Wammy's High
27 Nate River
Notas iniciais
Eu só queria ser sugado por aquele cobertor até não sobrar mais nada, queria desaparecer, era uma sensação indescritível, não queria chorar exatamente porque não conseguia chorar, talvez se eu chorasse até melhoraria. Fiquei apenas deitado na minha cama de pijama, enrolado dos pés a à cabeça deixando somente meu rosto exposto para me manter respirando plenamente e só. Me aconcheguei naquela manta, o que não foi uma boa ideia, o cheiro dele ainda estava ali, maldita hora que aceitei aquele beijo, maldita hora aceitei compartilhar camas duas noites seguidas, maldita hora que deixei qualquer aproximação acontecer.
Encarei o bilhete estúpido em que ele dizia ter um compromisso mas nos veríamos na escola, que bela piada, bufei desconfortável. Havia um silêncio vazio no meu quarto, eu estava sozinho em casa, meus pais no trabalho, inclusive fariam plantão de 24h. Seria até bom esse momento de solitude para refletir o que faria dali em diante, eu poderia ficar cabisbaixo sem ser questionado, não seria maldade dos meus pais, apenas preocupação, válida preocupação. O que estava acontecendo comigo?
Na escola, com o comunicado da rádio ainda acontecendo, meu corpo se moveu sozinho, era gritaria por todo lado, inclusive vinda de Matt e Mello, aqueles dois sim sabiam tornar tudo um dramalhão, quando dei por mim estava na enfermaria do colégio reclamando de enxaqueca para ser dispensado mais cedo. Nem fui questionado, a enfermeira me examinou, ganhei um pirulito e um passe direto para casa. A mulher perguntou se eu gostaria de chamar alguém para me buscar, se deveria ligar pros meus pais, mas disse que não, iria sozinho, morava ali pertinho.
No portão da escola havia menos caos instaurado entre as pessoas mas ainda tinha energia sobrecarregada em forma de burburinhos, a rádio havia cessado, aquela gente não tinha mais o que fazer? Notei duas garotas conversando, infelizmente consegui ouvir do que se tratava.
— Meu gaydar nunca me enganou e sempre explodiu com o Raito, essa coisa toda até serviu para ratificar os rumores dele terminar com a Misa Misa por não gostar da fruta. — A moça, com certeza segundanista, disse.
— E agora dá pra ver o que ele gosta, e como gosta, olha só que beijão esse daqui. — A outra menina apontou pro papel que tinha em mãos. — No fim, ele e o Beyond Birthday combinam muito mais, o badboy e o garoto modelo, um contraste perfeito. Ele com a Misa era o próprio picolé de chuchu e essa fake news dele com o professor não fazia mesmo o menor sentido também, o que Mr. Ryuuzaki iria querer com uma pessoa tão jovem?
— Né isso, será que foi a picolé de chuchu que espalhou essa fake news?
— Pode ter sido a própria Kiyomi Takada, ela é a editora chefe do jornal e sempre foi doida pelo Yagami, na época do namoro dele com a Misa, elas viviam trocando farpas.
— Foi com ela que Misa saiu no soco no começo do semestre?
— Exatamente, só pra no fim perderam ambas para ninguém menos que Beyond Birthday, já estou amando esse novo power couple da escola! — A moça começou a dar gritinhos junto com a amiga.
Aquilo deu um nó na minha garganta, trinquei o maxilar, havia vários papéis jogados pelo chão com a tal matéria relatada por aquelas duas, desviei o olhar, não conseguia aguentar aquilo. Eu teria que ir para casa rápido, quase morri só de pensar na simples caminhada que eu geralmente fazia diariamente com tanto gosto, pareceu uma eternidade no inferno na projeção da minha mente do jeito que estava atordoada. Tirei meu celular do bolso, vi na tela mensagens de Matt perguntando onde eu estava, não tinha tempo de responder àquilo, só me veio uma pessoa para chamar por ajuda.
— Oi, fofinho. — Wedy falou ao atender meu telefonema. — Aconteceu alguma coisa?
— Você pode me levar pra casa? — Minha voz transpareceu mais vulnerabilidade do que eu gostaria. — Saí mais cedo da escola, sei que moro perto e não queria incomodar, mas…
— Não diga mais nada, chego aí em um minuto! — A mulher quase gritou.
