Wake Me Up
58 Sobre Meninos e Lobos
Notas iniciais
Ty atirou dois pacotes de batata frita na cestinha do supermercado e se inclinou para dar mais uma olhada na lista de compras que Mikhail havia rabiscado, desleixadamente, no verso de um panfleto. Seu namorado, geralmente, executava com perfeição toda e qualquer tarefa que lhe era dada, mas escrever com letra legível não era uma dessas coisas.
— Consegue decifrar esse ideograma? – Ele mostrou a lista de compras para Vlad quando o mesmo voltou do corredor das bebidas com uma caixa de refrigerantes e algumas cervejas.
— Tenho quase certeza de que está escrito “baguetes e queijo”, mas eu não apostaria a minha vida nisso.
Ty olhou novamente para os rabiscos do namorado.
— Baguetes? Isso é um G?
— Ou um F – Vlad deu de ombros. – Talvez um J ou um P, sei lá, mas a palavra mais provável que encontrei foi “baguetes”.
— Hum... – Ty avaliou as demais opções. – Baguetes, então – decidiu e saiu à procura dos pães enquanto Vlad se ocupava com o restante das compras.
Os garotos tinham combinado que fariam uma sessão de filmes de terror no dormitório de Ty naquela noite e haviam tirado no “pedra, papel, tesoura” quem iria até o supermercado mais próximo comprar os lanches. Para a infelicidade de Ty, ele foi o escolhido para realizar aquela tarefa, mas, depois de choramingar por quase dez minutos, conseguiu convencer Vlad a ir com ele, alegando que as compras ficariam pesadas demais para que ele as carregasse sozinho. Mikhail, por sua vez, permaneceu no dormitório, pois havia jogado basquete a tarde inteira e precisava desesperadamente de um banho na opinião dos demais.
— Não acha que compramos muita comida? – Ty perguntou assim que eles pagaram pelas compras e se colocaram novamente a caminho do dormitório.
Vlad avaliou todas as sacolas que carregavam.
— Acho que o Mikhail consegue detonar metade disso antes que o primeiro filme acabe.
— Vocês têm gostos estranhos – Ty reclamou, fazendo uma careta de desgosto. – Já não tivemos terror suficiente nessa universidade na última semana? Para que fazer uma sessão desse tipo numa noite de segunda-feira? Deveríamos estar estudando em vez disso.
— Estudando para o quê, Ty? A semana de provas já acabou.
— Eu ainda tenho um trabalho de Contabilidade Gerencial para entregar na sexta.
— Então, faça o seu trabalho enquanto nós assistimos aos filmes – Vlad sugeriu.
— E como vou me concentrar no meu trabalho com todos aqueles gritos e a trilha sonora assustadora?
Com um sorrisinho jocoso nos lábios, Vlad parou e olhou para ele de soslaio.
— Porque não admite logo que está com medo dos filmes e para de inventar desculpinhas?
— Não estou com medo! – Ty retrucou fechando a cara. – Realmente tenho dificuldade nessa disciplina. Quando decidi trocar de curso, não imaginei que teria que lidar com a área de exatas em Gastronomia também. Qual é?! Eu só quero cozinhar, existem contadores para gerenciar a parte financeira de um restaurante, então, porque eu tenho que aprender sobre isso?
— E como você pode ter certeza de que o contador está fazendo um bom trabalho e de que não está te roubando se você não souber um mínimo de contabilidade, Ty?
— Será que dá para você me apoiar aqui? – Ty reclamou e Vlad riu de todo o seu drama.
— Tudo bem. Você quer ajuda com o seu trabalho?
— Toda a ajuda que eu puder conseguir.
— Então, a gente faz assim: hoje assistimos aos filmes, amanhã eu te ajudo com isso. Pode ser?
Ty pensou um pouco a respeito. Depois de Mikhail, Vlad era a pessoa mais inteligente que ele conhecia e, com certeza, entendia muito sobre Matemática.
— Fechado – ele concordou –, mas nós precisamos mesmo assistir a esses filmes de terror?
— Ai, pelo amor de Deus, Ty. Deixa de ser medroso! – Vlad o cutucou com o cotovelo e, ainda reclamando sobre os filmes, Ty voltou a caminhar com ele pelo campus.
Os dois estavam passando pelo estacionamento quase deserto da Trinity College quando uma cena, logo mais adiante, chamou a atenção de Ty e o fez parar. Àquela distância, ele não conseguia dizer se tratava-se de uma briga entre dois estudantes da faculdade ou não e, por um instante, até pensou em não se intrometer e deixar que os envolvidos resolvessem seus próprios assuntos, mas lembrou-se do dia em que foi agredido no dormitório e de como só se safou de levar uma surra ainda pior porque Aaron decidiu intervir e, simplesmente, não pode deixar aquilo para lá.
