Wake Me Up

9 Um Belo Monstro


Notas iniciais
Já são quase 4 horas da manhã, mas decidi postar mais um capítulo antes de dormir. Como já disse antes, não há muitas mudanças, aliás, nesse aqui acho que tem apenas uma mudança, mas acho que vocês perceberão qual é. Bem... Então, vamos ao capítulo. Divirtam-se.

Vlad observou, através da janela de sua sala, o imenso jardim da Brookes College onde alguns alunos conversavam animados.

O relógio na parede atrás de seu professor de Física Experimental II marcava exatamente 16 horas e 55 minutos, mas seu professor continuava a rabiscar o quadro negro, enchendo-o com mais e mais fórmulas matemáticas.

Aquela era a aula mais entediante que Vlad já tivera em sua vida e, boa parte dela, ele havia perdido fazendo um desenho qualquer na última folha de seu caderno. Seu corpo estava na aula, mas sua mente vagava pelos corredores do St. Hilda’s onde Rebecca devia estar naquele momento e ele, praticamente, contava os segundos para que a aula acabasse. Quando o sinal finalmente tocou, ele foi o primeiro a recolher seus materiais e sair da sala.

Chegou ao seu dormitório cinco minutos depois e já correu para o chuveiro, para tomar um banho. Tinha prometido à Rebecca que a encontraria às seis da tarde, mas estava tão ansioso que era capaz de chegar com meia hora de antecedência. Não faria isso, entretanto, pois não queria assustá-la com toda essa intensidade.

Quando saiu do banho, encontrou Mikhail jogado na cama, com cara de quem havia acabado de sair de um funeral.

– Me deixa adivinhar. – disse Vlad sentando-se num canto da cama de Mikhail – Você brigou com o Ty?

Mikhail soltou um suspiro pesado e sentou-se na cama também.

– Está tudo bem entre o Ty e eu. – disse ele.

– Então qual é o problema?

– É só Aaron Greed sendo Aaron Greed. – ele respondeu desanimado – Odeio aquele garoto!

– Bem vindo ao clube. – disse Vlad, levantando-se e seguindo até seu guarda roupas.

Mikhail olhou para Vlad, que ainda estava de toalha e abriu um pequeno sorriso. Não eram raras as vezes em que chegava ao seu dormitório e encontrava Vlad debruçado sobre um livro de Física ou Linguagem de Programação ou mexendo em alguma coisa do computador. Sempre o considerou um verdadeiro nerd, pois Vlad era estudioso e introvertido, mas sentia que aos poucos ele estava mudando.

– Me deixa adivinhar. – disse Mikhail usando as mesmas palavras de Vlad – Você vai sair com a Rebecca?

Vlad abriu um enorme sorriso e retirou de seu guarda roupas uma verdadeira montanha de peças de roupas, jogando-a sobre sua cama.

– Está tão evidente assim? – perguntou ele, contente, tentando escolher entre as mais variadas peças que havia pegado.

– Nota-se a quilômetros. – disse Mikhail levantando-se e indo até ele.

Mikhail revirou um pouco as roupas que estavam sobre a cama de Vlad e tirou de lá uma camiseta branca e uma calça jeans e um colete, ambos pretos.

– Aqui. – disse ele entregando as peças ao primo – Use essas.

Vlad avaliou as peças por um instante, depois abriu um sorriso para Mikhail e pegou as roupas de sua mão.

– Beleza! – disse ele, indo se vestir.

Mikhail voltou para sua cama sorrindo e imaginou como seria se seu primo começasse a namorar sua cunhada – embora Rebecca ainda não soubesse desse pequeno fato.

– E então? – perguntou Vlad saindo do banheiro já devidamente vestido.

– Você está uma gracinha. – disse Mikhail.

– Gracinha? – Vlad começou a rir – Que tipo de adjetivo é esse?

– Sei lá. – Mikhail deu de ombros, rindo também – É isso que o Ty costuma dizer quando pergunto para ele se a roupa ficou legal em mim.

