Wammy's High
28 Mihael Keehl
Notas iniciais
Finalmente era sexta-feira e eu estava animado, era o dia do meu primeiro encontro com o Matt e eu tinha planos: pedir o desgraçado em namoro. Depois de uns dias eu percebi que estava chamando o maldito de namorado sem nunca ter pedido oficialmente, e eu iria pedir! Ele já tinha tomado iniciativas demais pro meu gosto, se fosse uma competição eu estaria perdendo e odeio perder. Iríamos a um parque de diversões que abriu não muito longe do trabalho, esse momento a sós ia ser muito bem vindo, além de curtir o ruivo idiota, poderíamos espairecer do que tinha sido aquela semana tão maluca.
Para começo de conversa, o quengaral queimou e eu estava preso num universo paralelo onde eu respeitava e admirava Nate River, eu estava chocado com aquele nanico mas no bom sentido. Tudo o que precisou acontecer foi eu ver com meus próprios olhos o cordeirinho sonso e apático se transformar num lindo carneiro odioso. E não era odioso de ficar armando barraco como eu, Near demonstrava como estava puto da vida com pequenas sutilezas como o pequeno dândi que era: um olhar de desprezo, uma derrubada de dados mais enérgica, uma palavra mais dura mesmo que fosse num timbre baixo e rosto inexpressivo.
Motivo disso tudo? Todo mundo estava adorando o casal fake formado por Yagami e Beyond e não parava de falar nisso. Até eu já tava com nojo, a Misa de fato desfez o fã clube do Yagami mas estava tendo um burburinho pelos corredores do colégio sobre o pessoal se organizando para fazer um fã clube pro casal. Imagina a merda que deve ser ter que aguentar um bando de imbecil arrombado do caralho amando e shippado seu homem com outro, aliás, outro esse se tratando de um chato, capenga, sem sal e completamente superestimado.
O que o Yagami tinha além de ser gostoso? Se um trem pega ele na linha férrea e deforma, sobra o que? Nada! Se ele fosse um doidinho qualquer fazendo as coisas que fazia, todo mundo o odiaria, o pobre Near era muito mais interessante que aquele idiota, justamente por isso que eu vivia inseguro com a possibilidade de algo entre ele e o Matt. Insegurança essa que inclusive foi pro beleléu, estava todo mundo em outra e eu ocupado admirando a nuvem cujos olhos cinzentos transpareciam tudo, era como uma tempestade de raios onde o branquelo enfiava mentalmente o nome de Yagami Raito na boca de um sapo. O que o ranço compartilhado não faz, né?
Quem não estava nada feliz com isso eram Matt e Wedy, afinal, Nate River era o menino dos olhos de ouro para os dois, vê-lo tão venenoso estava sendo de cair o cu da bunda, Mail estava tão tenso que eu estava vendo a hora ele acender um cigarro na ponta do outro. Gostava dele fumando, achava sexy, mas estava começando a me preocupar, não sei porque essa besteira, pela primeira vez na vida o pau estava torando mas não era pro nosso lado, era de se comemorar, como o Beyond disse:
— Se a água da bosta não tivesse batendo na minha bunda, eu estaria adorando essa coisa toda, aproveitem, gente, relaxem e foquem na recompensa.
Que recompensa? Devem estar se perguntando. O corpo docente e direção da escola estavam mais lentos em pegar o suspeito da suposta fake news que a polícia de Gotham para pegar o Coringa, então deu uma de Hogwarts e jogou tudo nos peitos dos alunos com um aviso na rádio para o rei do caos se entregar pacificamente e prometendo recompensas aos X9 que o entregassem. No fim Mr. Wammy não estava tão interessado de verdade, era mais uns panos quentes para enrolar a família do Raito e os professores mais chatos que queriam justiça pelo colega falsamente inocentado. É pra rir mesmo, administração de instituições tinha mais questões políticas do que se podia imaginar.
O ponto é que estávamos fazendo malabarismo entre ficar investigando o vazamento da fofoca, coisas da escola, trabalho, e nossos respectivos namoros. O B ainda estava fazendo um turno extra como ator, e vou te dizer: com ele indo pra Califórnia deveria logo procurar seu lugar de direito em Hollywood e Meryl Streep que se cuidasse. O maluco das geleias estava gostando de fazer a família do Yagami — que por sinal é bem da tapada — além da escola inteira de trouxa. BB fazia questão de ficar próximo de Raito e inferniza-lo, fazê-lo pagar tanto pela mentira como pela inconveniência de não poder viver plenamente sua coisa com Near.
