Wandering Child - Dramione
1 A viagem e a chegada.
A carruagem balançava conforme os cavalos pisavam na estrada de terra. A morena olhava pela janela, conforme as gotas de chuva escorriam pelo vidro. Em Whiltshire, a chuva acontecia pelo menos, uma vez por semana. Iria sentir falta do sol.
A última vez que visitara seu primo tinha apenas oito anos e, naquela época, seu pai estava vivo. Estava vivo e tocava o violino para ambos, enquanto eles brincavam com os cavalos ou qualquer outra coisa boba. Lily e James Potter, o último sendo o meio-irmão de Helena Granger, estavam vivos naquela época também. Porém, com a sua morte a menos de um ano atrás, Harry herdou toda a fortuna dos Potter. Hermione, vindo de uma família pobre, havia herdado apenas um anel de rubis, nada mais, nada menos.
– Minha Lady vai amar Whiltshire, tenho certeza — O empregado de seu primo, Neville, comentou ao seu lado — Temos paisagens incríveis.
– Tenho certeza disso. Embora seja um tanto difícil com toda essa chuva, senhor — Hermione tentou sorrir — Meu pai amava esses campos.
"Meu pai me dizia tantas coisas sobre eles, também. Na realidade, ele me dizia muitas coisas."
Neville exclamou alegremente ao seu lado, a fazendo olhar para frente. Logo a mais, havia uma mansão linda e elegante, com detalhes em dourado. A sua frente, a figura de um homem, segurando um guarda-chuva um tanto quanto peculiar. Hermione sorriu, pela primeira vez em meses. Deuses, como o primo havia crescido.
A carruagem parou, de frente a porta e, sem esperar que o cocheiro abrisse caminho, saiu da carruagem, sujando seu vestido com lama e correndo em direção ao homem de cabelos negros e olhos verdes.
– Como senti saudades! — exclamou, enquanto o abraçava. Seus olhos brilhavam de alegria — Oh, primo, você cresceu tanto.
– Também senti saudades. Mas vamos sair dessa chuva, vai ficar encharcada — Harry se virou para Neville — Traga a bagagem da senhorita.
O homem desengonçado assentiu, também todo molhado por conta da chuva forte. Hermione fez uma nota mental para lhe mandar uma xícara de chá quente quando a noite chegasse. Aceitou o braço estendido do primo, e entrou, depois de anos, na enorme mansão.
Tudo estava como se lembrava. A grande escadaria, caindo por ambos os lados do grande salão. O lustre, brilhante, que costumava encarar com fascínio quando era melhor. Ah, e as mesas de mogno! Conseguia sentir o cheiro da tinta fresca.
– Está tudo tão igual — comentou baixinho.
– Nem tudo. Você está aqui agora, Mione, e certas coisas mudaram — Harry suspirou, se virando para ela. A morena o encarou, e deu um pequeno sorriso triste — Queria que fosse por um motivo melhor, porém.
– Eu também. Mas papai sabia que eu estaria segura com você e além disso, é rico, vai conseguir me sustentar — arrancou uma risada dele — Além disso, amo esta casa, as memórias aqui são as melhores da minha infância e...
A porta da frente se abriu, a interrompendo. Neville entrava, com várias bagagens em baixo dos braços e totalmente molhado. Hermione deu uma pequena risada e Harry correu até ele.
– Por Deus, homem, você precisa aprender a trazer uma de cada vez! — exclamou, o ajudando.
– Desculpe, senhor, não vai se repetir, é só que a senhorita trouxe tanta coisa e... — Neville corou quando notou Hermione — Desculpe, não era uma ofença...
– Sei que não e na verdade, trouxe mais coisas do que vou utilizar. O senhor precisa de descanso, posso as levar por minha conta, obrigada — sorriu para o homem desajeitado e se virou para Harry — Acho que ele poderia tomar uma bebida quente. O pobrezinho está molhado e está um tanto frio.
– Com certeza. Pode ir se trocar, Neville. Mandarei as criadas lhe levarem um chá quente — Harry sorriu, o dispensando com a mão.
– Claro! Claro! Obrigado, senhor — ele riu, nervoso e se virou para Hermione, dando uma pequena reverência e sorrindo, antes de se retirar.
– Sempre com o coração bondoso — Harry comentou, lhe estendendo a mão.
– A única qualidade que me restou — ela aceitou a sua mão, e ele a guiou até o sofá vermelho de veludo. Hermione se sentou, ajeitando a saia longa do vestido. O corpete estava um tanto apertado demais para o seu gosto — Mas estou intrigada. Nunca me escreveu em todos esses anos, Harry. E quando soube da morte de meu pai...
