Wammy's High
17 Mail Jeevas
Notas iniciais
Minhas costas doíam pra caralho e o meu dia foi uma loucura, pra variar. A grande culpada das minhas costas estarem lascadas é a Wedy drogada, acabei de encerar as escadas da casa dela. E por que justo EU estou limpando a casa dela? Simples: a vagabunda torceu o pé. E como se já não bastasse, torceu o pé como? Na aula de dança. A maluca começou a frequentar umas aulas de dança, por causa do professor, que era um brasileiro bonitão, segundo o que o Aiber me contou.
Isso explica muito o fato dos meus livros de português estarem sumindo misteriosamente da bolsa, no bar. Sempre pensando com a testa de baixo! Essa Wedy não tem jeito. Enfim, ela ligou para Deus e o mundo pra falar do pé torcido. Acho que só não ligou para o papa, pro cara dar a unção dos enfermos pra ela, por que enfim não tinha o número dele.
Ligou pra mim, pro Mello, pro Aiber, pro Beyond, pro Near, pra família, e pra todos os contatos que tinha na lista telefônica dela. Maldita, na hora que ela ligou eu estava no banheiro, preso porque certo loiro me deixou sem papel higiênico e não repôs. Filho da puta.
Posso dizer com todas as letras que Mello é o pior hóspede do mundo. Maldita hora que fui ficar com pena por conta dos pais malucos dele. Sempre é assim! Ok, sol, pode parar de assar os restos mortais do meu traseiro. Sou muito azarado, acho que já virei a personificação do próprio azar. Uma boa ação que faço, tenho um trabalho do caramba.
Primeiro tive que mentir pros meus pais, dizendo que o motivo de eu estar levando aquele colchão pro meu quarto era que eu andava tendo pesadelos e podia cair da cama, desta maneira, o negócio apararia minha queda. Minha mãe, muito maluca, queria que eu fosse dormir com eles. Imagina que horror, um velhote de dezesseis anos dormindo com os pais!
Na verdade, não era bem uma mentira completa, digo, sobre os pesadelos... Depois daquele maníaco do meio da estrada, nunca mais piso em um circo! Fora que não consegui dormir mais do mesmo modo. Essa foi uma coisa boa de ter o Mello por perto, eu acordei atordoado no meio da noite nesses dois dias, e lá estava ele, dormindo tranquilamente. Nem parecia aquele doido que colocara pó de mico nas minhas calças. A serenidade dele dormindo me ajudava a não ficar com medo e eu voltava a dormir. Sou mesmo um frouxo.
De qualquer modo, o que me deixou mais puto com a história do maníaco, foi quando a Wedy disse que ele deixou nossas coisas e o carro no meio da estrada e a polícia achou e devolveu pra ela. Em suma: ele queria apenas pregar uma bela peça nos primeiros retardados que aparecessem, no caso, Mihael e eu.
Mello deve estar no bar agora, ajudando Aiber, já que eu sou a mais nova little bitch da Wedy. Só hoje pela tarde, limpei os banheiros, lavei uma louça de três dias, encerei todo o chão, pintei as unhas dela, e ajudei a tomar banho. Essa ultima tarefa citada foi sem sombra de dúvidas a pior de todas. Levei-a só de biquíni numa cadeira de rodas pro jardim, e a banhei com uma mangueira. O chato não foi ver ela quase sem roupas, até por que a infeliz não é feia. O ponto é que aquela loira é uma chata com limpeza, tive que limpar até entre os dedos do pé saudável dela.
Se minha manhã já tivesse sido tão exaustiva, meu bioritmo estaria melhor para agüentar aquela doida, que agora está dormindo. Logo pra abrir o meu dia bugado com chave de ouro, teve uma parada muito coisada envolvendo eu, Mello e o banheiro do meu quarto. Calma, não é nada disso que você está pensando! Ou é, não sei, não sou o Professor Xavier pra ficar lendo a mente das pessoas.
Bom, primeiro eu entrei no banho já tarde, por que Mello simplesmente decidiu demorar no banho, como sempre, o que atrasou minha vida. Eu estava muito feliz inaugurando minha cortina de patinhos, que eu comprei com meu suado dinheiro, já pensando na constante invasão de privacidade comum dos meus pais. Ouvi a porta do banheiro abrir e fechar.
– Onde você guarda o protetor solar? – A voz de Mello me perguntou.
– Na porta da esquerda do armário. – Respondi com os olhos fechados, retirando o xampu dos cabelos.
