminho de lá. E sabia que Oliver e Sara estavam juntos nessa.

“Nós nos entregaremos ao mesmo tempo.”, Sara havia dito enquanto se preparava ao lado de Oliver.

“Mas então não poderemos agir, Sara. E se ele esperar que nos entreguemos e que tenha uma terceira pessoa?”

Ela mordeu o lábio inferior como sempre fazia naquelas situações.

“Eu me entrego, Sara. Você e Nyssa criam a abertura para mim. Estarei com o veneno, próximo dele, e quando ele menos esperar...”

“Não.”, Sara segurou entre os dedos o vidro com o veneno. “Eu mato ele. É o que ele não vai esperar, Ollie... acredito que ele estará preparado para você. Nyssa... me ajuda a criar a abertura?”

Os olhos escuros de Nyssa a encaravam novamente. Geralmente, eram de um tom azul escuro que quase alcançava o negro. Mas enquanto a encarava naquele instante, as íris mergulhadas nas pupilas, estavam cor de azeviche.

(Como os olhos do demônios. Como os olhos do seu pai)

“Não se preocupe com isso. Terá a distração que tanto quer.”

Ela acenou positivamente com a cabeça, mas por um momento achou que havia enxergado algo mais em seu olhar. Uma dor intangível, translúcida e inodora como água. Mas que estava lá para quem a conhecesse tão bem quanto Sara conhecia. Havia mágoa na entonação de sua voz, que provavelmente passaria despercebida se não a conhecesse tão bem.

“Obrigada.”, Sara murmurou depois que Oliver havia partido. Nyssa não respondeu.

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– Sabe, você me lembra muito alguém. – Slade murmurou para Felicity enquanto observava as luzes da cidade parecendo entretido. Felicity não tinha vontade de conversar com ele, então permaneceu em silêncio. – Houve um cara com quem trabalhei há alguns anos. Seu nome era Steve. – ele falou casualmente enquanto caminhava até o bar, enchendo novamente a taça com vinho.

– Existem tantos Steves no mundo. Não sei onde quer chegar com isso, Slade. – ela respondeu finalmente ao ver que ele não dava indícios de que falaria mais nada.

– Ele era um cara brilhante. Desses que você não encontra em qualquer lugar. – por algum motivo, Felicity sentia as palmas de suas mãos frias. – E havia algo muito peculiar sobre ele... no modo como falava e agia... e no modo como descobria as coisas com tanta facilidade. Ele não era excepcional como você, Srta. Smoak, era perfeito.

– Não existe perfeição, o senhor mesmo foi claro sobre isso. Todos estamos conectados às nossas fraquezas. Até mesmo você. – seu olhar para ele era afiado como uma navalha, mas de verdade não queria mais jogar esses jogos. Estava cansada.

– Isso é verdade. – ele deixou a taça pousada sobre o bar caminhando na direção dela e apoiou as mãos sobre as suas. Felicity conteve um gemido de dor quando ele as apertou, sentindo as juntas estalarem. Ele poderia quebrar suas mãos como se fossem palitos de churrasco sem nem se esforçar para isso. – Mas a diferença entre nós, Srta. Smoak, é que minhas fraquezas não ficam tão evidentes na superfície... já as suas... – ele deu um riso baixo, se afastando.

– Você não terminou de contar sobre o homem. – ela murmurou baixo.

– Ah, claro. – ele deu um gole no vinho, voltando o rosto em sua direção. Ela tinha certeza que havia algo de errado sobre o olhar dele. Algo que beirava a loucura. – O nome dele era Steve. Steve Smoak.

X

Oliver parou a moto diante do prédio. Por razões óbvias, ele, Nyssa e Sara haviam vindo separados. Quando tirou o capacete e o pousou sobre o tanque da moto, sentiu o ar gélido da noite preencher seus pulmões. Ele não era capaz de ver Slade no topo daquele prédio, mas sabia que ele o observava. E entrou pela porta da frente sem nenhuma hesitação.

Não havia segurança. Nem mesmo um único homem de Slade guardava o prédio e o elevador estava programado para ir até a cobertura.

