Wammy's High
16 Nate River
Notas iniciais
Ouvi a porta do carro abrindo e fechando.
– Near, já pode sair. Sou eu.
Saí de debaixo da lona me deparando com Beyond usando uma máscara de palhaço sinistra, sentado ao volante. Passei para o banco da frente, enquanto ele retirava o disfarce, ficando apenas com a roupa suja de asfalto e geléia que parecia sangue. Agora compreendo o porquê dos gritos.
– E então? Deu certo? – Perguntei olhando pela janela e vendo os dois desacordados deitados no acostamento. – Você não exagerou um pouco? Eu pude ouvi-los dando gritos nada masculinos.
– Deu sim, não se preocupe, eles estão bem. Só são muito medrosos. – Ele falou jogando um saco com os pertences do Matt e do Mello no banco de trás junto com seu taco de baseball.
– Você acertou eles com isso?
– Sim, mas foi bem de leve... Eu acho.
– Espero que eles não fiquem com traumas depois disso. Conhecendo o Matt ele nunca mais pisará em um circo. – Falei me divertindo com o pensamento.
Aquele tinha sido o plano mais maluco que eu já havia concordado em participar. O plano inicial era isolá-los de alguma maneira. Claro, Beyond ainda não tinha desistido da idéia de bater neles até fazê-los admitir seus sentimentos, mas ele também sabia que isso não daria muito certo. Teríamos de criar toda uma situação de isolamento territorial, mas não sabiamos como. Então recoremos à Wedy.
Ela concordou em participar e gostou da idéia de juntar os dois, pois também já havia notado o clima estranho que tinha entre eles. Ela deu a idéia de fazê-los pensarem que tinham sido assaltados e deixados no meio do nada, o que ela havia visto em um filme, e tinha dado super certo. Pergunto-me que filme doentio era esse.
Marcamos um dia, Wedy emprestou o carro, e eu me escondi dentro dele antes de entrarem. Beyond avisou que iria na frente, esperá-los para encenar o assalto, e me avisou que eu lhe mandasse uma mensagem de texto, quando eu visse o sinal que ele deixaria na placa. Esse sinal foi um espantalho artesanal muito bem feito. Ironicamente, quando o carro passou pela placa, tinha um corvo nela, o que lembrava muito filmes de terror. Depois de refletir, tudo deve ter lembrado a eles um filme de terror.
Eu não fazia idéia que Beyond iria se jogar no meio da pista, coberto por um manto negro, e fiquei preocupado quando Mello congitou não parar, mas Matt graças a Deus conseguiu convencê-lo do contrário. Quando eles pararam e finalmente sairam, fiquei ainda mais atento aos sons do lado de fora, e depois de ouvir seus gritos, duvidei seriamente da lucidez desse plano. Mas agora, no carro com Beyond a idéia pareceu ter muito fundamento mesmo.
– Onde comprou essa mascara de palhaço? – Perguntei curioso.
– Eu guardei do Halloween passado, para uma situação como essas, depois que comecei a trabalhar vi como essas coisas podem ser úteis.
Abri a boca para perguntar que tipo de trabalho ele tinha, mas a pergunta fugiu da minha mente, quando ele começou a tirar a camisa suja. Sua pele era muito branca, não tanto como a minha, mas era bem clara. Ele era magro, mas não tanto, por suas vestimentas mais folgadas, não se podia imaginar que ele tinha o corpo tão definido como na verdade era.
– Near? – Ouvi sua voz longe. – Near? Tô falando com você.
– O que foi? – Respondi rapidamente retomando a consciência, e voltando meu olhar para seu rosto. Eu não percebi que o estava encararando de maneira tão constragedora, o analisando daquela forma. O ponto é que notei que ele realmente tinha traços muito bonitos, até para mim que não reparo muito nessas coisas. – Desculpe.
Ele sorriu torto com a sobrancelha levemete arqueada. Devo ter corado, já que senti minhas bochechas quentes, Beyond também deve ter percebido, pela forma como me olhou.
– Tudo bem. – Ele sorriu, já colocando a camiseta preta. – É sempre bom ter uma roupa reserva, nunca se sabe quando vai precisar pregar uma peça nos seus amigos.
E voltou-se para o volante, sem falar mais nada, mas também sem nenhum tipo de tensão. Agradeci mentalmente por isso.
– Que tipo de trabalho você tem? – Lembrei da minha curiosidade anterior.
– Bom, é algo bem incomum, então acho que irá achar estranho. – Riu, olhando a estrada.
– Acho que não.
Então ele me contou. Realmente, não sabia que existia esse tipo de trabalho de trabalho na vida real, era até curioso conhecer alguém que fazia algo assim. Ele pediu segredo, pois agora só Mello e eu sabíamos disso, e Mr. Ryuuzaki não o pressionou a falar sobre isso. Pelo que vi, ele tinha uma relação bem exentrica com o irmão.
Demorou um tempo mais longo de volta ao bar, já que Beyond não dirigia como Mello. Fomos conversando sobre jogos de tabuleiro, e descobri que gostavamos de muitos em comum.
– Gostei do boneco de palha que você colocou na placa. Você que fez ele?
– Sim. É uma espécie de hobbie maluco. Tenho um monte deles no meu quarto. Posso te mostrar qualquer dia desses. – Ele falou me olhando de canto de olho.