Ty sabia que se odiaria se fosse embora e permitisse que outra pessoa fosse agredida da mesma forma que ele havia sido, então, mesmo receoso, entregou as sacolas que segurava para Vlad e reuniu toda a coragem que possuía para caminhar até o local.
— O que pensa que está fazendo? – Vlad o segurou pelo braço e o fez parar. – Não está mesmo cogitando se meter naquela bagunça, está? – Ele indicou a confusão mais adiante com aceno de cabeça.
— É claro que estou. Você não espera que eu finja que não estou vendo alguém levar uma surra, não é? Poderia ser um de nós ali, Vlad. Não iria querer que alguém te ajudasse se estivesse em uma situação parecida?
— Você nem sabe o que está acontecendo, Ty. Pode ser um assalto ou um sequestro. Um deles pode estar armado, sabia? Você pode acabar levando um tiro.
— Você não precisa vir comigo, Vlad. Não estou pedindo que você me siga, mas eu não vou fechar os meus olhos e fingir que não vi uma pessoa sendo espancada no estacionamento da nossa universidade, ok? Não quero carregar essa culpa no meu coração – Ty concluiu e soltou-se das mãos de Vlad, caminhando apressado até onde a briga acontecia.
— Merda, Ty! Que merda! – Vlad reclamou, mas ainda assim, soltou as compras de qualquer maneira na calçada e seguiu o amigo.
O coração de Ty batia acelerado conforme ele atravessava o estacionamento mal iluminado da Trinity College. Era a primeira vez que fazia algo assim e a possibilidade de levar um tiro ou de ser esfaqueado realmente o apavorava, mas ele sentia que precisava ajudar e saber que Vlad estava logo atrás de si o deixava um pouco mais confiante, embora ele torcesse para que não precisassem entrar em uma briga que poderia terminar com ambos mortos.
— Hey! – Ty gritou quando estavam a alguns passos de distância da confusão, tentando chamar a atenção dos dois rapazes que brigavam mais adiante.
Ele esperava que apenas sua aproximação fosse o suficiente para fazer o agressor recuar, mas, quando isso não aconteceu, ele retirou o celular do bolso e digitou o número da emergência.
— Eu vou chamar a polícia! – Disse em voz alta, atraindo finalmente a atenção do agressor, que parou de esmurrar o outro garoto e olhou para ele. – Não estou blefando – Ty exibiu o celular, tentando não tremer –, então, se não quiser ser preso é melhor você deixá-lo em paz e dar o fora agora.
Ele pensou que tinha vencido quando o agressor se colocou de pé e se afastou do garoto que estava espancando, mas sentiu o desespero percorrer todo o seu corpo quando o mesmo começou a caminhar em sua direção. Vlad automaticamente tocou o seu ombro, como se sugerisse que aquela era uma boa hora para recuar e Ty até pensou mesmo em fugir, porque era óbvio que eles seriam o próximo alvo daquele cara, mas travou assim que o garoto se aproximou de um dos escassos postes de iluminação do estacionamento e ele pode ver de quem se tratava.
— Você?! – Perguntou como se não pudesse acreditar no que seus olhos viam.
Ty esperava de tudo: um traficante cobrando uma dívida, um agiota, um ladrão, até mesmo um assassino em série, mas, certamente, não estava preparado para encontrar o irmão postiço de Aaron – o mesmo cara que havia lhe roubado um beijo no parque, dias antes –, agredindo alguém no estacionamento de sua faculdade. Aquilo parecia surreal demais.
— Ty, não é? – Joseph perguntou avaliando-o a distância. – Eu me lembro do seu namorado, mas acho que seu amigo e eu ainda não fomos apresentados – ele relanceou os olhos para Vlad que se empertigou no mesmo instante e já se colocou em modo de defesa.
— O que você... Em quem você estava... – Ty começou, mas parou quando Joseph voltou a caminhar em sua direção, forçando-o a recuar alguns passos até esbarrar no corpo rígido de Vlad atrás de si. – É melhor você ficar longe – ele alertou, mas Joseph pareceu não se importar.
Seus olhos azuis relancearam para o celular que Ty ainda segurava e ele ergueu uma sobrancelha.
— Quanto tempo acha que a polícia levaria para chegar aqui? – Perguntou.
Infelizmente, a resposta era “tempo demais” e Ty sabia disso. Joseph teria tempo de fugir ou, até mesmo, de agredi-los também e era realmente uma droga que a segurança do campus fosse tão insuficiente. Oxford era uma universidade muito grande, era difícil manter guardas em todos os lugares, principalmente após o fim das aulas, como era o caso.
