Família Yoshioka, antigamente nobre, atualmente recebe o reconhecimento de ser uma família clássica e sem peculiaridade e em um mundo cuja oitenta por cento da população mundial apresentam individualidades, tornou-se algo vergonhoso e fantástico. Uma educação rigorosa para orgulharem-se da diferença como bênção de Deus, uma frase destacava-se: “Peculiaridades são o caos” e com este pensamento, os membros tornavam–se ignorantes e fecharam as portas para todos.

Altos muros de pedras construídos há décadas em torno da enorme residência com dezenas de parentes, proibidos de saírem das terras abençoadas sem a autorização e a inexistência de desobediência: uma prisão. Igualmente a sociedade fora das paredes, são dominadas pelas regras de adultos egocêntricos e suas ambições, devendo respeita-las de corpo e alma, se não, consequências. Não deve fazer isso e nem aquilo, deve dizer isso e não aquilo... Frequentar tal lugar e outro, ser o centro das atenções por conhecimento e principalmente: “Nada de heroísmo”

Em um cotidiano monótono de obediência e aprendizagem obrigatória, o único contato com a peculiaridade era em frente de uma televisão: os acidentes causados por vilões e a vitória dos heróis — algo impressionante e deixaria qualquer criança maravilhada.

Isto era um erro.

Consequência: agressões, castigo e humilhação.

A existência de heróis e vilões foram após o surgimento das peculiaridades, causam desordem e destruição. O dever é acabar com todos para retornar à paz. Não existem heróis, são todos vilões. Uma ideologia vinculada ao ódio, esquecendo o essencial princípio da realidade dos heróis: “Arriscar suas vidas para salvar”, porém, a desigualdade de força dentre aqueles com poderes e quem não manifesta é nítida.

Ser herói passou a ser associado com a presença das peculiaridades e o maior desejo de jovens, contudo, o sonho apenas será concretizado aos que forem capazes e servirem para receberem este título. O anormal passou a ser o normal e agora, o anormal é uma piada e uma forma de zombaria, principalmente ao ambicionar a tornar-se um herói. A família Yoshioka é sinônimo de humilhação.

Aos quatro anos, o começo da escola, ela soube exatamente o peso de carregar sua genética. Todos querem ser heróis, suas peculiaridades começavam a florescer e ela não podia fazer nada, apenas reagir hipocritamente com a frase em que lhe impuseram: “Peculiaridade traz apenas o caos”. Sufocando o seu desejo e sendo desprezada pelo mundo, cresceu e finalmente chegou ao último ano do ginásio como previsto pela família, sendo a número um nos estudos e garantindo a melhor vaga nos colégios.

Olhos mortos e vazios eram o que ela apresentava. Sem amigos, orgulho ou expectativa de futuro, apenas um sonho despedaçado por seu sobrenome. Não havia nada, felicidade, tristeza ou raiva, uma escuridão imensurável fazia-a responder “Sim, senhor” ou “Sim, senhora” para as ordens de seus pais.

O dia em que os professores lhe oferecem um papel para ser preenchido por suas escolhas para os futuros colégios em que gostariam de serem aprovados chegou e a resposta era clara para a maioria: tornar-se um herói, mas ela não estava lá para escrever as palavras já planejadas. Estava atrasada, pela primeira vez, presa em uma confusão no centro da cidade.

Uma explosão era escutada por vários lugares da cidade, acompanhada pela enorme fumaça escura que subia de algum prédio, a curiosidade e a preocupação corriam por muitos que não entendiam o que havia acontecido, mas a certeza era apenas uma: um vilão. Cabelos soltos e medianos da coloração dourada, olhos vermelhos e sádicos por trás de uma máscara preta, um largo sorriso paranoico, veste-se com apenas uma calça e uma blusa de mangas longas amarrada em sua cintura para esconder o cinto de utilidades com munições e granadas, e sempre uma arma de fogo em mãos, era o que caracterizava Haruo Kim.

Sayuri estava a caminho da escola quando o estrondo ocorria em sua frente, protegendo instintivamente seu rosto com seus braços do vento de poeira e logo da claridade do fogo. Antes de abrir seus olhos, a gritaria e o desespero das pessoas ao seu redor invadiam seus ouvidos, sendo rapidamente silenciados por vários tiros e sucedidos por uma gargalhada macabra. O medo percorreu seu corpo e a paralisou, não conseguia falar ou mover-se para fugir, sua mente recordou-se das obscuras consequências de sua família ao desobedecer às regras.

—Meu filho... Alguém viu meu filho?! — Era o que uma mulher perguntava aos berros, perguntando desesperada pela última vez à única estudante ali parada. Ela apenas olhou hesitante para mulher e o desespero escorreu por seus olhos ao vê-la ser atingida por apenas uma única bala em sua cabeça. Estava sem palavras, a respiração estava ofegante e assistia apenas o corpo da pobre mãe cair no asfalto.

