Wake Me Up
24 Um Beijo de Boa Noite
Notas iniciais
Quando sua aula de Desenvolvimento Interpessoal terminou, Rebecca praticamente correu para fora da sala. Seu teste pratico de direção havia sido remarcado para aquela segunda-feira e ela tinha apenas quarenta minutos para chegar ao local onde ele aconteceria, então, passou rapidamente em seu dormitório para guardar seus materiais e trocar de roupa e seguiu direto para a Park End Street, rezando para não encontrar nenhum problema pelo caminho.
Chegou praticamente em cima da hora marcada e enquanto seguia o percurso indicado por seu instrutor, Rebecca se esforçou para se concentrar nas ruas, semáforos e placas de sinalização a sua frente. Por causa de seu nervosismo, o teste pareceu durar muito mais do que deveria, mas quando ele enfim terminou, Rebecca se sentiu satisfeita ao saber que tinha sido aprovada.
Ela passou alguns minutos preenchendo o formulário para adquirir a Carta de Condução provisória e depois seguiu para o The Big Bang – um restaurante aconchegante localizado na Castle Street – onde havia marcado de se encontrar com Margareth para almoçar.
Quando chegou ao The Big Bang, Margareth já estava acomodada em uma das mesas internas do restaurante, bebendo uma pequena taça de vinho enquanto analisava o cardápio que estava aberto a sua frente.
– Boa tarde! – disse Rebecca aproximando-se sorrateiramente de Margareth que quase deixou a taça de vinho cair por causa do susto.
– Você e seu irmão um dia vão acabar me matando! – Margareth exclamou sorrindo – Eu sou velha, Becca, meu coração não aguenta essas coisas.
– Deixe de besteira, Margareth! – Rebecca lhe deu um beijo rápido na bochecha e se sentou à mesa, abrindo o guardanapo de pano sobre o colo – Você está na flor da idade. Não é um susto bobo desses que vai te matar.
Margareth sorriu.
– E então, como foi o teste? – ela perguntou ansiosa.
Rebecca olhou para Margareth com uma expressão triste e balançou a cabeça de forma negativa.
– Oh, Becca. Eu sinto muito. – Margareth a consolou, estendendo a mão para tocar seu braço carinhosamente.
Rebecca assentiu e a encarou por um momento, fazendo cena.
– Eu também sinto muito. – disse abrindo um sorriso logo depois – Afinal, os pedestres de Oxford terão que se preocupar com mais uma motorista louca nas ruas agora.
Margareth se colocou de pé no mesmo instante, levando as mãos à boca.
– Ah, meu Deus! Você passou?
– Sim. Eu passei. – Rebecca respondeu quase cantarolando e pondo-se de pé também – Ganhei uma Carta de Condução provisória para dirigir enquanto minha carteira de motorista não chega. Tive que desembolsar vinte libras por ela.
Margareth voou para cima de Rebecca e a abraçou com força, fazendo os outros clientes do restaurante olharem para elas um tanto assustados. Os ingleses não costumam demonstrar tanto afeto assim, por isso a cena das duas chamava a atenção das pessoas que estavam ali.
– Eu vou ligar para os seus pais hoje mesmo. – Margareth disse contente – Acho que vou fazer uma festa de comemoração para você no meu apartamento. Pode chamar todos os seus amigos e o Vlad...
– Calma, Margareth. – Rebecca a interrompeu sorrindo – Eu só tirei a carteira de motorista, não desenvolvi a cura para o câncer, ok? Não precisa de tudo isso.
Margareth riu.
– Ok. Acho que me empolguei um pouquinho. – disse ela abraçando Rebecca mais uma vez e voltando a se sentar – Estou tão feliz por você, Becca.
– Obrigada. – Rebecca se sentou também e apertou a mão de Margareth sobre a mesa – Vamos almoçar, então? Estou morrendo de fome.
Margareth concordou com um aceno e Rebecca chamou o garçom para anotar os pedidos.