— E quanto tempo acha que eu levaria para arrebentar essa sua cara? – Vlad se pronunciou, colocando-se entre Ty e Joseph como uma barreira. Ele realmente não queria entrar em uma briga com aquele cara, mas Ty parecia prestes a entrar em pânico e, como amigo, ele precisava fazer algo a respeito. Além disso, Mikhail o mataria se ele permitisse que Ty se machucasse.
— Corajoso – Joseph sorriu, ladino. – Um ato admirável, porém tolo.
— É o que você acha? Então, porque não experimenta chegar um pouco mais perto para ver quem de nós será o tolo – Vlad o ameaçou.
Se Joseph levou aquela ameaça a sério ou não, Vlad não soube dizer, mas tanto ele quanto Ty respiraram aliviados quando o garoto simplesmente deu de ombros e lhes virou as costas, saindo do estacionamento como se nada tivesse acontecido.
— Meu Deus, mas que merda foi essa, Ty?! Quem é esse cara? – Vlad exclamou quando Joseph sumiu de vista, mas Ty não se preocupou em respondê-lo.
Ele apenas correu até onde o outro garoto ainda estava caído e quase teve outro ataque de pânico quando reconheceu a pessoa que Joseph havia agredido.
— Ai, caramba. Aaron!
— Aaron? – Vlad também se aproximou e, quando viu o estado em que Joseph o havia deixado, uma careta desgostosa se formou em seu rosto. – Puta merda! Aquele cara é maluco?!
— Aaron – Ty se abaixou ao seu lado e, com cuidado, tentou acordá-lo. Ele não era o maior fã de seu ex-colega de quarto, mas vê-lo machucado daquele jeito o fazia se sentir mal. Aaron o havia livrado de uma baita surra meses antes, era frustrante não ter conseguido fazer o mesmo por ele agora. – Aaron, você precisa acordar, ‘tá legal? Precisa abrir os olhos, cara. Olha para mim, por favor.
Ty tocou o rosto dele e o sacudiu, cuidadosamente, algumas vezes, enquanto Vlad andava de um lado para o outro, preocupado. Ele o odiava, isso era um fato. Aaron havia chantageado Ty e Mikhail por quase um ano, havia feito da vida de todos um inferno e, ainda por cima, havia roubado sua namorada, mas ninguém merecia apanhar daquele jeito, por mais canalha e estúpido que fosse.
— É melhor telefonar para a emergência, Ty. Ele precisa de um hospital.
— Eu sei. Eu só... E-Eu vou ligar – Ty pegou o celular, mas sequer conseguiu desbloqueá-lo devido ao quanto suas mãos tremiam por causa de toda aquela situação. Ele jamais tinha lidado com aquele tipo de violência e mal conseguia raciocinar direito. Era um verdadeiro milagre que ainda não tivesse desmaiado ou vomitado, tamanho era o seu nervosismo. – Droga!
— Me dá aqui. Eu ligo – Vlad se ofereceu e Ty lhe entregou o celular, mas nem havia terminado de ditar a senha de desbloqueio do aparelho, quando Aaron finalmente começou a voltar a si.
Ele abriu os olhos por alguns milésimos de segundos e se remexeu um pouco, grunhindo incomodado por causa da dor, mas quando pareceu acordar realmente começou a se debater de maneira débil, tentando se afastar de Ty, como se ainda estivesse confuso demais para reconhecê-lo.
— Hey, sou eu! – Ty tentou contê-lo, tomando cuidado para não machucá-lo ainda mais. – Sou eu, Aaron. Sou eu!
— T-Ty...? – Aaron finalmente pareceu reconhecê-lo e parou de tentar se afastar.
— É, sou eu. Tá tudo bem, ok? Tudo bem.
Aaron ainda estava muito grogue para formular uma frase que fizesse sentido, mas assentiu minimamente, fazendo Ty respirar aliviado por, pelo menos, ele estar consciente agora.
— Aaron, eu preciso saber onde a Rebecca está – Ty disse preocupado. – Ela estava com você? Estava aqui?
Novamente Aaron não conseguiu responder nada coerente, mas Ty não desistiu do interrogatório. Ele temia que Joseph pudesse ter feito algo a sua irmã antes de chegarem e precisava saber se Rebecca estava segura ou não.
— Presta atenção em mim, ok? Por favor, Aaron. Eu preciso que você me diga onde a Rebecca está. Ela está bem? Ela estava com você? Onde é que está a minha irmã?
Aaron pareceu se esforçar para se manter de olhos abertos e para compreender as perguntas que lhe eram feitas, mas quando Ty já estava quase perdendo as esperanças de obter alguma resposta, ele finalmente disse:
— Bodleian.
— Bodleian? Ela está na biblioteca? – O alívio que tomou conta do corpo de Ty se manifestou na forma de um suspiro profundo e ele só precisou olhar para Vlad para que este soubesse exatamente o que precisava fazer.