Estava fazendo o cunhado de escravo, Raito estava fazendo o dever de casa do B e se fosse pouco, meu melhor amigo ainda jogava os nossos pra cima do pobre Yagami. Mandava mensagens de amor constrangedoras na rádio da escola que faziam aquela de Misa parecer algo decente, deixava roupas comprometedoras na lavanderia só para ele pegar, e conhecendo meu amigo, não iria parar por aí. Ele não daria sossego ao Raito, ainda mais com o jantar proposto pela família do j-idol metido ter sido um sucesso.
Como eu já imaginava, a cura da homofobia era uma coisinha chamada dinheiro, é só chegar com um boy rico e todo mundo vai amar e respeitar o novo casal. O ponto é que apesar dos pesares ele estava se divertindo às custas da desgraça do cunhado pra lavar um pouco a própria alma e só estava pegando leve com o irmão por causa da comida de rabo que o L levou do diretor Wammy. Se não fosse por isso também estaria roubando e jogando fora os bolos de morango do pobre homem.
L não reclamaria se ele o fizesse, na minha humilde opinião, o homem estava muito agradecido, graças a mentira de B, L e Raito podiam ficar juntos usando a lorota como escudo, embora o professor estivesse procurando um lugar para morar porque o clima na casa dos Wammy-Ryuuzaki estava meio tenso, afinal, o velho diretor pai deles sabia de tudo. Justamente por saber de tudo, acho que ele estava cagando para investigação da pegadinha do jornal, punir o coitado do filho tava de bom tamanho.
Era sabido que seja lá quem aprontou aquela doidice de segunda-feira, no máximo só teria que fazer um pedido de desculpas formal, ficar na detenção e/ou ser suspenso. Mesmo assim, o agente do caos devia ser alguém muito cagão, afinal, continuava se escondendo como uma barata. Nossos suspeitos eram pessoas do jornal da escola, encabeçados por Kyomi Takada e o pessoal do falecido Yagami Raito Fanclub encabeçados por Misa, e estávamos andando em círculos. Takada jurava de pé de junto que alguém tinha invadido a sala da redação e adulterado o jornal daquela segunda-feira que só falaria do barraco do fã clube, e botou o nome de Misa e os amigos do fã clube na roda.
Misa que também não era nada besta, sempre negava as acusações alegando falta de provas, e esse era o ponto, não tínhamos provas contra qualquer uma das desgraçadas. Mesmo assim, Misa marcou uma conversa em particular conosco e ela viria ao bar do Aiber nos encontrar ainda meio ao nosso expediente daquela sexta, que louco uma menina daquelas toda patricinha naquele lugar tão grotesco. Se bem que ela arrumou um galpão tão barra pesada pro fã clube dela que devia estar acostumada com baixeza.
Era exatamente cinco da tarde quando ela chegou ao lado de Matsuda, ele visivelmente mais assustado que ela, o movimento nem estava tão grande, no bar havia apenas os funcionários, BB comendo geleia ao lado de Near no balcão fazendo o dever de casa e dois idosos bebendo paralelamente em mesas distantes. O bar só começaria a lotar em uma hora, não tínhamos pressa, nosso interrogatório poderia render à vontade.
— Não sabia da existência desse beco tão perto da escola. — Matsuda disse ao nos encarar, finalmente.
— Todo bairro rico tem seu beco obscuro. — Dei de ombros.
— Beyond?! — O acompanhante da Misa finalmente reconheceu o psicótico das geleias ali no balcão. — O que faz aqui?
— Não é da sua conta. — Olhou intimidador e Matsuda tremeu.
— Querem ser servidos de alguma coisa? — Matt tentou ser cortês para aliviar a tensão gritante.
— Eu agradeço, mas quero ir direto ao ponto. — Misa nos disse e virou para Matsuda. — Se importa de nos deixar a sós por um momento?
— Claro. — Ele sorriu depois nos encarou com um certo receio. — Lá fora é muito perigoso?
— O perigo maior está aqui dentro. — Matt respondeu e Beyond soltou um risinho sinistro. — Lá fora só tome cuidado com o hidrante.
— Obrigado, eu acho. — Ele disse suando frio e depois saiu.
— Então essa é a famosa Amane Misa. — Wedy veio lá de dentro com sua muleta e seu cigarro, encarou a jovem loira com desprezo. — Bom trabalho roubando o trono de rainha do caos de Londres quando tinha sua idade, mesmo eu que era uma adolescente rebelde nunca cheguei a ponto de tamanha maldade.
