Wammy's High
21 Nate River
Notas iniciais
Depois de ditas as palavras cheias de amargura e veneno, Misa saiu pisando duro, bufando enfurecida. Matsuda, Teru e mais algumas meninas integrantes chefes do Yagami Raito Fanclub fizeram questão de segui-la. Mesmo diante da sinistra ameaça, Yagami manteve-se calmo – ou fingiu tal calma muito bem. Algumas pessoas filmaram e fotografaram a confusão em seus celulares, outras ficaram apenas olhando curiosas, sendo eu e meus amigos incluídos nesse último grupo. Mello estava visivelmente divertido, visto que seu desapreço por Misa e apatia por Raito nunca foram nenhum segredo.
Com toda a cena criada pelo ex-casal tomando desfecho, as pessoas voltaram a circular pelo espaço e curtir a confraternização, apesar dos burburinhos e cochichos. Algo me dizia que aquilo seria o assunto da escola por muito tempo. Gritinhos de uma integrante ou outra do fanclube ainda tomavam conta dos arredores de Raito, era incrível como alguém ainda poderia manter o encanto com a presença do seu ídolo, mesmo depois dele ter se mostrado em uma face tão rude e seca.
— Que situação, hem? — Beyond aproximou-se de Yagami com um sorriso sarcástico no rosto.
— Sem comentários. — O infeliz homenageado suspirou. — Quando soube desse fanclube imaginei que seria uma loucura, mas nada nesse patamar.
— Vindo de Misa Amane tudo é possível, não acha?
— Pior que sim.
— Quer uma carona? — B perguntou ao colega de classe, simplesmente.
— Agradeço pelo convite, Beyond. — Raito sorriu. — Mas ainda preciso resolver umas coisas hoje, então vou chamar um carro mesmo.
— Você quem sabe. — B riu colocando as mãos para cima, rendido.
Depois de sair se despedindo de nós com um leve acenar de cabeça, Raito tomou seu rumo, ainda sendo importunado por algumas pessoas enquanto lutava para finalmente sair daquele lugar, que para ele, deveria ser algo parecido com um filme de terror. Consegui ter uma imensa empatia por ele naquele momento, principalmente depois de ter sentido na pele o fruto dos atos de meninas psicóticas como no dia fui levemente sequestrado.
— Você perdeu a cabeça? — Mello falou olhando incrédulo para Beyond enquanto íamos em direção ao estacionamento. – É um carro, não uma van, como pretendia fazer seis pessoas caberem, seu maluco?
— Ah, agora pronto! — Um Matt muito irritado interveio enquanto segurava nos braços uma Wedy desmaiada que mais parecida uma boneca de pano. — Andar em alta velocidade, atravessar sinal vermelho, bater em latas de lixo e quase atropelar velhinhas tudo bem! Mas ir seis pessoas no carro? Aí já é demais!
Mello fuzilou meu amigo de infância com o olhar.
— Só estou dizendo que eu não vejo problema nenhum, o que seria um peido pra quem já tá cagado? — O ruivo deu de ombros.
— Near poderia ir no meu colo. — B falou como se fosse a coisa mais normal do mundo. Naquele instante senti um arrepio na espinha e minhas bochechas ficarem em chamas, com certeza eu estava corado. Não entendi por que um comentário como aquele poderia trazer tal reação em mim, minha mente sabia que era só uma brincadeira, por que tamanho constrangimento?
— Ou melhor ainda: poderíamos deixar Wedy pra trás e na testa dela escrito com caneta permanente “por gentileza jogar na caçamba de lixo mais próxima”, não seria fantástico? — Mello riu alto. — Louca como ela tá não ia se importar.
— Ela está dormindo mesmo? — Beyond perguntou destravando o carro.
— Eu acho que ela morreu. — Disse Matt cutucando a bochecha da moça, que acabou reagindo com um grande espasmo. — Jesus misericordioso, isso aqui é caso de exorcista.
Beyond foi o motorista novamente e seguimos a viagem silenciosos, Wedy era uma exceção, é claro, ela continuava dando espasmos e murmurando coisas indecifráveis durante todo o trajeto. Depois eu iria perguntar que remédio era aquele que ela usava para nunca jamais em minha vida chegar nem mesmo perto.