— Eu vou buscá-la e vou levá-la para o dormitório no St. Hildas, mas pelo amor de Deus, Ty, chama uma ambulância – Vlad devolveu o celular para ele e correu para a Biblioteca Bodleian, enquanto Ty repetia sua tarefa de tentar telefonar para a emergência.
— Por favor, não liga – Aaron bateu sua mão no celular, atrapalhando todo o processo e Ty o encarou sem entender tal atitude. Ele havia levado uma surra, mal conseguia se manter acordado, mas não queria ir para o hospital?
— Aaron, eu preciso ligar. Você ‘tá todo quebrado, cara, precisa de um médico.
— Eu não... Ty, eu não... Eu não posso ir.
— Do que você ‘tá falando?
— Por favor, ok? Só... Por favor.
— Aaron...
— Por favor, Ty! Eu estou te pedindo por favor – Aaron o encarou de maneira quase suplicante. – Não liga, ‘tá legal? Eu não posso ir.
A forma como ele praticamente implorou, fez com que Ty reconsiderasse o pedido de Vlad e apenas guardasse o celular. Ele sabia que era uma atitude imprudente, sabia que poderia estar tomando a pior decisão possível, mas se Aaron estava tão desesperado deveria haver uma boa razão pela qual ele não podia ir ao hospital, mesmo que claramente precisasse de um.
— E se você morrer? – Ty perguntou, por fim. – Se estiver com uma hemorragia interna e eu não fizer nada? Eu não quero ser processado por isso, Aaron.
— Eu vou ficar bem. Eu só preciso... – Aaron tentou se levantar, mas teve que conter um grito de dor apesar da irrisória movimentação e aquilo não pareceu um bom sinal para Ty.
— Olha, esquece. Você precisa mesmo de um hospital, ‘tá?
— Não. Eu vou ficar bem – Aaron voltou a insistir. – Só preciso de um banho e de um pouquinho de descanso. Por favor, Ty. Só isso.
— Merda, Aaron! Se eu me encrencar por sua causa... – Ty ameaçou, mas tirou novamente o celular do bolso e telefonou para Mikhail.
— Hey, onde é que vocês estão? Eu ‘tô morrendo de fome— Mikhail disse assim que atendeu, mas Ty não se preocupou em responder a pergunta.
— Mik, preciso que você me encontre no estacionamento da Trinity agora.
— No estacionamento? Por quê?
— Eu te explico quando chegar aqui. Só vem logo, ok? – Ty concluiu e desligou o celular sem nem esperar pela resposta.
Não demorou muito para que Mikhail o encontrasse no estacionamento e Ty agradeceu aos deuses por seu namorado ser sempre tão prestativo.
— O que foi que... – Mikhail começou, mas quando se deparou com Aaron jogado no chão com o rosto praticamente coberto de sangue, simplesmente esqueceu o que iria perguntar e olhou para Ty preocupado. – Puta merda, o que você fez com ele?
— Eu?! – Ty tentou não se sentir ofendido com a acusação, afinal, dado o seu histórico de brigas com Aaron, aquele tipo de agressão não era assim tão improvável. – Eu não fiz nada, Mikhail.
— Então, foi o Vlad? – Mikhail olhou ao redor procurando pelo primo. – Onde é que aquele idiota se enfiou?
— Não. Não foi o Vlad. Foi o irmão dele, o cara esquisito do parque.
— O que te beijou? – Mikhail sentiu o sangue ferver e Ty assentiu.
— Preciso que me ajude a levá-lo para o dormitório.
— Para o dormitório? Você quis dizer “para o hospital”, não?
— Não. Dormitório. Ele não quer ir para o hospital.
— E o que ele quer realmente importa agora? – Mikhail olhou para Aaron, assombrado. – Ele ‘tá todo fodido, Ty. Ele precisa de um médico.
— Eu prometi para ele que não iria levá-lo, Mikhail. Eu não sei por que ele não quer ir, mas parece importante, ‘tá? Então, pelo amor de Deus, só me ajuda a levá-lo para dentro. Eu não consigo carregá-lo sozinho.
— Eu não concordo com isso – Mikhail esclareceu, mas mesmo assim se abaixou e passou um braço pelos ombros de Aaron para ajudá-lo a se levantar, algo que ele fez com extrema dificuldade. – Não consegue apoiar a sua perna no chão?
— Não – Aaron respondeu trincando o maxilar com força para evitar gritar de dor a cada passo que Mikhail o ajudava a dar.
O caminho do estacionamento até o seu antigo dormitório foi como um verdadeiro calvário. Aaron nunca havia sentido tanta dor na vida e ele tinha quase certeza de que Joseph havia quebrado pelo menos uma de suas costelas, mas ir para o hospital estava fora de cogitação.