O carro dela praticamente se materializou ali, um homem bonito ao volante, ela no banco da frente mas saiu do veículo para me receber e ficou comigo no banco de trás. Wedy estava preocupada, chegou ali rápido porque estava meio aos preparativos para abrir o bar do Aiber, o namorado a acompanhou, a mulher foi logo perguntando se eu tinha febre, o que estava sentindo, se meus pais estavam em casa, precisava muito saber o que tinha acontecido para eu ligar assim.
Não podia contar nada para ela, só disse que não estava me sentindo bem mas não podia contar o motivo, os olhos azuis me encararam com sabedoria e perguntou se eu gostaria de um abraço. Não sabia como precisava daquele abraço até recebê-lo, me agarrei a Wedy, que foi meu amparo até enfim chegar em casa, não foi nem cinco minutos, mas foi o suficiente para eu me sentir melhor. Agradeci e expliquei que depois de organizar as coisas na minha cabeça ela teria as respostas que precisava.
Wedy não sabia o bem que tinha me feito, eu tinha que explicar o que estava acontecendo assim como responder aos garotos onde eu estava, o que eu estava fazendo, mas para tudo isso eu precisava de respostas concretas para o que eu estava sentindo. Não queria correr os risco de falar a coisa errada, tomar o posicionamento errado e só piorar minha confusão interna, por isso precisava desse tempo. Estava sendo egoísta? Que seja, eu não dava a mínima.
Aquilo era o que todos chamavam de coração partido? Pensei que seria mais gracioso, emocionante e arrebatador. Qual era o significado daquele circo todo, afinal? Estaria eu tão iludido a ponto de não perceber algo entre Yagami e Beyond? Pareciam distantes, só colegas, sequer amigos, quem dirá namorados secretos. Era minha e só minha a gentileza de Beyond Birthday, ele parecia tão sincero em sua confissão, tão verdadeiro, não me parecia o tipo de pessoa que mentia, pelo contrário, vivia arrumando problemas por ser sincero demais.
O que eu tinha deixado passar? No fim as prospecções catastróficas de Mail Jeevas é quem estavam corretas e o tolo fui eu. Uma batida na janela do meu quarto me tirou de meus devaneios, levantei levemente para olhar o que era, era ele. Beyond Birthday estava me olhando pelo vidro com os olhões castanhos avermelhados arregalados, ele se posicionou ali como quem diz que só sai quando eu abrir ou os vizinhos virem aquela cena estranha e chamarem a polícia. Eu não tinha escolha, me arrastei até lá.
— O que você quer? — Já fui logo perguntando no momento que abri a janela.
— Eu precisava ver você. — Ele disse com o timbre baixo ao entrar no quarto e colocar as mãos nos bolsos. — Ficamos todos muito preocupados com seu sumiço.
— Estou em casa descansando, como pode ver. Não deveria estar na escola com seu namorado? — Cruzei os braços.
— Isso foi tudo um mal entendido, Deus me livre namorar o tonto do Yagami! — Ele fez careta. — Precisei mentir para mediar uma crise com o nome da minha família.
— Então a fake news não era tão fake assim. — Matei a charada. — E é com seu irmão, nosso professor, que o Yagami está envolvido.
Ele apenas acenou positivamente com a cabeça e sentamos na cama, onde ele pôde contar a longa história sobre o teatro que teve que fazer para acalmar a família de Raito e assim como todo o colégio. Contou também sobre a drástica decisão de Watari Wammy, que não caiu na mentira dos filhos, as suspeitas para cima de Misa a partir de todos os lados da história sobre o término dela com Yagami, além da reação de Mello e Matt, que estão indignado com o destino de Beyond em ter que sustentar um namoro fake com Raito, com direito a inclusive um jantar com os Yagami naquele dia.
— Eu tinha que proteger minha família. — Ele suspirou tristemente. — L e Raito têm sorte de eu ser tão parecido com meu irmão para poder fazer valer a mentira, mas foi por muito pouco.
— Sinto muito que tudo isso tenha acontecido. — Tive que dizer. — Acha que Mr. Ryuzaki se arrepende de ter ido contra os conselhos do pai e cedido às investidas do Raito?
