Wanna Play?
24 Arsenal
Notas iniciais
"E será que o Inferno existe mesmo? Ou fazemos o nosso próprio inferno aqui na Terra?”
Escuridão total e sem estrelas – Stephen King
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Roy sentia-se idiota.
Completamente idiota por ter se permitido, ainda que por poucos segundos, acreditar que as coisas seriam diferentes se simplesmente se permitisse acreditar em Scorpia.
Bobagem!
É claro que não eram.
E por conta de sua inocência, da ingenuidade que havia se permitido ter na esperança de uma cura milagrosa, agora era encaminhado como uma cobaia para o laboratório.
E embora tivesse buscado opções para libertar-se, nada havia surgido diante de si.
Nada.
Mas a esperança tem tons verdes. E Roy não deveria desistir de si mesmo tão cedo. Mesmo que parecesse caminhar para um triste fim.
X
Ray queria ajudar.
O protótipo de sua roupa estava pronto, ele havia feitos os testes necessários e estava pronto para isso.
Exceto que Sara havia dito um sonoro não.
− Por que não?! – Ray questionou, indignado com a simplicidade com a qual Sara havia lhe respondido ao terminar de se vestir. Ele próprio já havia vestido seu traje! E Sara achou que ele parecia um dos action figure que Felicity havia comprado de presente para Cisco.
Sara parou antes de subir na moto. Felicity e Caitlin faziam de conta que não ouviam a discussão dos dois. Noah prosseguia trabalhando nos computadores e Eric terminava de ajeitar o capuz improvisado sobre a cabeça.
− Ele vai! – Ray apontou um dedo acusador para Sara, que trocou os olhares entre os dois homens antes de subir na moto. Eric subiu na outra.
− Me responda algumas coisas, Ray, e se me disser que sim para todas as respostas eu deixarei você ir, tudo bem? – A voz de Sara era mansa demais. Ela colocou a nova máscara sobre o rosto, sentindo que ela se ajustava perfeitamente. Maldito Cisco! Precisaria agradecer muito a ele depois.
− Tudo bem! Quero dizer, sim! – A animação de Ray quase derreteu o coração de Felicity, que permanecia de orelhas a postos ao lado de Caitlin.
− Em algum momento na sua vida, já treinou artes marciais?
Ray pensou nos filmes de Karate Kid. Havia assistido todos, e copiado seus movimentos.
− Sim!
Sara não comeu muita corda, mas prosseguiu.
− Já fez testes com esse traje para saber como ele funciona? Testou-o com coisas móveis?
Se os discos que havia lançado para testar o tiro ao alvo contassem como alvos móveis...
− Sim e sim!
Sara ajeitou as luvas e finalmente colocou as mãos sobre o acelerador da moto. Eric era uma estátua silenciosa ao seu lado, segurando-se para não rir da ingenuidade de Ray. O cientista estava quase convencido de que poderia sim ir!
− Última pergunta. Se a resposta for positiva, então poderá montar bem aqui atrás. – Sara apontou com o polegar para as próprias costas. Ray estava exultante! Ir na mesma moto que a Canário Negro?! Era quase um sonho tão grande quanto descobrir a verdadeira identidade do Arqueiro! – Você já matou alguém ou será capaz de fazê-lo caso seja necessário?
A boca de Ray moveu-se mais rápida que o cérebro, pronta para responder que sim ao que quer que Sara lhe dissesse, até que computou suas questões.
− Matar? O que quer dizer com isso? – Desta vez o olhar dele pairou sobre Sara. Então sobre Felicity como se perguntasse: vai mesmo deixar ela fazer isso?
Mas a hacker apenas encolheu os ombros. Tinha plena confiança na noiva e de que ela tomaria a decisão certa. Falar sobre mortes ainda fazia suas mãos tremerem. E tinha certeza de que Sara não tomaria esse caminho. A não ser que fosse estritamente necessário. Ela esperava que não.