Em todas as consultas era exigido um seguro de saúde e era Erick quem arcava com essas despesas. Se ele fosse para o hospital, certamente Erick receberia um aviso da seguradora informando todos os procedimentos realizados e os valores. Seu padrasto certamente não se importaria com isso, pois sempre o tratava como um marginal e ficaria até mesmo feliz em saber que ele havia levado uma surra, mas sua mãe com certeza ficaria preocupada e ela já tinha coisas demais para se preocupar com a cirurgia de Christopher tão próxima. Além disso, havia a possibilidade de Erick acabar descobrindo o envolvimento de Joseph em tudo aquilo e, a essa altura, ele não podia se dar o luxo de deixar que o padrasto desconfiasse de seus planos de processá-lo pela fraude na empresa de seu pai.
— Põe ele aqui – Ty indicou a antiga cama de Aaron, afastando cadernos e livros que ele havia deixado jogados ali quando saiu com Vlad para comprar os lanches.
— Não, eu preciso de um banho – Aaron retrucou, apontando para o pequeno banheiro que havia no quarto. Ele podia sentir o sangue seco grudando em seu rosto e em suas roupas e sabia que quanto mais demorasse para se limpar, mais sofreria para se livrar de tudo aquilo depois.
— Tá. Leva ele para o banheiro, então. Eu vou ver se encontro algumas roupas limpas que sirvam nele e um banco onde ele possa se sentar.
— Aproveita e pega aquela caixinha de curativos que a gente usou quando você se machucou – Mikhail recomendou enquanto guiava Aaron até o banheiro. – Acho que consigo dar um jeito nos cortes maiores com um pouco de gaze e esparadrapo.
— Ok.
Mesmo o simples ato de tirar a própria roupa foi doloroso para Aaron, mas depois de muitos palavrões e de uma pequena ajuda de Mikhail, ele conseguiu se enfiar embaixo do chuveiro, agradecendo e também lamuriando-se toda vez que água morna lavava seus ferimentos.
Ty apareceu com um pequeno banco de plástico logo depois e ficou para ajudá-lo com o banho, enquanto Mikhail organizava todos os materiais que usaria para fazer seus curativos e tentava falar com Vlad pelo celular.
Aaron nunca imaginou que um dia estaria em uma situação como aquela e, mesmo estando todo quebrado e com muita dor, não coseguiu impedir que um breve riso escapasse por seus lábios, embora esse ato tenha feito suas costelas doerem ao tal ponto que ele quase começou a chorar.
— Tudo bem?
— Sim – Aaron levou uma das mãos a lateral do corpo, pressionando o local na inútil tentativa de fazer a dor passar. – Eu só estava pensando em como tudo isso é louco. Lembra quando eu peguei aquela sua agenda antiga e acabei descobrindo que você escrevia um monte de declarações de amor para mim?
O rosto de Ty se retorceu em uma careta e ele se amaldiçoou novamente pelo acontecimento terrível.
— Como eu poderia esquecer? Foi um dos piores dias da minha vida e, não bastasse a vergonha que passei, você ainda usou isso para me irritar por um semestre inteiro.
— É. Eu ficava te provocando, dizendo que você me espionava pela fechadura enquanto eu tomava banho – Aaron riu e, mais uma vez, precisou pressionar suas costelas por causa da dor que sentia. – Você ficava muito bravo, lembra? Quem imaginaria que hoje estaríamos aqui, praticamente tomando um banho juntos.
— É sério? – Ty o encarou sem acreditar. – Você acabou de levar a maior surra da sua vida e é nisso que está pensando?
— Sei lá. É meio irônico, não acha?
— O que eu acho é que você deveria calar a boca – Ty o beliscou levemente e continuou ajudando-o a se livrar de todo o sangue seco que havia se acumulado ao redor de seus machucados.
— Eu tive medo – Aaron confessou de repente.
— Medo de que?
— Das suas declarações – ele respondeu, lembrando-se do dia em que as descobriu por acaso. – Eu tive outro colega de quarto antes de você, durante a minha primeira graduação. Nunca conversei muito com ele, nem dei abertura para que ele se aproximasse de mim também, então, nós passamos quatro anos muito agradáveis nos ignorando e vivendo as nossas vidas cada um no seu canto – Aaron explicou. – Quando nos formamos, ele fez as malas e foi embora e eu sequer consigo me lembrar do nome dele agora, mas, para mim, foi melhor assim. Digo, eu sei que ele provavelmente era alguém legal, ao menos aparentava ser, mas eu tinha medo de deixar as pessoas se aproximarem de mim. Tinha medo de me apegar e acabar me machucando porque todo mundo que eu amava me feriu de algum jeito e eu já me sentia todo ferrado, não precisava deixar outra pessoa entrar na minha vida só para me ferrar um pouco mais – ele confidenciou.