Vlad foi até o espelho e encarou seu reflexo por um minuto, depois se dirigiu novamente para a pilha de roupas que havia em cima de sua cama.

– O que está fazendo? – perguntou Mikhail confuso.

– Sinto muito, mas ser chamado de “gracinha” é algo gay demais para mim.

Mikhail soltou uma gargalhada e jogou um dos travesseiros de sua cama em Vlad.

– Você é um idiota. – disse ele.

– E você é uma gracinha. – respondeu Vlad apertando as bochechas do primo, ainda rindo.

Ele guardou as roupas que estavam sobre sua cama e depois calçou o tênis. Não tinha falado sério quando havia dito que ia trocar de roupa e sabia que Mikhail já estava ciente disso. Eles costumavam brincar dessa forma um com o outro e sua relação era bastante agradável. Não o incomodava nenhum pouco o fato de Mikhail ser gay. Na verdade, ele era uma das melhores pessoas que Vlad conhecia e sua opção sexual não mudava isso.

Vlad terminou de se arrumar, pegou sua carteira e deu uma última olhada no espelho, aprovando o visual que Mikhail havia escolhido.

– Te vejo mais tarde. – disse a Mikhail antes de sair do quarto.

Não havia chegado nem a metade do corredor quando ouviu alguém gritar seu nome. Virou-se e viu Miranda – uma das professoras do curso de verão do qual havia participado no semestre anterior – correndo, desesperada, em sua direção.

– Vladmir, ainda bem que te encontrei. – disse Miranda quase sem fôlego – Preciso que venha comigo agora.

– O que aconteceu? – Vlad perguntou, preocupado.

– Lembra-se daquele artigo científico que você fez para o curso de verão? – perguntou ela.

– Sim. O que tem ele?

– O diretor do curso de Tecnologia da Universidade de Bordeaux se interessou muito pelo seu artigo e está aqui para vê-lo.

– O que? – Vlad perguntou confuso.

– Ao que pude entender, ele tem uma proposta para te fazer. – Miranda explicou – Ele está na reitoria, esperando por você e o reitor me pediu que eu viesse chamá-lo.

Vlad olhou em seu relógio. Aquela era uma péssima hora para Miranda resolver procurá-lo, pois faltavam apenas dez minutos para às seis horas e se ele a acompanhasse até a sala do reitor agora perderia seu encontro com Rebecca.

– Ele quer me ver agora? – perguntou Vlad.

– Sim. – Miranda respondeu animada.

Vlad olhou para ela sem saber o que fazer.

– Tem que ser agora mesmo? – ele insistiu – É que eu tenho um compromisso essa noite, professora.

Miranda olhou para ele com seriedade.

– Vladmir, isso é algo muito importante. O Sr. Flachat saiu da França e veio até aqui para te ver. Não jogue essa oportunidade fora. Será um grande acréscimo para o seu futuro profissional.

Vlad olhou o relógio mais uma vez e depois respirou fundo. Não queria cancelar o encontro com Rebecca, mas sua professora tinha razão. Aquela era uma oportunidade que podia nunca mais se repetir em sua vida e ele não podia deixá-la passar.

– Posso dar um telefonema antes de ir? – perguntou ele, por fim.

– Claro. – disse Miranda – Vou te esperar lá embaixo.

Miranda desceu as escadas e Vlad, a contra gosto, ligou para Rebecca. Ela atendeu no segundo toque:

– Oi. – disse ela animada.

– Oi. – Vlad soltou um suspiro pesado – Tudo bem?

– Sim. Estou aqui te esperando. Quando chegar me avise para que eu possa ir te encontrar.

– Err... É exatamente por isso que eu estou te ligando, Rebecca. Infelizmente não poderei ir ao nosso encontro de hoje. – ele disse com pesar.

– Por quê? – Rebecca perguntou preocupada – Aconteceu alguma coisa com você?

