Wandering Child - Dramione
2 Cada vez mais curiosa...
Ela tentou ficar acordada pelo máximo de tempo que os olhos permitiam, mas ao fim, sucumbiu ao sono e fechou aos olhos, ao som da voz lhe contanto uma história. Quando acordou na manhã seguinte, o sol brilhava sem sua janela. A chuva havia ido embora, e Hermione estava grata por isso.
Mas ainda assim, se sentia observada. Sabia que ele ainda estava aqui.
– Madame? A senhorita já acordou? — ouviu a voz calma de Ginny, que bateu em sua porta.
– Claro, ahn, pode entrar — Hermione respondeu, tentando arrumar a cama. Não era comportamento adequado de uma jovem acordar tarde. Viu a ruiva entrar no cômodo, com um enorme sorriso — Aconteceu alguma coisa?
A ruiva apenas negou com a cabeça, ainda sorrindo.
– Lady Astória nos deu permissão para ir até a cidade. Podemos sair assim que a senhorita desejar — a empregada olhou em volta do quarto, e caminhou até o guarda-roupa — Se me permitir, posso escolher um vestido.
Hermione apenas assentiu, a noite anterior ainda muito fresca em sua mente para se animar com uma simples viagem a cidade. Se levantou da cama e viu a ruiva retirar um vestido azul claro, simples. Tão simples que talvez um dia seu tom era mais escuro, porém havia desbotado.
– Esse está perfeito — falou e Ginny assentiu, lhe entregando.
– Sei que não é da minha conta… — a criada começou — Mas aconteceu alguma coisa?
A morena parou de se vestir e se virou para a jovem com um sorriso.
– Ouvi uma voz ontem a noite.
A reação que recebeu não era a que procurava.
– Alguém invadiu o seu quarto! Que horror, Hermione, se eu descobrir quem foi eu juro que… — Ginny murmurava com raiva, seu rosto cheio de sardas ficando vermelho como um tomate — Aposto que foi um dos garotos da cozinha. Vou cuidar disso… vou…
– Não, não. Não há o porque se preocupar — ela a interrompeu — Apenas me prometa que não vai contar nada a Harry.
– Mas…
– Prometa.
A ruiva a olhou com uma curiosidade inquietante. Hermione não a culpava, qualquer mulher em sua situação já estaria gritando por ajuda. Mas ela sabia que ela voz que ouvira nunca iria lhe machucar, ou machucar alguém por qualquer motivo. Não queria que fosse embora. Não queria se sentir sozinha de novo.
– Você tem a minha palavra, milady — Ginny respondeu.
– Ótimo. Agora, vamos nos preparar — Hermione riu nervosamente e correu até a sua mala, pegando um saco de moedas — Quero aproveitar e fazer algumas compras. Geralmente odeio experimentar roupas novas, mas parece que não tenho escolha.
A jovem riu e saiu, fechando a porta. Enquanto Hermione ainda arrumava suas coisas, notou uma carta ao lado de sua cama. Tremeu. Como não havia notado antes? Havia sido Ginny quem haveria de te-lo deixado ali? O pegou e o desdobrou. Uma caligrafia refinada, de fato.
Cara dama,
Notei de minha propriedade a sua carruagem parando a frente da Mansão Potter. Quando pisaste fora da mesma, perdi meu fôlego. Embora sua escolha de hospedagem seja, nas palavras mais sinceras, um ato de desespero, creio eu. Sem requinte, espero que Lord Potter esteja lhe tratando com o respeito que merece. Não anseie em correr para os meus braços, milady. Estarei aqui para lhe dar a sensação de honra por estar em minha presença.
A aguardando, DM.
Não havia data, mas sabia que deveria estar ali desde ontem a noite. Se perguntou como, já que ninguém havia entrado ali… seria obra de seu Anjo? Quem era de fato, DM?
– Senhorita, está pronta? — ouviu a voz de Ginny a chamando.
– Claro, estou indo! — guardou apressadamente o bilhete no decote do vestido e saiu do quarto, segurando sua sacolinha de moedas. A criada já estava pronta, em um vestido marrom tão simples que chegava a ser patético — Onde será nossa primeira parada?