— Vou adiantar as coisas pra vocês e poupar nosso tempo: a matéria não foi obra minha e não fiz maldade nenhuma. — Misa cruzou os braços, e bufou. — Garanto isso, até porque, eu não desmenti a farsa de Beyond para proteger o irmão e eu bem poderia ter feito.
— Do que está falando? — Me fiz de doido.
— Se você olhar bem na foto do exposed, dá pra ver que as olheiras da pessoa beijando Raito são maiores e o maxilar mais marcado, além do cabelo mais comportado. — Ela falou como se fosse óbvio. — Tanto que quando recebi aquela imagem por e-mail do detetive Ling, sequer cogitei a possibilidade de ser o irmão caçula, que inclusive tem zero química com o Raito.
— Muito bem observado. — Near quem tomou a frente para nossa sorte, B e Wedy arregalaram os olhos e Matt e eu estávamos ocupados com o queixo caído com a análise de Misa, não é que a bicha era esperta mesmo? — Mas por que a decisão de não desmentir?
— Estou cansada demais. — Ela apenas suspirou e sentou numa banqueta. — Eu só quero ficar fora disso, seja lá quem fez essa exposed me prejudicou também, sou a principal suspeita de algo que nem fiz, antes tivesse feito. Sem falar que sou apenas a ex-namorada amargurada, seria minha palavra contra a do filho do diretor. E sim, sei que o rumor dos irmãos Ryuzaki serem filhos do Mr. Wammy é real.
— Se você está falando a verdade, teria algum nome em mente para o culpado? Alguém do fã clube chateado com sua decisão de fechá-lo? — Beyond finalmente falou.
— Isso eu não posso dizer, mas muita gente virou as costas pra mim por causa dessa decisão de fechar o fã clube, no fim só queriam me fazer de palhaça mesmo. Era ótimo, podiam endeusar o Raito enquanto eu investia em algo que só me fazia parecer ridícula.
— Como o nome Kiyomi Takada soa para você? — Nate olhou com cuidado.
— O que tem essa insuportável? — Misa franziu os lábios.
— Soubemos do desentendimento de vocês e ela é a editora chefe do jornal, seria bem conveniente para ela expor o rapaz que a rejeitou e ainda incriminar a antiga rival, não acha? — O nanico levantou uma sobrancelha com um risinho cínico.
— Por que não perguntam pra aquela chata?
— Já perguntamos. — Beyond falou estreitando os olhos.
— E sabe o que ela disse? — Near olhou nos olhos dela com toda doçura do mundo. — Que o Teru Mikami, que faz parte tanto do jornal como fazia do fã clube, pode muito bem ter facilitado sua entrada lá para adulterar o precioso jornal dela.
— Teru jamais faria isso até porque ele sempre foi contra qualquer coisa que prejudicasse o Raito, ele já ameaçou se voltar contra mim se assim o fizesse, dá pra ver como Kiyomi não conhece a própria redação. — Ela disse, chateada. — Como esperado daquela imunda.
— Ele que a induziu a não expor Raito e o professor? — Near a encarou com falsa doçura mais uma vez.
— Tomei essa decisão por mim mesma. — Ela empinou o nariz, orgulhosa. — Não quero meu nome relacionado a nada envolvendo Yagami Raito, ele está morto pra mim.
— O fã clube era para reconquistá-lo? — B soltou a bomba.
— De certa forma. — Ela colocou uma mecha de cabelo atrás da orelha, constrangida. — No fim foi uma tentativa de me engajar em algo que me motivava, mais uma prova de amor dentre várias que tentei, achei que ele tinha me deixado porque eu não tinha provado o suficiente.
— No fim ele só é um babaca mesmo. — B deu de ombros. — Veja isso como um livramento, Amane Misa, um carma que caiu sobre meu irmão, coitado. Existem pessoas lá fora enfrentando seus medos e acompanhando você não importa o quê, são essas pessoas que você tem que valorizar e cuidar.
Matsuda então apareceu correndo todo destrambelhado, faltava ar nos pulmões, os olhos estavam muito arregalados, era a personificação do susto. Ele pediu desculpas pra Misa por voltar assim e tirar a privacidade pedida, mas ficou medo de umas pessoas que perambulavam por ali e teve que entrar de novo, se viu obrigado. Tive que rir pelo timing perfeito, tava na cara que aquela alma queria reza, Matsuda era um dos vários idiotas que gostava da Misa, mas teria ela algum respeito por ele? Eu ia testar.
— Por que trouxe esse paspalho? — Perguntei, sem nenhum pudor.
— Não fale assim do pobrezinho, ele se ofereceu para me acompanhar, Matsuda é muito prestativo, tem me ajudado muito nesse momento difícil. — Misa pegou a mão dele em gratidão e então e corou absurdamente.