Já tinha passado da minha usual hora de dormir, teria que subir pela janela de novo, sorte eu ter deixado o velho truque do cobertor e travesseiros antecipadamente para quando meus pais chegassem do trabalho. Eu não teria problemas para acordar no sábado, afinal, eu estava animado com nosso passeio. Em toda a minha vida, meu círculo social foi resumido em minha família e Mail Jeevas, meu pai me alertou que o ensino médio seria uma loucura, eu duvidei, mas estava muito enganado, estava sendo uma loucura. Quando chegamos no bairro, nossa primeira parada foi na casa do Matt, onde Beyond parou bem em frente e Matt e Mello desceram.
— Vou pegar minhas coisas pra levar pra casa da minha avó. Você me espera ou vai logo deixar o Near? – Mello perguntou a Beyond, enquanto batia a porta do carro.
— Vou deixa-lo logo, é o tempo de você se organizar. — Ele respondeu logo em seguida.
— Posso ir sozinho, não precisa se incomodar, eu moro tão perto. — Intervim. Era verdade, era perda de tempo desviar o caminho só para andar mais alguns quarteirões até minha casa.
— De jeito nenhum! — Foi a vez do Matt de falar, gesticulando ao lado de um Mello com os braços cruzados chutando uma erva daninha do acostamento. — Está muito tarde e você lembra o que aconteceu na última vez que saiu sozinho tarde da noite? Isso mesmo! Foi levado por bando de maníacas.
— Então estamos conversados. — Beyond deu um tchauzinho aos rapazes e deu partida do carro. Consegui ver os dois correrem até janela do quarto de Matt pelo retrovisor. — Desculpe desconsiderar sua vontade, Nate. — Dessa vez B direcionou-se diretamente a mim. — Só não posso deixar que nada te aconteça.
Por algum motivo aquelas palavras pesaram muito em minha cabeça, e quando dei por mim, minhas malditas bochechas estavam ardendo novamente. Que embaraçoso. Não demorou nem três minutos, lá estávamos nós chegando em minha casa. Fui tirando o cinto e saindo do carro já me preparando mentalmente para uma despedida verbal, quando vi que Beyond Birthday saía também.
— Vou te acompanhar até a porta. – Ele me olhou de uma maneira que me pareceu dizer que não aceitaria um não como resposta.
— Não posso aparecer na porta assim. — Tive que dizer.
— Vou ajudá-lo a escalar pela janela então.
— Tudo bem. — Dei de ombros.
Quando ele disse que ele me ajudaria, pensei que iria fazer algo simples como segurar a escada para me dar mais equilíbrio como Matt geralmente fazia, jamais eu ia imaginar simplesmente ser pego no colo e carregado enquanto Beyond escalava como um ninja. Graças a Deus ninguém da vizinhança viu, ele todo de preto daquele jeito poderia ser confundido com um ladrão. Fiquei muito surpreso, mas quase como um instinto me segurei nele e me senti bem, era diferente, a aproximação fez meu coração quase sair pela boca. Ao me colocar no chão do quarto, pediu desculpas, coçando a nuca.
— Só pensei que seria mais rápido. — Se justificou.
— E foi. — Admiti, corado. — Obrigado.
— Bom, até amanhã. — Ele sorriu e senti borboletas no meu estômago. — Antes de ir, eu tenho uma confissão, Nate.
— Confissão? — Paralisei um pouco na expectativa.
— Fico animado por Mello e Matt estarem indo também, mas você é a pessoa que mais me alegro em poder levar comigo. — Havia muita sinceridade na voz rouca.
— Obrigado. — Meus olhos até devem ter brilhado. — Estou muito feliz em ir, também, só tenho a agradecer pelo convite.
— Imagina… Boa noite. — Foi o que ele disse antes de subir na janela para ir embora.
— Boa noite. — Sorri sem perceber ao vê-lo partir.