Enquanto ele repassava mentalmente todas as situações possíveis, apertou o botão que fecharia as portas do elevador, levando-o até seu destino. Sequer usava a máscara para cobrir seu rosto.

Não havia chances de vencer Slade sem mata-lo, mas nem mesmo mata-lo era algo simples de ser realizado. No passado, havia cravado uma flecha em seu olho. E hoje não era mais o mesmo assassino que havia sido outrem. Felicity o havia tirado daquelas trevas e regressar era o mesmo que virar as costas para tudo o que ela havia feito por ele.

“Então como ela se sentiria se de repente Sara mergulhasse nessas trevas novamente? Como Nyssa se sentiria se eu deixasse...? Ela mesma disse... dia após dia isso consumia Sara, e eu simplesmente estou deixando que ela trilhe esse caminho novamente. Não sei o que aconteceu nessa missão... se Sara matou novamente, mas... eu não quero ser o responsável por isso... por manchar suas mãos outra vez.”

Ele cerrou os punhos com força. Sentia o peso do frasco que Nyssa havia entregue a ele na parte interna de sua luva. Por sorte, ela carregava mais de uma dose. E Oliver esperava sinceramente que aquilo fosse o suficiente para pará-lo sem mata-lo. Mas se aquilo findasse sua vida, que ao menos o próprio Oliver fosse o responsável por isso.

“Eu fui o demônio responsável por dar-lhe a vida, Slade, e sei que não sou Deus. Não deveria ter o direito de tirar sua vida de você, mas quando envolve os meus nisso... eu não posso simplesmente virar as costas e sair andando. Eu podia tolerar tudo até um nível aceitável... podia até mesmo tolerar a morte da minha mãe, que não desejaria um filho assassino. Mas isso.... isso eu não posso fazer. Não posso deixar que mate uma pessoa inocente... não a Felicity... por causa de seus jogos doentios. Isso acaba aqui.”

As portas do elevador se abriram e ele viu Slade recebe-lo com um sorriso.

– Seja bem vindo... Arqueiro.

X

O seu peito pesava como se seu coração fosse feito de pedra. Sara só havia se sentido assim uma vez durante sua vida toda e foi na primeira vez em que teve que matar alguém para provar a sua lealdade para a Liga. Semanas se passaram antes que finalmente conseguisse encostar a cabeça no travesseiro. E todas as vezes em que conseguia dormir, era apenas por exaustão. E sempre que isso acontecia, sonhava com ele, sangrando e correndo em sua direção. Jurando tirar tudo o que algum dia possuísse.

Na época ela havia perguntado para Nyssa como conseguia lidar com isso. Ela apenas deu de ombros e respondeu:

“É tão comum quanto respirar.”

E naquele momento era exatamente daquela forma que a sentia ao seu lado, enquanto estavam empoleiradas ao lado de fora do prédio.

– Você algum dia será capaz de me perdoar...? – ela perguntou baixo, sustentando-se com a força dos braços enquanto subiam para penetrar na estrutura do edifício.

– Pelo quê? Por ter me deixado? Por ter me traído? Ou por nunca ter me amado? Depende do ponto de vista, Sara.

Era como milhares de agulhas penetrando sua pele. Era pior do que sustentar sua mão sobre o fogo. Era pior do que todos os treinamentos que havia suportado para chegar até ali. E ela sabia que aquele não era o momento para aquela discussão.

– Eu nunca quis te ferir. – ela murmurou, e por um momento achou que Nyssa não tivesse lhe ouvido.

– A vida é essa, não é...? O erro foi meu, Sara, por pensar que algum dia alguém poderia me amar.

Nyssa desapareceu na escuridão do prédio antes que Sara pudesse dizer qualquer coisa. E mesmo naquele momento, tudo o que conseguia pensar era em salvar Felicity.

“Eu sou uma pessoa tão horrível assim?”

X

– Oliver... – os olhos de Felicity estavam marejados em lágrimas.

– Ele machucou você? – Oliver murmurou baixinho enquanto caminhava na direção dela. Slade não impediu que se aproximasse. Tampouco fez menção de nada nem mesmo quando ele segurou seu rosto com ambas as mãos.