– Mail, meu amor, você tem creme dental reserva no seu armário? – A voz da minha mãe veio do meu quarto.
– Tô no banho, mãe! – Gritei sem pensar.
A porta abriu novamente, e a cortina me moveu atrás de mim quase no mesmo instante. Agora imagine quão maluca foi aquela cena. Estávamos Mello e eu, ele tapando minha boca com a mão direita, e a esquerda fazendo sinal de silêncio com o indicador, tudo isso com o bônus da minha nudez e a jaqueta de penas de avestruz dele por cima da farda.
– Que bobagem, Mail! – Minha mãe falava do outro lado da cortina, remexendo no armário. – Quem lhe banhava quando você era criança? Eu! Acho que você não mudou muito desde aquele tempo! Claro, acho que agora tem uns pelinhos a mais, mas é só isso!
DESNECESSÁRIO. Era o que vinha à minha mente naquela hora com aquele discurso da minha mãe. Não sabia o que me deixava mais envergonhado, Mello secando os ditos pelos citados e as minhas partes descaradamente, ou aquelas conversas dela. Puta que merda!
– FLORENCE! NÃO ACREDITO QUE VOCÊ ESTÁ INVADINDO A PRIVACIDADE DO NOSSO FILHO DE NOVO! — A voz do meu pai ecoou pelo recinto.
– Me poupe, Tom!
– Nosso filho já é um homem! Até emprego arrumou! Merece mais respeito! Não o trate como um bebê.
– Ora mais! Ele sempre será o meu bebê, não importa se ele tem dezesseis ou noventa e seis!
– PELO AMOR DE DEUS! VÃO DISCUTIR ISSO EM OUTRO LUGAR! – Gritei, tirando a mão de Mello da minha boca.
– Também não precisa expulsar seus pobres pais, Mail! – Disse ela de maneira dramática.
– A culpa é toda sua, Florence!
E assim, continuaram a discussão casa a fora. Que manhã mais linda aquela minha! Mello finalmente me olhou constrangido, eu estava irritado, mas também não tinha esquecido que não foi culpa dele.
– Desculpe... – Ele disse, desviando o olhar.
– Tudo bem. – Fechei a torneira, peguei a toalha, me cobrindo. – Pode ir na frente, se quiser. Ainda vou demorar um pouco.
– Certo.
Alguns minutos depois que ele saiu do banheiro, eu finalmente estava pronto. Corri pro ponto do ônibus com um cachorro quente que minha mãe havia me preparado na boca. Peguei o ônibus lotado, ainda comendo aquela porcaria. Mas era o preço a se pagar por estar criando um Mello de estimação.
Quando finalmente cheguei à parada próxima do colégio, Roger estava quase fechando os portões, minha sorte foi que eu corri a tempo de não ser barrado. Cheguei um tanto atrasado, posso dizer. Suspirei cansado e atordoado, segui até a sala de aula, onde bati na porta pedindo licença.
– Oh, Matt! Pode entrar! – Disse Mr. Law, desta vez sem nenhum tipo de fantasia, o que era até estranho. – Íamos começar a correção da atividade de casa.
– Desculpe pelo atraso, senhor. – Sorri amarelo.
– Tudo bem! E meus parabéns pelo terceiro lugar! – Quando ele falou aquilo, eu fitei o papel que tinha sido grudado ao lado da lousa. Era o ranking da sala, e estava tal qual os bimestres anteriores: Near em primeiro, Mello em segundo e eu em terceiro.
Senti um desconforto ao ver que Mello não tinha conseguido o que tanto batalhara. Olhei para ele, enquanto passava ao ir em direção ao meu amado fundão. Ele estava calmo, com cara de paisagem, apenas fitando seu lápis em mãos, sequer olhou para mim. Aquilo me deu mais medo do que ele dando pití. Sentei ao lado de Near, que finalmente despregou sua atenção dos bonequinhos de lego, e me fez uma pergunta com os olhos sombrios.
– Ele ficará bem?
– Eu não sei. – Suspirei. – Espero que sim.
Near voltou-se para seus bonecos novamente, enquanto olhei em direção à lousa, onde tinha escrito a seguinte frase: Massacre: Física, Tormento: David Law. O professor pediu para abrirmos nossos cadernos na atividade e sentou-se na mesa. Sim, ele sentou sobre a mesa, não na cadeira, ele tinha essa mania. Sorriu para a sala e abriu sua maleta.
