Logo depois que Agnes se retirou da cafeteria usando o vórtex energético, Wandinha levantou rapidamente da mesa onde estava sentada com Agnes, pôs as mãos na testa e disse para si mesma, aliviada:

— Ainda bem que ela foi embora! E dessa vez não aprontou nada de grave!


— Da última vez que ela aprontou uma cena parecida com esta, tive vários problemas no Studio 54… Depois que ela descobriu que eu estava em conversa íntima e sedutora com Grace Jones e Debbie Harry ao mesmo tempo em uma das mesas daquele exótico estabelecimento… — disse Wandinha, relembrando seu passado através de um monólogo nostálgico. — Depois que ela apareceu, foi um caos de destruição e sangue que varreu o Studio 54 naquela noite agitada de 1979, mas graças aos deuses eu estava acompanhada da Bianca e do Jean Pierre, e conseguimos dar um jeito na situação causada pelo ciúmes possessivo de Agnes.


Wandinha parou seu monólogo nostálgico, suspirou saudosa, olhou para o nada e continuou a conversar consigo mesma:

— Bons tempos! Apesar de todos os problemas que Agnes me causou nestes dois séculos, eu amo demais aquela insana de Montmartre! Je t’aime, ma chérie!


— Bem! Agora devo terminar a minha pausa no tempo dos mortais e ver quais foram os estragos causados pela cena de ciúmes de Agnes no meu café da manhã romântico com minha nuvenzinha colorida — disse Wandinha, olhando para Enid, ainda paralisada pelo feitiço de parar o tempo.


Wandinha foi até a mesa onde estava sentada com Enid, retomou a posição que ocupava antes de “pausar o tempo”, fechou os olhos, recitou um mantra incompreensível e, ao abri-los, fez o tempo dos mortais voltar ao normal. Com isso, Enid e todos os mortais voltaram a se movimentar e falar, sem perceber que o tempo havia parado por meia hora.


Quando o tempo voltou ao normal, Enid percebeu que estava misteriosamente de pé ao lado da cadeira onde estava sentada e perguntou a Wandinha, com expressão surpresa:

— Como foi que fiquei em pé, se eu estava sentada tomando café da manhã com você, Trevosa Linda?

— Não sei! Você deve ter se levantado da mesa sem perceber — respondeu Wandinha calmamente, lendo seu livro.


De repente, um grito de dor ecoou do fundo da cafeteria. Ambas olharam na direção do som e viram Kimberly gritando, tentando passar a mão nas costas desesperadamente.

— Alguém me ajude, pelo amor de Deus!

— O que aconteceu, minha filha? — disse a mãe de Enid, saindo do caixa, preocupada.

— Alguém jogou café quente nas minhas costas! Está queimando! — disse Kimberly, chorando.

— Ai, meu Deus! Já estou indo, filha! — disse a mãe de Enid, correndo em direção a ela.


— Meu Deus! O que está acontecendo aqui? — perguntou Enid, nervosa.

— Que gosto ruim na boca! Parece que beijei a Taylor Swift com hálito de ratoburguer da Dona Clotilde do Chaves! Credo! — disse Kimberly, passando a mão nos lábios.


Ao perceber que seus lábios estavam lambuzados de batom vermelho com gosto de cereja, Enid perguntou novamente a Wandinha:

— Você me beijou na boca, Trevosa Linda?

— Não beijei — respondeu Wandinha, tomando um pouco de café.

— Então por que meus lábios estão com essa marca de batom vermelho, no estilo que minha avó usa?

— Só sei que não fui eu que te beijei, pois a cor do meu batom é roxo escuro — disse Wandinha, sorrindo para Enid.


— Nossa, tenho que ir até o caixa e pegar um Halls para tirar esse gosto de rato morto da minha boca — disse Enid, indo rapidamente para o caixa, ignorando os pedidos de ajuda da irmã mais nova.


Enquanto Enid se dirigia ao caixa, Wandinha sussurrou para si mesma, desapontada:

— Mon Dieu! Eu estava tão entretida com meu monólogo nostálgico que acabei esquecendo de arrumar a bagunça que Agnes aprontou quando o tempo estava congelado com meu feitiço, droga!

— É Agnes! Tu tens o dom de estragar os meus flertes amorosos desde aquela fatídica noite na Ópera Garnier em 1896.


Wandinha guardou o livro na mochila, levantou-se, pôs a mochila nas costas e foi até Enid. Chegando perto dela, perguntou:

— Está precisando de ajuda, nuvenzinha colorida?

— Obrigada, Trevosa Linda! Não precisa mais, peguei os Halls pretos do caixa aqui — respondeu Enid, com dois Halls na boca.

— Então já estou indo embora e…

— Não vai não, Trevosa Linda! Nós não acabamos nosso café da manhã juntinhas, ainda temos muita coisa para conversar, né! — disse Enid, sorrindo.


— Acabou o seu descanso e seu namorico com assombração aí, mocinha! — disse a mãe de Enid, brava.

— Eu vou chamar o seu pai para levar a Kimberly à emergência da Santa Casa, pois acho que ela queimou as costas com café quente de algum jeito misterioso. Por isso você fica aqui no caixa até eu voltar, certo?

— Ah, mãe! Mas…

— Sem mas, mocinha! Você já tem vinte e um anos e fica feio fazer birra igual uma menina mimada na frente da assombração aí! — disse a mãe de Enid, ainda mais brava.