– Eu poderia dizer que estou tocado, mas não tenho coração para isso já que você o arrancou. – Slade abriu um sorriso para Oliver.

– Eu estou aqui.. antes da meia-noite, Slade. Felicity não tem nada com isso. – ele murmurou entredentes olhando na direção dele.

– Ah, ela tem tudo com isso, Oliver. Já que aparentemente é a pessoa que você ama, não é? – ele abriu um sorriso de canto.

– O quê? — Felicity olhou na direção de Oliver. – Isso é verdade...? Oliver?

Ele apenas esboçou um sorriso para ela e lhe afagou os cabelos com cuidado. Era algo confortável porque ele sempre fazia isso. Sempre...

– Deixe-a ir, Slade. Sua vingança é contra mim, não é? Eu estou aqui. – ele caminhou na direção deles, até que ficassem um de frente para o outro. Podia sentir sua respiração. Podia sentir o ódio dele. O sorriso e o deleite.

– Uhn... isso poderia até ser verdade. Se minha vingança fosse apenas contra você. Mas supondo que ela não seja sua pessoa favorita no mundo, Fel é importante para outra pessoa. Não é mesmo, Sara...?

Seus olhos seguiram até a sombra pendurada na escuridão. Sara o encarou, impassível de onde estava e viu os lábios de Nyssa se movendo.

“Não vá”, ela dizia.

Mesmo naquela situação ela ainda era capaz de demonstrar... o que Sara jamais seria.

“Sinto muito, Nyssa. Terei que confiar em você.”

Sara saiu do meio das trevas, saltando suavemente para o solo. Por um momento sentiu o toque dos dedos de Nyssa sobre suas mãos. E por um momento desejou ser capaz de retribuir aos seus sentimentos, mas simplesmente não podia.

– O filho pródigo à casa retorna. – Slade abriu os braços olhando para Sara e abriu um largo sorriso. Era possível ver a dor nos olhos de Oliver e de Felicity. Sua noite não poderia estar mais completa. – Seja bem vinda... minha pequena Canário.

– Estamos nós dois aqui, Slade. Exatamente como no passado. – ela disse com seriedade.

– Ah, claro... exatamente como no passado. – ele abriu um sorriso ainda maior. Estava entre Sara, Felicity e Oliver.

“É como estar entre uma matilha de cães raivosos... e não há nada que eu possa fazer.”

– Sabe, eu esperei por esse momento por muito tempo. Eu achei que se tirasse sua mãe de você e enlouquecesse sua irmã, seria o suficiente, Oliver. E realmente... – ele coçou o queixo olhando para ele. – Foi mesmo. Mas havia Sara... e ela... precisava sentir. Porque você a escolheu ao invés de Shado, não foi?

Havia algo no tom da voz dele que Sara não gostava.

– Eu estou aqui agora, Slade.

– Estou ciente disso, Sara. – ele sorriu.

– Não! Não! – Felicity apertou os braços da cadeira. Estava tão perto... ele estava tão perto...

– Bem, a festa está completa, não é? – ele uniu as mãos caminhando na direção de Sara. Cortou a distância entre eles em um tempo tão curto que ela mal teve tempo de agir e bateu sua cabeça com força contra uma pilastra.

Ela sentiu o mundo explodir ao seu redor. Queria fazer alguma coisa, qualquer coisa, mas apenas sentia as lágrimas em seus olhos. Estava impotente, completamente.

– Escolha, Oliver...

– A única pessoa que vai ter que escolher é você. Pra qual inferno vai ir. – a voz de Nyssa o alcançou, próxima demais. E antes que Slade tivesse a chance de agir, sentiu a agulha penetrar em sua nuca.

Geralmente nenhum tipo de arma poderia feri-lo.

“Mas existem materiais que penetram até mesmo no aço.”

Claro que o peso todo foi sentido em seu braço, e ela escurou Slade gritar.

– SHADO! SHADO! – ele bateu com força contra o bar, a bebida de espalhando por todo o lugar.

– Sara! Sara! – Oliver soltou Felicity e ela correu naquela direção. Sangue escorria do local onde ela havia levado a pancada.

