Wammy's High
22 Beyond Birthday
Notas iniciais
— O que está rolando entre você e o Near? —Mello me perguntou.
— Do que está falando? — Abaixei meu mangá e olhei para ele.
— Você sabe muito bem do que estou falando. — Ele colocou a mão na cintura.
E eu sabia mesmo. Estava sentindo algo pelo Near e não era de agora, o problema era que não estava conseguindo nem esconder, só de ontem pra hoje tive uns cinco mini ataques do coração por causa dele. O primeiro foi quando por um impulso o peguei no colo para ajudá-lo a subir pela janela na noite passada, a aproximação me deixava nervoso mas era inevitável, meu corpo se movia sozinho, minha boca falava sem minha permissão. Quando menos esperava lá estava eu oferecendo meu ombro para ele dormir, me oferecendo para passar protetor solar na pele dele, esse último foi o pior de tudo já que ele decidiu comer inocentemente uma banana enquanto eu ainda passava o produto na pele macia, minha mente não conseguia não fazer projeções impuras.
Me senti péssimo por isso, Near era muito doce, pequeno e singelo, eu não podia ficar pensando essas coisas dele, sentindo essas coisas por ele, mas eu não conseguia lutar contra esses sentimentos. Quando fomos nadar no lago, Wedy ficou se bronzeando e Matt e Mello se distanciaram apostando quem nadava mais rápido da margem até a pedra azul — era como eu e meu irmão chamávamos uma grande pedra que ficava quase no meio do lago. N não saiu de perto da margem porque tinha prometido à mãe ficar só ali, não era perigoso, mesmo assim não deixei Nate sozinho em nenhum momento, principalmente depois que o vi tremendo.
Ele saiu da água e se enrolou, mas ficou com os pézinhos perto da borda formada por pedras, em outro impulso sem noção, acabei tocando nos pés dele e vi como estavam gelados, assim fiquei esfregando para esquentá-lo, Near não pareceu se incomodar, na verdade apreciou meu toque, então só percebi que devia ser uma cena bem estranha quando Wedy me encarou de forma julgadora. Ela era a última pessoa no mundo com direito de me julgar mas por algum motivo isso me desconcertou, fui salvo pelo gongo com Tia Geraldine chamando pro almoço, mas o constrangimento foi grande.
Mas eu não era o único fazendo coisas comprometedoras, Mello deixou Matt mexer no precioso cabelo dele e estavam amigáveis demais, dividindo fones, cantando no carro, jogando água um no outro no banho de lago e na hora do almoço teve a maior das bandeiras: pegavam coisas do prato um do outro com a intimidade de um casal de velhos fazendo bodas de ouro. No fim das contas minha armação com Near resultou em bons frutos, a trégua deles foi vantajosa em tantos níveis, eles pareciam bem, estavam felizes, mesmo que fosse só a calmaria antes da tempestade.
— O que está rolando entre você o Matt? — Rebati.
— Bom… — Ele trocou o peso do corpo entre as pernas e suspirou. — Nós nos beijamos, isso mais de uma vez.
— Meu Deus, que informação chocante! — Levei a mão ao peito dramaticamente. — Jamais passaria pela minha cabeça algo assim acontecendo!
— Já sabia, não era? — Ele riu.
— Só confirmou minhas suspeitas. Era só uma questão de tempo. — Dei de ombros. — Vocês dois sempre tiveram muita química.
— Fala como se fosse óbvio, mas não me respondeu sobre o Nate.
— Estou gostando dele. — Acabei admitindo, era até estranho falar em voz alta.
— B… — Mello sentou na cadeira ao lado da minha. — Você pretende investir nele? Digo... É só que o Near não é bagaceira que nem o restante de nós. Se duvidar, o coitadinho nunca nem beijou.
— Estou ciente disso. — Deixei o livro de lado. — Eu vou devagar com ele, só não posso deixar de fazer algo a respeito de como me sinto. Se ele não me quiser, vou respeitar e bola pra frente, mas se eu tiver pelo menos 0,0001% de chance, não posso perder.