Depois do almoço elas pegaram um táxi e Margareth deixou Rebecca na universidade antes de seguir para seu apartamento, ainda com um sorriso de orgulho estampado no rosto.
Como já tinha perdido metade da segunda aula para fazer o teste de direção, Rebecca decidiu ir para a biblioteca estudar ao invés de ir para o dormitório, pois sempre que ficava muito tempo desocupada, sua mente vagava pelas lembranças da discussão que tinha tido com Aaron e ela não queria que essas lembranças estragassem o momento de felicidade em que estava.
Havia passado o fim de semana inteiro remoendo cada palavra que dissera a ele e, cada vez que fazia isso sentia-se mais culpada. Não é que achasse que Aaron não merecesse todas aquelas ofensas – afinal, se havia alguém no mundo que havia feito por merecê-las, esse alguém era ele –, mas ainda assim, a expressão triste que tomou conta do rosto dele depois da briga a atormentava a cada segundo e o fato de que, desde então, ela nunca mais o tinha visto não ajudava nem um pouco.
Na biblioteca, Rebecca se manteve ocupada lendo livros de Literatura Inglesa e Psicologia e, apenas às oito da noite, quando Vlad telefonou, foi que ela devolveu os livros à prateleira e saiu da biblioteca.
Eles haviam se encontrado, logo depois que ela saiu do apartamento de Aaron e tinham feito as pazes. Vlad pediu desculpas por ter se irritado tanto com ela e por não ter compreendido seus motivos para ocultar a verdade dele e, a própria Rebecca, mais uma vez, pediu desculpas por ter mentido e, assim, eles haviam resolvido o desentendimento e voltado a ficar bem um com o outro. Aliás, Vlad tinha sido a única coisa que impedira Rebecca de surtar no final de semana, pois sempre que ela ficava sozinha e começava a devanear sobre a discussão que tivera com Aaron, Vlad aparecia e a convidava para sair. Era quase como se ele pudesse sentir que ela precisava de uma distração e Rebecca só esperava que ele não pudesse sentir o motivo pelo qual ela precisava disso.
– Boa noite, amor. – Vlad disse assim que Rebecca atendeu o telefone – Como foi o teste de direção?
– Eu passei. – Rebecca respondeu feliz – Já posso dirigir carros ingleses agora.
– Puxa vida! Coitados dos pedestres dessa cidade. – ele brincou – Que tal a gente sair para comemorar?
– Comemorar o fato de que mais pedestres serão atropelados? – Rebecca perguntou sorrindo – É. Parece uma boa ideia.
Vlad sorriu também.
– Ótimo. Você escolhe o lugar.
– Vamos ao La Tasca! – Rebecca disse decidida.
– O La Tasca? – Vlad se surpreendeu – Isso é sério?
– Claro que é.
– Mas você nem bebe. Porque quer ir a um bar? – ele perguntou confuso.
– Ouvi dizer que eles têm os melhores barquetes de queijo e creme branco da cidade e que o coquetel de abacaxi e menta é maravilhoso. – Rebecca explicou.
– Barquetes de queijo e creme branco... – Vlad repetiu sorrindo – Você é a primeira pessoa que eu conheço que vai a um bar por causa dos aperitivos ao invés das bebidas.
– E é isso que me torna especial. – Rebecca disse em um tom divertido – Estou saindo da biblioteca agora. Podemos nos encontrar daqui há uma hora, mais ou menos?
– Combinado.
– Até daqui a pouco, então.
– Até. – Vlad respondeu e desligou.
Rebecca guardou o celular na bolsa ainda sorrindo e envolveu o próprio corpo com os braços para se proteger do frio, enquanto corria de volta ao St. Hilda’s. Ao passar pelo Centro de Recreação da Christ Church College, um Range Rover Evoque azul, parado no estacionamento, chamou sua atenção e ela diminuiu o passo enquanto sondava o interior do veículo a procura do condutor.