Fiquei muito reflexivo, porque fiquei tão constrangido com a brincadeira do carro? E por que Beyond estava sendo tão gentil e legal comigo? Ele sempre foi muito amigável comigo, nunca restou dúvidas, isso tudo apesar dele ser distante ou mesmo rude com outras pessoas... Mas estaria ele sendo mais amigável que o normal ou era impressão minha? Ficarei atento, de qualquer forma, posso estar me enganando.
O ponto é que eu estava finalmente em casa e precisava, definitivamente, de um banho relaxante e leite quente com biscoitos para acalmar o estômago para dormir melhor. No hora de voltar para meu quarto, encontrei com meu pai descendo as escadas com uma lanterna em mãos, ele levou um susto enorme e descabido ao notar minha presença. Com a mão no peito, perguntou onde eu estava aprendendo a ficar tão furtivo e o que eu estava fazendo de pé tão tarde da noite perambulando na escuridão.
— Senti um pouco de fome e fui tomar leite com biscoitos. — Me justifiquei.
— Não é pra menos, dormiu tão cedo, chegamos e você estava todo enrolado.
— Só não queria ficar cansado no passeio de amanhã. — Dei uma desculpa. — Quero aproveitar ao máximo.
— Está mesmo empolgado, não é? — Ele abriu um sorriso largo e bagunçou meu cabelo.
— Sim. — Confessei sorrindo. — Preciso dormir, boa noite, pai.
— Boa noite, filho. — Foi o que disse terminando de descer as escadas.
Com a tranquilidade de ter deixado minhas malas já prontas desde mesmo antes de sair pro bar para visitar os meninos, finalmente me enrolei abraçado com meu ursinho e dormi. Acordei com o despertador me tirando do sono pesado sem lembrar se cheguei a sonhar, foi tentador ficar mais um tempo, porém era perigoso, temi dormir demais e atrasar os outros por minha irresponsabilidade. Me arrumei quase me arrastando e quando desci para tomar o café, ouvi meus pais já arrumados para ir pro plantão de sábado conversando.
— Tinha que ter visto a carinha dele dizendo que queria aproveitar ao máximo. — Meu pai falava servindo chocolate quente para minha mãe. — Quem diria? Nosso filho que saía de casa praticamente amarrado, feliz em passear com os amiguinhos, no plural. Eu sei que é só mais um além do Matt, mas é um começo, né?
— Um ótimo começo, diga-se de passagem. — Ela soltou uma risadinha. — Nosso filho, amigo do filho de Watari Wammy… Pode ser muito bom pra ele.
— Sim, no fim você estava certa e o suposto problema de sociabilidade não era culpa dos brinquedos e eu estava sendo ridículo. — Sentou à mesa, culpado. — O garoto só é seletivo, temos que dar graças a Deus por isso, devo um pedido de desculpas por ter tentando me desfazer do ursinho dele.
— Já faz tanto tempo que talvez nem valha a pena tocar no assunto, com certeza ele já te perdoou ou nem se lembra mais, se sua consciência pesa, apenas tenha fé nele. — Minha mãe sorriu. — Nate sempre foi uma criança diferente das outras, por isso nos apaixonamos por ele. É normal temer que ele esteja ficando pra trás, mas não seria o mundo que está acelerado demais?
— Sim. — Ele suspirou. — Me orgulho dele, das notas, do temperamento doce, da bondade no coração... Mas e se nos aproveitamos desse jeitinho dele para deixá-lo protegido demais dos perigos do mundo e pesamos a mão a ponto de privá-lo do leque de possibilidades boas que o mundo pode oferecer também? Só quero que ele seja feliz.
— Nosso filho é inteligente, independente e muito feliz. — Ela garantiu, pegando na mão dele. — Eu sinto nos olhinhos dele.
E ela tinha razão, me considero uma pessoa feliz e sempre fui graças a eles, não fazia ideia dessa preocupação do meu pai, pensava que ele sentia apenas vergonha ou incômodo por eu ser estranho. Não guardei rancor nem nada do tipo com esse pensamento, afinal, eu tinha um espelho bem grande na minha frente, que era as famílias dos meus amigos cobrando coisas muito mais severas deles. Como Wedy me aconselhou uma vez, eu apenas deixei pra lá porque devia ser coisa de momento, lembrei inclusive das palavras que ela usou para justificar: é coisa de pai, quando ele ver que você ficou adulto vai sentir saudade de quando dormia com ursinhos.