— Então isso é uma espécie de encontro duplo? — Levantou uma sobrancelha.
— Assim que eu sumir com a tia e com a Wedy, sim. — Sorri. — E não, não vou fazer nada com elas. Só liberar a tia Geraldine mais cedo e dar a chave do spa pra Wedy se esbaldar.
— Estava pensando em chamar o Matt pra pescar. — Mello relaxou na cadeira. — Eu costumava pescar bastante com meu avô, não faço isso desde que ele se foi. E o idiota mostrou interesse em aprender… Podia ser legal.
— Atrás da propriedade tem um riacho cheio de peixes enormes. Os peixes do lago não são tão saborosos quanto esses, vocês podiam passar um tempo de qualidade lá, o riacho em si também é bem bonito. Poderíamos assar pro jantar algo que vocês pegassem.
— Temos um plano, então. — Estreitou os olhos. — Mas o que vai aprontar com o Near?
— É segredo. — Deixei escapar um sorriso de canto.
O plano entrou em prática quando o ruivo acordou do cochilo da tarde e Mello o arrastou para a tal pescaria. Tia Geraldine caiu na minha conversa e foi pra casa, mas só depois de eu prometer que ligaria pra ela se precisasse de qualquer coisa. Já Wedy só não foi correndo pro spa assim que mencionei que tinha hidromassagem porque enfim estava manca. Todas as peças estavam sobre o tabuleiro, mas faltava uma, a mais importante delas, sentei num banco de madeira suspenso que havia na varanda com as costas relaxadas nas almofadas e esperei pacientemente por ele.
— Por quanto tempo eu dormi? — Nate chegou na varanda esfregando os olhos, tinha uma manta sobre os ombros e uma garrafinha de água em mãos.
— Tempo suficiente. — Não pude evitar sorrir. — Gostaria de juntar-se a mim no balanço?
— Claro. —E ele sentou, embora um pouco distante. — Onde está todo mundo?
— Tia Geraldine foi pra casa e Wedy está lá em cima no spa. — Falei. — Os meninos foram pegar uns peixes para assarmos no jantar, fiquei aqui lendo enquanto você não acordava.
— Por que não foi com os meninos?
— E ficar de vela? Não, obrigado. — Ri. — Fora que não podia deixar você aqui sozinho.
— Obrigado, não precisava ter se importado.
— Não retiro o que disse sobre você ser a pessoa que eu mais queria ter aqui comigo.
— Eu fiquei com essa dúvida desde que falou isso para mim ontem… Porque eu? — Ele corou imensamente, se encolhendo sob a manta.
— Essa casa, esse lago… — Suspirei. — Tem um valor afetivo muito forte pra mim, brinquei muito correndo nessas pedras, subindo nessas árvores, aprendi a nadar aqui. E a brisa do lago aqui nesta varanda, aqui neste banco, é muito agradável principalmente nesse horário da tarde, tudo aqui me conforta, me traz paz. E sua presença me conforta e me traz paz.
— O que isso significa? — Os olhos de cílios muito claros me olhavam confusos.
— Significa que… — Teria eu coragem de colocar as cartas na mesa assim? Era um pouco assustador mas não podia ter hesitações. — Tenho sentimentos por você, Nate.
— Então… — Enrolou uma mecha do próprio cabelo no dedo, como se maquinasse algo. — Esteve flertando mesmo comigo? Não estou ficando louco?
— Não, não está. — Deixei escapar um riso. — Tenho flertado com você.
— Oh… — Near estudou as próprias mãos que pôs no colo. — Então, o que devo fazer?
— Não precisa fazer nada. Se você quiser, mas apenas se você quiser… — Aquelas palavras saíram como um sussurro. — Pode se aconchegar nos meus braços, podemos ficar apenas em silêncio apreciando a vista.