Os vidros escuros do carro e a iluminação escassa do estacionamento dificultavam sua visão, por isso ela se aproximou e se encostou nas janelas do carro, colocando as mãos em concha ao redor dos olhos para enxergar melhor a parte interna do veículo.
– Se estiver pensando em roubar, saiba que ele é rastreado por satélite. – Aaron disse com uma voz arrastada, fazendo Rebecca se sobressaltar e se afastar do carro rapidamente.
Ela olhou ao redor, procurando o local de onde sua voz tinha partido e logo o avistou sentado num meio fio não muito longe dali.
Aaron usava uma blusa de frio cinza com capuz, uma calça esportiva preta e o mesmo par de All Star vermelho que estava usando no dia em que a atropelara. Sua blusa de frio estava aberta deixando a mostra todo o seu peito coberto de tatuagens negras, já que ele não usava nenhuma camiseta por baixo dela, e em suas mãos havia uma garrafa pela metade de uísque Jim Beam Black.
Rebecca balançou a cabeça negativamente ao ver seu estado e, depois de soltar um longo suspiro, seguiu até ele.
– Ainda nem são nove horas e você já está bêbado? – ela disse calmamente ao se aproximar dele.
Aaron ergueu a cabeça apenas o suficiente para olhar para ela e depois fechou a cara.
– O quanto eu bebo e a que horas não é um problema seu. – ele respondeu de forma rude.
– Não seja mal educado, Aaron. – Rebecca o repreendeu.
– Então, não me irrite. – ele retrucou esforçando-se para se levantar.
Rebecca observou enquanto ele se colocava de pé com dificuldade e seguia um tanto cambaleante em direção ao carro, retirando as chaves do bolso da calça.
– Isso é sério?! – ela perguntou enquanto o seguia – Você acha mesmo que pode dirigir nesse estado?
Aaron a ignorou e tentou a abrir a porta do carro, mas antes que ele fizesse qualquer progresso, Rebecca se colocou a sua frente e se encostou à porta do carro.
– Não vou deixar você dirigir assim. – ela disse estendendo a mão para ele – Me dê a chave.
– Não. Agora saia da minha frente.
– Eu não vou sair. Você quer se matar ou o que?
Aaron olhou para ela com raiva.
– É o meu carro e a minha vida, e eu faço com os dois o que eu quiser. Agora saia da minha frente ou vou te tirar daí a força!
– Faça o seu pior. – Rebecca o provocou.
Aaron semicerrou os olhos para ela e tentou afastá-la do carro, mas Rebecca se manteve firme onde estava e tudo o que ele conseguiu foi perder o equilíbrio e cair sentado no asfalto, fazendo a garrafa de uísque se estilhaçar no chão.
Rebecca revirou os olhos e estendeu a mão para ajudá-lo a se levantar, mas Aaron recusou a ajuda e, com muito esforço, se colocou de pé novamente.
– Você me fez perder meia garrafa de uísque. – ele reclamou, olhando para os cacos de vidro no chão.
– Que ótimo. – Rebecca o encarou com seriedade – Eu realmente fico feliz por evitar que você fique ainda mais bêbado. Se é que é possível ficar mais bêbado do que você já está.
– Oh, inferno! – Aaron exclamou enraivecido – Porque você não vai cuidar da sua vida, Rebecca?
– Porque nesse momento é a sua que me preocupa. – Rebecca respondeu calmamente – Você mal está se aguentando em pé, Aaron. Na melhor das hipóteses você vai enfiar esse carro num poste antes de conseguir chegar ao alojamento da Trinity.
– Eu não vou para a Trinity. Vou para o meu apartamento.
Rebecca arregalou os olhos para ele e depois fechou a cara.
– Nem morta eu vou deixar você entrar nesse carro e tentar dirigir até o seu apartamento. – ela disse decidida – Eu te levo até lá. Me dê as chaves.