– Creio que não muito longe, vamos aos estábulos primeiro — Ginny tinha novamente aquele sorriso gigantesco no rosto. A ruiva pegou a sua mão e a começou a puxar pelo corredor do pequeno chalé — Tem alguém que está muito animado para ver você.
Quando saiu da pequena casinha, notou que o dia estava de fato realmente muito bonito. Ginny a puxava, praticamente correndo, em direção a uma construção um pouco mais afastada a direita. Comprida e feita de madeira. Conforme se aproximava, Hermione se sentia cada vez menos animada. Quem havia escrito aquela carta? Como alguém poderia colocar tanta arrogância em apenas um pedaço de papel?
O estábulo era simples. Em um campo ao lado, alguns cavalos pastavam tranquilamente. A carruagem dos Potter estava a frente, e havia um corpo para dentro dela, arrumando os bancos internos. Ginny correu até esse corpo e sussurrou algo, pelo que parecia. Hermione se sentiu um tanto desconfortável mas sorriu quando o homem, seja lá quem fosse, se mexeu tão rapidamente que bateu a cabeça na porta do veículo.
– Hermione? — ele perguntou.
Ela reconheceu o cabelo ruivo.
– Ron! — gritou, correndo até ele.
Os dois se abraçaram, assim como ela havia abraçado Harry a um dia atrás. Riram quando cambalearam e quando se afastaram, se estudaram depois de anos. Ele não havia mudado muito, ela percebeu. Ainda magro e alto, com o nariz grande e olhos azuis. Seu jeito desajeitado também estava presente.
– Você… cresceu — ele disse, lentamente. Se afastou como se ela tivesse lhe dado um choque.
– Ora, você também! — Hermione exclamou, animada — Espero que tenha lido mais livros durante todos esses anos.
– E eu achando que você ainda me conhecia.
Ela riu e o abraçou uma última vez, antes de se afastar novamente. Notou um cavalo branco preso a um poste e caminhou ate ele. Ouviu os passos dos dois irmãos a seguindo.
– Quem é este?
– Ah, sim. Uhn, essa é Meg — Ron disse, coçando o pescoço. Hermione se virou para ele com curiosidade — Harry a comprou. Disse que você precisava de um animal descente já que os seus cavalos já estavam velhos demais.
A morena acariciou a égua.
– Ela é linda. Deve ter cuidado dela com muito carinho, Ron — disse, o olhando com um jeito terno.
O ruivo corou. Ginny, ao seu lado, sorria.
– Ela é sua, claro que eu cuidei — limpou a garganta e se virou para a irmã, parecendo querer fugir daquele lugar a qualquer momento — Vocês vão para a cidade? Porque a carruagem já está pronta.
– Sim, vamos. Pensei que seria legal você nos levar… Neville precisa de uma folga, o coitadinho — Ginny disse, mas parecia esconder um outro motivo. Hermione levantou uma sobrancelha, porém ficou calada — E Harry iria gostar.
Hermione duvidava que iria fazer alguma diferença para Harry, mas Ron pareceu aceitar a desculpa e foi até a carruagem, prendendo Meg. A morena tocou o bilhete dentro de seu vestido, se sentindo um tanto quanto… observada. Olhou para trás, mas notou somente o telhado do estábulo. Havia alguém ali, tinha certeza.
– Hermione, você vem? — Ron gritou.
Assentiu e entrou na carruagem, se sentando ao lado de Ginny. Andaram pelo que parecia horas, na estrada de barro. Logo, sentiram a carruagem se mover mais do que o normal. Olhou pela janela e viu que a paisagem de campos havia sido reposta por prédios simples, mas chiques. Havia várias pessoas caminhando nas ruas, com seus vestidos bonitos e sombrinhas nos ombros, para se proteger do sol. Pararam de frente a uma parte sem construção, onde várias outras carruagens estavam paradas.
Ron desceu primeiro e estendeu a mão, a qual Hermione aceitou para descer. Ele estava corado novamente. Ela lhe deu um olhar estranho e esperou Ginny descer.
– Vai me acompanhar até a loja de vestidos, presumo? — perguntou a ela.
– Na verdade, preciso buscar coisas para a cozinha — Ginny disse, constrangida — Mas uhn, Ron pode lhe acompanhar!
Olhou para Ronald, que parecia querer matar a irmã.