− Quero dizer exatamente o que estou dizendo, Ray. – Sara suspirou pesadamente. – Algumas situações exigem mais de nós do que estamos dispostos a dar. Não estamos indo para um passeio no parquinho aqui, ou para uma missão de assalto ao banco. Isso é muito mais. Vidas estão em jogo. Milhares delas. Tenho certeza de que você seria de grande utilidade, mas que também poderia congelar em combate. É o seu primeiro combate, não é? Tenho certeza que com um pouco mais de tempo, poderia se sair bem. Mas não posso arriscar isso hoje. Estarei disposta a te treinar. A te ajudar no que quer que precise que essa roupa não possa realizar por você. Mas por hoje... por agora eu preciso que você seja útil aqui, com as suas máquinas. Ajudando Felicity, Caitlin e...
− Noah. Pode me chamar de Noah, querida. – O homem abriu um meio sorriso, recebendo um olhar cortante de Felicity em resposta. Ela não queria nenhum tipo de proximidade entre o pai e a noiva.
Ray pareceu realmente desapontado. Sentia-se tão pronto para a ação!
− Ela é responsabilidade minha, sabe? – disse ele, e Sara conseguia sentir, em algum grau, do que ele falava. – Eu e Caitlin nos sentimos responsáveis por ela.
Caitlin, até então calada, aproximou-se e tocou o ombro de Ray.
− E suas vontades me alcançaram. – Sara disse. – Eu não permitirei que uma maníaca controle um dos meus e a minha cidade e saia ilesa disso. Nenhum tipo de maníaco. – As últimas palavras se dirigiram especialmente para Noah, mas se o homem percebeu, ignorou veementemente. – Vamos, Eric. É sua chance de se redimir com a minha irmã.
Eric sentiu o estômago pesar naquele momento. Não achava que existia um jeito de se redimir com Laurel. Mas apenas esperava que pudesse ajudar a livrar a cidade daquele mal. Mas apenas seguiu-a sem compartilhar como se sentia.
− Como você consegue? – Caitlin perguntou depois que Sara havia partido com Eric. – Fazer isso todas as noites? Deixar ela ir sem saber se voltará a salvo ou não?
O olhar de Felicity estava perdido, justamente pensando naquilo.
− Faço o meu melhor para que ela volte sendo seu suporte. – respondeu ela, sentindo o coração na palma da mão. – E como poderia prender um pássaro tão livre quanto esse canário? Ela sempre volta. – Felicity sorriu e pousou a mão sobre o próprio coração. – Ela sempre volta para o seu lar.
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− Como estão os preparativos para o gás, Cobra? – A voz de Scorpia ressoou pelo ambiente. Passeava pelo laboratório, observando todas as cobaias adormecidas. Mas era sobre aquele desperto, sendo preparado para os procedimentos que seus olhos recaíam. Tinha suas últimas ressonâncias, os resultados de que os tumores haviam se espalhado por seu cérebro como luzes de natal.
− Tudo na maissss perfeita condiççção, minha mestra! – O homem de língua bifurcada esfregou as mãos, um sorriso desenhando-se nos lábios finos e crispados.
− Então solte o gás. – O clink! mecânico espalhou-se quando uma gargalhada rouca escapou de sua boca. – Não quero nenhuma interrupção aqui quando começar com o Sr. Harper.
− Como queira, sssenhora!
O show estava prestes a começar.
X
− Sabe que nunca matei ninguém, não é? – Eric perguntou através do ponto para Sara.
− Claro que sei. – Sara sorriu de canto. – Uma dondoca como você jamais teria feito algo assim.
− Não ofende, cara! – Eric fez biquinho. Mas Sara apenas olhou-o por cima do ombro por breves segundos antes de voltar a atenção para o trânsito.
− Não pense que estou perdoando o que você fez a minha irmã, mentindo para nós, ao aceitar sua ajuda. E jamais me submeteria a pedi-la. – A voz de Sara soou séria através do ponto. – Não cabe a mim tomar a decisão por ela e irei apoiá-la no que for. Mas se você fizer algum mal a ela... juro com essas mãos que a terra há de comer: eu mato você.