— Isso não é nada. — Ele coçou a nuca, envergonhado. — Vou fazer o que for preciso para vê-la bem.
— Que gentil da sua parte, Matsuda. — Near percebeu também. — Deve estar sendo difícil lidar com todas essas acusações falsas pra cima da Misa, seja lá quem fez a exposed prejudicou mais a ela do que qualquer outra pessoa, afinal, Raito e B estão lindíssimos sendo amados pela escola como um casal. — Aquela última frase saiu entre-dentes, a ovelha tava puta.
— Eu… — Parecia que ele tinha levado um soco no estômago. — Estou muito chateado com toda essa injustiça.
— Quando o verdadeiro culpado pela exposed aparecer, esse inferno vai acabar para a pobre Misa. — Near olhou com carinha de anjo.
— Então você acredita em mim? — A loira encarou Near cheia de esperança.
— Acredito sim. — Ele garantiu, a moça pareceu muito emocionada com aquelas palavras. — Só mais uma coisa… Teru seria um suspeito?
— Para o Teru, é Deus no céu e Yagami Raito na terra, como eu disse, ele jamais faria nada que poderia agredir o Raito. — Pareceu sincera. — Mas se quiserem falar com ele, está sempre na sala do grêmio estudantil. Acho que ele vai cooperar com a investigação de vocês, sei que estão fazendo isso pelo seu amigo. — Apontou para B. — Mas ele faria pelo Raito, faria tudo por ele, inclusive já está fazendo.
— O Teru vai mesmo continuar o fã clube pro cretino mesmo depois de tudo o que ele fez? — Matsuda fitou Misa, parecia indignado.
— Vai. — Ela acenou positivamente com a cabeça. — Mas pelo menos essa vergonha eu não levo mais nas minhas costas.
— É verdade que estão querendo agregar o B no meio da loucura? Um BxRaito Fanblub nascendo das cinzas do Yagami Raito fanclub? — Tive que perguntar, Near não conseguiu esconder o desconforto na forma como o maxilar apertou.
— Não o do Teru. — Misa cruzou os braços. — Estou me sentindo o próprio Martin Lutero vendo tanta vertente maluca se ramificando da própria corrente de fé, só do meu conhecimento existem três projetos de fã clube, um só do Raito para meninas, um só do Raito para meninos, e outro pro casal — que embora seja uma opinião impopular, tem alguns haters.
— Sério? Haters? Quem poderia imaginar? — A falsa doçura de Nate River foi pro raio que o parta com um olhar azedo ao proferir aquelas palavras cheias de sarcasmo. Quem era aquela cobrinha? Só sei que eu a amava e iria criá-la.
— Pois é. — Misa soltou uma risadinha irritante.
— Bom, muito obrigado pelo seu tempo, Misa, foi muito corajosa em vir aqui conversar conosco, ainda mais com o atual do seu ex presente, sabemos como pode ser constrangedor. — Near sorriu pra ela como o falso que era, aquela informação mentirosa do ex era mais pela presença de Matsuda. — Você foi de grande ajuda, vamos pegar o agente do caos, isso se ele mesmo não se entregar antes.
— Obrigada. — Ela levantou com um semblante de alívio. — Mas eu duvido muito que essa pessoa se entregue, não tem nada a ganhar com isso.
— Tem razão. — Foi Beyond que disse.
— De qualquer forma, boa sorte na investigação de vocês. — Ela foi embora ao lado de um Matsuda muito calado pro meu gosto.
— Estão pensando o mesmo que eu? — Encarei os demais depois da saída da chata.
— Teremos um encontrinho com Teru e Matsuda? — Nate sorriu como se lesse minha mente. — Separadamente, óbvio.
— Como assim? — Meu pobre ruivo não perdia a chance de ser lesado.
— Tá na cara do mesmo jeito que a Misa tem informações que o Matsuda não tem, ele também esconde algo dela. — Beyond explicou. — E se Teru é tão fissurado pelo Yagami, melhor eu preparar meu traseiro, mas com o resto de vocês, com certeza ele vai cooperar e pegar o safado que tentou prejudicar o ídolo dele.
— Acho que ele deve estar fazendo a própria investigação por fora, não tem as informações premiadas que nós temos, mas talvez uma parceria possa surgir daí, qualquer ajuda é bem vinda. — Tive que dizer.
— Então temos um plano. — Near sorriu.