– Estão todos muito desanimados. – Observou. – Por isso coloco sempre fantasias pra ajudar a revigorar os ânimos, infelizmente, elas estão proibidas pelo vice-diretor. Mas... Isso não significa que vou ficar sendo um tormento de verdade pra vocês. – Ele apontou pra lousa, o pessoal riu do trocadilho ridículo. – Assim... – Levantou e virou de costas para nós, com algo que havia pegado na mala em mãos. Quando ele se virou revelando o que era, a sala riu. E eu chorei.
Três palavras, um significado e uma emoção: nariz de palhaço. Eu me perguntei por que o mundo era tão cruel comigo. Um dos meus professores preferidos me trollando sem sequer saber que estava me trollando. Chupa! Que desgraça pouca é besteira.
– Sério? – Li os lábios de Mello em seu sussurro. O loiro me representava nessa hora. Near me jogou um sorriso divertido. Nuvem maldita, zombando da minha suposta cara de pânico. Aposto que eu estava com a minha maior cara de pânico de todas. Eu mereço!
– Agora, vamos ao massacre! – Ele sorriu animado como sempre, todo feliz com sua fantasia improvisada assustadora e enfim começou a correção de sua atividade. Bom, ele pelo menos começou a escrever os dados da primeira questão na lousa, quando do nada veio um estrondo vindo do auto-falante da escola.
– Peço licença a todos os professores para a mensagem matinal de segunda-feira. – Uma voz fina e estridente ecoou pela sala.
– Misa? – A minha pergunta pairou no ar. Meus colegas estavam igualmente confusos também, vi logo por suas caras de what the fuck? – Sério isso?
– Meu dia clareou quando você surgiu em minha vida. – Ela começou. – Com você, abri meu maior sorriso, e ao segurar sua mão, senti que precisava caminhar ao seu lado. – Yagami Raito. – Não existem mares e montanhas que impeçam meus sentimentos.– Yagami Raito. – E a minha desistência é algo impossível, pois o amor é algo que precisa ser restaurado e cuidado, não importa quão pequena se torne sua chama. – Daí teve um momento de silencio. – Agradeço à atenção e desejo a todos um lindo dia. – Falou com sua voz retardada. Olhei incrédulo, Mello revirou os olhos, e Nate me olhou confuso.
– Isso foi para Yagami Raito, certo? – O albino perguntou.
– Sim ou claro? – Eu ri.
– Misa Misa, isso foi incrível! – A voz do Matsuda veio do auto-falante, embora distante. A loira idiota não tinha desligado o treco.
– Incrível?! Era um texto de três páginas e o babaca do Roger só me deixou ler a metade do primeiro parágrafo! Isso é muito injusto! Ele está merecendo outro muro pichado com uma mensagenzinha pra ele! E dessa vez vou chamar ele de algo bem pior que babaca! – Ela praticamente gritou indignada. Teria sido legal, se não tivesse sido para a escola inteira ouvir.
– Misa! – Foi a voz de Teru que surgiu distante dessa vez. – O microfone ainda estava ligado!
– Droga! – Foi a ultima coisa que ela disse antes de finalmente desligar.
Aposto minhas calças que a pessoa que mais estaria se divertindo com essa confusão toda era Beyond, afinal, ele fora injustamente acusado pelo velhote. A sala estava em silêncio, acho que ainda absorvendo a informação. Mr. Law estava com a melhor expressão dentre todas, aquele sim era o palhaço mais confuso da face da terra.
– Gente... – Ele nos olhou com a mão recostada à cintura. – Mas que coisa absurda!
A sala começou a rir e eu também. Sério, foi a maior comédia da manhã. A única coisa que me deixou mais preocupado foi o fato de Mello ter permanecido com cara de paisagem em todo o processo, dando-se ao luxo de fazer caras incrédulas de vez em quando. Bom, foi uma situação em que até N tinha se dado à liberdade de dar seu risinho tímido, isso não era de Deus!
O professor voltou-se para sua amada disciplina e aula passou rapidamente. Eu estava muito curioso em relação ao suposto castigo da Misa, afinal, ela era rica, mas não tinha dinheiro que fizesse alguém escapar da ira de Roger.
Quando o sinal tocou todos saíram de forma que apenas eu e Nate ficamos na sala, tínhamos começado a pegar esse hábito, com medo das constantes vezes que as pessoas esbarram na coisa minúscula que parece ter doze anos que chamo de melhor amigo. Pude ver o loiro olhar algo em seu celular e sair com pressa, logo quando o sinal tocou. Perguntei-me onde Mello teria ido com tanta urgência.