Eric não tinha dúvidas de que Sara falava a verdade, pois ela possuía aquele brilho nos olhos. O brilho que havia enxergado em centenas de presos que haviam dividido o bloco com ele.
− Tomei uma decisão errada em minha vida. – confessou Eric. – Não deveria, jamais, ter aceitado colocar aquele pendrive nas coisas de Felicity. Ou ter feito qualquer coisa contra vocês. Sei que deveria ter buscado por ajuda. Mas Noah é poderoso demais. Achei que... achei que se me visse livre dele seria o melhor a fazer. E então, talvez, eu pudesse fazer sua irmã feliz. Sei que ela merece mais do que isso. Mais do que tudo o que tenho a oferecer, pois não tenho nada. Nada além dos cacos que restaram de mim.
Sara ficou em silêncio por um momento, refletindo sobre as palavras de um Eric arrependido.
− Se a quer de volta, lute por ela. – disse por fim. – Mas não faça isso por nenhum motivo que não seja querer fazê-la feliz. Porque Laurel já sofreu muito nessa vida. E eu não permitirei que ela se afunde novamente no vício por um merdinha como você. Estamos entendidos?
Eric confirmou com a cabeça, ao que Sara apenas sorriu, satisfeita.
− Canário Negro, na escuta?— A voz de Felicity ao outro lado despertou-a de seus devaneios.
− Pode falar, Observadora.
− Temos um problema.— Era seriedade no tom de Felicity. – Um grande problema.
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Noah, com a ajuda dos mini-rays, havia descoberto um foco muito grande de uma toxicina muito semelhante ao que Ray e Caitlin haviam passado para eles, com algum tipo de modificação na fórmula.
Foi Caitlin quem a reconheceu e começou a mapear.
− É tóxico. Muito tóxico. – disse ela. – E está se espalhando pela cidade rapidamente. Por enquanto, em camadas mais superiores porque foi solto da torre relógio. Mas quando isso se espalhar...
Felicity não queria nem ouvir o desastre que isso causaria.
− Quanto tempo nós temos, Fel?— Ela não se importou em usar o nome da noiva dessa vez. Felicity olhou para o pai, que estava à frente disso.
− Posso tornar o escape do gás um pouco mais lento. Mas se não acharmos uma forma de reverter isso, a cidade toda será afetada em quarenta minutos.
Quarenta minutos.
Não daria tempo de irem até o esconderijo de Scorpia e pararem o gás ao mesmo tempo. E se não fossem atrás dela e parassem o gás, ela certamente fugiria.
Felicity sabia como a mente da noiva trabalhava. Querendo fazer todas as coisas ao mesmo tempo. Salvar a cidade e parar Scorpia. Exceto que se deixassem ela ir embora, Roy iria com elas. E quem sabia o que poderia acontecer ao garoto?
Era uma faca de dois gumes. Não havia opção certa. E o peso dessa decisão ficaria nos ombros de Sara para sempre.
Felicity sentia o peso por ela também em seu coração. E gostaria de fazer qualquer coisa por ela. Ter uma resposta... mas o quê?
− Ouvi dizer que precisam de ajuda por aqui? – John adentrou o esconderijo, encarando Felicity e os demais com genuína surpresa. – Talvez eu tenha me enganado? A equipe cresceu?
− John! – Felicity praticamente se jogou nos braços do amigo e o apertou contra si. Até ver que Thea não o acompanhava sozinho. Mas com Malcolm Merlin. Sua expressão se tornou taciturna.
− Ele está comigo. – justificou Thea rapidamente, ao que o pai estava pronto para sacar uma flecha e destiná-la para cada pessoa presente ali. – E não fará nada além do que eu pedir. Não é mesmo, papai?
Malcolm relaxou os ombros.
− Fel, o que está acontecendo?— Sara, que ainda pilotava nas diretrizes coordenadas, perguntou.
− A ajuda chegou, Sara. – respondeu Felicity. – Continue indo para o esconderijo. John está aqui. E temos outras pessoas para ajudar também.