Aaron soltou uma gargalhada completamente desprovida de humor.
– Nem morto eu vou ter dar essas chaves.
– É mais fácil você bater o carro que eu. – Rebecca retrucou.
– Não interessa. – Aaron deu de ombros – Esse é o meu carro. Não vou deixar uma garota dirigir.
Rebecca olhou para ele indignada.
– Você é muito machista, sabia?
– Sabia. Agora saia de perto do meu carro e me deixe ir embora.
– Não!
Aaron bufou.
– Você é um verdadeiro pé no saco.
– Você também não é a pessoa mais legal que eu conheço. – disse Rebecca – Agora me dê as chaves.
– Nunca! – Aaron respondeu cruzando os braços.
Dessa vez foi Rebecca quem bufou.
– Eu só estou tentando te ajudar, Aaron. Pare de ser tão imbecil!
Aaron cerrou os punhos.
– Eu não pedi a porra da sua ajuda. – ele disse com raiva – Não preciso de você, nem de ninguém. Então, pare de fingir que se importa, volte para a droga do seu castelo da Barbie e me deixa em paz, tá legal?!
Rebecca parou, encarando-o com uma expressão de choque e Aaron retribuiu, encarando-a com uma expressão de fúria. Eles permaneceram daquela forma, encarando um ao outro em silêncio e sem piscar, como se estivessem testando sua resistência, até que, por fim, Rebecca cedeu e desviou o olhar.
– Sei o que está tentando fazer. – ela disse calmamente – Você está bravo e magoado por causa das coisas que eu te disse e agora está tentando me atingir para que eu saiba como você está se sentindo, mas isso não é necessário, Aaron. Eu passei o fim de semana inteiro me recriminando pelo que fiz com você e estou tão brava e magoada comigo quanto você está. – Rebecca pousou a mão sobre o peito, solene – A pessoa que te disse aquelas coisas horríveis não é quem eu sou de verdade. Eu me envergonho muito de tudo o que fiz e quero que saiba que eu sinto muito, mas, se isso não for o bastante para você me perdoar, eu vou entender. Só peço que você deixe esse seu orgulho um pouco de lado essa noite e que me deixe te levar para casa. Eu realmente não quero que dirija bêbado, Aaron. Não quero que se machuque.
Rebecca terminou seu discurso e encarou Aaron novamente, enquanto aguardava por uma resposta dele. O silêncio pareceu se arrastar por uma eternidade, até que, por fim, ele desviou os olhos dos dela e apertou a chave entre os dedos.
– Tem razão. – disse dando de ombros – Isso não é o bastante. Agora saia da minha frente.
Sem saber que outro argumento poderia usar para convencê-lo, Rebecca suspirou e, devagar, se afastou do carro e abriu a porta para Aaron, que entrou no veículo sem nem ao menos olhar em sua cara.
– Por favor, tenha cuidado. – ela disse de forma triste antes de fechar a porta e voltar a seguir seu caminho com passos lentos.
Aaron colocou a chave na ignição e olhou para Rebecca através do espelho retrovisor. Um segundo depois ele retirou a chave da ignição, abriu a porta e desceu do carro.
– Rebecca. – chamou, aumentando o tom de voz para que ela o escutasse.
Rebecca parou e se virou e foi pega de surpresa quando Aaron arremessou a chave do carro em sua direção, mas antes que a chave pudesse cair no chão, ela se inclinou um pouco para o lado e a segurou.
– Se arranhar o meu carro eu não vou te perdoar. – Aaron disse antes de seguir para o lado do passageiro.
Rebecca abriu um largo sorriso e correu para o carro, recebendo um pequeno aceno de aprovação de Aaron quando se sentou no banco do motorista e deu a partida.
