Wammy's High
31 Yagami Raito
Notas iniciais
Acordei na manhã de domingo com um grande susto: fogos de artifício bem debaixo da janela do meu quarto. Era um carro de som que tocava músicas bregas, nele havia uma pessoa, que com um megafone, anunciava aos quatro ventos uma mensagem especial para Yagami Raito, naquela hora eu só queria que alguém atirasse na minha cara porque eu queria morrer de verdade, de vergonha eu já tinha falecido e só faltava ser velado e enterrado.
— Filho! — Minha mãe apareceu na porta do meu quarto aos prantos. — Veja só o que B fez pra você! Tão lindo e romântico, meu amor!
— Estou vendo, mamãe. — Sorri falsamente, uma veia saltando na minha testa de ódio e desgosto.
Saí para receber as flores, os chocolates, cartões e outros mimos que vinham junto com o maldito carro de som com a cara amassada e ainda de pijama por insistência da minha mãe e da minha irmã, elas estavam muito emocionadas. A vizinhança olhava pra mim, algumas pessoas com curiosidade, outras com diversão e havia alguns vizinhos com um pouco de raiva, porque não? Coitados, tinham sido importunados em plenas 7h da manhã no dia do descanso.
Oh, o descanso, coisa que eu sentia falta mas entendia que precisava abstrair com as maluquices do meu cunhado. Beyond tinha salvado minha pele mas estava me fazendo pagar cada centímetro de couro poupado, tanto ele como os amiguinhos primeiranistas que ele adotou estavam se divertindo às minhas custas. Mas tudo pelo L, a verdade é que minha situação com a Misa tinha me dado uma reputação de namorado tóxico na visão do B, que queria proteger o irmão.
Não podia julgá-lo, as coisas aconteceram de maneira que realmente transparecia isso e eu pretendia provar que sou sim digno de namorar o irmão dele. Suspirei cheio de tralhas, o que diabos eu ia fazer com tudo aquilo? Meu pai olhava pra bizarrice com cara de sono e perplexidade, devia ser estranho me ver fazendo papel de trouxa daquele jeito. Sempre fui uma pessoa discreta, ele me criou pra isso, devia ser confuso em vários níveis.
— Ele está inspirado! — Sayu quem abria os chocolates quase aos pulos.
— Não seja tão mal educada, garota, os presentes são do seu irmão! — Mamãe brigava.
— Você não vai comer tudo isso, vai? — Minha irmã levantou uma sobrancelha em minha direção.
— Não mesmo, pode pegar alguns, é só o Beyond exagerando, como sempre. — Ri sem jeito.
— Eu vejo apenas um jovem romântico e apaixonado. — A mulher que me botou no mundo seria a fundadora do fã clube de Beyond Birthday? Não seria nenhuma surpresa.
— Um tanto excêntrico. — Meu pai finalmente falou, limpando o óculos e colocando no rosto. — Mas se o faz feliz, é o que importa, meu filho.
O telefone da minha casa tocou e minha mãe quem atendeu, era o responsável por aquele caos matinal querendo saber se eu tinha gostado da surpresa que ele fez com tanto amor, olha só que falso. Por pouco não mordi minha língua de tanta raiva dele, já minha mãe, pobrezinha, se manteve toda animada falando como tinha sido lindo da parte dele se importar tanto com seu amado filho, mal sabia ela. Então o telefone foi alegremente passado pra mim.
— Deve estar com sua cara de “você me paga, Beyond Birthday”. — A voz do outro lado, que lembrava muito a do homem que eu amava porém com uma acidez incomparável, ousou me provocar.
— Oh, você me conhece tão bem. — Estreitei os olhos mas com diversão na voz.
— Tenho aqui comigo uma foto de você todo destruído indo receber os presentes, eu mesmo tirei com meu drone, inclusive. — Riu da minha cara. — Simplesmente icônico.
— Bom pra você, devia fazer um poster com minha... — Hesitei, minha mãe ainda estava ali perto. — Alegria.