Não fazia a menor ideia do por que estava dizendo tudo isso agora, talvez só precisasse preencher o silêncio com algum assunto ou talvez Joseph tivesse lhe batido tanto que havia comprometido o seu cérebro, mas, de qualquer forma, as palavras acabaram saindo.
— A minha vida sempre foi uma bagunça, Ty. Eu vivia em um inferno antes de vir para essa universidade, só queria um pouco de paz e, naquela época, paz para mim significava ficar no meu canto, sem ninguém para me machucar. Achei que se eu te ignorasse e me mantivesse afastado você seria como o meu antigo colega de quarto, que apenas iria embora ao fim da graduação e eu não precisaria nem me lembrar do seu nome, mas você começou a gostar de mim e eu não sei por que, eu nem era legal com você – Aaron riu de novo, mas dessa vez foi um riso sem graça. – Eu só fiquei com medo. Medo de você acabar se aproximando demais e eu deixar você se tornar um amigo só para você acabar me ferindo depois, porque era isso que todo mundo que entrava na minha vida fazia, entende? Todo mundo! Eu só... estava cansado de tentar, então, eu fiz o que faço de melhor, comecei a implicar com você e te afastei. Era mais fácil, para mim, lidar com a sua raiva que com a possibilidade de abrir a minha vida para você e me dar mal algum dia. Me desculpe. Eu sei que fui um canalha com você, mas eu não sabia que poderia confiar em alguém de novo até a sua irmã aparecer e me mostrar que era possível.
Ty não soube o que dizer depois de todo aquele discurso. Ele não imaginava que ouviria coisas assim de Aaron, nem sabia por que ele havia resolvido falar sobre isso agora. Passar um ano aturando suas chateações havia sido uma droga, mas ouvi-lo falar sobre como se sentia naquela época lhe deu uma nova perspectiva sobre tudo que aconteceu entre eles. Quão terrível devia ser estar tão quebrado ao ponto de sequer conseguir confiar nas pessoas ou mesmo interagir direito com elas? Ty não conseguia imaginar.
— Isso vai ficar bem feio – foi o que ele disse, por fim, preferindo deixar aquele assunto no ar e se concentrar nos problemas que tinham agora porque nem mesmo Aaron parecia disposto a prolongar aquilo. – Ele te machucou para caramba. Duvido que você sequer consiga abrir os olhos amanhã.
— Pelo menos assim não vou precisar encarar o meu reflexo no espelho, não é?
— É. Esse é o lado bom da coisa toda – Ty riu e tentou limpar o corte que havia na bochecha de Aaron, fazendo-o se encolher de dor por isso. – Desculpe. Está doendo muito? Tem certeza de que não quer que eu te leve ao hospital?
— Não. Eu fico bem.
— E a sua perna? – Ty avaliou a mancha roxa que havia se formado na parte posterior da coxa de Aaron e que sempre o fazia xingar de dor quando precisava movimentá-la. – Tá muito ruim.
— Vai melhorar.
— Claro que vai, mas o que aconteceu, hein? Eu já vi você se meter em mais brigas que qualquer um nessa universidade, mas nunca chegou a esse ponto, Aaron. Porque aquele cara te atacou desse jeito? Ele não é seu irmão ou meio-irmão, sei lá, o que deu nele para te agredir dessa forma?
— É uma longa história, Ty. Talvez seja melhor você não saber, é um daqueles lances pesados de família, entende?
— Eu entendo e, se não quiser falar sobre isso, tudo bem, mas a minha irmã está com você agora, Aaron. Querendo ou não, esses “lances pesados de família” também afetam a ela, então, seja lá qual for a merda que aconteceu entre você e o seu meio-irmão esquisito, me prometa que você vai manter a Rebecca bem longe disso, ok? Eu a amo muito, me preocupo com ela. Não quero que a minha irmã se machuque.
— Eu jamais faria qualquer coisa que a colocasse em perigo, Ty. Não precisa se preocupar com isso.
— É bom mesmo ou a próxima surra que você ganhar vai ser dada por mim, ok?
— Ty? – Mikhail bateu à porta do banheiro, interrompendo o assunto. – A Rebecca e o Vlad estão aqui.
— Já estamos indo – Ty gritou e, então desligou o chuveiro, estendendo uma toalha limpa para Aaron. – Vem, vou te ajudar a se vestir.
***
Quando Aaron saiu do banheiro amparado por Ty, Rebecca sentiu vontade de chorar e, ao mesmo tempo, de socar alguma coisa. Ele estava tão machucado! O lábio cortado em mais de um lugar, o rosto inchado e com outros ferimentos espalhados por aqui e por ali, além do hematoma grotesco que circundava seus belos olhos verdes tornando-os quase invisíveis por trás das manchas roxas.
— O que aconteceu? – Rebecca se aproximou e o abraçou lutando contra as lágrimas, mas logo precisou se afastar porque, ao que tudo indicava, o rosto de Aaron não era a única coisa machucada em seu corpo.