Sara entreabriu os olhos, encarando Felicity. Seus lábios se moveram murmurando algo emudecido com um sorriso no rosto. Depois sentiu a vista escurecer.

– Temos que tirá-la daqui. – Nyssa agachou-se para pegar Sara nos braços, entregando-a a Oliver.

– E você? – ele perguntou olhando-a com os olhos arregalados.

– Eu? Vou fazer as coisas ao meu modo. – ela abriu um sorriso para Oliver e lançou uma faísca de chama contra o álcool que havia envolvido Slade.

– NÃO! – ele gritou, tarde demais. As chamas lamberam Slade e ele começou a gritar enquanto o fogo se espalhava.

– Temos que ir, Oliver! – Felicity o puxou pelo braço enquanto corriam para o elevador. Enquanto as portas se fechavam, ele viu todo o escritório ser tomado pelas chamas.

Algo semelhante ao inferno. Mas mesmo que Slade merecesse algo assim, ele se sentiu culpado. Preferia que ninguém tivesse que morrer naquela noite.

X

As chamas brilhavam ao longe, mas Felicity estava ocupada demais correndo com Sara para o hospital.

“Vá na frente com ela para o hospital. Ela vai precisar de cuidados.”

“Mas ela está com as roupas... as roupas da Liga.”

“Peça a Laurel que leve roupas para ela. Eu explicarei a ela depois.”

O motorista do táxi não perguntou nada, apenas dirigiu rapidamente.

“Ela salvou minha filha uma vez. Ela está segura, senhorita.”

Felicity se sentiu grata naquele momento, e quando Laurel entrou no táxi, perguntando-se o motivo de Sara estar ali, Felicity apenas sentia os olhos cheios de lágrimas.

“Me ajude, Laurel. Me ajude a livrar ela dessas roupas. Precisamos levar ela pro hospital.”

O homem dirigia rapidamente enquanto as duas mulheres trabalhavam no banco de trás. Felizmente, não houveram perguntas desnecessárias e os paramédicos já estavam preparados para quando eles chegaram lá.

X

– Você não precisava ter matado ele. – Oliver murmurou observando o prédio em chamas. Nyssa estava no prédio oposto, em pé, observando o andar todo queimar.

– Eu precisava sim. – ela respondeu com seriedade.- Você não tem culhões para isso. Para ser um assassino frio outra vez. Eu não podia deixar Sara com esse peso nos ombros. E ele continuaria voltando e voltando até que fosse finalmente eliminado. Esse era o único jeito.

Não havia dor em sua voz, tampouco arrependimento. Apenas aquela certeza fria de que havia cumprido o seu trabalho.

– Talvez fosse. – ele respondeu fracamente. – Eu pedi a Felicity que levasse Sara para o hospital. Você devia estar lá, Nyssa.

O olhar dela se tornou distante. Oliver identificou aquele brilho escuro em seu olhar. Era o brilho que havia visto milhares de vezes em seu próprio olhar enquanto encarava o espelho imaginando que jamais se envolveria com alguém novamente.

– Não sou eu quem ela quer ao seu lado quando acordar, Oliver. E nós dois sabemos disso. – sua voz soou longínqua, mas Oliver identificou a dor ali. Mesmo que estivesse quase imperceptível.

– Eu... queria poder fazer algo por você. De certa forma, acabou nos ajudando. Mesmo que as coisas não tenham terminado da forma que eu desejava. – ele murmurou. Os carros do corpo de bombeiros começavam a chegar para apagar o fogo, mas já havia se espalhado para o andar debaixo. Felizmente o prédio estava vazio.

– Ninguém pode fazer nada por mim além de mim mesma. Seguirei em frente como sempre segui. Minha vida não está entrelaçada à dela. E não há nada que eu possa fazer sobre isso, pois mesmo que matasse sua amada Felicity.... ela não voltaria para mim.

Havia uma certeza fria em suas palavras. Oliver não duvidou em nenhum momento que ela seria mesmo capaz de matar Felicity se isso garantisse que Sara retornaria para ela.