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Ficou decidido assim: Thea, que John assegurou ser uma lutadora exemplar, alcançaria Sara e Eric. Ela não aceitou ficar de fora do resgate de Roy, alegando que deveria estar lá para trazê-lo de volta caso o garoto oferecesse alguma resistência. Então, Eric, Sara e Thea estariam responsáveis por resgatar Roy (contra a vontade dele ou não) e parar Scorpia. Enquanto Isso, Malcolm Merlin e John Diggle faziam a dupla mais estranha na direção da torre relógio para tentarem parar a propagação do gás com um dispositivo desenvolvido em dupla por Ray e Caitlin, que ainda tentava desenvolver um antídoto, mas que garantia precisar de uma amostra do gás—tarefa que também ficara por conta da dupla dinâmica.
− Que fique claro que não gosto nem um pouco da ideia de trabalhar com você. Ou de dividir um meio de transporte. – Malcolm disse entredentes, enquanto os dois partiam na única moto que havia restado no recinto. Obviamente, Malcolm era o garupa. Não aceitara menos que isso.
− Não pense que estou exultante aqui. E chegue mais para trás ou te derrubo daqui! – John alertou, claramente incomodado em ser o piloto. Mas também tinha certeza de que era mais indicado para a tarefa do que Malcolm.
E, francamente! Por que tinha que aceitar a ajuda dele? Poderia muito bem pedir auxílio à Lyla e a ARGUS, mas não conseguira entrar em contato com a esposa. Seu celular estava incomunicável.
E Oliver... Felicity não tivera tempo de dizer muito a ele. Mas sabia que o amigo estava vivo, bem e não presente no momento. Todos os detalhes ficariam para depois. Pois havia se ausentado da cidade por tempo demais e tudo o que sabia no momento é que tinham um gás tóxico que matava pessoas pronto para atingir a cidade inteira em cheio. E se para impedir isso tivesse que trabalhar com Malcolm Merlin, faria esse esforço. Pois era isso que um herói fazia.
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O perímetro parecia o de uma casa comum, mas pelo que Felicity havia lhe falado, era isso que deveria parecer. Talvez para atrair mais pessoas para sua causa? Como uma espécie de seita? Era aterrorizante pensar nisso e Sara espantou logo o pensamento de sua mente, mantendo-a fixa naquilo que deveria: a missão.
− Não estamos sozinhos. – Eric apontou pequenos drones que sobrevoavam a casa; quase imperceptíveis, a não ser por um raio de luz infravermelho que liberavam de quando em quando. Sara concordou com a cabeça, fazendo sinal com o indicador para que Eric ficasse em silêncio.
Tinham escondido as motos em um beco, cobrindo-as com camuflagem feita com o matagal da própria região. Havia outras casas ali, mas um pouco mais afastadas, o que dava ares de fazenda àquele local.
Pessoas caminhavam ao redor, e isso tornaria a missão mais difícil. Mais perigosa.
Eric logo descobriu a razão pela qual Sara pediu seu silêncio: guardas armados, do qual ele não havia se dado conta, rondavam a região. Provavelmente um reforço pedido por Scorpia ao saber que eles estavam se aproximando.
Felicity os alertara, através do aviso de Roy, que ela saberia. Porque já havia notado os mini-rays que tinham rondado a propriedade nos últimos dias.
Quando o guarda mais próximo passou novamente, Sara decidiu testar sua nova roupa: uma pena desprendeu-se da camufla da asa e Sara segurou-a entre os dedos antes de lançar na direção do pescoço do homem. Poucos segundos depois, caiu desacordado.
− Uau. – Eric pareceu impressionado. – O que mais essa roupa faz?
Sara abriu um sorrisinho de canto. A ideia de usar o sonífero que Oliver costumava utilizar nas pontas de algumas flechas havia sido exclusivamente dela. Mas não tiraria os méritos de Cisco pelo design impressionante.
− Vamos descobrir. – respondeu ela. – Quero que espere por Thea aqui ou ela poderá não encontrar todos os drones. Seus olhos bem treinados serão bem-vindos.
