Wammy's High
25 Lawliet Ryuuzaki
Notas iniciais
Na minha mente, Raito-kun era um rapaz muito inteligente e centrado. Eu o admirava de muitas formas, ele atiçava minha curiosidade, mexia com meus sentimentos e me fazia agir de formas que jamais imaginei. Nunca pensei que me tornaria uma pessoa que vive tão perigosamente, mas tínhamos um plano: esconder nossa relação enquanto ele ainda tinha dezessete anos e estava na Wammy's High. Não seria fácil, mas demoraria apenas alguns meses e não teria problema, valeria a pena esperar por ele, no começo eu sentia culpa por ceder às investidas de uma pessoa mais jovem mas Raito era diferente, tão maduro que às vezes eu esquecia que ele era um adolescente. Até aquela manhã de sábado com aquele relato no mínimo preocupante que ocorreu durante o café da manhã quando estava à mesa com ele e meu irmão.
— Então você humilhou Amane Misa na frente dos amigos e colegas dela? — O café ficou até um pouco amargo na minha boca.
— Foi isso que você tirou na coisa toda? — Raito-kun me olhou incrédulo. — Tinha fotos não autorizadas minhas, camisas, posters, uma suposta festa em minha homenagem sem minha presença, sequer meu conhecimento. Eu tinha que botar limite nessa menina louca.
— Você não deve chamar uma moça de louca assim, por mais inadmissível que sejam as ações dela. O certo seria falar com ela em particular e se não resolvesse contatar a família dela, deixar os avós dela sabendo disso, depois falar com seus pais e deixar todos os responsáveis a par da situação.
— Pra eles passarem a mão na cabeça da princesinha deles? Não mesmo. E não quero minha família no meio desse circo, tive que agir rápido.
— Yagami tem razão, talvez assim ela se manque, mas a questão é: o que fará sobre a ameaça? — Meu irmão e suas geleias encararam Raito-kun.
— Que ameaça? — Tive que perguntar.
— Ela disse que eu ia me arrepender. — Ele suspirou. — Mas não quero pensar nisso agora.
— Boa sorte pra você, então. Ela pode estar tramando pra te ferrar agora mesmo enquanto você se afoga nesse café com chantilly, Amane Misa não é louca, ela se faz e muito bem, mas sabe o que está fazendo, sabe até demais e é justamente esse o ponto. — Beyond levantou da mesa. — Porém, de uma coisa L tem razão, talvez conversando com ela da maneira certa, ela ceda. A menina fez um fã clube pra você, Yagami, se você pedir com jeitinho pra ela comer merda, ela come.
— Olhe essa língua, estamos em uma refeição. — Briguei com ele.
— Só o tema Amane Misa já é de tirar o apetite. — Ele sorriu com deboche. — Mas é isso, comprou uma briga com ela ao enfrentá-la naquele fã clube e nas sábias palavras proferidas pelo meu melhor amigo na noite ontem: se vai lidar com o demônio, não esqueça o tridente. — Olhou o relógio na parede. — Preciso ir ou vou me atrasar, bom final de semana pra vocês.
— Pra você também. — Respondemos ao mesmo tempo e depois sorrimos um pro outro.
— Seu irmão tem um ponto. — Murmurou depois que ficamos sozinhos. — Preciso resolver logo essa situação com a Misa e lidar com as consequências, seja a bandeira da paz ou o primeiro bombardeio.
— Sinto muito que as coisas estejam ocorrendo dessa maneira. — Tentei consolá-lo. — Vamos ficar bem.
— Vamos sim. — Ele sorriu e segurou ambas as minhas mãos.
Acho que eu só estava estranhando dramas adolescentes, eu nunca vivi um mesmo na época da minha adolescência, talvez ter ficado tanto tempo enfurnado estudando com cara nos livros tenha me tirado a capacidade de ver como os seres humanos funcionam na prática. Ter como companheiro alguém mais jovem provavelmente tenha dessas coisas, ainda mais para mim que nunca estive de fato em relacionamento além do casual, seria um aprendizado mútuo. Raito-kun então decidiu que contataria Misa para tentar conversar com ela naquela manhã mesmo, decidi acompanhá-lo mesmo que de forma sorrateira para dar apoio moral.
