Wandinha e Enid: Crepúsculo Sombrio
3 O Tempo Parado e o Ciúme Imortal
Após perceber que estava sendo observada pela estranha jovem sentada ao fundo da cafeteria, Wandinha desviou o olhar do livro e de Enid para analisá-la melhor.
A primeira coisa que chamou sua atenção foram as roupas — típicas da segunda metade do século XIX. Um vestido longo verde-esmeralda com babados discretos, mangas compridas cobrindo os braços, cintura marcada por espartilho e luvas de veludo. O penteado em tranças enroladas em coque, o colar de joias finas e o leque delicadamente apoiado sobre a mesa completavam o visual. Ao lado, repousavam uma sombrinha, uma bolsa e — o que denunciou sua identidade — um violino.
— Agnes! Tinha que ser você! — exclamou Wandinha, impaciente e um tanto nervosa.
— O que foi, Trevosa Linda? — perguntou Enid, surpresa, soltando a mão dela.
Wandinha fechou os olhos, respirou fundo e recitou um estranho mantra incompreensível. Ao abrir os olhos lentamente, o mundo havia parado. Todos na cafeteria estavam imóveis — como estátuas vivas. Todos, exceto Agnes, que calmamente tomava café e comia um croissant.
— Bonjour, ma chérie! — saudou Agnes, acenando com leveza. — Deixe essa néscia do Pigalle e venha tomar o desjejum comigo, amor!
— Não ouse falar assim da senhorita Sinclair Pereira! — respondeu Wandinha, nervosa, levantando-se.
— Ouso, sim, querida! — rebateu Agnes, batendo com força as mãos sobre a mesa. — Essa desavergonhada está te cortejando em pleno dia, na frente da família dela! Destruidora de lares!
Wandinha caminhou até a mesa de Agnes e sentou-se diante dela.
— Não estamos em relação matrimonial, senhorita DeMille. Tu és minha dama de companhia, minha amiga, minha confidente... e minha concubina, minha querida imortal.
— Concubina? — retrucou Agnes, ofendida. — Achas que serei apenas parte de um harém escandaloso com essa rameira?
— Tenho o pressentimento de que nós três faremos parte de algo maior e mais belo que qualquer harém. — respondeu Wandinha, calma e carinhosa.
— Engano teu, senhorita Addams! — disse Agnes, exaltada. — Jamais dividirei o meu amor contigo, muito menos deitarei com essa meretriz da Babilônia! Tu és minha e só minha!
Wandinha observou a cena, suspirando com certa nostalgia.
— Estar contigo aqui me faz lembrar da nossa primeira noite romântica em Montmartre, dois anos antes da Comuna de Paris. Tu lembras, meu amor?
— Não ouse mudar de assunto! — cortou Agnes, ríspida.
— Ah, aquela noite... Tu estavas deslumbrante, com teu vestido vermelho e sorriso radiante.
— E tu, — respondeu Agnes, suavizando o tom — com aquele uniforme de equitação de gala para o imperador Napoleão III... uma visão.
As duas trocaram um olhar longo, repleto de lembranças.
— Fomos ao Café de la Nouvelle Athènes, — recordou Wandinha — para um desjejum noturno antes do passeio.
— Ah, o Café de la Nouvelle Athènes! — suspirou Agnes. — Espelhos dourados, mármore, cortinas roxas, absinto e a nata artística de Paris... nada como esta espelunca de tua nova amante.
— Percebo que ainda estás colérica com os cortejos da senhorita Sinclair Pereira.
— Colérica? Estou possuída pelo espírito de Medeia! — exclamou Agnes, furiosa. — E se continuar com essa traição, tua rameira terá o destino da princesa Glauce!
— Não ouse cometer uma vilania, sua moralista da Avenue Foch! — rebateu Wandinha.
— Moralista?! Eu? — gritou Agnes. — Estás esquecendo quem te salvou da decapitação e do exílio, ingrata!
— E tu esqueces que fui eu quem te tirou das sarjetas de Montmartre! — devolveu Wandinha, agora igualmente furiosa. — Maltrapilha e doente, serviste de inspiração a Guillaume-Charles Brun!
Agnes, tomada pela raiva, arremessou sua xícara de café contra Wandinha — que desviou com agilidade sobre-humana. Num piscar de olhos, Agnes desapareceu e reapareceu diante de Enid, ainda paralisada.
— Por favor, querida! Não faças nada com ela! Je suis désolée, je t’aime! — implorou Wandinha.
Agnes apenas sorriu com malícia, segurou o rosto de Enid e a ergueu como uma boneca articulada. Então, para espanto de Wandinha, depositou nos lábios da loba um beijo longo e provocador.
— Adorei te ver implorar, mon amour! — disse, rindo. — O beijo dela foi delicioso, mas amanhã, se continuar com essa farsa, roubo-lhe a vida.
Agnes caminhou de volta até a mesa, recolheu seus pertences com elegância e disse:
— Por hoje, encerro nossa pequena tragédia. Mas continuaremos essa conversa no nosso ninho de amor.
— Tu e teus espetáculos de ciúmes, minha amada imortal... — murmurou Wandinha.
Colocando uma nota sobre a mesa, Agnes ajeitou o chapéu, o leque e o violino. Antes de partir, virou-se e disse com um sorriso travesso:
— Dois argumentos, antes que eu vá. Primeiro: pare de dizer que tens alergia a cores para conquistar donzelas. É vergonhoso.
— Mas é verdade! — protestou Wandinha.
— Ah, querida... se fosse, já estarias morta. Ops, esqueci: nós duas já estamos mortas há muito tempo.
Ela fez uma pausa teatral.
— E o segundo argumento: — disse, encarando-a com humor ácido — hoje não vou levar leite quente e biscoitos ao teu caixão, nem ler uma história para dormir. Tampouco farei cafuné, mocinha!
Em seguida, levantou o violino e começou a tocar L’amour est un oiseau rebelle, de Bizet. As notas ecoaram pela cafeteria imóvel, abrindo um vórtice azul que girava suavemente no ar.
— Je t’aime, mon amour! À bientôt! — disse Agnes, sorrindo.
— Je t’aime aussi, ma chérie... — respondeu Wandinha, com um brilho triste nos olhos.
Agnes atravessou o vórtice e desapareceu, deixando Wandinha sozinha — entre o tempo parado, o perfume de café e as consequências inevitáveis do amor imortal.
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