— Bom dia. — Me anunciei me fazendo de bobo para não suspeitarem que eu estava ouvindo tudo.
— Bom dia, meu amor, dormiu bem? — Minha mãe levantou e beijou o topo da minha cabeça.
— Dormi sim. — Sorri.
— Chocolate quente? — Meu pai ofereceu.
— Sim, obrigado.
Tomamos café da manhã juntos em um silêncio acolhedor. Depois terminei de me arrumar e eles me ajudaram a descer as malas, minha mãe me deu barras de cereal para eu comer na viagem caso eu sentisse fome e me fez recitar as regras de passeios em lugares com água: não entrar se estiver muito frio, alongar antes de nadar e comer banana para evitar câimbras, sempre ficar perto da margem, nunca ir para a água desacompanhado ou à noite, não esquecer de passar o protetor solar.
— Muito bem, meu docinho. — Disse e depois beijou minha testa.
— Acho que já está tudo certo, então. — Meu pai disse, por fim. — Não esqueça também de nos deixar informados, se cuide e o mais importante: divirta-se.
— Eu prometo.
E assim meus pais me abraçaram, depois saíram de carro pro trabalho. Esperei a chegada de B por pouquíssimo tempo, ele era bem pontual, em quinze minutos ele chegou buzinando em um veículo bem… Incomum. Tratava-se de uma kombi antiga em estado nada conservado com um animatronic de um frango enorme sobre o teto. Eu nada disse sobre aquela ave feiosa me encarando de forma mordaz, principalmente quando Beyond veio todo animado pegar minhas malas desejando bom dia, ele estava animado vestindo uma camiseta branca e jeans, parecia até o professor Ryuzaki.
— Wedy está escondida lá atrás. — Ele me alertou. — Não tive coragem de abandoná-la no fim de semana sem o namorado e sem o melhor amigo para cuidarem dela doente.
— Ela está melhor ?
— Sim, está dormindo tranquila, pelo menos. — Disse dando partida na perua maluca. — Vamos pegar o Matt e de lá o Mello.
— Certo.
A cara de Matt vendo o carro e nossa chegada devia ter sido filmada, a incredulidade dele deixou tudo mais engraçado, só não mais engraçado que os pais dele tratando tudo com a maior naturalidade do mundo quando o acompanharam com as malas.
— Querido, porque tem um frango na sua kombi? É algo de gosto pessoal? Piada interna dos jovens? — Foi tudo que Mrs. Jeevas perguntou.
— Já veio nela quando comprei. — Explicou B. — Está precisando de uma reforma externa completa, pra ser honesto, mas foi o melhor que consegui juntando dinheiro com meu emprego de entregador. Foquei em recolher um bom motor, a estética vou ajeitando aos poucos.
— O primeiro carro comprado com o dinheiro do primeiro emprego. — O pai de Matt disse, orgulhoso. — Viu, Matt? Isso sim é um exemplo.
— Um carro de frango caindo aos pedaços? Sério? — Meu melhor amigo perguntou sarcástico.
— E você? Dependente de carona e transporte público. — Mr. Jeevas rebateu.
— Eu nem tenho idade pra dirigir! — O coitado tentava usar a lógica naquele caos.
— Mas ano que vem vai ter e não vai escapar das aulas de direção, mocinho. — A mãe disse antes de dar um beijo na bochecha dele em despedida. — Se comporte na casa alheia.
— Faça uma trilha, jogue pedrinhas no lago, aproveite o passeio, ai de você se ficar em videogame. — O pai também se despediu ao abraçá-lo. — Juízo.
—Tá bem! — Ele bufou entrando pela portinha do lado e sentando. — Dá pra acreditar nesses dois? — Matt disse apontando para os pais que já acenavam da porta de casa quando saímos.
— Seus pais são umas figuras. — A voz de Wedy se revelou do emaranhado de mantas tomando os bancos da terceira fileira.
— JESUS CRISTO AMADO DO CÉU! — O exagerado do Matt quase morreu. — Não acredito! Estamos levando essa doida?