Ela seguiu para o apartamento de Aaron usando o mesmo caminho que os taxistas costumavam fazer e dez minutos depois estacionou em frente ao prédio dele. Precisou pedir a ajuda do recepcionista para levar Aaron até seu apartamento, pois parecia que, durante a viagem, o organismo dele tinha conseguido absorver todo o álcool que ele havia ingerido, piorando ainda mais seu estado de embriaguez.
Rebecca agradeceu ao recepcionista quando ele colocou Aaron no sofá e, depois que ele saiu, ela fechou a porta e se sentou ao lado de Aaron.
Antes que pudesse dizer alguma coisa, Aaron se levantou e correu para o banheiro, cambaleando e esbarrando nos móveis que encontrou pelo caminho e Rebecca seguiu rapidamente atrás dele, preocupada. Quando chegou ao banheiro, Aaron estava debruçado sobre a privada, vomitando.
– Eu acho que eu vou morrer. – ele disse um pouco sem fôlego – Pode avisar ao Ty que ele já pode comprar os fogos.
Rebecca revirou os olhos.
– Você não vai morrer, Aaron. Só está muito bêbado. Aliás, você tomou aquela garrafa de uísque sozinho?
Aaron assentiu debilmente e Rebecca deu um passo para dentro do banheiro, mas parou quando ele ergueu a palma da mão para ela.
– Não entra aqui. – ele disse com dificuldade – Isso tá nojento.
– Tudo bem. Eu não importo. – ela entrou no banheiro, ignorando os protestos dele e se abaixou ao seu lado – Você não é a primeira pessoa que eu vejo vomitar e eu não vou ficar aqui fora, sem fazer nada, enquanto você está morrendo aí dentro. – completou, pegando um pedaço de papel higiênico para limpar os cantos de sua boca que estavam um pouco sujos – Precisa tomar cuidado, Aaron. Uma garrafa de uísque é muita coisa para o seu organismo processar.
– Eu sei.
Ele voltou a vomitar e Rebecca passou os dez minutos seguintes ajudando-o. Quando finalmente pareceu que ele já tinha colocado para fora tudo o que tinha no estômago, Rebecca acionou a descarga da privada e Aaron se deitou no chão do banheiro, exausto.
– Você precisa de um banho. – disse Rebecca secando o suor que escorria da testa dele com uma pequena toalha branca, mas Aaron não se mexeu – Aaron? – ela o chamou, preocupada, e tocou o rosto dele com as mãos frias, mas como ele continuou imóvel, ela o sacudiu um pouco pelos ombros – Aaron?!
– Eu tô bem. – ele abriu os olhos, meio grogue e Rebecca suspirou, aliviada, erguendo quatro dedos diante do rosto dele.
– Quantos dedos tem aqui? – perguntou.
Aaron olhou para a mão dela por um longo momento, parecendo contar seus dedos erguidos e, por fim, respondeu:
– Tem mais de um.
Rebecca sorriu e deu dois tapinhas na bochecha dele.
– Isso mesmo, garoto. Tem mais de um. – ela o felicitou, brincalhona – Acha que consegue se levantar?
Ele se sentou no chão e, depois, tentou se colocar de pé, segurando-se ao pequeno armário que havia no banheiro, mas temendo que ele se machucasse, Rebecca se apressou em ajuda-lo, passando um dos braços dele ao redor de seus ombros.
– Você está um caco. – ela comentou com um meio sorriso – Não entendo porque as pessoas fazem isso consigo mesmas. Quero dizer, qual é a graça de beber para depois ficar passando mal desse jeito?
– Acho que não é para ter graça. – Aaron respondeu em voz baixa – Será que você pode ligar o chuveiro para mim?
– E você consegue tomar banho sozinho?
Ele a encarou por um breve instante e depois sorriu.
– Olha, se quiser tomar banho comigo, não precisar inventar desculpas, tá? É só pedir que eu deixo.
– Ai, não. Credo. – Rebecca fez uma leve careta e riu – Só estou com medo de você escorregar ou se afogar. Sei lá. Você mal está se aguentando em pé.