Eric concordou com a cabeça, ainda que não quisesse deixar Sara entrar sozinha. Mas ela já havia feito isso mais vezes do que o Corvo poderia contar. Então confiaria nela. Assim como, naquele momento, a despeito de não ter nenhum motivo para isso, a Canário Negro confiava em si.
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Laurel sentia-se no limiar da loucura. A secura em sua garganta beirava ao desespero e ela já tinha comprado seu veneno desde que expulsara Eric: vodka. Pura e seca. O rapaz havia saído dali com a promessa de que ajudaria sua irmã a limpar aquela bagunça e que se mesmo assim Laurel não o aceitasse de volta, compreenderia.
Mas ele não valia a pena.
Havia deixado isso claro para que Laurel não se entregasse novamente ao vício da bebida.
Exceto que Laurel pensava o contrário. Eric valia a pena. Ele poderia não ter dito nada a ela. Poderia simplesmente não ter voltado ao esconderijo. Mas escolhera aquilo. Escolhera lhe dizer a verdade. Porque parte dele...
− Porque parte dele o quê, Laurel? – A mulher riu de maneira histérica e patética. Como podia ter sido tão tola?
Encheu o copo com vodka.
E o encarou.
O copo a encarou de volta, convidativo.
Querendo que ela desse o primeiro gole.
Laurel lambeu os lábios, prestes a se entregar à tentação.
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Nora Green costumava ser uma pessoa metódica. Quando ela colocava algo na cabeça, precisava dar fim a isso ou jamais se sentiria confortável outra vez. Era como uma espécie de TOC, voltando e voltando até que sua missão fosse concluída.
Ela ainda sentia as dores latejantes por todo seu corpo pelo trabalho que havia deixado pendente durante todos esses anos.
Com Roy preso à maca, começou a prepará-lo para o procedimento.
− Não posso dizer que não será invasivo, Sr. Harper, mas apenas minimamente. – disse ela, com uma tranquilidade de dar raiva. – Doloroso? Talvez. Nos testes com outras cobaias, sinto dizer que algumas não resistiram. Sacrifícios, Sr. Harper, às vezes são necessários para o avanço da tecnologia. Todos gostam de citar os alemães nesse âmbito, não é? Bem, eles não são tão vilões assim quando paramos para notar todos os avanços da medicina.
Roy mal podia acreditar no que ouvia. Ele era péssimo em História (e em outras matérias também), um asno de carteirinha que tinha as notas salvas pelas atividades extracurriculares (e pela ajuda de Felicity em álgebra), mas até mesmo ele sabia que os alemães não eram gente boa durante a Segunda Guerra Mundial.
− Você não pode estar falando sério. – Sua voz tinha um tom de deboche, mas pelo olhar de Scorpia, ela falava sério sim. Muito sério. Para lá de sério.
− Por que não, Sr. Harper? – indagou ela. A seringa era preenchida por um líquido transparente que se tornava verde ao ser misturado em um pequeno frasco com algo em pó. Roy observou aquilo com uma sensação de desconforto. – É tão errado assim acreditar que medidas drásticas devem ser tomadas em prol do avanço? Porque eu tentei por outros métodos, mas isso foi tirado de mim. Passei por dores excruciantes, tive que recomeçar do zero. Veja o que aconteceu comigo! Acha que foi escolha minha ficar assim? Foram as empresas farmacêuticas e a única pessoa na qual eu acreditava que fizeram isso comigo! Mas sobrevivi. Sobrevivi a um incêndio. E se isso aconteceu, é porque existe um motivo maior. E o tornarei realidade.
Roy mal teve tempo de indagar quando sentiu a picada em seu braço. O líquido doía ao penetrar no corpo e ele rangeu os dentes para não dar o gostinho a ela de ouvir seus gritos de dor. Durante os primeiros minutos, imaginou que nada mais aconteceria. Que o que quer que ela tivesse testado, havia falhado.
Então a dor veio. Em espasmos tão dolorosos que ele parecia estar tendo uma convulsão.
Talvez estivesse.