– Coisas aconteceram nesses anos que esteve fora, Hermione — Harry a interrompeu — Whiltshire não é a mesma cidade que conheceu quando era pequena. Nem os seus moradores.
– Mas você ainda mora aqui...
– Porque era desejo de minha mãe, nada mais — ele suspirou — Quer dizer, há mais uma coisa e...
– Oh! Você deve ser a grande Hermione Granger!
Era uma voz doce, quase cantante e animada. Hermione se virou, surpresa, e viu uma mulher de cabelos castanhos praticamente pretos e olhos verdes claros, alegres. Havia várias jóias em seu pescoço, seus dedos longos e finos repletos de anéis. O seu vestido era mais caro que qualquer pertence de Hermione, a morena tinha certeza.
Se levantou do sofá e se sentiu extremamente estúpida. Seus sapatos estavam sujos de lama, assim como o seu vestido marrom sem graça. O seu cabelo cacheado, molhado por conta da chuva. Não parecia nem de longe, uma dama.
– Astória, quero que conheça minha prima, Hermione Granger — Harry apresentou — Hermione, quero que conheça minha noiva, Astória Greengrass.
Era como um soco no estômago. Toda a alegria de retornar para um lugar conhecido, com pessoas conhecidos, havia ido embora. A morena estava confusa, mas a mulher a sua frente parecia não ter notado nada.
– Harry me falou tanto sobre você e suas brincadeiras. No começo, admito que senti um pouco de ciúmes, mas logo esse sentimento se tornou em curiosidade — Astória sorria ampliadamente, apertando a mão de Hermione — Espero que nos tornemos amigas, já que vai morar tão perto.
– Morar tão perto? Desculpe a falta de educação, senhorita, mas me sinto um tanto confusa com toda essa situação — Hermione riu nervosamente e se virou para Harry — Parece que seu noivo esqueceu de me avisar certos detalhes.
Astória olhou de um para outro, confusa. Então, um baque de compreensão atingiu sua bela face.
– Oh, entendo. Sinto muito, não queria causar problemas... — ela começou.
– Está tudo bem, querida. Pode ir para a sala de jantar, logo estará sendo servido. Vamos nos juntar em alguns minutos — Harry disse, sem olhar para a noiva. Olhava apenas para a prima, que tinha os olhos queimando em raiva em sua frente. Quando Astória deu um pequeno sorriso, constrangida, e finalmente saiu, ele pode falar — Achei que tivesse uma ação melhor do que esta, Hermione.
– Digo o mesmo. Como pôde? Se lembra da carta de meu pai? Se lembra de como estamos prometidos desde o nascimento? — Hermione perguntava, com raiva — Eu vim aqui para me casar com você, para que você me deixasse segura em sua casa e para que me desse o seu nome! Para me proteger do assassino que está a minha procura!
– E irei. Mas conheci Astória nesse meio tempo, Hermione, e a família Greengrass possui terras da qual tenho interesse em possuir — Harry tentava explicar.
– E quanto a mim? Devo sair de sua casa? Devo ignorar tudo o que fui treinada? — Hermione parecia estar prestes a chorar — Cresci achando que me casaria com você. É por isso que nunca me escreveu? Por não me querer como um fardo, Harry?
– Nunca será um fardo, Mione! — ele a pegou pelos braços, a olhando tristemente — É a minha melhor amiga.
– Mas isso não vai me arranjar um casamento e, sendo assim, não vai impedir que eu seja morta — ela o empurrou para longe — Se soubesse de tudo isso, teria ficado em Londres com os ossos de meu pai.
– Não diga isso...
– Digo tudo o que quero dizer e tudo que não passa da verdade. Se o nome Granger continuar, o assassino irá matar qualquer um que o carregue — Hermione disse, lágrimas caindo por seu rosto. Havia sido tão tola em pensar que estava segura. Mas não iria culpar o primo. Ninguém mandava no coração, ela nem o amava, pelo menos não como esposa. Não poderia o culpar por ter seus interesses. E talvez, o assassino nem ao menos sabia de seu paradeiro em Whiltshire — Eu lhe entendo. Mas espero que entenda também a minha situação.
Harry a abraçou.
– Claro que entendo. Também perdi meus pais — ele falou, e ela o abraçou forte — Poderá ficar na casa dos fundos. É um pequeno chalé, a margem do lago. Espero que entenda, a sociedade não ira ver bem ter duas supostas noivas em meu teto.
– Está bem. Eu posso viver com isso — Hermione tentou dar um pequeno sorriso — Obrigada por tudo, Harry. E sinto muito por ter explodido da maneira que fiz.
