Sua casa já não era um lar — nunca fora —, estava perdida no vasto mundo de desconhecidos que não confiavam nela e mal sabia o que deveria ser feito ou dito, não estava planejado.

Não havia ninguém para lhe ordenar.

Estava livre, podia fazer o que quisesse, não precisava seguir mais nenhuma regra, mas ela não entendia isso. Estava com medo. Continuou a frequentar todos os dias a escola, sendo impossível esconder a preocupação que percorria em seus pensamentos: não falava nada, não escutava nada e não fazia nada, permanecia sempre em sua carteira.

—Vá a diretoria – Ordenava o professor responsável pela sala de aula e ela obedeceu, adentrou no cômodo em silêncio e sentou-se na cadeira à frente da mesa da diretora. A mulher não disse nada, um silêncio constrangedor predominou o local, apenas cuidava da papelada como de costume, interrompida pela batida na porta. A permissão fora dada e uma mulher mais jovem entrou na sala cumprimentando-as, sua aparência de pouco mais de seus vinte anos com as mesmas características de uma pessoa que lembrava-se muito bem: era a mulher baleada em sua frente, cabelos longos e castanhos, os olhos grandes e pretos, o rosto redondo e as sardas.

—Esta é Fukuda Emiko, irmã mais velha do menino em que você salvou durante o incidente – A diretora apresentava-a, enquanto a mulher sentava-se na outra cadeira ao lado de Sayuri. A estudante não conseguia olhar nos olhos da mulher, sentia-se culpada pela morte de sua mãe, deixando as lágrimas rolarem e murmurando um “Desculpe-me”.

—Está tudo bem – Era o que Emiko dizia ao tentar reconforta-la com um sorriso, que foi completamente ignorado, e explicou o motivo de estar ali presente, a entrega de uma carta escrita por seu irmão caçula – Ele não conseguiu dizer isso em frente às câmeras, mas ele pediu para lhe entregar isto – Sayuri pegou o papel cabisbaixa e o desdobrou para lê-lo: “Obrigado, você é minha heroína”, ela ficou sem palavras, o que deveria responder a isso? Chorou e apenas fora consolada. Emiko contou um pouco de sua história, mas apenas uma frase fez com que Sayuri olhasse finalmente para ela – Uma professora deve sempre encorajar os alunos, então quero que se lembre sempre desta frase:

“Ser herói não significa ter peculiaridades, ser herói é salvar pessoas. E um sorriso pode salvar, mesmo que seja um dia ruim de alguém”

E isto era algo que apenas ela poderia fazer.

O sonho que fora destruído por pessoas ruins, agora tornou-se a esperança dela. Ela aprendeu que salvar alguém não precisa ser apenas fisicamente e sim, apenas com pequenos gestos: sorrir, cumprimentar ou apenas uma boa ação. Algo que muitos não sabem e talvez nunca entenderão. Havia conseguido um objetivo, um motivo de ir atrás de algo que realmente é importante, sentir pela primeira vez a sua própria felicidade, e sua última decisão para seu futuro colégio foi a Academia para Heróis U.A.

Mas talvez, tenha sido um erro.

Suas mãos pequenas suavam e sentia seu coração acelerado, tentando caminhar calmamente pelos corredores de seu novo colégio – a melhor academia de heróis da nação –, nunca sentira tanta insegurança como naquele momento, nada era planejado. Certificou-se de estar adiantada para não se atrasar em seu primeiro dia e verificou várias e várias vezes o número de sua sala, não havia motivos para não dar certo, contanto que mantivesse a calma. Encontrando finalmente sua classe, mentalmente tentava tomar coragem para entrar ao respirar fundo e dar seu primeiro passo, mas um calafrio sobe por sua espinha e seu fôlego desaparece no instante em que sentiu uma atmosfera pesada e os olhares frios de todos já presentes na sala de aula. Parecia que seu coração pararia a qualquer momento e sairia por sua boca, a dificuldade para respirar como se o ar estivesse preso em sua garganta e as mãos trêmulas que mal tinham forças para segurar sua bolsa, o nervosismo corria por suas veias. Este não era a imagem de um primeiro dia.

—Está tudo bem, não mordemos – O pânico que consumia o pequeno corpo de Sayuri fora reconfortado por um voz doce e uma mão em seu ombro: uma garota também de sua sala era pouco mais alta e tinha cabelos curtos e ruivos, uma pele rosada e os olhos rosados que demonstravam calor – Sou Misaki Mika prazer.