– Não. Eu estou bem. O que acontece é que uma das minhas professoras acaba de vir me procurar, porque um diretor da Universidade de Bordeaux está aqui em Oxford para me ver.

– Sério? Um diretor da Universidade de Bordeaux? – perguntou Rebecca admirada.

– Sim. Eu escrevi um artigo científico no curso de verão que fiz semestre passado e ele parece ter se interessado pelo meu artigo. – Vlad explicou – Tenho que ir falar com ele agora e é por isso que não poderei te ver hoje. Você me perdoa?

– Claro, Vlad. Não se preocupe com isso. – disse Rebecca – Essa é uma grande oportunidade e você tem que ir.

– Eu sei e prometo que compenso tudo assim que puder, ok? – disse Vlad, aliviado.

– Fique tranquilo. A gente se vê outro dia. – disse ela – Agora vá encontrar o diretor. Te desejo sorte.

– Obrigado.

– Não por isso. Você merece. – Rebecca sorriu.

– Então, até outra hora. – disse Vlad, contente – Beijos.

– Beijos. – disse Rebecca de forma tímida e desligou.

Vlad guardou o celular e desceu para encontrar Miranda, e então os dois seguiram para a reitoria, onde o diretor Jean-Baptiste Flachat o aguardava.

***

Rebecca olhou desanimada para o celular. Estava realmente feliz por Vlad, mas estaria mentindo se dissesse que não estava triste por não poder vê-lo naquela noite. Porém, mais triste que ela, estava Cadence.

Aaron não havia dado nenhum sinal de vida até o momento e, desde que elas haviam voltado da segunda aula, Cadence estava jogada em sua cama e Rebecca achava que ela iria começar a chorar a qualquer minuto.

Apesar de saber que Cadence estava apenas colhendo aquilo que havia plantado, Rebecca sentia-se triste por ela e, cada vez mais, odiava Aaron por tudo o que ele fazia com as pessoas. Ele era simplesmente perverso e ninguém merecia sofrer por sua causa.

Rebecca olhou tristemente para Cadence e, então, teve uma ideia.

– Cadence. – ela a chamou.

– O que é? – Cadence perguntou num tom completamente desanimado.

– Estive pensando e... Que tal a gente sair essa noite e ir a algum lugar legal? – disse Rebecca cautelosa.

– Você não ia sair com aquele garoto hoje? – perguntou Cadence.

– Sim, mas ele teve um compromisso de ultima hora.

– E eu sou sua última opção? – Cadence retrucou, virando-se para ela.

Seu tom era rude, mas Rebecca sabia muito bem que toda aquela raiva na verdade não se dirigia a ela. Cadence só estava triste por Aaron não tê-la procurado.

Rebecca sentou-se na cama junto de Cadence e ela lançou-lhe um olhar frio, ao qual Rebecca ignorou.

– Cadence o que aconteceu entre você e o Aaron não é minha culpa. – disse Rebecca – Não adianta ficar com raiva de mim.

Cadence a olhou com raiva durante alguns segundos, mas logo seus olhos ficaram marejados de lágrimas e ela começou a chorar.

– Não fique assim, Cadence. – disse Rebecca, aproximando-se um pouco mais dela e segurando sua mão – Ele não merece as suas lágrimas.

– Ele não vai mais me procurar, não é? – Cadence a abraçou.

Rebecca não respondeu nada. Apesar de ter quase certeza que Aaron não iria mais procurá-la, não queria fazê-la sofrer mais por ouvir a verdade. Seu silêncio, entretanto, apenas fez Cadence chorar ainda mais.

– Eu sou muito burra, Becca! – Cadence exclamou – Eu mal o conhecia e fui para a cama com ele. Como pude ser tão idiota?

Rebecca olhou para ela por um instante sem saber o que dizer. Aquilo não era algo em que ela pudesse dar uma opinião ou um conselho. De fato, Cadence havia sido imprudente por ter ido para a cama com Aaron no mesmo dia em que o conheceu, mas Rebecca não iria jogar isso em sua cara. Ela já estava com problemas o bastante para ainda precisar que Rebecca lhe dissesse “eu avisei”.

