Wammy's High
32 Nate River
Notas iniciais
Ver meu plano ganhar forma lavou um pouco minha alma, agora Matsuda pagaria pelo caos que criou e ainda faria Yagami pagar por ter criado a brecha para o caos ter se instaurado. No entanto, por algum motivo, eu não conseguia sentir todo o contentamento que pensei que sentiria, acabei comentando sobre essa sensação para Matt e Mello quando estávamos os três sozinhos em nossa sala na hora do intervalo.
— É porque o Matsuda se entregou, mas disso nunca duvidamos, ele fez o que tinha que fazer para livrar a pele da Misa. — Mello teorizou, comendo seu lanche de chocolate. — Falta a outra parte, que é a mais interessante, na minha humilde opinião. Acredite, você vai se sentir melhor quando o Yagami aparecer com um lábio cortado.
— Acha mesmo?
— Tenho certeza. — Ele sorriu.
Matt nada disse, ele estava estranho desde sábado depois de me ver manipular Matsuda na cara dura, até eu estava um pouco assustado com minhas novas… Artimanhas, por assim dizer. Sinto que deveria estar mais tomado pela culpa, pela forma como estava levando as coisas, mas eu simplesmente não conseguia, não quando lembrava da impotência e da frustração que vem me acometendo na última semana.
Beyond estava na diretoria junto da família dele, a de Matsuda e a de Raito, todos tinham sido chamados, Mr. Wammy voltou com urgência por causa da suposta resolução do caso da fake news fake do jornal da escola. Eu estava muito curioso para saber o que estava acontecendo lá, mas tinha certeza que B não deixaria de nos contar os mínimos detalhes do ocorrido, e eu não podia estar mais certo: assim que foi liberado, veio até nós como um míssil teleguiado.
Aproveitamos o tempo que restava do intervalo para dar uma fugida até a parte de trás do ginásio próximo à passagem secreta, aquele estava se tornando praticamente nosso QG, era reservado o suficiente para nossas conversas comprometedoras acontecerem apropriadamente. Beyond então nos confirmou que Matsuda vai ficar uma semana suspenso e pagando detenção pelo resto do semestre quando retornar, além disso, teve que cuspir um pedido de desculpas esfarrapadas para os Yagami e os Ryuuzaki, mas isso foi tudo.
Aquela decisão do diretor da Wammy 's High não deixou os pais de Raito nada satisfeitos, eles queriam que o rapaz fosse expulso por atentar contra o precioso deles e não esconderam o descontentamento. Os pais de Matsuda ficaram chocados, jamais imaginariam o tímido e doce filho deles agindo daquela forma. Watari culpou os hormônios da adolescência e normalizou toda aquela loucura com um jogo de cintura invejável.
— Só faltou fazer vocês três se apertarem na camiseta da união, com direito a abraço, beijinho e dizer que ama. — Zombou Mello.
— Só faltou isso mesmo. — Beyond riu. — O ponto é que a suspensão começou de imediato, Matsuda já deve estar a caminho de casa nesse momento.
— E com certeza de castigo. — Matt suspirou e Beyond confirmou com um aceno de cabeça.
— Ficará da escola pra casa, sem videogame, TV, celular, e laptop só pra trabalhos da escola por tempo indeterminado. Pelo menos foi o que a mãe dele gritou naquela sala.
— Que morte horrível. — Mail franziu o cenho.
— Mas foi melhor que uma expulsão. — Tive que dizer. — De castigo ele ia ficar de qualquer jeito.
— Isso, sem dúvidas. — B continuou. — Meu pai passou esse pano com a fachada de que o Matsuda sempre foi um aluno exemplar, nem sabia o que tinha dado nele, aí o Matsuda ainda veio com a desculpa que fez o que fez porque pensou que se tratava de um escandaloso caso entre professor e aluno, que se ele contasse de outra forma ninguém ia acreditar nele.
— Nem foi por causa de rabo de saia. — Mello riu, ironizando.
— Imagina, Matsuda, o defensor da honra dos jovens. — BB praticamente gargalhou. — Mas o ponto é que os pais aceitaram essa desculpa, e o meu, no papel de diretor, driblou a situação dizendo que acreditariam nele sim, inclusive se ele soubesse de algo tão grave acontecendo na escola, podia dizer na diretoria que jamais iriam desacreditá-lo.
— Um belo de um drible. — Matt teve que dizer.
— O homem é bom nisso, simplesmente inquestionável. — B parecia orgulhoso do pai. — A justificativa mais falsa que nota de três do Matsuda mais o bônus de ter se entregado de bom grado foi o suficiente pra convencer a todos, inclusive o corpo docente, que aquele castigo estava de bom tamanho.