Quando meu amigo Gasparzinho pegou sua maçã, nos dirigimos à porta, e para nossa não surpresa, nos deparamos com Beyond do lado de fora.
– Olá. – Ele falou conosco com sua voz rouca muito parecida com a Mr. Ryuuzaki.
– Oi, B. – Eu disse. Near apenas sorriu de maneira tímida, um pouco... Corado. Ele estava corando?! Sério, sociedade?! Beyond também tinha percebido pela sua cara, mas apenas sorriu de volta.
– Vocês viram o Mello? – O cara das olheiras gigantes perguntou.
– Pensei que ele estava com você. – Disse confuso. – Ele saiu faz uns cinco minutos.
– Estranho... – Observou. – Eu estava louco para compartilhar minha diversão com ele. Ele também não vai com a cara da Misa, então achei que ele ia gostar de saber que ela foi suspensa.
– Então realmente a suspenderam. – N finalmente falou. – Quantos dias?
– Uma semana, apenas. – Disse Beyond. – Vocês sabem como é o dinheiro. Watari gosta de tratar todos igualmente, mas apesar dele ser o dono da instituição e diretor, ele não é o responsável por tudo aqui.
– Entendo. – Nate acenou positivamente, mordendo sua maçã.
Ah, o dinheiro! Como ele faz falta na minha vida. Minha família é bem de vida, não como a do Near, por exemplo, que ambos os pais são médicos fodões, mas minha mãe é corretora de imóveis e meu pai engenheiro químico, dá um dinheiro legal. Mas claro, como eles não giram bem da cabeça, querem que crie responsabilidade, então não me dão dinheiro de graça assim, querem que eu aprenda. A prova disso é meu trabalho no bar. Caso eu fizesse algo assim no colégio, eles iriam fazer questão deu ser devidamente castigado.
– Que papelão... Se declarando pra um cara que não ta nem aí pra ela, e ainda entregando seu delito de graça. – Falei. – E o Yagami, como reagiu àquilo?
– Digamos, que de uma forma bem... Divertida. Não posso dar os detalhes, mas se vocês soubessem o que eu sei e vissem o que eu vejo... A vida teria outras cores.
– Imagino. – Ri, mesmo sem saber do que diabos ele estava falando. Decidi mudar de assunto e voltar pro inicial da conversa. – Sabe de algum lugar pra onde o Mello pode ter ido?
– Não sei bem. Para ele não ter ido me procurar pra caçoar da Misa, deve estar chateado com alguma coisa. E até já imagino com o que seja. O rancking da sala de vocês saiu hoje também, suponho.
– Sim. E ele está bem chateado, por que, bom... Ele ficou em segundo de novo.
– Como pensei... Nessa condições, é melhor deixá-lo sozinho. Mello não é a melhor companhia quando está frustrado.
– Mas... – Hesitei. Não queria dizer aquilo em voz alta. Eu estava preocupado com ele, estava mal por ele estar triste e não queria deixá-lo sozinho. – Ele pode se meter em encrenca. – Acabei inventando.
– Isso é verdade. Mas você o conhece, Matt... – O suposto assassino serial me advertiu.
– Sim, eu sei disso. Mas vou procurá-lo mesmo assim. – Me virei para Near. – Você se importa de ficar sem mim no intervalo?
– Não, está tudo bem.
– Posso cuidar dele. – BB se ofereceu.
– Obrigado. – Sorri. Metade de mim estava agradecendo, mas a outra estava meio que em pânico por deixar a ovelha nas garras do lobo.
Deixei os dois e fui em direção aos corredores dos armários, e nada dele, rodei pelas salas do andar de baixo e simplesmente nada dele. Foi aí que vi um vulto loiro de relance no portão da escola. Aproximei-me lentamente pra não chamar atenção e me escondi detrás de uma coluna. Ele estava conversando com um cara moreno de terno.
– Seu discurso foi inspirador, mas não conseguiu me convencer. Não vou voltar pra casa, saiba que perdeu dez minutos da sua vida. – Mello falou revirando os olhos com sua mão na cintura.
– Mihael, não faça isso comigo e com sua mãe. Só queremos o melhor pra você. Fizemos o que achamos ser o certo. – O homem disse.
– Pois o seu “certo” é uma bosta! – O loiro gritou fazendo as aspas com os dedos.
