Wake Me Up

59 Ombro Amigo


Notas iniciais
Não tenho muito para dizer aqui, exceto: espero que perdoem por fazê-los sofrer tanto com esse enredo. Eu juro que, nesse caso, os meios justificarão o fim ^^' Boa leitura.

Rebecca dirigiu até o apartamento de Aaron o mais rápido que conseguiu sem desrespeitar as leis de trânsito, mas ela não podia garantir que não havia levado uma multa ou duas ao ultrapassar um sinal vermelho quando acelerou no laranja em vez de reduzir a velocidade.

Tudo que passava por sua cabeça, naquele momento, era tirar Cristal e Ruffus da presença de Joseph o mais rápido possível e, quem sabe, ir à delegacia de polícia mais próxima abrir um boletim de ocorrência contra ele, ainda que Aaron desaprovasse. Confrontá-lo sobre a agressão não estava em sua lista de afazeres daquela noite, afinal, ela sabia bem que isso poderia ser uma péssima ideia, mas não podia ter certeza de que conseguiria se controlar quando estivesse frente a frente com ele.

— Podem me esperar no carro – disse quando estacionou em frente o prédio de Aaron e saltou do veículo, apressada.

Vlad e Mikhail, no entanto, desceram do carro no mesmo instante.

— Nós vamos com você.

— Eu prometi ao seu irmão que te levaria de volta inteira – Mikhail completou e Rebecca assentiu, indicando que eles deveriam subir.

Ela os anunciou apenas como “seus amigos” ao porteiro, que foi completamente ignorado quando pediu que eles deixassem registrados os números de seus documentos na recepção, pois tanto os garotos quanto a própria Rebecca estavam com muita pressa para perder ainda mais tempo com aquela burocracia. Ela só esperava que o porteiro não chamasse a polícia, relatando algum tipo de invasão no prédio, afinal, ele a conhecia e eles quase podiam ser considerados bons amigos.

— Acham mesmo que ele viria para cá? – Vlad questionou enquanto esperavam que o elevador os conduzisse até o andar certo. – Quer dizer, ele acabou de dar a maior surra no Aaron, não seria muita cara de pau vir justamente para o apartamento dele?

A pergunta de Vlad foi respondida quando Rebecca abriu a porta e eles deram de cara com Joseph saindo do banheiro após uma tentativa não tão bem sucedida de cuidar de seus ferimentos. Ao que parecia, Joseph não se importava com aquele tipo de convenção social.

— Fico feliz em saber que ele também arrebentou a sua cara – Rebecca esbravejou antes de passar por ele e ir atrás de Cristal e Ruffus que ainda não haviam dado sinal de vida.

Felizmente, ela os encontrou na área de serviço do apartamento, fazendo a bagunça de sempre enquanto disputavam uma flanela laranja que certamente havia caído do varal mais cedo.

— Aí estão vocês, seus pestinhas – Rebecca acariciou o topo da cabeça dos dois cãezinhos e logo se pôs a organizar as coisas que levaria para o apartamento de Margareth, como suas vasilhas de água e comida, sua ração, alguns petiscos e brinquedos e suas camas fofinhas, já que ela não sabia quanto tempo os cães precisariam ficar longe dali.

— Ah, qual é? – Joseph a seguiu com os olhos enquanto ela recolhia as coisas pelo apartamento. Seu nariz ainda sangrava e ele tentava estancar o sangramento com uma toalha de papel enquanto era mantido sob a vigilância constante de Vlad e Mikhail, que parecia estar se segurando muito para não avançar sobre ele a qualquer instante. – Com tanta coisa acontecendo, você acha mesmo que eu perderia o meu precioso tempo fazendo qualquer merda com esses seus cachorros pulguentos?

— Primeiro, eles não são pulguentos. E, segundo, isso é exatamente o que eu acho, Joseph. Na verdade, essa nem seria a primeira vez que você maltrata um animal indefeso, certo? – Rebecca rebateu e entregou Cristal à Vlad para que ele a colocasse na coleira enquanto ela tentava lidar com um Ruffus muito agitado que não queria parar de brincar.

— Sem essa. Seu namoradinho não é indefeso, ‘tá legal? Pode até parecer que sim, porque ele é um mané, mas ele sabe se defender muito bem, ok? – Joseph comentou e Rebecca o encarou com raiva.

— Você ainda tem a audácia de fazer piada com algo tão sério? – Ela sentiu o sangue ferver. – Você sabe muito bem que eu estava falando sobre o Screapy, mas o que você fez ao Aaron naquele estacionamento também foi uma covardia, Joseph. Se o meu irmão não tivesse te impedido, você iria matá-lo, é isso? Nós não tínhamos a droga de um acordo?

— Porque não pergunta isso ao seu namorado? – Joseph retrucou enraivecido. – Dei a ele todas as provas de que precisava e, ainda assim, ele decidiu que não queria fazer nada a respeito.

— Isso é loucura. Você sabe que ele ainda não recebeu a resposta do escritório de advocacia.