– Cadence, não fique pensando nisso. O que está feito está feito e é errando que se aprende, não é? – Rebecca tentou consolá-la – O importante é que agora você sabe que tipo de pessoa ele é e não vai mais cair tão fácil nas mentiras dele.

Cadence assentiu com um leve aceno de cabeça, ainda chorando e Rebecca a abraçou um pouco mais forte.

– Venha dar uma volta comigo, ok? Vai te ajudar a esquecê-lo um pouco. – sugeriu.

Cadence olhou para ela indecisa, enxugando os olhos.

– Vamos Cadence. Vai te fazer bem. – Rebecca a incentivou – Confie em mim.

– Ok. – Cadence concordou um pouco a contra gosto – Me dê um minuto para me arrumar.

Cadence seguiu para o banheiro onde lavou o rosto, escovou os dentes, fez uma maquiagem básica e penteou os cabelos. Depois vestiu uma calça jeans azul e uma camiseta branca curta – algo que certamente seus pais desaprovariam –, colocou um casaco de lã rosa e calçou um tênis.

– Muito bem. Aonde vamos? – perguntou ela abrindo um pequeno sorriso.

Rebecca pensou por um minuto. Não conhecia lugar algum em Oxford, exceto os que tinha frequentado em companhia de Ty ou Vlad e não tinha certeza se Cadence gostaria desses lugares.

– Bem, que tal o parque Bat Willow Meadow? – ela sugeriu – Meu irmão já me mostrou algumas fotos de lá. É um parque bonito e fica bem próximo ao Rio Cherwell.

– Talvez seja legal. – Cadence concordou – Vamos lá, então.

Rebecca pegou seu casaco e então se dirigiu com Cadence até o parque Bat Willow Meadow, onde caminharam em silêncio pelas margens do Rio Cherwell observando as pessoas ali.

Oxford não era um lugar com muitas festas e até mesmo os bares eram bastante formais, seguindo o estilo reservado dos britânicos, por isso os jovens preferiam se reunir nos parques e festejar a sua maneira. Boa parte das pessoas estava reunida em grupos animados ao redor de fogueiras, conversando ou namorando e outros praticavam algum tipo de esporte, dos quais o principal parecia ser uma partida de críquete improvisada.

– Esse povo é muito animado. – disse Rebecca quebrando o silêncio que havia ali – Amanhã é um dia letivo e, ainda assim, eles estão aqui.

– Você nem pode criticar, afinal você também está aqui. – disse Cadence.

– Não me julgue. – disse Rebecca sorrindo.

Cadence também sorriu um pouco e depois parou, encarando Rebecca.

– Me desculpe. – disse ela envergonhada – Eu não devia ter te tratado daquela forma. Você só queria me alertar, mas eu fui idiota e não quis te ouvir.

– Não se preocupe com isso. – Rebecca a abraçou – Apenas esqueça e aproveite a noite.

Cadence retribuiu ao abraço e sorriu para ela.

– Obrigada, Becca.

– Não por isso. – disse Rebecca soltando-a – Está a fim de apostar uma corrida? A última a chegar à ponte paga o lanche amanhã.

– Espero que tenha dinheiro, então. – disse Cadence, disparando na frente de Rebecca.

– Ei! – Rebecca gritou para ela – Isso não vale.

– Vale sim. – Cadence gritou em resposta, já sumindo por entre as árvores do parque.

Rebecca apertou o passo para tentar alcançá-la, mas não precisou se esforçar muito. Alguns metros adiante Cadence já havia parado, encostando-se junto a uma árvore para recuperar o fôlego.

– Não acredito que já se cansou. – disse Rebecca rindo dela.

– Atletismo nunca foi meu esporte favorito. – Cadence disse com dificuldade – Sou adepta do sedentarismo.

– Então, você paga o lanche amanhã. – disse Rebecca, divertida.