— Você me contaria dessa coisa que aconteceu no fã clube se não fosse pelo Beyond tocando no assunto durante o café da manhã? — Precisei saber.
— Sim, com certeza, mas em outro momento. — Explicou. — Ontem foi um dia tão cheio, ainda mais com essa situação com a Misa, só queria vir pra cá e curtir você logo.
A verdade é que fiquei muito feliz com a vinda surpresa dele para minha casa ainda na sexta à noite, dizem por aí que o melhor fim de semana é aquele que já começa na noitada de sexta, acho que de fato estavam certos. Ter Raito-kun em meus braços era infinitamente perfeito, cada beijo, cada abraço, cada toque só me deixava mais sedento por mais, eu também precisava desse momento a sós com ele deixando os problemas de lado, tirar um pouco o peso da dúvida de ser a coisa certa a se fazer.
Tê-lo comigo mostrava que as coisas só são muito complicadas quando fazemos delas muito complicadas, nada era fácil, obviamente, mas precisava mesmo ser essa penosidade? Claro que vinha sempre o medo de Watari descobrir tudo e ficar decepcionado comigo, era a primeira vez na vida que eu estava agindo fora da reta, então esse nervosismo era comum, supus. Não dá pra viver pelas expectativas dos outros, por mais que os amemos imensamente e sejamos cheios de gratitude por essas pessoas.
Por fim, Misa respondeu as mensagens Raito-kun e aceitou encontrá-lo numa cafeteria não muito longe do centro da cidade chamada Phantom Company. Eu mesmo o levei de carro, não conhecia mas achei um espaço bem agradável, o local estava lotado e consegui me camuflar no meio das pessoas, ainda mais todas de preto como eu estava. Sentei numa mesa distante o suficiente para passar despercebido e perto o suficiente para conseguir vê-los tendo a tal conversa quando acontecesse, pedi um café para a atendente ruiva de traços asiáticos e óculos de lentes grossas cujo crachá tinha escrito o nome Mey-Rin que logo me serviu elogiando meu chapéu do disfarce.
Não demorou muito para que Amane Misa chegasse, a jovem loira foi ao encontro de Raito que já a esperava um pouco nervoso. Eles se cumprimentaram de forma constrangedora, a torta a ser servida naquela mesa era a de climão, um jovem atendente loiro apareceu pegando a comanda de seus pedidos e logo saiu, não demorou muito para o silêncio ser quebrado entre eles.
— Sinto muito que as coisas tenham saído do controle ontem. — Raito começou. — Eu só… Fiquei assustado por não saber sobre uma estrutura como aquela antes, ainda mais com meu nome no meio. Sou uma pessoa muito reservada, você bem sabe, foi chocante estar meio ao caos daquele jeito. Claro que nada justifica tratar você mal, assim como nada justifica você invadir minha privacidade e usar minha imagem assim.
— Pensei que seria uma surpresa boa mas vejo que me enganei mais uma vez. — Ela suspirou com certa tristeza. — Também sinto muito que as coisas tenham acontecido daquela forma.
— Com licença, seus cafés! — A voz adorável do atendente anunciou enquanto os servia. — Aproveitem, qualquer coisa me chamem.
— Obrigada. — Misa sorriu para o jovem e Raito-kun também agradeceu. Ela tomou um gole generoso da bebida e então continuou, encarando o ex-namorado. — Posso perguntar algo pra você?
— Claro.
— Você por acaso me amou em algum momento no nosso namoro? — Havia um peso naquelas palavras. — Seja sincero.
— Bom… — Ele soltou um largo suspiro. — Provavelmente não. Você é uma moça muito bonita, todos na escola a queriam, fiquei com medo do que pensariam de mim caso eu não ficasse com você que me queria tanto.
— Ficou com medo de pensarem que você é gay? — Ela perguntou com seriedade, eu gelei e Raito também.
— Na mais otimista das hipóteses. — Ele conseguiu contornar. — Mas eu sinto muito por ter sido tão irresponsável com seus sentimentos.