– Eu vou ficar legal. – Aaron prometeu. Ele olhou para ela por um breve momento e depois afastou uma mecha de seus cabelos castanhos para trás de sua orelha – Gosto de você, sabia?
Rebecca sentiu a respiração falhar por um segundo, mas se obrigou a continuar andando até o box, com o braço de Aaron ainda apoiado em volta de seus ombros.
– Gosta, é? – perguntou, soltando-o rapidamente para ligar o chuveiro.
– Você me faz rir. – ele explicou distraidamente, enquanto retirava a blusa de frio – Quase ninguém me faz rir de verdade. Eu gosto... da sua cara de brava e do jeito como você enruga o nariz quando se irrita com algo. – ele tocou a ponta do nariz dela levemente – Isso é... fofo.
Rebecca olhou para ele, abismada com as observações que ele havia acabado de fazer sobre ela e Aaron sustentou seu olhar por um breve instante, antes de desviar os olhos dos seus e se encostar à parede, abaixando-se para descalçar os tênis, com certa dificuldade.
– Acho melhor você sair agora. – ele alertou – Preciso tirar essa calça e não me responsabilizo pelo que você vai ver depois.
– Tudo bem. – Rebecca assentiu e se afastou dele, retirando-se do banheiro rapidamente – Se precisar de ajuda, grita. – ela instruiu e depois fechou a porta.
Rebecca passou rapidamente na sala para pegar o celular e depois voltou para se sentar em frente à porta do banheiro com medo de estar longe demais para prestar socorro caso Aaron sofresse algum acidente enquanto tomava banho.
Ela olhou para o celular por um momento, enquanto criava coragem para telefonar para Vlad, pois, depois da discussão que tivera com Aaron, ela havia prometido a si mesma que não mentiria mais para ninguém e, sendo assim, agora teria que contar a Vlad onde estava e o porquê, e não sabia como ele reagiria quando soubesse.
Era fato que ele odiava Aaron mais que tudo no mundo e Rebecca tinha quase certeza de que ele teria um ataque quando soubesse que ela estava justamente no apartamento dele. Por fim, depois de travar uma guerra contra a parte de si que queria voltar a mentir, ela suspirou e ligou para Vlad.
Ele atendeu rapidamente.
– Oi. Já está pronta? – ele perguntou sorridente do outro lado da linha.
– Não. Eu... tive um imprevisto e vou me atrasar. Desculpe.
– Você está bem? – a voz de Vlad assumiu um tom de preocupação.
– Estou. – Rebecca respondeu devagar, tomando cuidado com a escolha das próximas palavras que diria – É o Aaron que não está muito bem.
Vlad ficou em silêncio enquanto parecia absorver o que ela tinha dito e Rebecca esperou pela reação dele, sentindo-se nervosa.
– Eu não entendi. – ele disse por fim – O que o Aaron tem haver com o nosso encontro?
Rebecca respirou fundo antes de começar a explicar.
– Eu o encontrei, por acaso, no estacionamento da Christ Church e ele estava muito bêbado. – ela disse tentando manter a voz o mais calma possível – Ele queria voltar dirigindo para o apartamento dele, mas eu achei muito perigoso, por isso... eu decidi trazê-lo aqui.
– Espera. Você está no apartamento dele?!
– Sim. Mas não se preocupe. Eu vou embora daqui a pouco. – Rebecca se apressou em dizer – Só quero me certificar de que ele vai ficar bem e, então, voltarei para o St. Hilda’s.
– Não, Rebecca. Você vai sair daí agora! – Vlad exclamou incomodado – O Aaron está bêbado e você está no apartamento dele! Ele é perigoso e pode tentar te fazer algum mal. Saia já daí.
– Ele não vai fazer nada, Vlad. – Rebecca retrucou impaciente – Além do mais, eu não vou ficar aqui muito tempo. Só preciso de dez minutos, depois eu volto para a faculdade.