– Faço qualquer coisa para não ter de correr mais. – Cadence entrelaçou o braço ao dela – Venha, vamos andando mesmo.

As duas seguiram pelas margens do rio, rindo da falta de aptidão física de Cadence e conversando animadas sobre os mais variados esportes existentes, mas assim que se aproximaram da ponte Cadence estacou e o sorriso que havia em seus lábios sumiu instantaneamente, sendo substituído por uma expressão de tristeza.

Rebecca olhou para ponte, avistando a conhecida figura de Aaron. Ele estava acompanhado de mais três garotos que, assim como ele, seguravam uma garrafa de vodca e pareciam bastante animados.

– Que droga! – Rebecca exclamou virando-se para Cadence – Não sabia que ele estava aqui.

– Tudo bem. – disse Cadence sem desviar o olhar da ponte – Não tinha como você saber.

Antes que Rebecca pudesse sugerir à Cadence que elas dessem meia volta e saíssem dali sem serem notadas, ela ouviu gritos vindos da ponte e virou-se a tempo de ver Aaron empurrar um dos garotos que estava com ele, dentro do rio.

O corpo do garoto fez um barulho estrondoso ao chocar-se com a água gelada do Rio Cherwell e passaram-se uns cinco segundos antes que ele emergisse e começasse a gritar por ajuda.

Ao invés de ajudá-lo, Aaron apenas debruçou-se sobre a ponte e olhou o garoto se debater na água.

– Foi um mergulho incrível, Edmond! – Aaron gritou para ele, arrancando assovios e risadas dos outros dois garotos que estavam com ele sobre a ponte.

Cadence olhou para a cena horrorizada e antes mesmo pudesse dizer qualquer coisa sobre aquilo, Rebecca já estava correndo em direção ao rio retirando o casaco preto que usava.

– Rebecca! – Cadence gritou para ela, correndo em sua direção desesperada – O que vai fazer?!

Rebecca retirou os tênis e pulou no rio, nadando rapidamente em direção ao garoto, que se debatia em pânico e já havia submergido algumas vezes e engolido um pouco de água.

– Calma, eu já vou te tirar daí. – disse Rebecca para o garoto – Segure-se em mim.

Ela alcançou o garoto e o segurou com força, nadando com ele de volta para a margem com um pouco de dificuldade. Cadence a ajudou a retirar o garoto de dentro do rio e depois ajudou Rebecca a sair.

– Pegue o meu casaco. – pediu Rebecca tremendo de frio.

Com a aproximação do outono, a temperatura havia caído consideravelmente e a água do rio Cherwell estava absurdamente fria naquela noite.

Rebecca debruçou-se sobre o garoto pálido, que possuía cabelos e olhos castanhos claros e cujos lábios finos estavam roxos de frio, e avaliou sua situação. Ele estava sem fôlego e tremendo muito, mas por sorte ainda estava consciente. Rebecca pressionou um pouco seu peito e ele tossiu, expelindo a água que havia engolido e depois fechou os olhos tentando acalmar a respiração.

No Miss Porter’s School, onde Rebecca havia estudado durante o colegial, as aulas de primeiros socorros e os treinamentos, que eram realizados uma vez por mês, eram obrigatórios. Muitas vezes Rebecca havia reclamado dessas obrigações, mas agora estava grata por ter aprendido alguma coisa.

Cadence voltou com o casaco e Rebecca jogou-o sobre o corpo do garoto para aquecê-lo um pouco.

– Consegue falar? – ela perguntou, sentando-se ao lado do garoto.

Ele assentiu brevemente.

– Qual é o seu nome?

– Ed-Edmond. – respondeu ainda tremendo um pouco.

– Muito bem, Edmond. Consegue se mexer?

Edmond se remexeu um pouco e depois fez uma careta de dor e respirou fundo.

– Acho que quebrei a perna. – disse ele com dificuldade.

Rebecca apalpou sua perna verificando se havia alguma fratura e ele soltou um grito abafado.