—Yoshioka Sayuri, o prazer é todo meu — Cumprimentava timidamente acompanhando a ruiva em direção as suas carteiras, que coincidentemente eram uma atrás da outra na fileira do meio e no centro da sala.

Misaki parecia, de primeira impressão, uma garota gentil e amigável, entretanto, ela seria o próprio diabo deste inferno que estaria prestes a começar com as torturas e Sayuri nem imaginava. Tal como todos da sala, ou qualquer outro aluno da academia, ela não aceitava a presença se Sayuri:

—Ei Sayu, posso te chamar assim certo? — Misaki perguntava com um sorriso amarelo, sentando-se de frente com a garota que estava prestes a tremer de tanto nervosismo e mantendo um sorriso forçado ao responder com um “Sim” — É verdade que sua família não apresenta peculiaridades?

Perguntas foram feitas e respondidas inocentemente, uma conversa saudável e uma amizade poderia ter crescido se tudo dependesse de Sayuri, mas um sorriso debochado surgia mentalmente em Misaki e corria como tanto planejava. Manipular e receber confiança para esmaga-la sem piedade, alguém com um pensamento maligno como este, nunca receberia ou receberá o digno nome de um herói. Mas seu ódio e raiva contra a garota era totalmente compreensível: alguém sem peculiaridade entrou por recomendações, enquanto ela e muitos dos outros alunos daquela academia, que não frequentam a sala dos heróis, se esforçaram e reprovaram na prova prática.

—Alunos, por favor sentem-se. Já iremos começar – A voz doce vinha da professora ao pé da porta aberta e Sayuri já conhecia muito bem. Seus cabelos presos em um alto rabo de cavalo e um par de óculos retangulares, vestia-se com uma roupa social – Sou a professora responsável por esta sala, Fukuda Emiko. Prazer.

Professora e heroína profissional, mestre em resgates: Fukuda Emiko, ou conhecida como Exorcista. Peculiaridade: Visão do Além, permite ver fantasmas e conversar com eles. Consequência: os fantasmas não conseguem ter contato com o real e não se pode mandar fazer algo contra sua vontade, perca de noção do real e o paranormal.

Deixá-la na sala sendo responsável pela senhorita Fukuda foi a pior decisão feita pelos superiores, pois fora ela quem recomendou-a e logo, seria o gatilho para o começo do inferno. E desde seu primeiro dia, os alunos começaram seus julgamentos sem que ninguém percebesse.

—Hey, você só conseguiu entrar aqui por causa da professora Fukuda, não é? – Um dos alunos da sala perguntava em meio ao intervalo dentre a troca de aulas, apoiando-se na lateral da carteira de Sayuri. Cabelos curtos e esverdeados estavam muito bem arrumados, olhos negros e sempre um headphone em seu pescoço: Hyuuga Hiroshi.

Ela ficou sem reação, corou envergonha por ter suas palavras dirigidas diretamente. Tentou negar ao gaguejar algumas vezes, mas era mentira. Após o dia em que havia decidido entrar para U.A. implorou a senhorita Fukuda para fazer uma recomendação, sendo recusada incontáveis vezes, entretanto, acabou estando aqui.

—Pare de intimida-la Hyuuga — Misaki dizia sentada de frente com a sua “nova” amiga com um sorriso debochado, recebendo um agradecimento tímido de Sayuri, que logo transformou-se em espanto — Todos sabemos que isto é verdade.

—Não, eu não... — Ela tentava negar.

—Não? — Misaki perguntava com olhares duvidosos, mantendo um sorriso cínico nos lábios — Então como alguém sem peculiaridades entraria nesta Academia?

“É óbvio que foi porque salvou o irmão caçula da professora”

Hyuuga fora o início, pegando-a por sua gola e erguendo-a para poder fita-la em seus olhos amedrontados e dizer: “Você me enoja”, solta-a de volta em sua cadeira e retorna o seu lugar. Algo feito apenas para intimidar, fora friamente calculado e manipulado pela ruiva que apenas assistia, e dia após dia, o julgamento era dado.

Etapa número um: tapas na cabeça, socos nas regiões abdominais e leves empurrões. Sem chamar atenção.