– Seria uma honra — sua voz saiu esganiçada.
– Bem, eu gostaria de ir naquela loja, primeiro — Hermione disse, também se sentindo um pouco constrangida. Por que ele estava agindo tão diferente? Se virou para a criada — Depois nos veremos.
Começou a caminhar até a loja, onde algumas mulheres murmuravam sobre os vestidos expostos na calçada. Os passos do ruivo estavam logo atrás dela. Hermione não queria se sentir tão estranha perto do velho amigo. Ele era uma figura tão importante quanto Harry quando o assunto era sua infância.
– Se lembra de quando brincávamos perto do rio? — perguntou, finalmente quebrando o silêncio
– Claro que me lembro. Você mandava eu e Harry calarmos a boca, ah, bons tempos — Ron riu — Por que pergunta?
– Porque me veio a lembrança — Hermione deu em ombros, entrando na loja. Havia vários vestidos pendurados — E também porque me perguntei a quem pertence a segunda parte do rio. O outro lado.
Ron parou para pensar
– Pertencia aos Malfoy, antes de… você já deve saber o que aconteceu — ele suspirou — Pelo menos o que todo mundo sabe.
– Sei. Uhn, e aquelas terras… — começou, fingindo olhar os vestidos. Eram bonitos, de fato — São as únicas além dos Potter’s naquela região?
– São, é meio esquisito… depois que a tragédia aconteceu ninguém mais quis comprar terras por lá. Meu pai tentou vender a nossa cabana, que mesmo muito longe dali… bem, vamos dizer que ninguém comprou. Moro lá até hoje — Ron explicou, andando pela loja, a seguindo. Algumas mulheres os olharam com curiosidade e murmuraram entre si — Por que pergunta tanto?
– Apenas curiosidade — respondeu, dando um pequeno sorriso e voltando a olhar os vestidos, dessa vez de verdade.
A única propriedade além da dos Potter. Então a pessoa que havia lhe mandado aquela carta deveria estar na antiga Mansão Malfoy. Mas todos pensavam que estava abandonada. Seria possível alguém morar por lá ilegalmente? Não, não era. O policiamento em Whiltshire era severo, como ela havia escutado os rumores. Era totalmente impossível.
Comprou vários vestidos, caros e elegantes. Outros, simples e confortáveis, do jeito que gostava de se vestir. Mas parecia que aquele lugar dava muitos bailes onde as jovens procuravam pretendentes ricos para se casar. Um bom marido. Uma boa família. Hermione deveria estar atrás disso, como todas as outras, mas ao invés, estava curiosa com uma voz que escutava em sua biblioteca e um mistério que aconteceu a anos atrás.
– A ralé veio para a cidade, pelo que meus olhos estudam — uma voz desdenhou.
Hermione se virou, assim como Ron, para ver um grupo logo atrás deles. Uma mulher de cabelos pretos curtos, nariz arrebitado, com um corpete apertado demais. Ao seu lado, um homem negro e elegante, com semblante quieto. Seus braços estavam unidos. Ao lado deles havia outro casal, uma mulher loira que sorriu timidamente e um homem moreno, pálido e com olhos quase pretos. Ele olhava para Hermione, como se a conhecesse.
– Parkinson — Ron rosnou ao seu lado.
– Creio que este não seja mais meu nome — Parkinson olhou para o homem ao seu lado com um sorriso — Mas é claro que uma pessoa como você não iria saber esse fato. Totalmente ignorante as pessoas puras a sua volta.
– Não entendo como alguém pode ser puro — Hermione comentou.
A mulher voltou seu olhar a ela.
– E quem seria você? Uma cafetina, talvez? Pela maneira como se veste… — a jovem de cabelos pretos olhou seu vestido azul desbotado com riso nos olhos.
– Não sou eu quem está com as curvas caindo para fora da roupa, senhorita — Hermione respondeu, em tom educado, porém afiado — E nem mesmo, sou eu, que exibe linguagem tão baixa quanto a de uma mulher de esquina.
Ao seu lado, Ron riu. Mas o que a surpreendeu foi o fato do homem moreno ter rido assim como, lhe lançando um sorriso. A mulher de cabelos pretos a olhou indignada, e, quando pretendia retrucar, o seu marido a puxou para fora da loja. O outro casal os seguiu, sem pensar duas vezes.