– Desculpe. – disse ela retirando a mão da perna dele – Vamos chamar uma ambulância para você. Você vai ficar bem.

– Obrigado. – disse ele, enroscando-se mais no casaco dela, para se aquecer.

Rebecca levantou-se e enfiou as mãos no bolso de sua calça, praguejando logo em seguida. Havia entrado no rio de forma tão desesperada, que tinha se esquecido de retirar seu celular do bolso e, agora, o aparelho não funcionava mais.

– Pode deixar que eu ligo. – disse Cadence, pegando seu próprio celular e telefonando para a emergência.

Rebecca agradeceu e depois seguiu furiosa em direção à ponte, de onde Aaron a observava como se nada tivesse acontecido. Ela não conseguia acreditar que ele fosse mesmo capaz de deixar o garoto se afogar sem mover nenhum músculo para ajudá-lo.

– Você nada muito bem. – disse Aaron assim que ela se aproximou dele.

Os dois garotos ao lado dele soltaram algumas risadas por causa do comentário, mas Aaron estava impassível. Seus olhos não revelavam nada, nem mesmo uma sombra de arrependimento, o que deixou Rebecca ainda mais irritada.

– Qual é o seu problema?! – ela exclamou, dando um empurrão em Aaron e encarando-o com raiva.

Ele perdeu o equilíbrio e cambaleou um pouco para trás sendo amparado pelos outros dois garotos, que olharam para Rebecca incomodados. Ambos tinham pele clara e eram muito altos e corpulentos, como os jogadores dos times de futebol americano que Rebecca conhecia. Um deles era loiro e possuía olhos azuis muito claros e orelhas de abano, enquanto o outro – que parecia ser o mais irritável dos dois – tinha cabelos e olhos negros e estava com a barba por fazer.

Aaron se recompôs e soltou-se dos amigos, depois abriu um grande sorriso para Rebecca.

– Acha que eu estou brincando com você? – Rebecca gritou para ele – Você podia ter matado aquele garoto.

– Ele sabe nadar. – disse Aaron descartando a possibilidade com um aceno de mão.

– Ele fraturou a perna, Aaron!

Aaron olhou para ela por um instante e depois começou a rir como se Rebecca tivesse acabado de lhe contar uma grande piada.

– É assim que você trata os seus amigos? – ela perguntou indignada com sua falta de sensibilidade.

Aaron riu ainda mais com o comentário dela e os outros dois garotos o acompanharam. Dava para ver que todos os três estavam bêbados, mas a embriaguez não era desculpa para tamanha crueldade.

– Edmond Harvey não é nosso amigo. – disse o garoto loiro, quando finalmente conseguiu parar de rir – Ele é só um idiota que achou que podia entrar para a turma.

– Nossa! Então. fico feliz por ele não ter entrado para a turma de vocês, porque vocês são três grandes imbecis! – Rebecca retrucou.

O garoto de cabelos negros olhou para Rebecca furioso e fez menção de avançar sobre ela, mas Aaron estendeu o braço direito, interceptando seu movimento. Então ele apenas bufou e virou as costas para Rebecca, afastando-se com o garoto loiro para o lado contrario da ponte, resmungando.

Eles pareciam dois animais selvagens e perigosos, mas ainda assim respeitavam a presença de Aaron, como se fossem seus subordinados.

– São seus cães de caça? – Rebecca perguntou a Aaron preenchendo cada palavra com sarcasmo.

Aaron olhou para os garotos, avaliando e depois se voltou para Rebecca com um sorriso cínico.

– Eles parecem mesmo dois Pit Bulls, não é?

Rebecca bufou.

– Você não sente nenhum remorso? – ela indagou – Como consegue dormir a noite depois de tudo o que faz com as pessoas?

– Ah, é algo bem simples. – disse Aaron aproximando-se dela – Eu apenas me deito, fecho os meus olhos e aí... Durmo. Posso te mostrar pessoalmente como isso funciona, se você aceitar passar a noite comigo.