— Sim. — B riu.
— E por que ainda fico surpreso? Claro que estamos levando ela. — O ruivo revirou os olhos.
— Bom te ver também, seu chato. — Ela disse, rabugenta e depois virou pra mim com um sorriso adorável. — Bom dia, fofinho, nem vi você entrar.
— Tudo bem, você estava dormindo, não quis incomodar. — Consolei.
— Falando nisso, pode voltar a dormir, Wedy, você está no ponto de ser mumificada. — Beyond disse.
— Sério? — Ela olhou o próprio reflexo no espelho do carro, viu olheiras e cabelo bagunçado. — Meu Deus do céu! Estou parecendo a noiva cadáver.
— Só precisa descansar. — Eu disse. — Seu dia ontem foi o mais agitado dentre todos aqui.
— Essa verdade aí ninguém tira de você. — Matt riu e virou para Wedy. — Vai se aquietar, peste!
A loira mostrou a língua em protesto, mas obedeceu e voltou a dormir. Seguimos viagem e B estacionou o carro em frente a uma linda casinha com um jardim super florido na frente e buzinou, notamos a presença de uma doce senhora com vestido em tons pastéis e chapeuzinho de palha tricotando numa cadeirinha de madeira amarela olhando pela janela da sala e ninguém menos que Mello saiu dali completamente fora de contexto: roupas pretas e malas com uma estampa de pele de serpente. Ele deu um beijinho na idosa que o seguiu até a porta, devia ser a dita avó dele, Mello veio até nós tranquilamente, a senhora acenou para a gente, os olhinhos muito azuis e doces nos olharam com afeto apesar de não dizer nada.
— Não acredito que veio mesmo no carro do frango. — Mello riu.
— Sim, nem eu acredito que fiz isso. — Beyond sorriu de lado. — Quando sairmos da área urbana eu entrego em suas mãos, aceita?
— E como aceito. — O loiro riu e abriu a porta que dava acesso a parte de trás da kombi e deu um grito. — PORRA, O QUE ESSA VAGABUNDA TA FAZENDO AQUI?
— Vai ter que aturar a Wedy por enquanto. Fiquei com pena. — B deu de ombros. A responsável por aquele estardalhaço sequer se mexeu, que mulher boa de sono.
— Quem tem pena é a galinha daqui de cima . — Ele apontou pro teto do carro enquanto se ajeitava no banco ao lado de Matt. — A Wedy não vai estragar nosso passeio?
— Apenas relaxe, ela não vai estragar nada. —O motorista garantiu.
—Como foi com sua avó? — Matt perguntou.
—Foi bom. — Mello disse tranquilamente tirando o fone da bagagem de mão. — Quer dividir? — Ele perguntou ao ruivo que acenou afirmando com a cabeça.
Fiquei muito feliz com a trégua deles, mais ainda com a história de finalmente terem se acertado, e pensar que tudo o que tivemos que fazer foi forjar um roubo e deixá-los no meio do nada. A viagem seguiu muito tranquila, Wedy dormindo, os dois ouvindo música e cochichando, Beyond dirigindo com maestria, nem parecia as maluquices do Mello e seus trancos e drifts, cheguei a cochilar até.
A troca de motoristas foi feita apenas quando entramos numa estrada carroçal já bem depois da saída da cidade, aquele carro era no nome dele e Beyond não queria problemas pelas infrações de Mello. O dono e proprietário da kombi me chamou para ir para a cabine de trás junto com ele, alegando que eu estava com sono e precisava dormir propriamente assim como Wedy, ficou com pena deu ter ficado dormindo com a cabeça pendurada.
Basicamente trocamos de lugar com Matt e Mello, o novo motorista colocou música na rádio, o barulho dele matraqueando com Matt tentando chegar no consenso de uma estação podia ser ouvido até em outro país, como Wedy conseguia dormir tanto? Quando finalmente acharam uma estação que tocava rock de garagem que os dois gostavam, pude tentar cochilar também, B silencioso no assento do meu lado olhando pela janela.
— Encoste a cabeça em meu ombro. — Beyond ofereceu, sem me encarar. — Vai ajudá-lo a dormir, suponho. Mas não precisa se não quiser, só..