– Quem eram aqueles? — perguntou a Ron.
– A mulher que parece uma prostituta é Pansy Parkinson. Ou era, agora é Pansy Zabini, pelo que pude observar. Ela é simplesmente desprezível — ele lhe explicou, em tom baixo para que o resto da loja não os escutasse — O homem negro ao seu lado é Blaise, o marido. Bem, ele nunca fala muito. A loira era Daphne Greengrass, irmã mais velha de Astória. É gentil a maior parte do tempo.
– E o moreno? Aquele que riu….?
– Theodore Nott — respondeu ele — Nunca bateu muito bem da cabeça, dizem.
– Não costumo acreditar no que as pessoas dizem — Hermione suspirou, ainda curiosa com o sujeito chamado Theodore. Por que ele havia rido? Por que havia agido como se a conhecia? — Já fiz tudo o que precisava. Tudo o que desejo agora é encontrar Ginny e seguir meu caminho para casa, por favor.
E saiu da loja apressada, deixando o ruivo com uma expressão espantada e curiosa no rosto.
–// — // -
O resto do dia havia se passado lendo livros em seu quarto, completamente em silêncio. Não havia a companhia da sua criada, que alegou que tinha trabalho a fazer na cozinha. Ron fora embora assim que havia a deixado na porta da casa. Parecia assustado demais para passar mais tempo sozinho com ela. O que ele temia? Hermione se perguntava. Tinha medo de ser morto assim como o seu pai fora, apenas por estar relacionado a ela?
Pegou o livro que estava lendo e saiu do chalé as pressas. Precisava pensar nas coisas. Seu destino era procurar um marido, alguém que mudasse o nome que estava associado a um assassino. O assassino desconhecido de seu pai. E agora, no que havia se metido? Cartas de um desconhecido, um anjo que havia voltado de sua infância e principalmente, um mistério que acontecera a anos atrás mas que a envolve mais do que qualquer outra coisa.
Correu para o campo, no morro perto do chalé. Havia apenas uma árvore no centro da campina. Hermione abriu o livro, tentando tirar os pensamentos que a desviavam de seu rumo. Mas e se aquele fosse o seu rumo?
Fechou os olhos e sentiu o vento, caminhando até a árvore solitária, por assim dizer. Se sentou em baixo da mesma, finalmente se sentindo um pouco melhor do que antes. Um pouco menos confusa.
– É um lugar engraçado para ficar — uma voz sonhadora lhe falou.
Hermione olhou para cima. Havia uma garota em cima da árvore, com um vestido branco rasgado. Ela tinha grandes olhos azuis, separados. Seu cabelo era incrivelmente longo e louro claro. E além de tudo, estava descalça.
– Devo dizer o mesmo — respondeu.
A garota sorriu.
– Queria ficar sozinha por um momento. Havia criaturas mexendo com o meu cérebro lá em casa — ela pulou da árvore, se sentando suavemente ao seu lado — Quando não chove, elas voltam.
– Oh. Bem… é um prazer conhecer você, senhorita — Hermione respondeu, se dando ao luxo de forçar um sorriso — Meu nome é Hermione. Hermione Granger.
– Ah, eu sei quem você é! — a loira exclamou, dando um pequeno sorriso com o canto dos lábios — O seu Anjo me falou muito sobre você.
Tudo pareceu acontecer em câmera lenta. A garota loira começou a caminhar para longe e ela, simplesmente ficou ali, processando as palavras. Em um impulso, se levantou e correu até ela, a parando quando a puxou pelo braço.
– Como sabe dessas coisas? — perguntou, espantada. Sua boca, de repente, parecia quieta demais.
A loira apenas sorriu.
– Creio que esse seja um convite para eu me sentar com você — foi tudo o que ela respondeu. Hermione pode apenas assentir rapidamente com a cabeça.
Caminharam até a árvore, calmamente. A loira puxou uma flor do chão e começou a passar seus dedos entre as pétalas.
– Por favor, me conte tudo — Hermione pediu. Praticamente suplicou.
– Não há muito para contar… assim como não há motivos para você confiar em uma estranha, Hermione — a loira falou simplesmente, ainda encarando a flor — Ninguém costuma acreditar em mim.