— E farei. — Gargalhou. — Como você está?
— Estou ótimo. — Menti, minha cabeça ainda estava doendo pela forma desgraçada como fui acordado. — Você, nem vou perguntar, deve estar se sentindo adorável.
— Estou mesmo. — Senti o sorriso nos lábios enquanto ele falava. — Tudo certo para ajudar a empacotar as coisas da mudança? Vamos começar hoje mesmo.
— Sim, vou aí mais tarde. O clima ainda está… Estranho?
— Muito. — Finalmente falou com seriedade. — Meu pai vai sair às 9h, pode chegar aqui depois desse horário, vai ser quando os outros chegarão também.
Aquela informação não era nada animadora, me deixava arrasado saber que Mr. Wammy ainda estava chateado com os filhos, principalmente com meu verdadeiro namorado, além do fato da presença dos primeiranistas ser um alerta vermelho para minha caveira. Estavam aprendendo bem com o B como me infernizar, principalmente aquele Mihael Keehl, que fez a visita ao fã clube do Teru um show de horrores maior do que a experiência por si só já oferecia, esses fã clubes eram o próprio inferno na terra.
Por pouco o garoto não me jogou no fosso do elevador do prédio onde ficavam as instalações do Yagami Raito Fanclub para meninos — nome tenebroso, por sinal. Me fez tirar foto com todos os integrantes do clube, que pareciam uns surtados, uma pessoa chegou até a desmaiar, cenas assim me deixavam com muito medo de ser o próximo John Lennon. Pelo menos pude confirmar que Teru Mikami jamais faria algo contra mim.
O rapaz do segundo ano cooperou bem conosco e deixou claro que tinha certeza que alguém havia roubado o passe dele que dava acesso à redação do jornal da escola, mas infelizmente, podia ter sido qualquer pessoa presente do finado fã clube da Misa na tarde que ela o desfez. A investigação sobre o paradeiro do culpado pelo meu exposed parecia andar em círculos, principalmente depois dos outros afirmarem que o interrogatório a Matsuda Touta foi uma grande perda de tempo.
No fim das contas, as pegadinhas de Beyond eram só a ponta do iceberg de desventuras que estava me cercando e honestamente, eu sequer tinha forças para me ofender de verdade com o que ele aprontava. Eu sabia que B estava fazendo aquelas brincadeiras de mal gosto até como uma forma de abstrair um pouco do que estava acontecendo em casa, além do drama com o real namorado dele, o Nate River do primeiro ano.
Meu cunhado não chegou a me dizer que aquele garotinho era o namorado dele, mas nem precisou, soube imediatamente pela forma como a criaturinha de rosto macabro e infantil, apesar de não ser mais criança, me olhava com ódio tempestuoso, algo digno do filme a órfã. Nate deveria me odiar por ficar por aí de mãos dadas com o namorado dele, mesmo que seja de mentira, essa mentira era o que jogava seja lá que eles tinham para as sombras.
A culpa não era minha! O verdadeiro culpado por todo o desastre foi, seja lá quem jogou meu relacionamento na fogueira. Que situação, estava pertinho meu coração ver Lawliet tão abatido pela forma como Mr. Wammy o estava tratando, podia ser pior, claro, mas tratar o filho com frieza e descaso estava sendo o suficiente para abalá-lo. Uma crise dessas vir justamente depois de um ótimo fim de semana ao lado de L mais parecia alguma peça diabólica vinda do destino.
Depois de me arrumar e sair dizendo que estava indo para um encontro de domingo com meu namorado — mentir pra minha família estava se tornando algo tão natural quanto respirar — fiz uma pequena ligação para Ryuga Hideki avisando que estava a caminho. Ele parecia mais enérgico e empolgado do outro lado da linha, o que me deixou feliz, nos últimos dias mais parecia que estava namorando uma daquelas plantinhas que murcham perto de negatividade.