— Embora saibamos que foi porque só existe uma verdade e poucos sabem dela. — Acabei dizendo.
— Isso, o cara não mentiu e sim a gente. — B concluiu. — Uma coisa a menos pra se preocupar, de qualquer forma, o que me deixa aliviado.
—De fato. — Suspirei. — Yagami está satisfeito?
— Muito, coitado, mal sabe ele o que o aguarda.
— Acha que o Matsuda vai ter mesmo coragem de tentar algo contra Raito nessa altura do campeonato? — Matt perguntou.
— Eu tinha minhas dúvidas, mas depois do fogo nos olhos que vi naquele magrelo na diretoria, Yagami que se prepare. — B acenou com a cabeça. — Porém não acho que ele vá fazer grande estrago, afinal, é menor e mais franzino.
— Pelo menos um belo soco o Raito leva? — Mello sorriu.
— Isso, definitivamente. — B sorriu de volta;
— Já é o suficiente, por hora. — Bufei. — E o susto no Matsuda?
— Já está tudo pronto. — Garantiu Beyond.
Eu havia prometido que não deixaria Beyond Birthday agredi-lo, mas não poderia proibir Lue Ryuuzaki de pregar-lhe uma bela pegadinha e dar o troco no caótico do chazinho que tentou prejudicar a família dele. Seria algo no nível dos meninos no carro da Wedy, embora eles jamais pudessem sonhar que éramos nós os envolvidos no assalto do palhaço assassino.
Mello seria o motorista de fuga na pegadinha Beyond, estava super animado com todo o esquema, nem era sobre ele mas se engajava como se fosse, eu sabia que Mihael Keehl era um grande fã de infernizar as pessoas por nada, estava sendo um circo pra ele. Já B foi estranhamente fácil de convencer a cooperar também, fiquei muito surpreendido com ele ter se mostrado tão acolhedor após me ver sendo uma versão tão... Obscura de mim mesmo ao lidar com Matsuda.
Foi quase como se ele tivesse gostado de me ver sendo malvado, jamais imaginaria, eu tinha um grande medo dele julgar meus métodos. Mas era Lue Ryuuzaki, depois me toquei que ele mesmo só não deu belo soco na boca do Yagami por respeito ao irmão. Por outro lado, Matt estava sendo difícil de ler mas estava tentando não pensar nisso, não queria ter meus sentimentos invalidados.
Depois da aula, os meninos foram pro trabalho, Beyond para casa terminar os preparativos para sua mudança e eu iria para um certo lugar, honrar um certo compromisso. Eu estava com uma cesta de biscoitos, frozen yogurt e chocolates para uma certa moça com o coração partido. Ao chegar na casa de Amane Misa, dei de cara com os avós dela, fofos e gentis, foram logo me deixando entrar e chamaram a neta, que apareceu confusa e desconfiada à primeira vista.
Fez uma certa cena amigável em frente aos avós, fingindo muita alegria ao me ver para os idosos não desconfiarem e me levou pra varanda para apreciarmos os mimos que trouxe na cesta, assim que eles deram as costas, o semblante de Misa mudou. Estava séria e cansada, transparecendo como estava desapontada no olhar e também na voz.
— Onde estão os outros? — Ela perguntou. — Vocês são um quarteto inseparável agora.
— Estão cuidando das próprias vidas. — Foi tudo o que consegui dizer. — Como você está?
— Triste pela traição do Matsuda. — Pegou um pouco do frozen yogurt. — Mas o que é mais desilusão em meio a tantas coisas que me aconteceram, não é mesmo? Eu jamais imaginaria que justo ele passaria por cima da minha decisão de deixar essa história do Raito pra lá.
— Imaginei, sinto muito. — Suspirei. — Vocês têm muito o que conversar quando a suspensão dele acabar, suponho que o próprio Matsuda estaria aqui tentando se entender com você, se não estivesse de castigo.
— Um número desconhecido tentou me ligar, ele deve ter separado um celular descartável para usar como forma de se esquivar do castigo. — E estava mesmo, ideia minha, inclusive. — Mas não tenho nada para falar com o Matsuda. — Me encarou por cima da colher de iogurte. — É isso que veio fazer aqui? Aliviar a barra dele? Nem sabia que eram amigos, devia estar chateado por ele ter se entregado e melado a recompensa que ia receber pela sua investigação.
— Eu quem pedi, aliás, sugeri dele se entregar. — Ela pareceu chocada com aquela afirmação. — Soube que era o Matsuda na hora que ele ficou desconcertado pelas suas palavras na sexta-feira. Eu não ia entregá-lo, mas deixei claro que era a única forma de corrigir o que ele fez e livrar você dos holofotes acusadores, e assim ele fez.