— Obrigado. — Me aconcheguei, simplesmente.
Foi um impulso, claro, embora eu pudesse usar como desculpa a direção perigosa de Mello e o vai e vem do veículo nos pedregulhos que pedia para que eu me apoiassem em algo ou alguém, a aproximação com Beyond foi extremamente agradável. Ele envolveu o braço sobre meus ombros, parecia bem à vontade, tirou uma geleia Deus sabe de onde, me ofereceu, mas eu acabei não aceitando apesar de agradecer.
— Apenas durma. — A voz rouca saiu com uma suavidade inusual. — Estarei guardando seu sono.
Foi impossível não me deixar levar pelo calor do abraço, a música agradável de fundo com direito aos meninos cantarolando animados, além do doce cheiro de cereja e não dormir. Nem vi quando chegamos, só percebi quando Beyond me acordou suavemente avisando. A propriedade era belíssima, a enorme casa de arquitetura rústica ficava muito perto do grande lago, o ar puro já inundava meus pulmões, fiquei animado.
Quando descarregamos as malas, Wedy e sua muleta incluídas, nas palavras de Mello, fomos recebidos por uma mulher baixinha de meia idade de pele parda, era a caseira, chamada de forma carinhosa de Tia Geraldine. Ela já nos esperava e preparava um saboroso almoço, por algum motivo aquela senhorinha simplesmente me adorou, apertou minhas bochechas e disse que eu podia pedir qualquer coisa a ela.
— A casa é realmente linda. — Wedy com a voz rouca de sono comentou quando entramos, e era verdade, estávamos em um típico chalé de luxo. — Tenho nem roupa pra esse evento.
— Fiquem à vontade, todos. Vamos subir para os quartos? — BB nos chamou.
Ele ficaria no quarto do pai, eu no quarto dele, Mello no quarto do irmão mais velho dele e tanto Matt como Wedy ficaria em dois quartos de hóspedes. O quarto de Beyond era cheio de… Personalidade. Quando ele comentou gostar de bonecas de pano, não estava brincando, tinha uma coleção bem interessante logo na prateleira próxima à cabeceira da cama.
Havia alguns mangás, livros, CDs e figuras de ação também, além de posters de filmes de terror trash espalhados pela parede. Era uma casa de férias e mesmo assim Mr. Wammy instigava ou pelo menos não impedia o filho de mostrar seus gostos pessoais, não era de se admirar Beyond ser tão louco pelo pai, e falando em pais, eu precisava mandar uma mensagem avisando que tinha chegado bem para os meus e assim fiz.
— Hey, Near. — Matt entrou batendo na porta do quarto trajando uma roupa de banho com estampa geométrica em padrões de preto e branco, toalha no ombro.
— Sim?
— MISERICÓRDIA! — Arregalou os olhos e encarou o pôster de Night of the Lepus por tempo demais. — Que lugar bizarro, você quer trocar de quarto comigo ou mesmo com o Mello, algo assim? Digo, no do Mr. Ryuzaki deve ter apenas livros e no quarto de hóspedes que me deixaram só tinha shampoo e aquelas velas aromáticas que um desavisado come pensando que é docinho.
— Não, estou bem. — Sorri.
— Sério? Vai conseguir dormir com essas bonecas te encarando?
— Também tenho brinquedos no meu quarto.
— Existe uma diferença gritante entre o quarto do Andy e o quarto do Sid em Toy Story. — Ele disse, visivelmente desconfortável com a decoração.
— Apenas e exclusivamente para os brinquedos. — Ri. — Estou bem aqui. Gostei do quarto.
— Se você tá dizendo… — Continuava olhando para os lados desconfiado. — Bom, não foi pra julgar o mau gosto do B que eu vim aqui. Ele chamou a gente pra aproveitar o lago enquanto as famosas almôndegas da Tia Geraldine não ficam prontas ainda, você vem?
—Claro, Mello vai também?
— Vai sim. — Ele sorriu sem perceber.
— Ótimo. — Deixei transparecer meu contentamento. — Fico muito feliz que estejam bem, vocês dois.