Rebecca tentou dar um tapa na cara de Aaron, mas ele segurou o pulso dela com força, antes que ela conseguisse acertá-lo.

– Você está muito estressada, Rebecca. Não devia se irritar tão facilmente. – ele a puxou para junto de si – Para a sua sorte, eu sei uma forma de te deixar bem calma. Quer que eu te mostre?

Rebecca tentou acertá-lo com a outra mão, mas novamente Aaron a segurou, então ela começou a tentar chutá-lo, até que ele finalmente a soltou. Antes que ela pudesse pensar em avançar sobre ele de novo e socá-lo, Cadence – que já havia telefonado para a emergência e tinha ido ao seu encontro na ponte – a segurou.

– Não vale a pena, Rebecca. – disse ela lançando um olhar furioso e, ao mesmo tempo, magoado para Aaron.

– Boa noite, Cady. – disse Aaron, abrindo mais uma vez seu melhor sorriso cínico.

– Idiota. – Cadence retrucou, saindo da ponte com Rebecca.

Aaron fingiu um biquinho.

– Quanta falta de educação, Cady. Não foi assim que você me tratou ontem quando estava na minha cama. – disse ele – Foi uma noite bastante agradável, não foi? Eu até gravei tudo.

– Você fez o que? – perguntou Cadence, virando-se para ele nervosa.

Aaron sorriu, satisfeito com a reação dela.

– Não se preocupe. – disse ele – É apenas para o meu arquivo pessoal. Prometo não mostrar a ninguém se você ficar quietinha.

Cadence tentou avançar sobre ele e, dessa vez, foi Rebecca quem teve de segurá-la.

– Ele está mentindo, Cadence. – disse Rebecca lançando um olhar furioso para Aaron – Só está tentando irritar você.

– Admito que isso é bem divertido, mas garanto que os gemidos da Cadence no meu vídeo são verdadeiros.

– Seu desgraçado! – Cadence gritou para ele e Rebecca precisou de toda a força que tinha para segurá-la.

– Não fique brava, Cady. Não é nada pessoal. Eu apenas tenho uma memória ruim e preciso de recordações, sabe? – ele sorriu – Tenham uma ótima noite, garotas.

Aaron virou as costas para elas e seguiu em direção aos amigos que o aguardavam na margem oposta do rio e, apenas nesse momento, Rebecca reparou que também havia três meninas junto com os garotos, esperando por ele do outro lado da ponte. Cadence o xingou uma vez mais, mas ele apenas se virou para mandar um beijo para ela antes de passar um braço ao redor dos ombros da bela morena que integrava aquele grupo e sumir por entre as árvores do parque.

– Eu odeio ele! – disse Cadence caindo no choro e abraçando-se à Rebecca.

– Eu sei como é, mas agora não há nada que você possa fazer a não ser evitá-lo. – disse Rebecca dando dois tapinhas leves em suas costas – Venha, vamos ajudar o Edmond.

Elas voltaram para junto de Edmond, onde Rebecca calçou novamente seus tênis e aguardaram até que a ambulância chegou. A pedido dele – que parecia estar com medo de Aaron e seus amigos –, elas também inventaram uma desculpa para os socorristas, dizendo que ele havia se desequilibrado na ponte e caído no rio.

Depois que Edmond foi levado para o hospital, elas voltaram para seu dormitório. Cadence jogou-se na cama, chorando e Rebecca a consolou até ela adormecer e depois tirou a roupa molhada e foi tomar um banho.

Demorou a dormir, pois ainda estava com todos os acontecimentos daquela noite martelando em sua cabeça. Perguntava-se até que ponto Aaron podia chegar em suas maldades.

Notas finais
E então, alguém aí percebeu o que foi acrescentado a esse capítulo? Não foi nada muito grandioso, só um pequeno detalhe. Então... Vejo vocês amanhã, quando eu postar os outros capítulos que editei =D Beijocas.