– Tenha respeito com sei pai, Mihael! Estou aqui por sei que foi exagero, e me culpo por não ter parado sua mãe. Mas volte pra casa! Não queremos nosso filho na rua passando necessidades se ele pode ter tudo!
– Não estou na rua e não tenho tudo em casa. Desculpe, pai, mas não tenho. Eu sinceramente abriria mão, assim como abro, de todo o conforto que vocês podem me dar, para ter... – Ele vacilou. – Quer mesmo saber? Eu não me importo. Não preciso do seu dinheiro, eu trabalho e posso me manter, já que não preciso pagar colégio. Não vou mudar de idéia tão cedo.
– Tudo bem. Respeitarei sua vontade. Mas eu quero que você saiba que estamos de braços abertos a qualquer momento que queira voltar pra casa.
– Ok.
O pai de Mello finalmente saiu dali, deixando o loiro sozinho. Ele esfregou o rosto com a mão e caminhou em direção às escadas, onde se sentou e soltou um longo suspiro. Eu o segui, ainda evitando dele me ver. O lábio inferior dele termina um pouco, o loiro simplesmente levantou e começou a caminhar em uma direção conhecida. O ginásio da escola.
Foi até lá em passos longos e lentos, lá com certeza não teria ninguém para atrapalhar sua melancolia, diferente de ficar pelos corredores. Foi até a arquibancada, onde se sentou na segunda fileira e colocou as mãos no rosto novamente. Em todo o processo da operação “seguir o Mello”, me mantive nas sombras. Ótimo, agora sou um stalker. Mas o ponto é que me senti horrível pela situação dele, eu tinha de fazer alguma coisa.
Fui em silencio na direção dele, sem me importar em ser notado. Ele tirou as mãos do rosto, me encarando com fúria. Seus olhos estavam vermelhos, talvez pelo esforço de vetar as lágrimas. O dia dele estava sendo mais bosta que o meu e essa era a realidade. E eu que pensava que um ser humano mais lascado que eu não existia, aprendi que existem sempre pessoas com menos problemas que eu, mas as que têm problemas muito maiores que os meus estão lá fora também.
– O que diabos você quer? – Ele falou. — Não quero falar com ninguém, vá embora.
Subi calado e sentei ao lado dele. O loiro continuava me fuzilando com os olhos, pensei que ele iria me dar um murro bem grande no meio da cara, mas de uma pessoa que colocou pó de mico nas minhas calças, isso era algo gentil. Não falei nada, apenas passei minha mão por cima de seu ombro e o puxei pra um abraço. Ele ficou sem reação. Levei minha mão direita até seus cabelos, guiando seu rosto até meu ombro. Com a outra mão, envolvi suas costas e fechei os olhos.
Senti meu pescoço molhado, as lágrimas dele estavam escapando, mudas. Continuei acariciando os cabelos dele, em um afago, e ficamos assim por alguns minutos. Ele me abraçou de volta e chorou em silêncio nesse meio tempo, horas soluçando. E fiquei apenas ali, ao seu lado, sem falar. Claro, era medo de levar uma surra no primeiro “a” dito mais do que qualquer coisa. Desvinculou-se de mim, com os olhos levemente vermelhos.
– Melhor ir pra sala. O sinal vai tocar em alguns minutos. — Falou, quase em um sussurro.
– E quanto a você? – Perguntei limpando seu rosto com o polegar.
– Não vou pra aula. Depois daqui vou sair por uma passagem secreta que tem detrás da quadra, vou direto pra casa da Wedy.
– Passagem secreta? – Arregalei os olhos. Fazia todo sentido! Agora sei como ele consegue entrar com as penas de avestruz sem nenhum problema.
– Sim, eu meio que improvisei uma.
– Ótimo, vou ficar aqui com você, então. – Eu disse. — É a aula da Tia Terremoto, não é algo que eu me sinta exatamente mal em perder. E posso pedir pro Near dizer que estou na enfermaria com dor de barriga, por conta dos salgadinhos suspeitos da cantina. – Sorri.
– Por que está fazendo isso, Matt? – Seus olhos azuis me fitaram.
– Isso o que?
– Sendo legal comigo. Ninguém faz essas coisas por mim.
– Realmente não sei por que faço isso. – Admiti.