– Eu prometo acreditar — a morena implorou. Ela simplesmente precisava saber — Ginny… ela não acreditou em mim. Disse que essas coisas não aconteciam.
– Muitos não acreditam em coisas que vão além da magia comum.
Magia comum.
– Não existe magia — Hermione riu. Talvez de fato, aquela garota não passava de uma menina sonhadora em seu interior — Apenas inteligencia, sons e sentidos. Meu pai costumava me contar histórias de magia. Mulheres que vão além dessa barreira social, sim, isso sim é a verdadeira magia, senhorita.
– Se não acredita no seu próprio mundo, não há porque acreditar em mim. Ou em seu Anjo — a outra suspirou — Existe um mundo escondido dentro do nosso. Dentro do que você observa. Olhe em volte, Hermione… a resposta do seu Anjo está na carta. Está na casa. Ele apenas quer que você descubra a verdade... quer proteger você.
– Ele sempre esteve lá... quando eu era pequena e ontem, bem, ele me contou histórias — Hermione sorriu para si mesma e olhou para a loira — Mas eu sei me proteger sozinha.
– Se o que matou seu pai vier atrás de você, não terá chance. Oh, um nargulês! — a garota exclamou. Hermione seguiu seu olhar para ver uma pequena pétala de dente de leão, que parecia flutuar no ar — Eles costumam aparecer nessa época do ano de qualquer maneira.
– É apenas uma pétala, madame — a morena disse, suavemente, com medo de machucar a loira.
A jovem a olhou, seus olhos azuis brilhando, antes de se levantar por uma segunda vez e começar a descer a campina. Antes de desaparecer, indo para onde Hermione esperava ser sua casa, ela se virou.
– Não precisa me chamar de madame. Não gosto muito, sabe? Algumas pessoas me chamam de lunática, mas eu também não gosto muito — ela deu em ombros — Meu nome é Luna Lovegood.
E finalmente, ela se foi. Tão silenciosamente quanto veio.
– // — // -
Mais tarde, naquele mesmo dia, Hermione se encontrou sentada na grande mesa de jantar dos Potters. Ginny estava servindo a refeição, porém corava cada vez que Harry a chamava. Astória, sentada ao lado do noivo, não parecia notar porém. Suas palavras em direção a criada eram tudo, principalmente cordiais e educadas. Mas para a morena, que encarava o anel em seu dedo fino, aquele jantar era tudo menos normal. Só conseguia pensar nas palavras de Luna Lovegood, na carta e principalmente, em seu Anjo. Na Mansão Malfoy.
– Você logo vai arranjar um marido, Hermione — a voz de Harry a tirou dos pensamentos.
Ela o olhou assustada.
– Não estou pensando nisso no momento, primo — ela tentou sorrir.
– Mas seria o ideal — Astória interferiu — É jovem e incrivelmente bonita, um marido com uma boa quantia será fácil de conseguir. É prima de um Potter e seu pai era um ótimo violinista... com certeza um duque será fácil de conseguir. Só precisa dizer as coisinhas certas.
– Sei que a meu plano inicial era conquistar um bom marido, mas creio que tomei novos interesses — Hermione encarou o vinho, não queria encontrar os olhos verdes de Harry do outro lado da mesa.
– E que interesses seriam esses? — Harry deu uma pequena risada, como se não acreditasse nela. Hermione não gostou disso. Não gostava de ser subestimada.
– Leitura — mas foi isso tudo o que respondeu.
– Mas você sempre teve interesse em leitura, querida prima — ele deu uma outra pequena risada.
– Oh, querido! Uma mulher pode ter os seus segredos, com certeza uma como Hermione deve ter os seus. Deixe ser — Astória deu uma risada suave e beijou a bochecha do noivo — E estávamos falando sobre casamentos. Sei que não quer ter um anel em seu dedo agora, minha cara senhorita, mas não é nada caro pensar nas possibilidades.
Hermione não falou nada, apenas deu um gole em sua bebida. Harry Potter, porém, parecia ter outros planos.
– Ron lhe daria um bom marido.
E então a morena começou a tossir. Astória o olhou com ar de desaprovação.
– Ele não possui título algum... — ela começou.