— Se você não sentia o mesmo que eu, porque deixou as coisas irem tão longe? — Tinha muita amargura naquela pergunta, eu sabia o que aquilo significava.
— Eu… Não sei. — Ele coçou a nuca. — Achei que com mais essa conquista você partiria pra outra, pensei que eu era mais um capricho seu, só depois eu vi que talvez você gostasse de mim de verdade.
— Uau… — Foi como se tivessem dado um soco no estômago dela e com razão. — Você acha que representava só mais um capricho na minha vida?
— Moça bonita, cheia de amigas, roupas lindas, bolsas fashionistas, todo o kit já estava instalado, só faltava um namorado igualmente atraente do lado. — Havia sinceridade nas palavras dele. — Eu não era o único cara atraente na escola e nem combinávamos tanto. Pensei que seguiria em frente e encontraria alguém que a merecesse.
— Você sabe como as coisas estavam difíceis para mim quando você apareceu na minha vida, tinha perdido meus pais há pouco tempo e acabou que você se tornou um farol pra mim. Meus avós cuidam muito bem de mim, me mimam, até, mas só agora percebo que nada pode fazer o vazio desaparecer, nem você, nem eles, nem ninguém. — Misa não chegou a chorar mas havia muita miséria naquele olhar. — Estar no meio das pessoas por algo em comum me fez esquecer um pouco esse vazio, tanto que nem parei pra pensar no que as pessoa iam achar de mim fazendo algo como um fã clube pro meu ex. A verdade é que todos falavam como era estranho pelas minhas costas, se tivessem me dado um toque talvez eu tivesse visto como estava sendo ridícula, né? Mas enfim, não posso mudar essas coisas que já estão feitas.
— Eu…
— Não diga nada. Sei porque quis marcar esse encontro, está com medo porque eu disse que você ia se arrepender. Estou errada?
— Não.
— Pelo menos isso, né? — Ela sorriu de forma falsamente fofa. — Não se preocupe, aquela ameaça foi no calor do momento, você já tinha me machucado demais na frente das minhas amigas e eu não sabia o que fazer com a informação que eu obtive que seria um ótimo ás na manga, mas agora depois dessa conversa, já sei exatamente o que fazer: absolutamente nada.
— Não fará nada? — Raito estreitou os olhos.
— Claro, o erro foi meu por ter admirado uma pessoa que não pensa em ninguém além de si mesmo e a própria imagem mesquinha. Não se preocupe com o fã clube ridículo, hoje mesmo saindo daqui, marquei uma reunião e irei absolvê-lo. E quanto ao seu segredinho sujo, não serei eu que vou arrombar a porta do seu armário nojento. — Ela cruzou os braços, eu tremi e Raito de branco ficou transparente. — Eu já me sujei demais com você, que não vale meu dinheiro e minha energia numa possível vingança, só preciso saber: essa pouca vergonha já vinha acontecendo quando estávamos juntos?
— Pouca vergonha?
— Oh, querido, não se faça de bobo… — Sorriu com desdém. — Seus encontrinhos para calcular o seno e o cosseno da circunferência do seu ânus.
— Meu deus! — Ele arregalou os olhos. — Não…
— Pelo menos isso também. — Ela levantou da cadeira e fez sinal para o atendente. — Pois faça bom proveito da sua aventurinha, só seja mais cuidadoso se quer mesmo continuar nessa vida de gay sigiloso. Você é tão covarde que até quando faz o que seu coração podre manda não consegue se responsabilizar, maldita hora que te amei, Yagami Raito, você está morto pra mim.
Quando o rapaz que os atendeu chegou, o semblante dela mudou completamente, nem parecia que tinha acontecido uma conversa tão pesada e cheia de feridas sendo cutucadas, tratou o atendente com doçura e lhe deu uma bela gorjeta. Raito-kun estava com a cara no chão e não era pra menos, eu também estava com um sapo entalado na garganta e nem foi comigo, Misa foi embora sem se despedir ou olhar pra trás. Pagamos nossas contas sem conseguir fingir demência tão bem quanto aquela jovem, que como foi alertado por meu irmão, de doida só se fazia mesmo.