Fui verdadeiro, só em poder observar as nuvens correndo céu afora já era bom, ainda era cedo, mas era questão de tempo até que as cores quentes começassem a banhar o céu azul indicando o crepúsculo. Tudo seria refletido nas águas transparentes do lago e ali justamente naquele ponto da varanda, se poderia ter a ampla visão da perfeita mesclagem do céu e da água. Deixei abertura suficiente para ele dizer tanto o sim, como não, Nate parecia confuso, não vacilante, apenas confuso.
Ele então se aproximou e nos envolveu com sua manta macia, nada disse, apenas me abraçou e ficou com o rosto encostado em meu peito. Fiquei surpreso porém contente, encostei a bochecha no topo da cabeça dele, os fios de cabelo extremamente claros fazendo cócegas em meu nariz, o cabelo era cheiroso, Near respirava um pouco descompassadamente, toquei a mão dele, era pequena, esguia e trêmula, acariciei os dedos com os meus e o percebi relaxar.
Também relaxei, o ar que entrava em meus pulmões pareciam ter a mesma temperatura do que eu exalava, tê-lo ali em meus braços era como se meu coração fosse preenchido, minha mente geralmente tão atordoada estava quieta. Ficamos naquela posição por tempo que não ousei e nem precisei contar. Near inclinou a cabeça para me encarar, o queixo encostado em meu peito, os olhos redondos eram penetrantes, levei uma mão à bochecha dele sem perceber, o rosto dele estava tão vermelho, pelo calor em minha face eu não podia estar muito diferente.
— Me permite beijá-lo? — Sussurrei.
— Eu… — Os cílios tremeram. — Eu não sei, nunca fiz isso.
— Já imaginava. — Sorri. — Não vou pressioná-lo, deixo claro que posso esperar o tempo que for, mas se você quiser, aceite os meus lábios nos seus, se sentir necessidade de mais contato, se entregue ao meu toque para que eu aprofunde o beijo, posso cuidar de tudo.
— Então beije-me. —Ele sussurrou com sutileza, olhos ainda fixados nos meus.
Beijei os lábios pequenos e macios com cuidado, foi apenas um roçar suave, ele estava incerto mas segurei o queixo com delicadeza e Near pressionou os lábios contra os meus com mais vontade. Ele se afastou levemente e me olhou com doçura, depois ele mesmo beijou meus lábios com meus segurança e firmeza, intensifiquei o beijo quando ele afrouxou o toque, não demorou para eu estar com Nate praticamente deitado em meus braços enquanto eu o beijava profundamente com paixão.
Quando nos separamos, meu coração por pouco não explodiu, ele não disse nada mas assim que recuperou o fôlego me beijou novamente, as mãos tocando minhas bochechas, Near se sentiu à vontade para experimentar toques com a língua durante o beijo, estava indo muito bem para alguém inexperiente. Perdemos a noção do tempo envolvido nos braços e lábios um do outro, já estava bem no fim da tarde e o céu multicolorido quando paramos para nos recompor num abraço forte, sentindo o calor um do outro em silêncio, eu não tinha nada a dizer, meus olhos falavam por mim quando encontravam os dele.
— Você se sente bem? — Sussurrei próximo ao rosto pálido.
— Sim. — Sorriu com doçura. — Me sinto muito bem.
— Fico feliz. — Acariciei o rosto dele com as costas da mão.
— Eu acho que sinto o mesmo que você. — Aquelas palavras fizeram meu coração pular uma batida.
— Mesmo? — Perguntei com os olhos arregalados, N acenou positivamente com a cabeça.
— Mas o que isso significa para nós? — Sussurrou suavemente.
Significava muita coisa, eu queria passar a noite com ele, não precisaríamos fazer nada, só dormir na companhia um do outro me deixaria feliz. Queria chamá-lo para sair apropriadamente, queria que passássemos mais tempo juntos, eu cuidaria dele e daria tudo o que ele quisesse, eu poderia até namorá-lo se assim ele aceitasse, mas tive que engolir minhas as palavras com ele se afastando em um sobressalto: eram Matt e Mello retornando bem sucedidos de sua pescaria com um balde cheio de peixes, o loiro divertido zombando do ruivo que tinha um anzol preso na dobra da hélice da orelha.
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