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− O que pensa que está fazendo?! – Sin havia acabado de entrar no apartamento e apanhou o copo de Laurel antes que um desastre acontecesse. Ela parou para examinar a cena por alguns segundos, o copo em mãos: estava cheio, a garrafa de vodka também parecia. A bagunça na casa fazia parecer que um furacão tinha passado ali dentro. Uma foto de Laurel e Eric estava rasgada no chão. O suficiente para que Sin compreendesse ao menos parte da situação. – Comece a falar. E não vou aceitar que se entregue a bebida, não importa o motivo. Você prometeu.
Havia prometido, Laurel se lembrava. Se manteria sóbria, sem que nada atrapalhasse isso, contanto que Sin retornasse para a escola, que lhe ajudasse estagiando na promotoria e colocasse a própria vida nos eixos. Esses eram os termos estritos do contrato e as duas vinham cumprido muito bem o exigido até aquele pequeno deslize de Laurel.
Sin era apenas uma criança cursando o Ensino Médio, com gostos peculiares para roupa e maquiagem, mas que tinha passado por muita coisa até então. Coisas que Laurel suspeitava que jamais sobreviveria. Coisas que Sara havia lhe contado certa vez que a deixaram de cabelo em pé. Algumas revelações a própria Sin havia feito. E a fazia querer destruir cada criminoso com quem ela já havia se envolvido.
Respirou fundo, as mãos ainda trêmulas pelo desejo do álcool.
− Jogue fora. – pediu. – Jogue fora, porque não tenho forças para isso. Então eu te conto. Te conto tudo o que sei.
As lágrimas rolavam pelo rosto de Laurel. Não era apenas a traição de Eric, mas tudo o que a envolvia.
Sin obedeceu prontamente, agarrando a garrafa e tirando-a das vistas de Laurel. Esvaziou todo o seu conteúdo na pia da cozinha, o cheiro do álcool revirando o seu estômago. Laurel quis gritar, mas não o fez. Nem mesmo quando ela esvaziou o copo.
Oito meses de sobriedade.
Laurel chorou. Chorou no ombro de Sin, em seu abraço.
Chorou antes de começar a revelar para Sin tudo o que estava acontecendo e que também envolvia seu melhor amigo.
E então, Sin começou a chorar também, abraçando Laurel de volta e finalmente compreendendo porque ela quase havia cedido à tentação de beber. Mas ela não estava mais sozinha. E Sin mostraria isso a ela. Como Laurel havia lhe mostrado que também não estava.
X
Thea Queen sempre havia sido uma patricinha egocêntrica, que não se importava muito com as coisas desde que pudesse ter mais uma dose. Mais uma nova droga. Ela havia entrado nesse mundo cedo demais—primeiro para chamar a atenção dos pais e do irmão, posteriormente pela morte do irmão—e provavelmente teria continuado nele se Oliver não tivesse retornado.
As coisas foram muito ruins, especialmente depois de Moira Queen. Mas Roy havia sido sua luz. Ele não havia desistido dela nem mesmo em seus piores momentos. Então, quando John disse que ele precisava de sua ajuda, como poderia negar?
Ela não era mais aquela pessoa.
E ela, definitivamente, não precisava mais ser protegida.
O que Thea mais gostava em Malcolm, era o fato de que ele confiava em suas habilidades. Diferente de todas as pessoas que viveram ao redor de Thea. Ela não sabia se essa era sua maneira de mantê-la por perto, mas podia dizer que funcionava muito bem assim.
Claro que ele ofereceu certa resistência, querendo acompanha-la (apenas porque lutavam muito bem juntos, claro), mas quando Thea expressou o quanto aquilo era importante para ela e que precisavam sim salvar a cidade (eu não entendo o motivo, Thea. Podemos apenas salvar o seu namorado patético e ir embora?), Malcolm acabou cedendo.
Seu pai.
Thea teria que se acostumar com a ideia de chamá-lo assim. Não por Malcolm ser seu pai de sangue—Robert sempre seria mais pai para ela do que ele jamais foi. Mas porque ele realmente estava se esforçando para cumprir esse papel. Com alguns pequenos desvios, é claro (que tipo de pai ensina a filha a manipular uma katana e lança shurikens contra ela em momentos de descanso?). Mas com êxito.