Quando cheguei fui carinhosamente recebido por Lawliet, porém os amiguinhos já estavam lá, o clima não podia ser de mais estranheza e hostilidade, Nate e Mihael olhavam pra mim com cara de deboche, não liguei, era apenas crianças sendo crianças. Eles bem poderiam tentar me intimidar, mas eu já namorei Amane Misa, nenhum comportamento digno de uma Regina George teria efeito sobre mim, eu estava ali para ajudar meu namorado e era isso que ia fazer.
— Ele vai passar a semana fora. — L me disse em um momento a sós no quarto dele. — Disse que que não quer ver quando sairmos.
— Se ele não quer que saiam, por que está fazendo tudo da forma mais difícil? — Acabei perguntando.
— O mais apropriado seria eu terminar com você, mas sabemos que nos afastar só piora as coisas, vimos na prática. — Sentou na cama dando um longo suspiro. — Sinto que estou de mãos atadas, não vou deixar você, mas sei que estou errado e aceito a punição dele. Porém… Não deixa de ser desagradável e está sendo uma sensação pior do que eu pensei.
— Eu sei. — Abracei-o forte. — Logo isso vai passar, precisamos aguentar só mais alguns meses, na américa vamos ter um recomeço. Talvez esse também seja o tempo que seu pai precisa para processar melhor as coisas.
— Assim espero. — Me abraçou de volta na mesma intensidade.
O dia foi cheio, com pausas apenas para deliciosos lanches e para o almoço que L pediu de um restaurante ali próximo, que igualmente saboroso. No fim tarde, conseguimos empacotar todos os itens dos quartos de ambos os irmãos Ryuuzaki, graças ao trabalho em equipe pouco entrosado porém eficiente dos seis envolvidos. Sobraram apenas alguns pertences em outros cômodos da casa e livros na biblioteca pendentes para o dia seguinte.
— Nunca mais quero ver uma camisa preta e uma calça jeans na minha frente. — Brincou Matt Jeevas quando nos agrupamos para ir embora.
— Você ainda vai ter muito o que me engolir, Jeevas. — Beyond rebateu gargalhando. — Obrigado, de qualquer forma, vou pedir para o motorista deixar cada um de vocês na porta de casa.
Que preguiça de ir embora, a ideia de deixar meu namorado para trás e me contentar com as paredes bege sem graça do meu quarto parecia uma ofensa, ainda mais sabendo que a viagem de volta seria ao lado daquele trio de moleques. Nada contra o tal Matt, mas fui o trajeto inteiro com os outros dois cochichando e trocando olhares divertidos que eu sabia que eram às minhas custas. Que infantis, se tinham um problema comigo, porque não dizer logo na minha cara? Bom, talvez fosse pedir demais de crianças.
Fui o último a ser entregue em casa e como não podia deixar de ser, chegar de limusine deu o que falar! Minha mãe e minha irmã estavam assistindo doramas demais e literalmente, era o que mais Sachiko Yagami fazia nas horas vagas, sempre ficavam alucinadas com o meu adorável e rico pretendente. Eu me perguntava se elas realmente gostavam dele ou das coisas que ele teoricamente poderia me oferecer, não deixava de ser estranho.
Na hora do jantar, as duas não paravam de matracar, o tema? Ainda o causo do carro de som, conhecendo-as bem, aquele assunto iria render até o final daquela semana, se não mais. Já meu pai, estava incrivelmente calado e quando subi, veio à porta do meu quarto como quem não queria nada, mas o bigode dele parecia se contorcer quando o homem ajustava os óculos, procurando coragem para falar seja lá o que estivesse se passando em sua mente.
— Sabe, filho, o que eu mais prezo é o seu bem estar. — Ele começou falando. — Não me leve a mal, mas você está mesmo satisfeito com esse namoro com o jovem Ryuuzaki?
— O que faz o senhor pensar que não estou? — Fora o fato de ser uma namoro de mentira, obviamente.
— Nunca vi você como uma pessoa que aprecia abordagens tão… Espalhafatosas. E não falo isso chamando gays de espalhafatosos, eu...