— Não muda o fato que demorou uma semana pra isso, me viu chorar e ficar chateada com tantos dedos na minha cara e não fez nada.
— Ele só não tinha se entregado ainda por medo do hate que ele sabe que vai receber dos adoradores do Raito quando pisar naquela escola, mas principalmente pelo medo de você odiá-lo, afinal, veja só o que essa situação lhe causou mesmo sem ele querer. O único que ele queria prejudicar era o Raito e como um golpe do destino, a pessoa que mais importava pra ele foi quem se prejudicou de verdade.
— A pessoa que mais importava pra ele? — Os olhos dela estavam arregalados.
— Atenda aquela ligação quando você receber, como eu disse, vocês têm muito o que conversar. — Levantei da cadeira. — Matsuda não foi expulso mas algo me diz que os fã clubes do Raito vão fazer ele desejar ter sido. Ele vai precisar de apoio.
— O que está ganhando com tudo isso, Nate River?
— Com o que?
— Ajudando as pessoas.
— Não estou. — Se tinha uma pessoa que não estava ajudando esse alguém era eu, muito pelo contrário, eu era mais um mero agente do caos. — Não me entenda mal, mas venho agindo por meus próprios motivos.
— Seu coração também está em cacos por algo que o Raito fez. — Ela sorriu, sabedora. — Agora vai ajudar pessoas já que não pode ajudar a si mesmo, soa como um curador ferido.
— É um jeito bem romântico de colocar as coisas. — Bem burro e errôneo também. — Se eu confirmasse, faria alguma diferença?
— Na verdade, não. — Deu de ombros.
— Então isso é tudo. — Sorri. — Obrigado por me receber na sua casa sem convite, senhorita Amane.
— Obrigada pela visita e pela cesta de café da tarde. — Ela levantou para me levar até a porta.
— Aprecie bem.
— Realmente me sinto melhor após essa conversa.
— Isso é bom. — Sorri.
Os avós da Misa não queriam me deixar ir embora, me acharam fofo e adorável demais, queriam que eu ficasse pois a vovó Amane faria uma deliciosa torta, foi tentador, não queria fazer desfeita mas realmente precisava ir pois tinha muito o que fazer. A sementinha do perdão já tinha sido plantada no coração de Misa, só restava a Matsuda regar, meus instintos me diziam que ele ia se dar bem.
Meus próximos passos eram ir à casa de Lue e dar tempo ao tempo e espaço a Matsuda, eu tive minhas dúvidas se ele teria mesmo coragem de enfrentar Raito e também se o faria naquela noite, só tive minha confirmação quando recebi uma ligação do celular do ladrão, como batizou Mello, com o aviso que estava tudo pronto para seguir o plano original.
— Obrigado pela mãozinha com a Misa. — A voz de Matsuda me disse do outro lado da linha. — Estou fugindo para encontrá-la agora e ela só aceitou por causa da sua intervenção, te devo mais essa.
— Só estou cumprindo minha parte do acordo. — Sorri. — Boa sorte com a Misa, qualquer mudança no plano me deixe sabendo, não precisa ser hoje.
— Eu sei que não precisa, mas vai ser. — Havia convicção ali. — Meu álibi já está a postos.
— Ótimo, então até mais tarde. — Me despedi e sorri por tempo demais encarando o telefone ao desligar.
— Ia perguntar se devo me preocupar com essa sua amizade com o Matsuda. — Lue sorriu com diversão. — Mas algo me diz que ele é o menor dos meus problemas.
— Não poderia estar mais certo. — Suspirei. — Você não está mesmo chateado com meu… Comportamento?
— Você enlouqueceu? — Riu, me puxou para perto e tocou minhas bochechas. — Por que eu ficaria chateado?
— Não sei… Você disse gostar da paz que aparentemente lhe passo e tenho sido tudo menos pacífico, acho que na verdade, a melhor palavra para me definir nos últimos dias seria... Impiedoso? — Confessei.
— Tem sido impiedoso, sim, mas com terceiros. Eu estou recebendo nada além de ternura vindo de você. — Beijou minha testa. — Saber que você tem todas essas facetas e eu recebo a mais linda delas me deixa lisonjeado, porque mostra que tenho feito por merecer o seu carinho assim como os outros tem feito por merecer o seu desprezo.
— Mesmo? — Encarei-o com felicidade em meus olhos.
— Sim, dar a cada um exatamente o que merece requer uma grande inteligência, saber que você tem essa natureza tão complexa só me faz querê-lo ainda mais. — Deixou escapar um amplo sorriso e então me beijou.
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