E eu de fato não sabia, não sabia por que eu estava me importando com um cara que me deixou passando vexame sem papel higiênico. Não sabia por que eu estava me importando com um cara que jogou um balde em mim, me trollou com uma almofada de peido, e colocou pó de mico nas minhas calças. Não sabia por que eu estava me importando com um cara que foi preso ao meu lado, e com quem eu vivi as aventuras mais malucas da minha vida.
– Estão todos preocupados com você, na verdade. – Falei. — Mas você sabe como Beyond e N são, gostam de ver as coisas se ajeitarem sozinhas, fora que Beyond respeita muito seu espaço. Queria ter essa capacidade, digo, de respeitar o espaço das pessoas.
– É, mas nem sempre isso é ruim. – Seu rosto iluminou-se um pouco. – Eles estão preocupados?
– Sim, do jeito deles, mas estão. Beyond foi te procurar no intervalo, pra falar da suspensão da Misa.
– Sabia que a vadia ia ser suspensa! Quanto tempo?
– Uma semana, apenas. Ela comprou uma pessoa ou algo assim.
– Ah, entendi. Beyond deve estar adorando, agora vai poder esfregar na cara do Roger que realmente não foi ele que pichou o muro. Fora que ultimamente Beyond está com um humor ótimo. – Ele me olhou pensativo. – Mas enfim... Você estaria mesmo disposto a perder aula por minha causa, seu nerd?
– Claro. – Sorri. E depois me toquei do insulto e o olhei incrédulo. Ele apenas riu. Desgraçado, ria enquanto pode, seu maldito! Vou atear fogo nele enquanto dorme! Isso sim!
– Ok, vamos chegar um pouco atrasados, mas não quero que perca aula, seu cabeçudo. – Cabeçudo é a mãe. — E no fundo, também não quero perder. – Ele suspirou pesadamente, levantando-se. – Não consigo superar o Near nem quando estudo feito um condenado e não falto nenhuma aula, quem dirá perdendo. Preciso provar que sou o melhor agora mais do que nunca.
– Sabe, Mello. – Comecei, me levantando. — Acho que não deve ficar triste por isso, nem tão obcecado. Ainda tem mais um bimestre. Você vai conseguir fazer isso, só acho que talvez.... – Hesitei.
– Talvez? – Levantou uma sobrancelha.
– Talvez esteja forçando a barra um pouco de mais. – Comecei a caminhar com ele em meu encalço. — O Near mesmo não esquenta com essas coisas, cara. Na verdade, ele sequer dá algum tipo de importância a isso. Fora que ele não trabalha meio expediente, como é o seu caso, ele fica só em casa brincando com legos. Talvez se você não ficasse tão fissurado em ser o melhor, você conseguisse.
– Não consigo entender um pensamento merda como esse! – Gesticulou.
– Eu sei disso. – Tentei falar com jeito. – Só acho que você tem que dar o seu melhor e deixar rolar, sem estresse.
– Hum... Nunca tinha olhado por esse ângulo.
Caminhamos visando ir até a sala em silencio depois disso, enquanto subíamos as escadas ele começou a falar novamente.
– Meu pai veio me procurar hoje. Pedindo pra eu voltar pra casa. Me mandou um sms dizendo que estava no portão da escola me esperando, assim que o sinal tocou. Então acabei indo falar com ele.
– Sério? – Me fiz de desentendido. — E aí?
– Eu deixei bem claro que não voltaria pra casa. Você vai ter que me aturar por um tempo ainda, enquanto não arrumo um lugar pra mim.
– Está tudo bem, pode ficar até quando quiser. – Sorri. — Mas você não cogita voltar em hipótese alguma? Digo, ele veio te procurar por que se importa com você.
– Foi uma merda muito grande, Matt. Não iria agüentar.
– Entendo. – Falei, quando finalmente me dei conta que estávamos na porta da sala. Foi só entrarmos que o sinal tocou. Aquilo foi muita sorte, fora que a professora não tinha chegado ainda.
Eu fui pro fundão, e Mello ficou no seu lugar, dizendo que iria me esperar pra irmos pra casa da Wedy juntos. Combinamos com o Aiber que pegaríamos o ônibus pra casa dela e encontrar com ele lá. O coitado foi buscá-la e lhe fazer companhia já que recebera alta do hospital hoje cedo. Então, ele e Mello iriam rumo ao bar e eu ficaria ali para cuidar dela até o namorado idiota dela ir lá pra ficar com a criatura.
Sentei no meu lugar, olhando um Near que já estava travando mais uma das suas brutais batalhas de canetas.