– São dias negros, Hermione. Eu teria explodido, como diz, a muito tempo.
– // — // -
O chalé era um tanto caído, mas Harry lhe assegurou que era confortável. Tinha três andares, sendo o último uma biblioteca que outrora fora um sótão. Era um tanto úmido, mas nada que ela não pudesse lidar. A chuva finalmente havia cessado, e os pingos caíam das árvores.
Enquanto colocava seus vestidos no guarda-roupa antigo, Hermione se sentia mais sozinha do que nunca. Havia exagerado quando disse sobre o assassino apagar o nome Granger. Porque o seu pai havia sido envenenado, não significava que estavam atrás dela, afinal.
– Deixe que eu lhe ajudo com isso.
Ela pulou e se virou. Atrás havia uma garota ruiva, alta e esbelta, com um sorriso bondoso e travesso. Tinha belos olhos azuis e usava uma roupa de empregada, preta e branca, sem detalhes. Hermione finalmente pode respirar normalmente.
– Você me assustou.
– Não era minha intenção, senhorita. Você está fazendo trabalho de criadas, isso não é certo — a garota ruiva se ajoelhou ao seu lado e começou a dobrar os seus vestidos — Vim aqui para fazer esse serviço. Lorde Potter me mandou.
Hermione a olhou com o canto do olho, a examinando. A conhecia de algum lugar, já havia visto aquele rosto antes. Claro, com dezenove anos, tinha uma memória boa e...
– Você é Ginny Weasley! — exclamou — Sabia que conhecia esse cabelo ruivo. Costumava brincar com seu irmão, também. Você era a menina que mandava cartas de amor para Harry.
– Ronald trabalha nos estábulos agora, Lorde Potter tem grande afeito por minha família, milady — Ginny corou fortemente — E por favor, não mencione isso para a Lady Astória.
– É tão bom saber que vocês Weasleys continuam por perto! Ah, enfim uma boa notícia! — Hermione riu — Pode me chamar de Hermione, e tem a minha palavra que será um segredo. Poderia me alcançar aquela mala, sim? A vermelha com aste dourada.
Ginny assentiu e lhe estendeu a mala, a abrindo. A ruiva arregalou os olhos quando notou o que havia dentro.
– São muitos livros.
Hermione sorriu.
– Papai costumava dizer que os livros são a alma do homem, a fonte de todo o conhecimento. Eu amo ler, e nunca irei deixar de amar — respondeu.
– Eu nunca aprendi a ler, mas Ronald sabe um pouco. Lorde Potter o ensinou — Ginny suspirou sonhadoramente — Costumava sonhar que ele iria me ensinar a escrever e me contaria histórias durante a noite.
Hermione estudou a jovem, aparentemente de sua idade, que olhava sonhadoramente para uma parede qualquer. Não pode deixar de sorrir.
– Por que nunca lhe disse os seus sentimentos?
– Sou uma criada e ele um Lorde, cada coisa tem a sua natureza, milady — a ruiva lhe explicou, sorrindo tristemente — E tenho que seguir em frente.
A morena queria lhe dizer palavras belas, mas sabia que era verdade. Ela mesma não tinha espaço naquela sociedade. Era de família pobre, sem renome e mesmo assim, sonhava. Ah, como ela sonhava.
Foi então, que notou algo pela janela atrás da criada ruiva.
– O que é aquilo? — perguntou, caminhando até a janela. A visão estava embaçada pela chuva de antes, e ela teve que usar a manda do vestido para ver melhor.
Ginny se aproximou.
– Aquela é a antiga mansão Malfoy, milady — ela lhe explicou — A família Malfoy era a mais rica de toda Inglaterra, perdendo para a família real, é claro. Eram vistos em todos os jantares, possuíam a mais belas propriedades e jóias, dizem. Narcissa Malfoy era amiga da rainha, alguns comentavam. E Lucius amigo do rei.
– O que aconteceu? — perguntou, sem tirar os olhos da antiga mansão.
– Ninguém sabe, milady. Uma manhã, todos foram encontrados mortos. Alguns falam que houve um incêndio, outros, que o filho matou os pais para ficar com toda a fortuna. Eu acredito que seja o último. Ele era um garoto estranho, senhorita, quieto demais... estranho demais — Ginny tremeu.
– E por causa disso seu coração seria de pedra? Quem mataria os próprios pais? — Hermione franziu a testa — Principalmente quando há pessoas sem eles, como eu e Lorde Potter?
– Para certas coisas não existe respostas.
Hermione sorriu e fechou os olhos.