– Sabe... eu nunca a vi tão feliz assim. Nem mesmo na época em que éramos mais novos... eu nunca vi Sara dessa forma. Ela parece melhor. Talvez fora dessa vida da Liga...

Nyssa acenou com a cabeça.

– Não se acostume com as minhas ajudas. Eu não sou nenhum dos seus capachos que segue suas ordens e tudo o que fiz foi por Sara. Eu devo retornar para Nanda Parbat.

– Tem certeza de que não quer ficar para falar com ela? – Oliver questionou.

– Não há nada a ser dito. Ela deve saber o que deve saber e apenas isso. No fim... nós dois acabamos perdendo, Oliver. Temos que aceitar a realidade.

Ele abriu um sorriso fraco enquanto a via se afastar para a escuridão.

– Eu estarei aqui, Nyssa. Se você precisar conversar com alguém.

– Eu não me tornei uma pessoa tão sentimental assim. Até a próxima... Arqueiro.

Havia algo de cúmplice no sorriso que ela lhe deu antes de mergulhar nas sombras. Oliver desejou ardentemente poder fazer algo para tirá-la daquela escuridão. Mas diferente dele e de Sara, que haviam sido expulsos dela por Felicity, aquilo fazia parte de quem Nyssa era. Ela não podia simplesmente abandonar isso.

X

Quando Sara entrou para a cirurgia, nenhuma das duas pôde fazer nada além de ficar aguardando ao lado de fora.

– O médico disse que o estado dela era grave. Que nunca tinha visto... uma lesão tão grave assim. É como se ela tivesse colidido em alta velocidade com um poste. Acidente de moto. – Felicity justificou. Laurel enxergava a dor nos olhos dela. E sabia também enxergar uma mentira.

– Vai me contar o que está acontecendo? – ela perguntou, agradecendo baixinho ao café que Felicity havia trazido.

– São tantas coisas.... eu não sinto que estou no direito de contar todas elas a você. Oliver.. ele disse que explicaria.

Laurel acenou com a cabeça. Não importava também saber naquele momento, mas ela via o estado de Felicity. Havia algo na preocupação dela que era diferente da preocupação que um colega teria.

– Sara é uma pessoa forte. Ela já voltou dos mortos uma vez. Vai retornar de novo.

– Sei disso. – Felicity esfregava os pulsos mesmo que inconscientemente. Ela não se importava com as dores que estava sentindo até então. Era como se tudo tivesse se apagado.

– Você está machucada... – Laurel tocou seus pulsos. Felicity se retraiu quase que automaticamente.

– Não... é nada. Não se preocupe. – ela abriu um sorriso fraco. Os olhos ardiam de tanto chorar.

– Sabe, eu não sei o que você é da minha irmã... sabia que era a secretária do Ollie, mas... eu sei que ela vai ficar bem, Felicity... eu tenho certeza disso. – ela abriu um sorriso para Felicity, apertando os dedos dela entre suas mãos. – Não se preocupe... ela vai voltar para nós. Ela sempre volta.

Havia algo no olhar de Laurel que era capaz de trazer paz. Ela tinha jeito com as palavras, provavelmente era por causa disso que tinha se tornado advogada. Em algum lugar naquele olhar, Felicity foi capaz de compreender porque Sara amava tanto sua irmã. E porque algum dia Oliver já a havia amado.

“Oliver.”

Somente naquele momento ela parou para pensar em Oliver. Nas palavras não ditas por ele. Eles... ele... o que havia sido aquilo? Ela respirou fundo, sentindo as lágrimas em seus olhos novamente. Ela deveria estar consolando Laurel, mas sentiu que ela a abraçava quando começou a chorar novamente como não fazia há muito.

Mas apenas desejou com todas as suas forças que Sara ficasse bem.

Notas finais
Então, mais um capítulo, desta vez com várias revelações a respeito da família da Felicity! Esse personagem é uma criação minha, mas ele terá importância, talvez, no próximo capítulo. Também teve a revelação para o Oliver! Coisa que várias pessoas me pediram em capítulos anteriores e achei que caberia aqui colocar. No próximo, focarei mais no lado familiar de todos e na recuperação da Sara. Espero que continuem acompanhando e comentando!