Havia chegado no local apontado por Felicity—a mulher lhe garantira que alguém a esperava, mesmo que Thea dissesse poder se virar sozinha (foram ordens de Sara, sinto muito)—e viu Eric espreitando nas sombras. Não o teria visto—ele era muito sutil—, mas o sinal do rapaz chamou sua atenção.
Eric a atualizou rapidamente da situação, mas não questionou suas habilidades.
− Você fica muito legal de verde. Mas estão um pouco largas pra você.
Thea apenas sorriu. Levaria com orgulho o legado do irmão enquanto ele não retornasse.
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Entrar não foi a parte difícil para Sara.
Entrar nunca era a parte difícil. Ela tinha passos leves, havia sido bem treinada pela Liga e não desperdiçava movimentos. Alguns hábitos eram mais difíceis de perder do que outros. E sempre que precisava não matar alguém, aí sim precisava se controlar.
O local era bem mais protegido do que ela imaginava, e apagar os brutamontes ao redor, exigiu dela uma grande quantidade de energia, pois não possuía tantas penas soníferas quanto desejava.
Em algum momento, ela foi descoberta e chamou a atenção para si, no intuito de abrir caminho para Eric e Thea—a mensagem de que os dois estavam juntos já havia lhe alcançado.
Mas ela estava mais perto, Felicity havia lhe dito, após conseguir invadir o sistema do local (tudo era mais fácil quando se sabia onde invadir).
− Eles são muitos, Sara, espere o reforço.— Felicity pediu. Mas naquele momento, o grito de Roy cortou o ar. As duas o reconheceram. Felicity sentiu o coração pesar dentro do peito, dividida entre pedir para a noiva invadir o local e aguardar. Mas Sara tirou esse peso dela.
− Sinto muito, Fel, não posso esperar.
Os guardar todos haviam sido remanejados para aquele local. Sara se revelou, esperando que viessem até si.
− Vamos torcer para o dispositivo do seu amigo ser realmente mais potente. – Sara conectou os plugs de ouvido e puxou o ar todo para os pulmões. Então, gritou.
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E o grito foi tão forte, que atraiu a atenção de Thea e Eric—completamente perdidos, exceto pela pilha de corpos deixada por Sara.
− Acho que já sabemos por onde ir, Observadora. – Eric passou pelo ponto.
− O quê?!— Felicity gritou do outro lado, completamente surda com o grito que a noiva havia disparado.
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O dispositivo era mesmo incrível. Sara viu muitos dos homens se curvarem aos seus pés enquanto outros caíam instantaneamente no chão. Um infeliz que teve o azar de estar bem diante dela quando soltou o grito voou de encontro à porta do laboratório onde Scorpia realizava os procedimentos e arrebentou-a com a potência sônica.
Vidros haviam sido estilhaçados.
Sara agradeceu pelos fones cedidos por Cisco terem drenado todo o grito de forma que ela não foi afetada.
− O que estão esperando?! Agarrem ela! – A ordem veio de dentro—uma voz feminina que Sara atribuiu à Scorpia.
Mais guardas vieram. Sara iniciou o combate, mergulhando para dentro do laboratório.
E o viu.
Convulsionando sobre a mesa, gritando de dor enquanto as veias se expressavam esverdeadas sobre os braços musculosos.
Pareciam maiores.
− O que você fez com ele?! – A pergunta custou à Sara parte de sua atenção. E ela apenas teve tempo de sentir o golpe traiçoeiro que lhe atingiu a nuca antes de apagar.
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Eric e Thea seguiram a trilha de corpos até o local onde Sara o havia disparado. Não foi muito difícil, no fim das contas, porque Sara não tinha se esforçado nem um pouco para escondê-los. Talvez com esse intuito mesmo, mas também para poupar tempo.
Seu irmão costumava usar arco e flecha, e Thea sentia o peso da aljava em suas costas. Mas ela preferia espadas, tanto que a wakizashi que seu pai havia lhe dado estava bem presa à cintura ao lado de outra gêmea.