– Está tudo bem? – Near perguntou, olhando-me.
– Acho que sim. – Eu respondi. – Ele vai ficar bem. Como foi o intervalo com o B?
– Legal. – Foi só o que me respondeu, olhando suas canetas.
Logo no momento em que virei em direção à lousa, uma figura de terno entrou na sala, com uma maleta de lado, fitando-nos de forma gentil e desejando bom dia. Não era a Tia Terremoto... Era o próprio Watari Wammy!
– A jovem Tina está de licença, crianças. – Ele começou. – Logo, eu mesmo irei substituí-la nessas aulas de línguas estrangeiras latinas.
A sala estava em silêncio, ainda absorvendo a informação que teríamos aula com o próprio diretor. Os olhos de Near brilharam, e ele soltou as canetas de vez. Mr. Wammy começou sua aula, por fim. Fiquei de boca aberta ao ver o quão foda aquele velho era, a aula simplesmente passou voando! O método de ensino dele era um tanto parecido com o de Mr. Ryuuzaki, só que sem as esquisitices.
Near me contou meio a uma atividade em dupla, que Beyond havia lhe falado que Watari sabia fluentemente línguas latinas e asiáticas por que tinha vários orfanatos espalhados pelo mundo, incluindo América latina e leste asiático. Ele tinha implantado o estudo do espanhol junto do de português recentemente e estava com um projeto para no próximo ano começarmos a idiomas asiáticos, junto do italiano que era algo exclusivamente do segundo ano, Deus sabe por quê. Às vezes aquela nuvem me assustava com sua capacidade de conseguir essas informações.
A ovelha também comentou algo sobre os alunos que eram bolsistas, como meu caso e o dele, por exemplo, tinham alguma ligação com as ações beneficentes do velho diretor. Ele descobriu há alguns meses que o orfanato de onde ele veio era um dos financiados por Watari. Na hora fiquei me perguntando o que diabos eu tinha haver com aquele lugar. Oh Deus, será que sou adotado?! Terei uma conversa bem séria com meus pais depois.
O sinal tocou para a hora da saída, Mello estava ali me esperando para seguirmos até o ponto de ônibus. Me despedi do Near e parti ao lado do loiro. Perguntei pelo cara das olheiras gigantes, e Mello falou algo sobre ele ter ido trabalhar. No que será que Beyond trabalhava? Quando ele não estava no bar conosco ou na escola, estava nesse lugar misterioso que Mello, seu melhor amigo não fazia idéia de onde era.
Bom, o ponto é que a tortura na casa da Wedy me esperava. O ônibus chegou depois de quinze minutos, graças a Deus. A viajem foi rápida e silenciosa. Mello nada falou, ficou apenas me olhando com o canto dos olhos de vez em quando, meio corado. A coisa estava meio tensa, na verdade. Acho que depois de tanta bomba de drama, caiu a ficha que ele me viu pelado hoje de manhã. Só não ficou tenso antes por conta do rancking da sala e do lance do pai dele. Oh Deus.... Eu estava meio sem jeito, parando pra pensar. Droga, se eu soubesse que alguém me veria nu tinha ao menos me depilado. Que bosta!
Paramos em um bairro bem bacana, era esperado que Wedy não fosse uma pobretona já vendo pelo ponto de vista do carro dela, mas a casa dela era enorme. Tocamos a campainha, e não demorou muito para Aiber vir nos atender ao lado de um homem latino com pinta de galã de novela mexicana, ou melhor, brasileira. Aquele com certeza era o professor de dança/peguete dela.
– Oh, Matt e Mello! Que bom que chegaram! Este é Luiz Monteiro.
– E aí. — Disse Mello e eu apenas sorri amarelo.
– Olá, rapazes. – O homem falou.
– ÓTIMO! ELES JÁ CHEGARAM?! – A voz da doida da Wedy veio de algum lugar. — Meninos, que saudades de vocês! Cadê o Near e o B? – A voz arrastada dela foi se aproximando, assim como o barulho da cadeira de rodas. – Queria tanto vê-los. – Disse por fim ao chegar à ponta com seu pé enfaixado.
– Nunca é bom ver você, Wedy. – Mello riu. – O branquelo deve estar em casa e o Beyond foi pro trabalho.
– Não seja tão maldoso, deveria ser mais como Near, que é um fofinho comigo. O Near sim me ama! Estou precisando tanto do amor de vocês neste momento tão doloroso que é ficar sem movimentos! – Disse, dramática, com uma voz estranha.