– Nunca me casaria com Ron! — Hermione exclamou, a ideia a horrorizando. Viu Ginny correr para a cozinha, com um assado em mãos. Falaria com ela mais tarde — Não por causa de sua falta de dinheiro, mas porque não o amo e... ele é meu amigo. Como você, Harry. Um irmão para mim.
– Amizade pode se tornar em amor facilmente — Harry retrucou — Ele seria gentil com você. Além disso, você conhece os Weasleys.
– Tenho muito carinho por eles, sim, mas...
– E Ron a deseja. Sempre desejou. Em todos esses anos ele me perguntou de você, Hermione, e apenas sobre você — Harry suspirou. Astória segurou sua mão e e ele lhe lançou um pequeno sorriso — Soube que na viagem que tiveram até a cidade ele estava corado a maioria do tempo, e que você o tratou com ternura.
– Ternura de uma irmã para com seu irmão. De uma senhorita para com um amigo de muito tempo! — Hermione respondeu frustrada — Iria me empurrar para um casamento forçado?
– Se fosse preciso! — Harry exclamou — Ron lhe faria feliz.
– Talvez. Mas não me faria sentir amada e logo, eu nunca poderia o fazer feliz — a morena parecia mais perdida do que nunca — Pare com esse assunto. Vamos voltar ao jantar.
– Querido, a escute... — Astória tentou.
– Não. Ela precisa perceber que não é mais uma garotinha — Harry rosnou e Astória se encolheu, encarando o próprio colo. Ele virou seus olhos verdes penetrantes para a prima — Acha que não soube? Acha que não a viram conversando com a garota louca?
Ela o olhou totalmente confusa.
– Garota louca...?
– Luna Lovegood. Ela é insana, Hermione. Perdida no mundo, sem pai ou mãe. Talvez ela tenha colocado essas ideias de ser independente em sua cabeça — Harry parecia levar o assunto em consideração.
– Ela é apenas uma garota sonhadora. Pelas palavras que me diz, Lord Potter, você parece não me conhecer. Sempre fui independente... como pode dizer coisas assim? — Hermione perguntava, com lágrimas nos olhos.
– A conheço e sei que isso não independência. Talvez a morte de seu pai mexeu com sua cabeça, a fazendo acreditar que um marido não é o que procura. Toda mulher deve ser casada e seguir regras, Hermione. Isso aqui é o mundo real! — Harry finalmente gritou.
– Você tem segredos de mim — ela finalmente encontrou sua voz, saindo mais confiante do que nunca.
– Segredos? Onde foi parar sua inteligência? — Harry riu debochadamente — Talvez, de fato, Luna Lovegood não seja a louca. Talvez seja ninguém menos do que Hermione Granger.
A sala inteira ficou silenciosa. Hermione não conseguia acreditar naquelas palavras. Até mesmo Astória olhava o noivo com uma expressão espantada. Ginny olhava tudo da porta da cozinha, seu olhar preocupado se dirigindo a senhora para quem trabalhava. Porém a morena não queria ficar naquele lugar mais um minuto e assim, saiu correndo da mesa, tropeçando-se no longo vestido. Seu cabelo se desprendendo do coque em sua cabeça. Ouviu a voz de Harry lhe chamando, mas não o escutou e apenas correu para porta.
O tempo estava se preparando para chover. Em Whiltshire, sempre chovia afinal.
Caminhou em direção ao estábulo. Ron não estava lá, e ela agradeceu por isso. Logo, se sentiu culpada. Viu Neville escovando a égua branca e foi até ele.
– De-me a para mim, por favor — pediu, pegando as rédeas da égua.
– Mas senhorita... está escuro — Neville tentou lhe dar um pouco da razão. Ele a olhava espantado.
– Não se preocupe. Sei cavalgar... preciso ir atrás de certas coisas — Hermione puxou Meg, e em um pulo, a montou. Queria ir embora. Queria o encontrar, para nunca mais se sentir sozinha. Nunca mais. Iria ficar com ele, mesmo sem nunca ter o visto. Queria apenas escutar a sua voz.
– O que a senhorita procura? — Neville perguntou.
– Respostas — foi tudo o que respondeu antes de fazer Meg correr. Estava realmente escuro, mas Hermione sabia para onde estava indo. Não era muito longe, afinal. Ela estava indo para a Mansão Malfoy.
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