– Rebecca, você não está me escutando... – Vlad começou a reclamar, mas Rebecca o interrompeu.
– Por favor, Vlad. Só dez minutos, ok? Depois eu esqueço o Aaron e a gente segue com os nossos planos para essa noite.
– Dez minutos? – Vlad perguntou a contra gosto.
– Sim.
Vlad suspirou.
– Tudo bem, Becca. – ele se rendeu – Mas só dez minutos, ok? Depois você cai fora daí.
– Está bem. – disse Rebecca aliviada.
– Nos vemos mais tarde, então. E... Rebecca, se ele tentar fazer alguma coisa, qualquer coisa, você me conta e eu dou uma lição nele.
Rebecca sorriu.
– Não vai ser necessário, Vlad. Mas pode deixar.
– Tudo bem. Então... Se cuida.
– Ok. Beijos.
Rebecca se despediu, desligou o telefone e levou as mãos ao rosto, encostando-se à porta do banheiro. Ia acabar enlouquecendo se continuasse a conviver dessa forma com Aaron, pois cada vez que se encontravam, ela acabava descobrindo uma nova parte dele, que apenas a confundia e a fazia se questionar se Aaron realmente era o garoto frio e perverso que ela achava que ele era.
Vlad teria um ataque a se visse duvidar desse fato agora, pois, para ele, Aaron era e sempre seria o pior ser humano que Deus já colocara sobre a Terra, mas Rebecca já não tinha tanta certeza disso. Para ela, Aaron só parecia... perdido. Estava justamente pensando nisso quando a porta do banheiro, a qual estava encostada, se abriu e a fez cair de costas no chão.
– O que está fazendo? – Aaron perguntou franzindo a testa para ela.
Ele tinha uma toalha enrolada ao redor da cintura e com outra secava os cabelos loiros, que estavam um tanto bagunçados por causa disso. Rebecca se colocou de pé rapidamente, nervosa por vê-lo daquele jeito.
– Não estou fazendo nada. – ela disse seguindo até a sala e jogando o celular, de qualquer jeito, dentro da bolsa – Você quer algo para comer?
– Não. – Aaron respondeu, saindo do banheiro.
Seu senso de equilíbrio ainda estava um pouco afetado pela bebida e ele precisou se segurar na parede enquanto se dirigia até o quarto. Rebecca o seguiu, mas permaneceu do lado de fora para não correr o risco de vê-lo sem roupa.
Ela esperou impaciente enquanto ele se vestia, olhando para o relógio em seu pulso a cada um minuto enquanto seu tempo de permanência no apartamento diminuía gradativamente. Quando os dez minutos que Vlad lhe dera se esgotaram, Rebecca bateu na porta do quarto.
– Aaron, você ainda vai demorar muito aí dentro? – ela perguntou impaciente.
Rebecca esperou por uma resposta, mas tudo o que recebeu foi o silêncio e aquilo a deixou um tanto apreensiva.
– Aaron? – ela o chamou encostando-se à porta para tentar ouvir o que se passava lá dentro, mas não conseguiu ouvir nada.
Preocupada, Rebecca empurrou a porta do quarto com força e ela se abriu batendo na parede com um estrondo.
Aaron estava encolhido em cima da cama envolvendo o próprio corpo com um abraço, enquanto fitava um ponto qualquer do quarto, sem qualquer expressão e, ao vê-lo daquele jeito, Rebecca sentiu seu coração se afundar dentro do peito.
– O que houve? – ela perguntou aproximando-se devagar.
Aaron não respondeu nada e ela se sentou na cama ao lado dele.
– Por favor, diga alguma coisa.
– Vá embora. – ele disse baixinho.
– Não. Eu não posso ir embora e te deixar aqui desse jeito. – Rebecca disse com tristeza – O que houve com você, Aaron?
Rebecca esperou que ele falasse, mas quando, mais uma vez, recebeu apenas o silêncio em resposta, ela depositou a mão cuidadosamente sobre a de Aaron.