— Conheço bem um homem que só se arrepende mesmo de ter sido pego quando vejo um. Pra ele ter se metido nesse rabo de foguete, em primeiro lugar, só mostra que o Yagami deve significar muito, e é isso que me assusta, depois do que ele fez com a Misa não consigo confiar meu irmão aos braços daquele sonso assim tão fácil. — B bufou.
— E com razão, é muito triste Mr. Ryuzaki sendo enviado à América assim contra a vontade, ele ama lecionar. — Era apenas a verdade.
— Esse Phd vai vir numa boa hora, o L tem potencial demais pra ficar desperdiçando lecionando para pirralhos, se ele gosta tanto de ensinar, podia pelo menos ser professor numa boa universidade, inclusive vou aconselhá-lo a perseguir esse novo objetivo investindo no próprio currículo, quando chegar em casa. — Levou a mão à testa. — Fora que que o Yagami já deixou claro que vai querer acompanhá-lo também nessa mudança pra América na conversa que tive com ele antes de vir pra cá. Pelo menos num lugar novo, num país diferente onde ninguém os conheça, será um recomeço completo pros dois.
— E quanto a você? — Tive que perguntar. — Você queria mesmo ir para Los Angeles?
— Eu sempre sonhei com Stanford, mas eu bem poderia ficar aqui por você, não teria nenhum problema, a Inglaterra tem universidades igualmente incríveis. — Desviou o olhar, corado. — Teria também a opção de, mesmo se eu fosse, aproveitar o tempo que me resta na Europa ao seu lado e depois investir em algo à distância só enquanto você não se juntava a mim na américa. Para isso você teria de estar disposto a fazer um curso superior fora e se aventurar ao meu lado, claro.
— Soa como o plano perfeito. — Admiti tristemente com um sorriso agridoce. — Você ficaria mesmo aqui por mim?
— Mas é óbvio, quero você perto de mim, o que só me deixa mais frustrado com toda essa confusão. — Ele confessou. — Não tinha pior momento para essa crise, logo agora que as coisas iam tão bem entre nós, eu estava tão feliz em tê-lo em meus braços. — Olhou em meus olhos com sentimento e pesar. — Era com você que eu queria estar indo em um jantar em família, porque é de você que eu gosto, é você quem eu quero namorar.
— Vamos dar um jeito. — Falei com convicção, os lábios trêmulos, finalmente queria chorar. — Não sei como vamos fazer isso, mas eu também quero namorar você, tudo o que você descreveu, ter aventuras com você, é tudo o que mais quero.
— Nate… — Ele segurou minhas mãos com paixão. — Eu… eu tenho um pedido para lhe fazer.
— Claro, o que seria?
— Quando estivermos sozinhos, quero que me chame pelo meu nome. — Aquilo me fez arregalar os olhos. — Para você, de agora em diante, eu sou apenas Lue Ryuzaki, só minha família pode me chamar assim, é muito íntimo e pessoal, mas quero compartilhar com você.
— Você tem certeza? — Me faltou até um pouco de fôlego.
— Nunca estive tão certo em toda a minha vida. — Me encarou com os olhos famintos. — Eu quero que você seja só meu, Nate River.
E me puxou para perto para um beijo cheio de ternura, envolvendo meu corpo em um abraço apertado, meu coração nunca bateu tão rápido, aquelas palavras, aquele gesto, tudo aquilo jogou para longe todas as dúvidas e sentimentos de amargura que eu poderia ter sobre ele. Eu estava certo, não tinha deixado escapar nada, o carinho e a gentileza de Beyond Birthday, aliás, o carinho e a gentileza de Lue Ryuzaki pertencia a mim e somente a mim. Quando nos separamos ele beijou minhas mãos e sorriu.
— Também quero que você seja só meu, Lue. — Suspirei, corado, não sei como tive coragem de colocar em palavras.
— Eu já sou seu, apenas seu e de mais ninguém. — Me abraçou, afagando o rosto em meus cabelos antes de beijar o topo da minha cabeça. — Vou pensar em algo, bolar um plano para contornar essa situação e também descobrir quem foi o capeta que expôs meu irmão, criando esse pandemônio.
— Vamos fazer isso juntos. — Confirmei, segurando as mãos dele.
— Juntos. — Ele sorriu.
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