Nós iríamos amanhã mesmo procurar Teru falsamente interessados em entrar no Yagami Raito fã clube para meninos, aquele safado devia ter informações interessantes tanto da Misa como da Takada, embora Near tenha deixado claro que sentia verdade em Misa e infelizmente, eu tinha que concordar com ele. Depois poderíamos contatar Matsuda usando a intenção de ajudar a inocentar sua amada Misa para fisgá-lo.
Apenas a partir deles poderiam surgir novos suspeitos, já que Misa não quis dar nomes aos bois que a coiçaram na história de abandonar o barco do fã clube. Conversei com Near em particular um momento que B foi ao banheiro e Matt foi atender umas mesas com o movimento no bar aumentando, para saber como ele estava, sem julgamentos.
— Honestamente? — Me olhou inexpressivo quando perguntei. — Queria entrar na autoescola mais cedo só atropelar o safado do Yagami com uma Mobilete.
— Que vontade de te ensinar a andar de moto pra fazer essa cena real. — Gargalhei limpando o balcão. — Você sabe andar de bicicleta? Uma dia desses um ciclista ia me pegando e eu só consegui pensar em como seria humilhante morrer pra uma bicicleta.
— Eu não sei andar sem rodinhas. — Disse guardando o livro.
— Mais humilhante ainda, você usaria sua fofura a seu favor e diria que foi um acidente, enquanto ele seria o retardado que foi atropelado por um garotinho com bicicleta de rodinhas. — Só faltei morrer de rir ao imaginar a cena.
— Seria meu sonho? — Sorriu de canto e depois suspirou. — Obrigado por me animar. Tem sido uma semana e tanto, tenho me sentido meio desamparado.
— Como assim?
— As coisas na casa do B estão sinistras embora ele esteja evitando falar sobre isso com vocês, Matt não está acolhendo meus sentimentos como costumava fazer, e Wedy, embora acolha, parece uma esponja absorvendo a negatividade, você viu pela forma como tratou a Misa. — Riu com miséria.
— Eu entendo seus sentimentos negativos, você nunca expressou eles antes porque nunca precisou sentir, mas não dá pra passar por esse planeta sem passar raiva, aqui é a terceira dimensão, não a quinta. — Disse, simplesmente. — Quem não gostou, morra.
— Obrigado, de verdade. — As palavras saíram contidas, mas transparecendo alguma emoção.
— Hey. — Era B que voltava. — Desculpem a demora, L ligou, parece que achou o anúncio de um lugar interessante e conseguiu marcar com a corretora uma visita para hoje ainda. Vai ser às 19h e quero ir junto.
— Você realmente vai se mudar com ele? — Tive que perguntar.
— Embora seja empolgante a ideia de morar sozinho em uma mansão, eu… — Hesitou um pouco. — Não quero ficar longe do meu irmão, pelo menos não agora.
Near tocou a mão dele para dar um conforto e eu acenei positivamente com a cabeça, compreensivo. Até o maior dos diabos tinha fraquezas e a de Beyond Birthday era Lawliet Ryuuzaki, ele era muito trouxa pelo irmão como já deu pra perceber. Foi tempo que Matt voltou para o balcão e os outros dois se despediram para irem embora, N ia aproveitar a carona, Wedy saiu da toca só para se despedir do Near e nos mandar voltar ao trabalho. A loira mandou eu ficar no balcão enquanto Matt se juntaria a ela nas mesas, um monte de cliente começou a chegar, afinal era uma sexta à noite, o que teria de trabalhador querendo afogar as mágoas não era brincadeira.
Não aconteceu nada de bizarro além do habitual mas o tempo passou em câmera lenta, já estava ficando impaciente e dei graças a Deus quando Wedy nos dispensou mais cedo nos dando a colher de chá do nosso encontro. Aproveitamos o quartinho dos fundos para nos arrumar, mandei Matt ir primeiro e só entrei quando ele e suas listras saíram de lá com um óculos redondo de lente amarela. Por pouco não ri, ele parecia uma versão hipster de um integrante dos Beatles, era divertido vê-lo com algo diferente dos famosos goggles.
Eu fui de preto, como sempre, mas tinha ganhado uma bota de salto alto da minha avó e queria muito usar para dar um diferencial, aquela era a ocasião perfeita. Fiz uma trança embutida lateral pegando mechas da minha franja, acho que estava bem, quando saí me tranquilizei pensando que na verdade eu estava ótimo, a cara de idiota que Matt fez ao me ver foi impagável. Ele parecia impressionado, sorri comigo mesmo e fingi indiferença, apenas pegando a mão do idiota para partirmos.
— Bom encontro, crianças! — Wedy acenou para nós do balcão na hora de sairmos. — Juízo!
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