— Tá certo, mãe! Fico aqui cuidando da cafeteria — disse Enid, chateada e cabisbaixa.


— Me desculpe por te chamar de assombração, garota — disse a mãe de Enid para Wandinha.

— Tá tudo tranquilo, senhora! Já fui chamada de coisa pior nesta minha vida eterna — respondeu Wandinha, com ar irônico.


— Você é muito estranha, garota! Qual é o seu nome?

— Meu nome é Wandinha Wednesday Addams. E o seu, senhora? — respondeu Wandinha, depois perguntou.

— Que nome estranho você tem, Wandinha! Meu nome é Luciana, mas para você, Dona Luciana — disse a mãe de Enid, autoritária.

— Enchanté, Dona Luciana! — disse Wandinha, fazendo uma reverência antiga.

— Muito obrigada! — agradeceu Luciana e perguntou: — Isso que você disse é inglês?

— Não! É francês e significa “encantada” — explicou Wandinha, entediada.


— Agora vá para a cozinha chamar seu pai. Você fica aqui no caixa, entendido? — disse Luciana, apontando o dedo.

— Sim, mãe! — disse Enid, envergonhada.

— E você, Wandinha, pague sua conta do café da manhã, por favor! — disse Luciana, olhando-a nos olhos.

— Já estou cansada de ver as namoradinhas da filha comer fiado aqui na minha cafeteira francesa.

— Mãe! Não! — disse Enid, sorrindo envergonhada.

— D’accord, ma belle mère! — disse Wandinha, sorrindo ironicamente.

— Então já vou! Juízo para vocês duas! Estou de olho, mocinhas! — disse Luciana, indo em direção à cozinha.


Após Luciana entrar na cozinha, Wandinha e Enid ficaram se olhando em silêncio até que uma delas quebrou a tensão:

— Então já vou pedir a conta do meu café da manhã, nuvenzinha colorida! — disse Wandinha.

— Mas antes quero levar dois croissants para viagem, por favor!

— Claro, Trevosa Linda! — disse Enid, triste, envergonhada, indo até a estufa do balcão. — Temos croissants de frango, quatro queijos, pizza, carne seca, chocolate e Romeu e Julieta. Qual você quer, Trevosa Linda?

— Quero experimentar o croissant de Romeu e Julieta — disse Wandinha, apontando. — Achei incrível que a cafeteria homenageou a obra trágica dos amantes de Verona, do grande Shakespeare!

— Vou pegar dois para você e embrulhar com todo carinho — disse Enid, com tom triste e lento.

— Quais são os ingredientes do recheio? — perguntou Wandinha.

— Queijo e goiabada — respondeu Enid, olhando perdida para Wandinha.


Enid pegou os dois croissants de Romeu e Julieta, colocou-os em uma caixa de papel, pôs a caixa em uma sacola plástica e entregou a Wandinha. Esta, segurando a mão de Enid, falou com tom carinhoso e amoroso:

— Sei que você acha que este café da manhã romântico foi um desastre por causa dos acontecimentos caóticos, mas sinceramente, para mim, foi o melhor café da manhã que tive em séculos. Ficará para sempre gravado em meu coração. Muito obrigada, minha querida e doce Enid.

— Nossa, Trevosa Linda! Isso foi lindo demais! Obrigada também! — disse Enid, sem jeito, sorrindo alegremente.


— Aqui está meu número de WhatsApp, se quiser entrar em contato — disse Wandinha, entregando um papel para Enid.

— Vou adicionar você agora, Trevosa Linda! — disse Enid, pegando o papel com uma mão e o celular com a outra.


Wandinha pegou sua carteira do bolso traseiro da calça jeans, retirou uma nota de cem reais e entregou para Enid:

— Acho que isso é suficiente para pagar nosso café da manhã, a gorjeta e ainda compensar os transtornos desta manhã, meu amor.

— Muito obrigada, querida! Mas você não teve culpa de nada!

— Então, Enid! Bonne journée et à bientôt, ma chérie! — disse Wandinha, se despedindo e pegando sua sacola com os croissants.


Wandinha saiu rapidamente da cafeteria, deixando Enid sozinha no caixa.

— Estamos levando sua irmã agora para a emergência, minha filha! — disse o pai de Enid, saindo da cozinha com Luciana e Kimberly.

— Certo, pai! Fico aqui cuidando da cafeteria com meu irmão.


— Meu Deus! A moça com fantasia de princesa Disney saiu sem pagar! — disse a mãe de Enid, olhando para as mesas do fundo.

— Que moça? — perguntou Enid.

— A que estava sentada ali! — apontou Luciana.

— Vou dar uma olhada, mãe — disse Enid, indo até a mesa.


Quando chegou lá, encontrou um croissant parcialmente comido, uma xícara de café tombada, uma nota de cem euros e um papel dobrado escrito “abra”. Enid desdobrou cuidadosamente o papel e leu a mensagem:


“Eu estou te observando, sua meretriz do Pigalles.”


Uma estranha sensação tomou Enid — uma mistura de medo, preocupação, amor e desejo. Ela guardou o bilhete no bolso e percebeu que aquele café da manhã romântico com Wandinha havia aberto um caminho sem volta entre luz e trevas.