— Nós já o encontramos assim no estacionamento. Cortesia daquele meio-irmão sinistro que ele tem.
— O Joseph? – Rebecca sentiu o sangue gelar.
Ela havia esperado Aaron por mais de uma hora em frente à biblioteca e a ultima mensagem que havia recebido dele dizia que havia se atrasado terminando um trabalho, mas que já a encontraria. Quase quarenta minutos depois, quando Vlad apareceu na biblioteca dizendo que Ty havia lhe pedido para buscá-la e levá-la de volta ao St. Hildas porque Aaron estava com problemas, Rebecca não entendeu muito bem o que estava acontecendo. Ela só conseguia imaginar que os dois haviam engatado em mais uma de suas brigas intermináveis e que haviam sido levados para a reitoria ou algo assim, então, praticamente obrigou Vlad a levá-la de volta para o dormitório do irmão, pois queria esperar pelos dois lá. Jamais passara por sua cabeça, no entanto, que encontraria Aaron naquele estado após ter sido agredido por Joseph.
— Porque ele fez isso? E o que ele fazia aqui na universidade a essa hora?
Aaron olhou para Ty e quase pode ouvir as palavras que ele havia lhe dito no banheiro, quando o fez prometer que manteria Rebecca segura e afastada de toda a confusão de sua família, então, preferiu mentir novamente.
— Eu não sei o que ele fazia aqui, mas isso não importa. A questão é que nós acabamos discutindo e aí a briga saiu do controle. Nada que já não seja rotina nas nossas vidas.
— Aaron, ele te agrediu! Poderia ter te matado se os meninos não tivessem te encontrado naquele estacionamento e isso com certeza não é rotina, isso é... assustador!
— Eu vou ficar bem, Bee. Não é tão ruim.
— Será que ele está em surto? – Rebecca cogitou, enquanto pensava sobre o assunto. – Se ele veio até aqui por nada e ainda te atacou desse jeito, talvez ele esteja em crise, sabe? Isso é perigoso, ele pode ferir alguém por aí. Pode... – Ela parou e conforme avaliava a situação, percebeu o quão ruim tudo aquilo era. – Ele pode atacar os cães! – Rebecca se desesperou. – Pode matar a Cristal e o Ruffus.
— Bee...
— Eu preciso tirá-los do seu apartamento – Rebecca decidiu, já se encaminhando para a porta do dormitório. – Vou levá-los para ficar com a Margareth e volto para cá em seguida, ok? Cuida dele para mim – Ela se virou para Ty e tocou seu ombro rapidamente antes de sair quase correndo pela porta.
— Não! Bee, você não pode ir até lá sozinha – Aaron tentou alcançá-la, mas o ferimento em sua perna o impediu de ir muito longe e Ty precisou se apressar para ampará-lo. – Por favor, Ty, não deixa ela ir até lá. É perigoso.
— Eu vou com ela – Vlad se ofereceu. – Arrebento aquele cara se ele tentar encostar nela.
— Não, Vlad, você não entende. Nenhum dos dois pode ir até lá. O Joseph é louco! Ele é louco e é perigoso. Vai machucar vocês.
— A Rebecca com certeza não vai deixar os filhotes sozinhos com esse cara, Aaron. Eu conheço a minha irmã. É melhor deixar o Vlad ir com ela porque, se ele não for, ela vai até lá sozinha mesmo. Você sabe que ela nunca os deixaria para trás, nem mesmo se a gente implorasse.
— Eu sei, mas os dois podem se machucar feio. Vocês não conhecem o Joseph como eu conheço.
— Eu vou com eles – Mikhail se dispôs. – Já faz um tempo que estou a fim de acabar com a raça desse seu irmãzinho – ele comentou, enquanto vestia um casaco, apressado.
— Dois é melhor que um, certo? – Ty concordou e Aaron não viu outra opção além de concordar também. Era perigoso para os cães ficarem no apartamento com Joseph de qualquer maneira e com Mikhail e Vlad por perto, ao menos Rebecca estaria mais segura. Ou, pelo menos, ele esperava que sim, mas se tratando de Joseph nunca dava para ter certeza.
— Pega a chave do meu carro no bolso da mochila e entrega para a Rebecca – Aaron pediu. – Vai ser mais rápido que pegarem um táxi.
— A gente volta daqui a pouco – Mikhail beijou a bochecha de Ty, pegou a chave do carro de Aaron e seguiu Vlad para fora do dormitório.
— Tenha cuidado! E traga a minha irmã de volta em segurança – Ty gritou antes da porta se fechar. – Agora a gente precisa cuidar de você, não é? – Ele se voltou para Aaron que parecia mais desanimado que antes. – Não sou tão bom nisso quanto o Mikhail, mas acho que posso dar um jeito nesses cortes. Vem, senta aqui.