— Sei o que quer dizer. — Suspirei, como eu poderia me sair dessa? Vamos de mais encenações. — Também acho exagerado, mas não reclamo das loucuras de amor porque B está empolgado em poder finalmente expressar o que escondeu por mais de um ano. Só não consigo ficar 100% feliz porque não sai da minha cabeça o fato de que tem alguém por aí tentando me prejudicar.
— Acha que essa pessoa vai aprontar de novo? — Ajustou os óculos.
— Não sei, é esse o ponto. Não saber o que esperar é pior do que ter um inimigo declarado, talvez eu não consiga me tranquilizar até o safado que aprontou aquilo na segunda-feira seja pego e devidamente punido.
— Tem razão, meu filho, mas a escola já está cuidando disso, não é? Deixe nas mãos das autoridades.
— Sim, sim, estão movendo céus e terras. — Menti. — Mas fica essa sensação de insegurança.
— Eu entendo, mas logo tudo vai se resolver, não deixe de aproveitar seu momento por causa da maldade das pessoas. — Aquele era um bom conselho.
— Obrigado, pai. — Sorri.
— Bom, acho que isso é tudo, sinto muito importuná-lo, filho.
— Não tem problema, na verdade, essa foi uma boa conversa. — Admiti.
— Que bom, então... Boa noite. — Ele sorriu na porta do quarto.
— Boa noite. — Desejei de volta.
Deitei na cama e tentei relaxar mas meus ombros pareciam pesar uma tonelada, eu sabia do que precisava: ligar para o L. Aquilo estava virando um hábito, meus olhos só queriam cerrar depois de ouvir a voz dele, suave e gentil, me desejando boa noite e dizendo que me amava. Eu o amava também, o amava tanto, só queria que ele ficasse bem logo, essa mudança era a esperança dele ter um pouco mais de paz de espírito, o que me deixaria em paz também.
No dia seguinte, quando o despertador tocou, eu só queria me jogar pela janela, que desgosto de levantar e ir pra escola, mas eu não tinha escolha. Naquele dia meu pai me levou de carro, o que melhorou mais meu ânimo, que não durou muito graças a cena bizarra que vi assim que entrei na escola: tumultos e burburinhos. Na última vez que presenciei aquele comportamento, foi numa segunda-feira como aquela, exatamente há uma semana.
— Yagami! — Beyond me chamou acenando, estava com seus escudeiros, fui praticamente correndo.
— O que está acontecendo? — Perguntei, meu coração prestes a sair pela boca em ansiedade.
— Parece que uma pessoa foi à diretoria se entregar como culpado do estardalhaço da segunda passada. — Foi Nate River quem disse como se fosse nada enquanto enrolava uma mecha de cabelo nos dedos com casualidade.
— Quem?! — Minha boca estava seca.
— Não sabemos ainda, está um tumulto na porta da diretoria para ver quem foi, viemos pra cá esperar você chegar pra irmos juntos descobrir quem foi o maldito. — Beyond me disse.
Aquelas palavras bastaram para praticamente corrermos até a confusão, conseguimos desviar e atravessar na frente das pessoas, foi bem a tempo de poder ver de camarote o culpado da desgraça ter acontecido semana passada sair da diretoria com a cara mais lisa do mundo. Eu estava em choque, nunca na minha vida eu ia imaginar que aquela pessoa estaria por trás de tudo. Ele me encarou com fogo nos olhos, dava para ver que não havia arrependimento.
— Nos deem espaço, por favor! — Roger tentava dispersar o formigueiro. — Vocês deveriam estar em sala, vão agora para a sala! Não há nada para ver aqui.
— Matsuda! — Foi Misa quem se jogou do meio da multidão incrédula em direção ao mais improvável agente do caos. — Eu não acredito! Como pôde?
— Me perdoe, Misa Misa. — Foi tudo o que ele disse antes de seguir Roger e outros professores corredor afora.
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