Wammy's High
29 Mail Jeevas
Notas iniciais
Se eu soubesse que o Mello ia sair tão arrumado tinha me preparado mais, eu estava com um simples jeans com blusa de manga longa listrada, vestia uma jaqueta mais pelo frio, afinal, era só um passeio no parque de diversões. A criatura mais parecia que ia posar para a capa da Vogue, mas o que esperar da Lady Gaga, né? Fomos de mãos dadas caminho a fora, ele estava com um sorrisinho cínico, devia saber como estava bonito e me deixando bobo.
Tirou uma barra de chocolate e comeu devagar, com certeza só pra seduzir e estava funcionando, não conseguia tirar meus olhos dele, por pouco não me taquei por cima do hidrante como no meu primeiro dia de trabalho no bar do Aiber. Por sorte Mello me puxou e me salvou da enorme vergonha multiplicada por mil, diferente daquele dia, a rua estava bem movimentada.
Pareciam ir na mesma direção que a gente, talvez mais interessados no parque de diversões. Eu estava um pouco nervoso, era meu primeiro encontro e Mello estava ali parecendo uma top model só pra intimidar, mas eu não hesitaria: pediria ele em namoro no topo da roda gigante. Seria a última parada do itinerário da noite que fiz na minha cabeça e eu estava animado por isso, a verdade é que eu não tinha feito um pedido formal e precisava consertar isso.
Foi divertido andar lado a lado com ele, as pessoas olhavam mas não era em tom de julgamento homofóbico, com certeza estavam se perguntando como um esquisito que nem eu tinha conseguido uma moça tão alta e bonita, o desgraçado estava quase me levando debaixo do braço. Sim, Mello estava passando por menina despeitada tranquilamente, estávamos vivendo o privilégio hétero ali até ele brir a boca e uma voz masculina falar, se bem que poderia ser uma menina despeitada fumante.
— Tá rindo do que? Tá doido? — Ele me encarou, eu devo ter deixado transparecer no meu rosto os devaneios hilários que estava tendo.
— Nah, só pensando aqui em como tô baixinho perto de você de salto. — Sorri. — Você está muito bonito essa noite. Digo, claro que está bonito sempre, mas é especial quando trança o cabelo e você nunca tinha usado uma bota tão alta como essa.
— Ah sim. — Ele coçou a nuca, corado. — A bota foi presente da minha avó, ela disse que viu na vitrine e lembrou de mim.
— É bem a sua cara mesmo. — Abracei Mello pela cintura. — Como está sendo essa primeira semana com ela?
— Está sendo ótima. — Sorriu de forma até doce. — Tinha até esquecido como era ser recebido em casa por alguém que dá a mínima, ela nunca se manifestou antes porque enfim estava sem saber das coisas.
— Que bom que pode contar com ela agora. — Fiz carinho no ombro dele, que sorriu.
— Sim. — Ele suspirou.
Não demorou muito para chegarmos ao parque e como esperar de uma sexta à noite, estava lotado. A fila da montanha russa estava virando a esquina, que bom que não tinha planos pra esse brinquedo, Deus me livre de vomitar no meu primeiro encontro. Decidimos então ir logo comprar uns cachorros quentes, eu estava com fome mesmo, diferente do Mello e seu melhor amigo Beyond, eu não andava com comida nos bolsos.
— B mandou uma mensagem. — Mello disse ao olhar o telefone. — Gostaram da casa mas vão olhar algumas outras pra ter certeza e pediu pra eu ganhar um coelhinho pro Near no tiro ao alvo.
— E você vai? — Levantei uma sobrancelha.
— Claro e vou ganhar algo pra você também, seu bobo. — Ele riu.
— Não falo disso. — Encarei Mello, que desviou o olhar.
— É o mínimo que posso fazer por eles. — Encarou o cachorro quente dele por tempo demais. — Sei que o B gostaria de de vir ganhar pessoalmente uma pelúcia pro garoto que ele gosta, se duvidar até várias pelúcias... Compraria algodão doce pro Near, maçã do amor e várias outras coisas gostosas de parque, N poderia ir na cama elástica ou piscina de bolinhas sem ser estranho. — Ele riu mas depois deixou transparecer tristeza. — Poderíamos estar num encontro duplo, mas sabe como é a vida… Imagina os Raitetes sonhando com o Beyond colocando um chapéu de touro no ídolo deles.
— Ia ser uma confusão só. — Não queria nem pensar.
— Principalmente pra esse fandom de merda! Se tentarem alguma coisa contra meus amigos, eu vou dar tanto na cara desse povo, arriscado até baixar polícia. — Ele bufou. — Yagami cagando pra eles e dando pro professor, enquanto os idiotas fazem fã clube… Piada pronta.
— Seus amigos… — Não pude evitar notar e menos ainda sorrir. — Incluindo Near.
— Sim. — Ele sorriu um pouco. — O Near é bem diferente do que eu pensava, é forte e decidido à maneira dele.