– Tenho que concordar. Sabe, Ginny, quero lhe contar a verdadeira razão para eu amar esses livros. Confio em você e acho que será minha criada de agora em diante. Promete guardar um segredo? — perguntou para a garota, a puxando para se sentar em sua cama. A ruiva parecia totalmente assustada com o seu pedido.
– Mas... senhorita, eu sou apenas uma criada.
– É um humano, como qualquer outro. E preciso de companhia, por favor — Hermione lhe pediu, apertando sua mão em busca de compreensão.
Ginny ainda parecia relutante.
– Claro, milady. Seria uma honra.
Hermione sorriu ampliadamente, como uma criança que recebera um doce.
– Quando eu era pequena meu pai me trouxe para essa casa. Ele encheu esse mesmo sótão com livros, que antes haviam pertencido a minha mãe. Ele então, fora buscar a carruagem para me levar até a cidade. Enquanto eu estava sozinha, com medo dos trovões... eu ouvi uma voz — Hermione fechou os olhos, como se lembrasse — Uma voz distante. Eu não conseguia saber quem era. Talvez era de um menino.
– Lorde Potter? — Ginny perguntou.
Hermione negou com a cabeça.
– Não. Eu procurei a fonte da voz em todos os lugares. Ele não estava lá, Ginny, o menino não estava lá. Então, eu acendi uma vela e o chamei. Ele apenas dizia que tudo ia ficar bem, e que eu não estava sozinha. Meu pai voltou pouco tempo depois e me encontrou encolhida contra uma prateleira. Ele me perguntou o que aconteceu e eu lhe contei tudo sobre a voz — Hermione abriu os olhos e deu um pequeno sorriso — E então meu pai disse "Quando eu estiver no céu, criança, lhe mandarei um Anjo". Bem, meu pai está morto, Ginny... e acho que aquela voz era de um anjo. Um anjo que me avisou que sempre estaria lá para mim.
– Milady, você está falando em enigmas. Essas coisas não existem! — Ginny protestou — Talvez era apenas um garoto lhe pregando peças. Meu irmão, por exemplo, parece gostar dessas coisas.
– Não, eu sei que era um anjo, Ginny! Nunca ouvi voz tão bela, mesmo naquela idade. A partir daquela noite, ele sempre está lá... na minha mente — A morena se levantou da cama, andando pelo quarto — E agora eu estou aqui... e nunca me senti tão sozinha. Tão abandonada.
Ginny a olhou com compaixão e pena. Hermione tinha que admitir que aquela não era a reação que procurava. Queria que a criada lhe falasse mais sobre esse Anjo, caso soubesse de alguma coisa, esse parecia não ser o caso, porém.
– Sempre vou vir lhe visitar! — a ruiva exclamou, animada — E Lorde Potter também, assim como meu irmão, ele vai adorar saber que voltou! Oh, e Lady Astória. Embora eu não goste muito dela, sei que ela não é tão ruim. Podemos andar ao redor desse chalé! O lago é muito bonito.
– Tenho certeza que sim — Hermione suspirou — Pode voltar ao seu trabalho, Ginny, não quero lhe causar problemas.
A ruiva lhe lançou um último sorriso antes de sair apressada pela porta. Quando a morena ouviu a porta da frente bater e os passos da criada sumirem, finalmente pode se sentar no chão, as costas contra a parede. Era diferente estar sozinha novamente. Se perguntou, agora com o pai morto, se seria assim nos tempos futuros.
Deixou uma lágrima cair silenciosamente por sua bochecha e então, se repreendeu. Não iria mais chorar, mesmo sendo difícil fazer o que as palavras queriam. Se levantou e pegou um fósforo, o acendendo. Ligou o lampião do quarto, já que a noite já havia chegado.
Passou pelo corredor, ligando todos que encontrava. Subiu as escadas, ligando o dos outros quartos. Não gostava da escuridão, a fazia se sentir observada. Gostava de deixar até os cômodos desocupados iluminados.
Foi então que chegou a biblioteca do sótão. Sorriu de saudade e ligou o lampião. Olhando para as estantes que anos atrás viu seu pai preencher com os livros de sua mãe, sentiu aquela dor no peito. Não conseguiu resistir e caiu ao chão, em lágrimas. Dois meses. Havia sido apenas dois meses desde que o vira uma última vez.
– Criança vagante, tão perdida... tão desamparada. Chorando por minha ajuda.
Ela abriu os olhos. Era a voz mais linda que já havia escutado. Falava de uma maneira quase musical, e ao mesmo tempo, lhe transmitia medo e curiosidade. Queria saber mais. Queria saber...
– Quem está ai encarando? — perguntou, apertando os braços ao redor de si mesma.
– Você esqueceu o seu anjo?
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