Estavam perto da porta quando começaram a ouvir as vozes. E Eric lhe puxou para um canto escuro no corredor enquanto uma série de guardas passava por eles para dentro do laboratório.
Fizeram silêncio então. Teriam que descobrir outra forma de entrar ou seriam pegos. Como Sara havia sido.
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− Ora, ora, ora parece que a Canário Negro resolveu dar o ar de sua graça por aqui. – O tom divertido de Scorpia fazia a cabeça de Sara latejar. Mas podia muito bem ser a pancada que havia levado.
− O que você fez com ele?! – perguntou entredentes. Até mesmo sua voz parecia um pouco embargada. Tudo o que ouvia através do ponto era um chiado. Provavelmente havia sido danificado com o golpe.
− Com ele? – Scorpia dirigiu seu olhar para Roy. – Fiz apenas um pequeno teste. Seu corpo agora está reagindo e logo saberemos o que acontecerá.
O sorriso dela era feio. Não era por conta da parte mecânica em seu rosto, Sara notou. Mas porque ela tinha aquele aspecto doentio dos cientistas loucos.
− Não pense que sairá impune disso. – O sorriso de Sara, cheio daquela presunção dos heróis, fez com que Scorpia lhe atingisse com um tapa forte no rosto. Sara sentiu o gosto de sangue na boca.
− Não acho que resta muito para você, protótipo de heroína. – disse ela. – Se não me engano, o Arqueiro não está na cidade há algum tempo. E só sobrou você já que o Arsenal está aqui, não é? Como era o nome daquele outro brutamontes? O inútil que só servia como pano de fundo?
Sara trincou os dentes, tentando se libertar. Mas sentia-se bem presa pelos braços dos brutamontes particulares de Scorpia.
− Nananinanão! – Scorpia ergueu o indicador em riste fazendo uma negativa. – Esses queridinhos não são fracotes como os outros, não! Eles possuem uma força aquém...
O brilho em seus olhos fez Sara ter certeza de que Scorpia não brincava em serviço. Mas se tinha algo que Sara havia aprendido com seus anos de Liga, era esperar a oportunidade certa para agir.
E ela não estava sozinha.
− Ugh... – Roy resmungou baixinho atrás de Scorpia, chamando a atenção de todos. Aos poucos, a pele perdia aquela coloração doentia, dando lugar ao aspecto queimado de sol que Roy possuía. O garoto abriu os olhos, confuso, tentando se focar em algo. Ainda estava preso. O que havia acontecido? Uma agulha penetrando em seu braço, Scorpia...
− Parece que meu Frankestein finalmente acordou. – O riso de Scorpia escapou daquele jeito estranho. Ela passou uma coleira ao redor do pescoço de Roy, prendendo-a firmemente. O rapaz grunhiu algo, mas no momento em que ela apertou um botão no controle que carregava, uma descarga de choque o fez gritar.
− Arsenal! – Sara gritou por ele, sentindo os músculos tensionarem. Não podia perder a calma. Não podia...
“Sinta a natureza ao seu redor, Sara. Não permita que as águas te levem, mas seja como as águas. Pois se tentar lutar contra a força delas, certamente a correnteza te levará embora. Ao invés disso, acompanhe seus movimentos. E conseguirá se libertar.”
As amarras de Roy se soltaram ao mesmo tempo em que Sara notou os super soldados de Scorpia cercando-os.
− E então, como se sente, querido?
− Me sinto renovado, minha senhora. – Ele cerrou os punhos, os músculos mais evidenciados nos braços e no tórax.
Um sorriso obscuro tomou os lábios de Roy e Sara engoliu em seco, sabendo que naquele momento não poderia contar com a ajuda dele.
Enquanto isso, Thea observava das tubulações enquanto Eric permanecia na mesma posição de antes. Era difícil, mas ela precisava esperar. Precisava esperar se não quisesse comprometer toda a operação de salvar Roy por conta de um impulso inútil.
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