— Eu… — Hesitei um pouco. — Estou com um pouco de medo e estranhando o Nate tão venoso ultimamente.
— Ele só está frustrado e chateado, se coloca no lugar dele, Matt… A primeira vez que gosta de alguém, por sorte é retribuído mas por azar se metem em confusão. — Suspirou. — Ele não pode dar um tabefe na cara do Yagami, vai pelo menos se expressar com a língua de chicote, é tudo o que ele tem. Deixe o garoto botar pra fora, melhor que engolir o sapo e virar uma amargura pelo próprio co-cunhado.
— Eu nunca tinha visto por esse lado. — Admiti.
— Depois que tudo acabar vamos rir muito disso. — Deu uma batidinha nas minhas costas. — Onde quer ir primeiro?
— Onde você quiser. — Dei de ombros.
— Carrinho de bate-bate? — Levantou uma sobrancelha.
— Perfeito.
Terminamos o cachorro quente na fila pro brinquedo, na nossa frente tinha um casal de meninas loiras, uma bem alta e calada, outra baixinha que não calava a boca um segundo com seu sotaque francês. Mello sussurrou pra mim como aquela menina era irritante sem nem conhecer a pessoa, típico Mello, quando a outra moça falou levei um mega susto… Era um garoto! E com uma voz de galã, ainda por cima, era uma baita voz de homem, não dava nem pra confundir com menina fumante como meu Mello.
O que era aquilo? A noite dos loiros femininos? Agora que eu tinha me tocado que na verdade era um headbanger eu não conseguia mais desassociar, mas a pose e os gestos eram tão femininos, podia ser uma moça grandona, elas existem, a pessoa estava até de salto. Aquele casal entrou na mesma remessa de pessoas que eu e o Mello, e eu sabia de uma coisa, meu namorado marcava as pessoas sem motivo porque era doido e competitivo.
Quando a francesa miudinha tacou o carro o qual estava com a Barbie roqueira dela, a minha Barbie roqueira ficou louca. Eu e o pobre do moço loiro sofremos nas mãos dos dois doidos, comprovando que todo casal era formado por um desmiolado e uma pessoa sem juízo o suficiente para dar uma chance pra um desmiolado.
— Vai devagar, Maria! — O pobre rapaz brigou com a doida dele.
— Ele que começou! — Ela brigou de volta e a minha doida quem riu descaradamente só pra provocar.
Aquela provocação pegou o vocalista do Europe de jeito, que trocou de lugar com a namorada e o pau torou, foi uma competição de loiros femininos atrevidos, cada batida era uma cara de desespero diferente vinda de mim, dei graças a Deus quando nosso tempo acabou. Embora a tal Maria tenha ficado com cara de poucos amigos na saída, o namorado dela sorriu com respeito, como quem diz “finalmente um competidor à minha altura” e senti a mesma energia em Mello.
— Que bicha caruda. — Ele comentou quando sentamos para comer algodão doce. — Gostei dele apesar da namorada dele ser chata, aquilo ali não vai durar.
— Você fala como se conhecesse as pessoas. — Gargalhei. — Como sabe que não vai durar? Se bem que… Aquela pessoa tão feminina com uma menina, seria um escudo hétero?
— Aquela bicha é bi. — Disse, convicto. — Gay nenhum abraça uma mulher pela cintura daquele jeito. Escudo hétero trata a pessoa com um descaso tremendo, é tipo beijando e abraçando a pessoa e pensando “será que eu mato essa desgraça?”. Digo isso daquele cara mais porque ninguém merece uma pessoa chata como namorada ou namorado.
— Você implicou mesmo com a pobre da menina. — Olhei incrédulo.
— Impliquei mesmo, sou preconceituoso e julgo as pessoas pela voz, sim. — Empinou o nariz, todo teimoso.
— Mas enfim, como se percebe essas coisas sobre sexualidade? — Perguntei realmente confuso.
— É bem fácil de perceber, na verdade, basta prestar atenção. Ser feminino ou masculino faz parte da identidade das pessoas, o que gosta ou deixa de gostar são outros 500. Por exemplo, pode ser caminhoneiro ou bonequinha, um homem bi vai olhar pros peitos de uma mulher ou pra bunda de um homem, mesmo que por um deslize, simplesmente acontece.
— Será que meu gaydar vai melhorar e ficar com o seu com o passar do tempo?
— Acho que não, você é lerdo demais pra isso. — Zombou de mim e não pude nem rebater, por ser verdade. — Alguma ideia de onde devemos ir agora?
— Eu não sou muito fã de trem fantasma, mas algo me diz que é a sua praia. — Insinuei.
— Pois eu acho que é a mais a sua praia, não esqueci do seu grito no dia do roubo do carro da Wedy, as scream queens choram humilhadas por Mail Jeevas. — Gargalhou.