Fiquei muito triste pela situação dela em termos gerais, Raito-kun não teve responsabilidade afetiva com aquela garota e a usou de escudo hétero, isso era muito sério de uma forma que jovens não podiam entender. Quantos homens feitos vivem mentiras por anos por medo? Mas aposto que ninguém nunca se sentou com Raito e o ensinou sobre esse tipo de coisa e era sintomático da sociedade. Se o amor entre pessoas do mesmo sexo não fosse primeiramente um tabu, essas mentiras não precisariam ser contadas, corações não precisariam ser quebrados, ninguém se machucaria gratuitamente.
A família de Raito-kun é uma família conservadora, pai policial e mãe dona de casa, casal de filhos modelo, só faltava o cachorro, nesse cenário era claro que ninguém iria ensinar algo assim pra ele. Mas não mudava os fatos, Raito-kun era um rapaz muito inteligente, com acesso a internet, meios de comunicação, ficou na zona de conforto porque foi conveniente, ele agiu sim por conveniência e está errado no que aconteceu entre ele e Misa. Eles deveriam ter tido aquela conversa no segundo que sentaram para romper o namoro, mas pelo menos os pingos tinham sido colocados nos is naquele sábado, e antes tarde do que nunca. No carro eu não ousei dizer nada, esperei ele puxar conversa quando se sentisse confortável.
— Acredito que ela não viu você, nem eu pude vê-lo o suficiente. — Ele começou. — O quanto você ouviu da conversa?
— O bastante. — Sussurrei. — Como se sente?
— Honestamente? Aliviado. Senti muita verdade e convicção nela, como jamais vi antes. Não vai fazer nada contra mim, vai sair mesmo do meu pé, o que é lucro, além do feedback que devemos ser ainda mais discretos. — Ele sorriu. — Ser xingado é o de menos, é um preço baixo a se pagar por essa bandeira branca. Ou será que foi um blefe?
— Não sinto que foi um blefe ou algo assim, Misa deixou claro que estava machucada demais para arquitetar algo e eu acredito nela, dava para sentir como ela estava dilacerada.
— Você pensa menos de mim por ter partido o coração da Misa?
— Não, como ela disse, colocou expectativas em cima da pessoa errada. — Concluí tristemente. — Espero de verdade que o tempo cure essa moça e essa situação se torne uma lição sobre responsabilidade afetiva e aspirações sobre os sentimentos alheios, isso para ambos. Mas… Devo me preocupar com você partindo meu coração desse jeito também?
— A diferença é que eu não a amava, já sentia algo por você mesmo naquela época. Me conformei com a Misa porque foi o que pensei ser o certo a se fazer na época, e sinto muito por isso tanto por ela como por mim. — Riu debilmente. — Eu só não pensava que teria qualquer chance com você.
— Compreendo, então ficamos acertados que vamos sempre conversar e deixar as coisas claras entre nós? É muito importante saber onde estamos nos metendo.
— Sim. — Ele sorriu. — E deixando claro, eu amo você. Sempre amei.
Aquelas palavras fizeram meu coração acelerar e pular uma batida, fiquei atônito, minha cara deve ter sido impagável pelos olhos esbugalhados, só não estanquei o carro ali mesmo porque era um veículo automático. Raito-kun nunca tinha dito aquilo antes, se bem que nem eu tinha ousado falar em voz alta também. A mão dele na minha perna me fez voltar para realidade, respirei fundo, que misto de emoções em apenas uma manhã, Yagami Raito fazia da minha vida uma loucura, uma montanha russa, só esperava mesmo não vomitar.
— Está tudo bem? — Perguntou preocupado.
— Claro, desculpe. — Ri sem jeito. — Só fiquei surpreso.
— Sério? — Raito também riu mas de forma charmosa.
— Sim. — Sorri para ele. — E deixando claro, eu também amo você. Desde mesmo antes de eu perceber.
— Perfeito, então. — Soltou um suspiro feliz. — O faremos quando chegarmos?
— Acho que merecemos um bom banho pra tirar a negatividade do corpo e pensei de quem sabe, preparamos um almoço caseiro juntos?
— Eu acho essa ideia simplesmente brilhante. — Sorriu de orelha a orelha.
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