—Ele está muito animado com tudo, poder estar aqui, ter sido acolhido pela avó, fico muito feliz por ele. Só… É um pouco estranho.
—O que?
—Dormir sem ele. —Ele corou intensamente com aquela confissão.
—Tente dividir uma cama com ele hoje. —Sugeri. —Mello deve sentir o mesmo.
—Será? — Coçou a cabeça, abrindo a porta do quarto, pensativo.
— Não custa nada perguntar.
—Perguntar o que? —O próprio Mello apareceu no corredor, já tinha se trocado também, vestia apenas um calção de banho preto e óculos escuros.
—Se você gostaria de comer banana. — Mudei de assunto para disfarçar. — Para evitar câimbra ao nadar no lago.
—É... Por que não? — O loiro deu de ombros.
—Aqui. — Entreguei o pequeno pacote com as frutas que minha mãe separou para minha viagem. — Podem oferecer também aos demais, vou só me vestir e encontro vocês lá embaixo.
—Valeu.
—Você trouxe filtro solar? —Matt me perguntou. — Acabei esquecendo o meu.
— Sim, pode usar o meu. —Tirei da bolsa e joguei o tubo para o ruivo que pegou desajeitadamente. —Fator 90.
— Puta que pariu, hein?— Mello riu.
—Você não pode falar muito. — Meu melhor amigo riu da cara dele. — Na verdade, nenhum de nós, o Near é tão branco que até os cílios são brancos, mas somos um grupo de pessoas tão brancas que mais parecemos o clã Cullen de Crepúsculo.
—Pior que é mesmo, tal hora vai estar nós brilhando no meio do lago. —Ele soltou uma risada. — Embora eu me identifique mais com os Volturi.
—Pois vamos lá, Caius Volturi, vamos deixar o rapaz se trocar. —Matt tomou Mello pela cintura e me lançou um olhar agradecido por cima do ombro antes de sair de vez, eu sorri em resposta.
Tratei de vestir meu calção de banho branco-gelo e uma camisa branca de manga curta a qual deixei os botões abertos, ficava um pouco sem jeito em expor meu corpo, mas os meninos estavam tão à vontade, eu não podia deixar de tentar também. Quando desci com minha toalhinha embaixo do braço já estavam todos na varanda sendo barulhentos.
— Oh coisa bonita, Wedy, vai ficar maravilhosa com uma perna bronzeada e outra branca. — Mello gesticulava enquanto comia uma banana e Matt fazia uma trança embutida no cabelo dele que ficava incrivelmente dourado no sol.
— É só usar uma meia, seu ridículo, não vou deixar esse pé me incapacitar de curtir meu passeio. — A mulher estava sentada numa das cadeiras de madeira com a muleta do lado, vestia um maiô floral muito bonito e um grande chapéu, espalhava filtro solar pelo próprio corpo tranquilamente.
Beyond estava escorado no para-peito da varanda rindo da confusão, estava com uma roupa de banho mais longa que a de Mello mas igualmente preta. Ver B com o dorso exposto fez meu coração pular uma batida, senti a mesma sensação estranha que tive ao vê-lo trocar de roupa no carro no dia que pregamos a peça em Matt e Mello.
Enrubeci imensamente, podia sentir o sangue correndo quente por minhas bochechas, não conseguia entender essa reação sem sentido, os outros meninos também estavam igualmente despidos, porque isso só com ele? O que tinha de errado comigo?
—Fofinho! —Wedy foi logo falando comigo com um largo sorriso quando percebeu minha presença.
—Oi, Wedy. —Sorri de volta. — O que é esse drama todo, pessoal?
— Mello acha que não posso curtir o lago por causa do gesso! —Ela gesticulou indignada. — Sei que não posso entrar na água, mas posso contemplar a natureza!
— Só acho engraçado que pra fazer a gente de empregada é a coitada inválida, mas pra ser rolezeira é a primeira da fila. — O loiro acenou negativamente com a cabeça.
—Vai passar protetor agora, Near? — Matt me perguntou, finalizando o cabelo de Mello.
— Acredito que sim.
— Deixa que eu te ajudo. — Beyond se aproximou de mim sorrindo.
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