– Claro, eu adoro bonecos. – Respondi. Beyond riu, mas não entendi o porquê.
Sem que eu percebesse, Beyond parou o carro. Haviamos chegado no bar. Wedy correu pra fora assim que saimos do carro. Até parecia que tava espiando pela janela só esperando.
– E ai?? Como foi? Contem-me! – Ela falou dando pulinhos.
Sorri junto de Beyond e contamos a história a ela. Ela gostou muito da parte em que eles deram aqueles gritinhos e gostou mais ainda em saber que Beyond acertou Mello com um taco de baseball.
– Só quero ver a cara deles quando conseguirem chegar aqui. – Wedy gargalhou.
– E quanto ao carro? Como vamos explicar que ele está aqui? – Perguntei.
– Ah, é so dizer que a polícia encontrou abandonado na estrada e veio deixar, junto com as coisas deles. – Wedy falou, como se fosse óbvio.
– Bom, já está escurecendo, e eu vou pra casa. O resto é com o Matt e o Mello. – Falei, olhando para o céu, onde o sol já desaparecia.
– Eu vou deixar você. – Beyond disse, pegando a mochila dele no carro. Nem havia notado ela ali.
– Tenha MUITO cuidado com o Near, Beyond! Se eu souber que aconteceu alguma coisa com ele enquanto ele estava andando com você... É melhor você nem imaginar o que eu vou fazer. – Wedy o ameaçou apontando o dedo na cara dele. Ela sabia ser bem assustadora quando queria...
– Tudo bem. – Apenas sorriu.
Despedimos-nos e começamos a andar rumo a minha casa.
– Não precisava me deixar em casa. Você mora bem mais longe, e oposto à mim.
– Não tem problema, quanto mais eu demorar pra chegar em casa, menos chances eu vou ter de ver coisas desagradáveis novamente. – Ele disse com uma careta.
– Coisas desagradáveis? – Perguntei franzindo as sobrancelhas.
– Acredite, você não vai querer saber. – Apenas riu.
– Tudo bem. – Foi o que respondi, embora estivesse curioso.
– Seus pais não se importam de você ficar andando em lugares estranhos como os que têm ido ultimamente conosco?
– Meus pais são cirurgiões e passam pouco tempo em casa. Só os vejo nas folgas.
– Não se incomoda com isso?
– Não, na verdade. Eu entendo que é o trabalho deles, e eles amam fazer isso. Nem mesmo quando eu era mais novo, isso me deixava mal, afinal, já cheguei lá com quatro anos. Fora que eles sempre são muito atenciosos quando estamos juntos.
– Quatro anos?
– Sim, fui adotado. Na verdade, estou na Wammy’s High School por isso. Mr. Wammy financiava o orfanato onde eu morava.
Beyond sorriu amplamente, parecendo surpreso e contente com alguma coisa.
– Fazer essas coisas é bem a cara dele...
– Como assim?
– Existe uma coisa, que poucas pessoas sabem. – Ele sorriu. — Na verdade, Watari é meu pai. Fui adotado por ele quando era bebê, e meu irmão tinha uns 7 anos.
Aquilo era algo muito surpreendente. Eu jamais suspeitaria, já que os dois eram pessoas muito humildes para filhos do diretor de um dos melhores colégios de Londres.
– Isso é incrível. – Comentei boquiaberto.
– Sim, não gostamos de nos expor dessa forma, então essa é mais uma das coisas que não deve contar pra ninguém.
– Tudo bem, não se preocupe com isso.
– Ele é um bom pai. Bem preocupado, e apesar de se desdobrar tanto com trabalhos malucos que se mete, ele sempre conseguiu um tempo pra nós.
– E a mãe de vocês?
– Na época que nos adotou, ele tinha acabado de ficar viúvo, e nunca se casou de novo. Ainda tem fotos dela pela casa, era uma senhora muito bonita. – Sorriu. – Acho que ele adoraria ver a família completa, com ela por perto.
Durante esse dia inteiro ao lado de Beyond, pude notar que ele era completamente o oposto do que as pessoas diziam. Em nossas conversas, outras vezes, eu já tinha percebido. Entretanto, essa era a certeza que talvez ele quisesse mesmo que pensassem isso dele, mas por algum motivo mostrava-se de uma forma mais espontanea para mim. Isso me deixou contente.
– Imagino. – Falei, vendo que já chegavamos na minha rua. Sempre que ficava conversando com Beyond não via o tempo passar. – Aquela é minha casa. – Falei apontando.
Ele acenou positivamente com a cabeça, e fez questão de me acompanhar até a porta. Vai ver levou mesmo a ameaça da Wedy a sério, eu acho. Despedimos-nos, e fiquei vendo Beyond se afastar, enquanto pensava na conversa que tivemos e nos acontecimentos do dia.
Por um motivo estranho lembrei da cena do carro, quando Beyond trocou a blusa, me perguntando porque me sentia tão esquisito com isso. Balancei a cabeça enquanto entrava, tentando me livrar desses pensamentos tão estranhos. Iria comer alguma coisa e brincar um pouco em paz.
Quando finalmente subi com um copo de leite em mãos, e ao chegar em meu quarto, comecei a montar meu quebra cabeça novo, meu telefone tocou.
– Alô? – Atendi confuso.
– NEAR, ACONTECEU UM DESASTRE! – A voz feminina gritou histérica.
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