– Ele é legal até comigo, sua baranga. E seus draminhas comigo não tem vez. – O loiro falou quase cuspindo. – Vamos, Aiber! – E saiu pisando duro.
– Sempre mal-humorado. Essas crianças de hoje! – Disse ela. – O Matt sim será bonzinho comigo! – Disse ela fazendo biquinho pro meu lado, para o meu desgosto.
– O que diabos deram pra essa mulher? – Sussurrei a Aiber com cara de mais puro horror.
– Analgésicos, ela é bem sensível com esses medicamentos, qualquer coisa fica drogada. – O francês me respondeu. — Melhor eu ir mesmo, Wedy. – Aiber disse, fitando-a. – Tenho de abrir o bar.
– Tudo bem, amigo. Você foi um lindo comigo hoje!
– Tenho que ir também, minha querida. – O latino de araque disse. – Virei visitá-la no final do dia. Assim o jovem Matt poderá ir embora.
– Own, seu fofinho. – Ela falou pausadamente. – Obrigada por trazer o almoço!
– É o mínimo que posso fazer, já que está assim por minha causa. – Nunca tinha reparado como esses sotaques estrangeiros eram engraçados.
– Está tudo bem. Pode ir... – Disse, dengosa depois de receber um beijo do cara.
E assim, todos se foram e me abandonaram nas mãos do furacão Wedy, que me olhava de forma maligna. Enfim, a louca que me fez fazer tudo o que eu disse anteriormente. Só Jesus na causa. Mello teve sorte em ficar no bar, ajudando Aiber. Me pergunto por quanto tempo as coisas irão ficar esquisitas entre a gente, por ele ter me visto como me viu, afinal, ele está morando na minha casa, um clima pesado ia ser algo bem desagradável.
– Matt? – A voz da Wedy parou meu momento de reflexão. Agora ela já falava normalmente, embora um pouco sonolenta, afinal, ela tinha acabado de acordar.
– Sim? – Olhei pra ela, que estava um pouco descabelada, pela dormida.
– Está tudo bem? – Ela me olhou, com um ar preocupado.
– Está sim, eu acho. Por que?
– Está tão pensativo aí largado no meu divã.
– Desculpa... Só estava pensando na vida. Já terminei de encerar o chão, quer mais alguma coisa? Quer a muleta? Ou ir pra cadeira, ou algo assim? – Gesticulei.
– Não, está tudo bem... – Ela sorriu. – Pode sentar aqui na cama?
– Hum... – Olhei, meio receoso, mas quando olhei pra cara pidona dela, acabei fazendo.
– Mello está mesmo na sua casa? – Começou.
– Quem te disse isso? – Arregalei os olhos.
– Ele disse que tinha arrumado um lugar pra ficar e não precisava mais do quartinho dos fundos. E você é um menino muito gentil, Matt. E eu não sou burra.
– Como assim?
– Eu sei que se importa com ele.
– Por que diz isso? – Fiz uma careta, como se o que ela dissesse fosse um absurdo, mesmo sendo verdade.
– Por que eu vejo as coisas? – Ela riu.
– O que está querendo dizer?
– Nada, esquece. Vai entender, em pouco tempo. Ainda mais morando com ele.
– Não entendi porcaria nenhuma do que está falando. — Confessei.
Olhei pra doida, que me fitava, entregando um cigarro tirado Deus sabe de onde. É incrível como as pessoas têm essa capacidade e eu não. Fico chocado. Acabei pegando o cigarro mesmo assim, estava precisando mesmo. Nem estava acreditando que a maluca fosse fumar estando com o pé lascado, ainda mais me oferecendo.
– E os pais dele? Como estão lidando? – Disse, colocando o cigarro na boca.
– O pai dele tentou fazê-lo voltar pra casa, mas nada. Não sei o que fazer pra ajudá-lo a ajeitar as coisas em casa, Wedy. Queria muito que ele não precisasse passar por esse tipo de coisa... – Tirei meu isqueiro do bolso, acendendo nossos cigarros.
– Ele é muito teimoso, Matt. – Tirou uma traga, em seguida. — Você tem que ser muito paciente com ele. E muito gentil, também. – Ela falou, rindo de forma maliciosa.
– Gentil? – A pergunta pairou no ar, enquanto eu também tragava o cigarro, que por sinal era muito bom, que desgraçada de bom gosto. – Como assim?
E a campainha tocou.
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