—Dezessete — Dizia uma voz masculina em meio a uma risada louca, o dono apenas apontava a arma em sua direção. “Não venha...” Era a frase presa em sua garganta, querendo correr o mais rápido possível, mas ao fitar o vilão com seus olhares sanguinários e o sorriso largo quando lhe apontou a arma, não conseguiu mexer seus músculos — Dezoito!

“Vou morrer”.

Fechou os olhos aguardando a morte, os segundos passaram e nada. O choro de uma criança procurando sua mãe era escutada vindo de trás do assassino, fazendo-o desconcentrar-se, qualquer cidadão utilizaria isto para fugir, mas ela apenas assistiu:

—Eu não gosto de matar crianças – Haruo murmurou estressado, pressentindo a presença do garoto se aproximando – Eles não aumentam a minha pontuação – Dizia impaciente ao agarrar o braço esquerdo da criança e quebra-lo sem hesitar, erguendo-o até a altura de seu rosto para vê-lo chorar de dor e lhe implorar pela vida – Como eu amo ver essa feição – Ria.

—Sol... Solte-o! — Finalmente havia conseguido dizer alguma coisa, mas sua voz estava trêmula e seus olhares chorosos não escondiam o pavor. “O que eu estou fazendo...?!” martelava em sua mente, pois não sabia o que realmente deveria fazer, mas a frase saiu antes que percebesse.

—Como é? — O vilão perguntava enojado.

—Você mesmo disse que não gosta de matar crianças... Então deixe ele ir embora... — Ela dizia tentando manter o olhar no rosto do homem, tornando-se mais amedrontador cada vez que ele abria a boca para dizer algo:

—Crianças como você são quem eu mais odeio – Ele murmurou mal-humorado, sorrindo e jogando a criança para longe após alguns instantes. Sayuri não reagiu, assustou-se ao ter o assassino bem a sua frente em segundos e fora capturada: seu pescoço era segurado e apertado levemente pela mão direita do homem, que a erguia até ficarem da mesma altura – Acha que pode ser uma heroína? Acha que pode salvar alguém?

—Eu... — Tentava dizer, mas logo lhe faltava fôlego. Suas mãos seguravam o musculoso braço do homem, tentando soltar-se inutilmente.

—Grite para mim — Diz com um largo sorriso, fitando-a maravilhado. Ela gritou, gritou o mais alto possível de imensa dor: seu braço perdera as forças ao ser quebrado com facilidade, mas...

“Ele nem tocou no meu braço...!”

Individualidade de Haruo: Passagem de Dor, permite roubar e transferir feridas. Consequência, primeiramente deve ser roubada pelo usuário, ou seja, ele fere-se para logo passar a ferida adiante. Quando o vilão arremessou a criança para longe, roubou a ferida do braço quebrado para si mesmo, curando a criança, para transferi-la a Sayuri ao tocar em sua pálida pele. Mas, é impossível trazer pessoas a vida.

—Isso... Assim! – Ele comemorava em meio a risadas e apertava mais o pescoço fino da garota – Mais, grite mais! – Sayuri já não tinha forças, deixavam as lagrimas dizerem e demonstrarem sua dor, sentia o sangue quente em seu abdômen após o tiro rasgar os tecidos de seu magro corpo – Mas já? – Fora a última frase em que escutara e se recordava, sua visão escureceu e desmaiou.

Despertou sozinha em uma cama de hospital, ainda sentia dores na região do tiro e dificultava sua movimentação, e seu braço permanecia enfaixado e incapacitado. Sentia suas mãos trêmulas e um aperto no peito ao lembrar-se do ocorrido e a culpa lhe consumia por não ter feito nada pela mulher que morrera em sua frente, com a dúvida da conclusão: “Será que ele foi capturado?”. Sua respiração ficava pesada, sentia que perderia o ar a qualquer instante como se o vilão ainda lhe apertasse o pescoço, sua cabeça doía e suas lembranças pareciam embaçadas, estava entrando em pânico, sendo desperta pela entrada do médico e de um policial.

O médico pediu para não se mover e o outro pediu a colaboração de responder algumas perguntas, obedeceu-os e logo ficou sozinha novamente. Passaram-se dias e logo tornaram-se semanas, quanto tempo fosse necessário para sua recuperação e receber alta, ela não ousava dizer uma palavra, permanecia em silêncio a todo momento: não sabia o que falar, encontrar as palavras certas, estava abalada. Não recebeu nenhuma visita, nem de seus pais ou familiares. Estava sozinha e desapontada.

O incidente logo tornava-se notícia e todos ficavam sabendo: “Haruo Kim ainda está a solta” e “Yoshioka Sayuri salva criança”. A declaração do garoto de que ela havia lhe salvado ao distrair o vilão, de que um membro da família Yoshioka cometera um ato de heroísmo, viralizava e isto fez com que ela fosse ignorada. Seus pais estavam decepcionados com a filha e não lhe aceitavam mais, recusaram sua presença ao retornar a casa após receber alta e agora estava sendo esquecida por seus familiares.