— Tenta não me desfigurar, por favor.
— Ah, para. Não tem jeito de te deixar mais feio do que já está – Ty o provocou e se concentrou em cuidar dos ferimentos dele da melhor maneira possível.
— Obrigado por me ajudar hoje.
— Não me agradeça ainda, eu não estava brincando quando disse que não sou tão bom em fazer curativos.
— É sério, Ty – Aaron segurou as mãos dele e o fez parar o que estava fazendo. – Eu sempre fui um idiota com você. Fiz coisas horríveis e acho que nunca tentei me redimir por isso, então, o que você está fazendo por mim agora significa muito mesmo. Nem todo mundo estaria disposto a cuidar de mim desse jeito depois de tudo o que eu fiz.
— Você me ajudou em um momento parecido, Aaron. Aqueles caras teriam acabado comigo se você não tivesse me ajudado, então, pode considerar isso como uma forma de retribuição. Eu ainda te acho um idiota, é claro, mas até os idiotas tem um ou dois momentos memoráveis na vida, não é?
— Desculpa por ter feito da sua vida um inferno no último ano. Eu fui um completo babaca com você.
— Apanhar te deixou emotivo? – Ty riu e continuou seu trabalho com os curativos. – No seu lugar, eu tomaria cuidado, sabe? Você está começando a ficar meloso demais, daqui a pouco começa a chorar e eu realmente não quero ter que enxugar as suas lágrimas essa noite.
— Você não me leva muito a sério, não é?
— Eu estou te levando a sério. Na verdade, até achei o seu pedido de desculpas meio fofo.
— Meio fofo?
— Não quero ouvir nenhuma piadinha sobre isso – Ty o alertou. – Sei que estava preparando algum comentário maldoso nessa sua mente inescrupulosa.
— Não estava nada.
— Estava, sim. Eu te conheço, Aaron. Convivi por pouco mais de um ano com você e já escutei todo tipo de piada de mau gosto.
— Eu não fazia tantas piadas assim.
— Fazia.
— Fazia?
— Fazia! – Ty insistiu e Aaron se recriminou por isso.
— Poxa, eu era mesmo um babaca. Não é a toa que você me odeia tanto.
— Eu não te odeio – Ty disse sem pestanejar. – Quer dizer, não odeio mais. Houve um tempo em que realmente te odiei, muito, mas percebi que guardar rancor só fazia mal a mim mesmo. É algo que o Mikhail acabou me ensinando, sabe? Então, eu te perdoei e deixei toda essa merda para lá. Só espero que você seja melhor para as pessoas que cruzarem o seu caminho agora do que foi para mim.
— Eu estou tentando ser. É algo que a Rebecca também acabou me ensinando.
— É o que importa – Ty sorriu para ele gentilmente e, após terminar o último curativo, lhe ofereceu um analgésico e um copo d’água. – Tenta dormir um pouco – sugeriu. – Eu te acordo quando os meninos voltarem.
— Acho que vou esperar por eles acordado. Não estou com tanto sono agora – Aaron respondeu, mas menos de cinco minutos depois já estava em um sono profundo.
— Bobão – Ty riu e o cobriu com uma das mantas de lã azul da universidade, antes de voltar para sua própria cama.
Ele ainda se lembrava do seu primeiro dia naquele dormitório, de como se sentira atraído por Aaron assim que pôs os olhos nele e de como costumava admirá-lo quando sabia que ele não estava prestando atenção. Ty gostava, principalmente, da sua dualidade, de como ele era sempre tão quieto e misterioso dentro do dormitório enquanto, fora dele, estava sempre cercado por um grupinho de amigos barulhentos e exibindo sorrisos dignos de um cafajeste.
Por algumas semanas, Ty se perguntou se Aaron não tinha um segredo como o dele. Se a forma como ele agia com as garotas e com seus amigos quando estava em público não era apenas uma maneira boba de esconder sua sexualidade, mas quando Aaron encontrou suas declarações naquela agenda antiga e começou a implicar com ele e a tratá-lo como lixo, Ty percebeu que, na verdade, era ele quem havia pintado um Aaron Greed que não existia. Conviver com Aaron depois disso se tornou quase insuportável e, quando as chantagens começaram após ele o flagrar com Mikhail, Ty teve certeza de que dividia seu dormitório com o próprio demônio.
Agora, depois de tanto veneno trocado, tantas lágrimas derramadas e tantas brigas, ele finalmente tinha conseguido entender o que havia nas entrelinhas de suas atitudes e estava mais que satisfeito por vislumbrar essa nova versão de Aaron – que provavelmente era a verdadeira –, diante de si. No fim das contas, ele percebeu que Aaron não era o lobo cruel e assustador que achou que ele fosse. Ele era só um menino ferido.
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