– Sei que não somos amigos. – ela disse calmamente – E tenho quase certeza de que você me odeia por causa das coisas que eu te disse no sábado, mas eu não vou embora, Aaron. Vou ficar por perto até você ficar bem, ok?
Aaron balançou a cabeça de forma negativa.
– Você não entende. – ele disse triste – Eu nunca vou ficar bem.
Rebecca olhou para ele com pesar e ele levou uma das mãos aos olhos para limpar uma lágrima persistente que teimou em brotar ali. Sentia-se fraco por estar chorando logo depois de prometer que não deixaria ninguém mais fazê-lo chorar, mas não conseguiu evitar que cada vez mais lágrimas começassem a fluir por seus olhos, até que ele já não conseguia controlá-las mais.
– Meu Deus, eu estou tão cansado. – ele reclamou, passando as mãos pelo cabelo, deixando-o ainda mais bagunçado e parecia tão ferido e tão frágil que Rebecca não conseguiu resistir e o abraçou, sentindo o cheiro gostoso de menta que escapava de sua boca com dentes recém-escovados.
Esperou que Aaron fosse afastá-la um segundo depois, mas ao invés disso ele retribuiu ao abraço e encostou o a cabeça no ombro dela, surpreendendo-a.
– Não sei o que está havendo, mas você vai ficar bem. – disse Rebecca abraçando-o com um pouco mais de força – Eu prometo.
Aaron assentiu e Rebecca passou os dedos por seu cabelo, acariciando sua nuca. Ela continuou abraçando-o por um longo tempo, até que Aaron parou de chorar e adormeceu e, então, Rebecca se desvencilhou do abraço dele para poder se levantar.
Ela puxou o edredom que estava embaixo de Aaron para cobri-lo e ele se remexeu, um pouco incomodado com o movimento, o que fez Rebecca rir. Adormecido como estava, Aaron lembrava muito pouco o bad boy mal humorado que costumava ser quando estava acordado. Sua expressão era serena e ele parecia tão inocente e vulnerável quanto uma criança – um contraste interessante com o cafajeste que ele era normalmente – e Rebecca se sentiu contente por poder ver esse outro lado dele.
Ela lhe deu um beijo rápido de boa noite na testa e depois olhou para o relógio em seu pulso. Mais de uma hora tinha se passado desde que seus dez minutos de tolerância tinham terminado e Vlad devia estar furioso por não ter recebido nenhuma notícia sua até aquele momento.
Praguejando mentalmente Rebecca se dirigiu para fora do quarto, mas antes que pudesse fechar a porta e ir até sala para pegar sua bolsa para ir embora, a voz de Aaron a fez parar.
– Bee. – ele a chamou baixinho.
– O que foi? – ela perguntou abrindo um pequeno sorriso por ele ter voltado a chamá-la pelo apelido, coisa que não havia feito durante toda a noite.
Aaron não respondeu e Rebecca voltou para dentro do quarto.
– Aaron? – ela o chamou, mas ao se aproximar da cama percebeu que ele estava dormindo e que, provavelmente, estava apenas sonhando. Sonhando com ela!
Depois disso, Rebecca não conseguiu sequer cogitar a possibilidade de ir embora. Poderia sair com Vlad em qualquer outro dia, mas Aaron precisava da companhia dela naquela noite e, depois de vê-lo chorar daquela forma, Rebecca não seria capaz de deixá-lo sozinho.
Ela se dirigiu rapidamente até a sala, pegou o celular e enviou uma mensagem para Vlad cancelando o encontro. Como tinha certeza de que, em questão de segundos, ele telefonaria exigindo explicações, ela desligou o celular e o guardou novamente na bolsa antes de voltar para o quarto de Aaron e se deitar.
Explicaria tudo para Vlad amanhã, mas naquele momento tudo o que faria era ficar ao lado de Aaron e cuidar dele. Ele precisava dela.
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