— Se está mesmo disposto a aguentar meus gritos de mocinha, acho que devemos ir no trem fantasma então.
E fomos, que decisão infeliz, por pouco não tive um derrame e morri várias vezes, pelo menos Mello se divertiu com os sustos, o que era mais importante. Compramos maçã do amor quando minha alma voltou pro corpo e ele foi nas barracas de tiro conseguir as pelúcias prometidas, conseguiu o tal coelhinho pro Near, ainda conseguiu uma ovelha pra dar por conta dele mesmo. A pontaria do Mello era muito boa e ele ficava estranhamente atraente com aquela arma nas mãos, foi algo divertido de se ver.
— Vai que anima o coitado, o urso velho dele pode estar se sentindo sozinho, quanto mais pelucia melhor. — Brincou quando carregava os animaizinhos de brinquedo que daria para o Near.
Não parecia, por ser magrelo, mas ele era muito forte também, conseguiu uma grande pontuação no martelo de força, deixando os marmanjos na fila chocados, ganhou uma daquelas lulas de mudam de humor, escolheu a vermelha e me deu, aquilo aqueceu meu coração de uma forma que eu não sabia nem explicar, acabei beijando ele ali mesmo na frente das pessoas. Medo de morrer? Nah, eu já tinha morrido naquele trem fantasma mesmo. Comprei uma maçã do amor para ele como forma de gratidão, ele ficou muito vermelho após ser beijado e paparicado.
— Eu sou minha velha coroca pra ir no carrossel? — Mello pareceu perguntar aquilo mais para si mesmo que a qualquer outra pessoa.
— Claro que não, poderíamos ir até na piscina de bolinhas e pula-pula se você quisesse. — Eu ri.
— Eu com esse salto de diva? Não, obrigado. Mas… Quem sabe um dia que eu esteja mais porra louca. — Deu de ombros. — Mas enfim... O carrossel seria uma boa.
— Depois a roda gigante? — Sorri, já sentindo o coração acelerar.
— Sim. — Ele sorriu de volta.
Nos infiltramos no meio da criançada no carrossel, aquela musiquinha irritante feita em órgão era bem assustadora parando pra pensar, mas Mello estava se divertindo tanto que simplesmente ignorei. No fim, claro que um indivíduo que tem como melhor amigo Beyond Birthday e como namorado a minha pessoa tem claramente uma conexão com bizarrices. Quando ninguém estava olhando acabei puxando ele pra outro beijo, foi rápido mas foi bom o suficiente para me deixar com as bochechas ardendo, aquilo antecipou um pouco minha tensão pela roda gigante, eu ia pedir ele em namoro… Meu Deus, eu ia pedir ele em namoro!
Como eu estava nervoso, saí daqueles cavalos coloridos com as pernas bambas, minhas mãos estavam suando, chegando na fila do último brinquedo, eu já estava prestes a cair duro ali mesmo. Tentei apenas focar no agora, estávamos numa fila com Mello reclamando da demora, resmungando e ameaçando cuspir na cabeça das pessoas quando estivesse lá em cima, típico Mello. Quando chegou nossa vez, ele foi entrando todo animado e eu ainda tentando não trocar as pernas.
— A noite está sendo ótima. — Ele sorriu. — Acho que estava precisando mesmo de algo assim.
— É… — Eu sorri também. — Vamos sair mais vezes.
— Vamos. — Garantiu e depois soltou um suspiro e se aconchegou no meu ombro. — É bom sair com você.
— Sim… — Tremi um pouco. — Digo, sair com você.
— Eu sei, seu idiota. — Ele e e me abraçou pela cintura.
A roda gigante deu sua primeira parada, e foi logo com a gente bem no topo, eu jamais poderia imaginar que seria logo de cara, gelei completamente, eu sabia o que dizer, como dizer mas meus lábios não se moviam. Seria o timing perfeito, uma Londres noturna tomada pelas luzes, Mello se aconchegando em meus braços, e eu só conseguia sentir meu coração batendo na garganta. Foi quando ele segurou uma das minhas mãos e olhou nos meus olhos, a cabeça apoiada em meu ombro.
— Você aceita ser oficialmente meu namorado? — Mello quem perguntou com a voz suave, atípico dele.
Não consegui falar nada, continuava mudo pelo nervosismo, arrumei forças Deus sabe de onde para conseguir responder a pergunta dele com um aceno de cabeça e por fim beijá-lo com todo o meu ser. Quando se desvinculou de mim, os lábios dele estavam vermelhos e num arco de sorriso divertido, os olhos brilhando, ele me abraçou e o brinquedo voltou a funcionar. Mello nada disse, apenas brincava com meus dedos enquanto continuava segurando minha mão, parecia satisfeito com minha reação paspalhona, talvez tudo aquilo tenha sido para me fazer de bobo, mas depois de tudo o que passamos, eu estava satisfeito em ser feito de bobo por Mihael Keehl.
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