— Foi o que ele te disse? – Joseph a encarou e Rebecca o encarou de volta, tentando não se deixar afetar pela semente de dúvida que Joseph tentava plantar em sua cabeça. Ela sabia que Aaron não mentiria para si. Ele havia prometido que enfrentariam aquilo juntos, então, provavelmente Joseph só estava tentando fazer seus joguinhos mentais. – É – ele sorriu –, parece que eu não sou o único para quem o seu namorado vem mentindo.

— Não acredito em nada que saia da sua boca.

— Então, porque não vê por si mesma? – Joseph adentrou no quarto de Aaron e Rebecca o seguiu, fazendo Mikhail e Vlad se movimentarem atrás dela em conjunto. Ela não achava que Joseph pudesse ter alguma prova do que estava falando, mas tê-lo invadindo o quarto que ela dividia com Aaron era quase como um sacrilégio.

— Não mexa em nada aqui – Rebecca ordenou, mas Joseph já havia pegado o notebook que Aaron usava às vezes e o ligado, desviando-se dela quando tentou tirar o aparelho de suas mãos.

— Eu vou te mostrar – Joseph garantiu, mal humorado. – Aí nós vamos ver quem é o mentiroso aqui.

— Não sei o que pretende fazer, Joseph. A conta do Aaron tem senha, assim como a minha. Você sequer vai conseguir desbloquear esse computador, aposto que só está tentando me fazer perder tempo!

Mal Rebecca concluiu a frase, Joseph lhe estendeu o notebook, não apenas desbloqueado, mas com a conta de e-mail de Aaron já aberta.

— Posso fazer o mesmo com a sua, se quiser – ele se gabou enquanto lhe entregava o aparelho.

Rebecca nem conseguiu acreditar no que via. Não sabia como era possível Joseph acessar o e-mail de Aaron com tanta facilidade e realmente a assustava a possibilidade dele conseguir fazer o mesmo com sua própria conta. Por acaso ele não entendia o significado de privacidade?

— Você é hacker ou coisa assim?

— Qualquer hacker que se preze se ofenderia ao ouvir isso, porque você e o A.J. têm senhas tão patéticas que seria um insulto achar que algum deles perderia mais que dois segundos tentando acessar o e-mail de vocês.

— De qualquer forma, não importa – Rebecca fechou o notebook e o recolocou sobre a cômoda, respirando fundo. – Sei muito bem o que está tentando fazer, Joseph e você não vai me colocar contra o Aaron. Não pense que seus joguinhos funcionam comigo, pois estou em Oxford justamente para estudar sobre pessoas como você e para aprender a lidar com elas.

— Ah, então, se eu digo que o seu namorado quebrou o acordo que tínhamos, eu sou louco e mentiroso, mas quando você mesma vê que é ele quem esteve mentindo para você esse tempo todo, eu ainda estou errado? É isso?

— Você o agrediu, Joseph!

— Eu revidei – Joseph indicou os ferimentos em seu rosto como prova. – Foi ele quem me atacou primeiro. O que eu deveria fazer? Deixá-lo me bater?

— Ah, claro. Ele te deu três socos e você achou que fazia sentido espancá-lo até a morte por isso.

— Eu não o matei, Rebecca. Além disso, seu namoradinho e eu já trocamos socos suficientes na adolescência para eu saber que aquilo não foi nada. Ele aguenta, ‘tá bem? Você não precisa ser tão dramática e superprotetora.

— Eu juro por Deus que eu... – Rebecca avançou para cima de Joseph, mas Mikhail a segurou antes que ela pudesse alcançá-lo.

— Nós viemos pelos cães – ele a lembrou, enquanto a conduzia a contragosto de volta para a sala. Sua vontade também era a de tirar satisfações com Joseph pelo beijo que este havia roubado de Ty, mas Mikhail era sensato o suficiente para resolver um assunto por vez e, no momento, o mais importante era pegar os cãezinhos e levar Rebecca de volta ao seu dormitório em segurança.

— Para uma futura psicóloga, você não se importa muito com a imparcialidade na hora de analisar uma situação, não é? Se quer saber, eu tenho pena dos seus futuros pacientes.

— O que disse? – Rebecca se soltou de Mikhail e voltou-se novamente para Joseph. Conseguia aceitar quase tudo sobre ele, mas jamais aceitaria que ele criticasse a sua vocação. Ela podia ser apenas uma estudante naquele momento, mas sabia que tinha potencial e que seria uma grande profissional no futuro. Alguém como Joseph, que era tão desprezível e mau, não tinha o direito de atirar comentários como aquele em sua face.

— Você ouviu bem o que eu disse – Joseph sustentou seu olhar raivoso. – Tenho pena dos seus pacientes, porque se você não consegue enxergar um palmo além do seu nariz agora, com certeza não vai ajudá-los em nada.

— Então, me diga o que eu não estou vendo aqui, Joseph? Porque, para mim, você é apenas um canalha imundo e eu com certeza não vou deixar que você estrague a minha relação com Aaron por causa dessa sua tentativa barata de manipulação!

— Acha que estou tentando te manipular? – Joseph se aproximou dela, sendo barrado pelo corpo de Mikhail que logo se colocou entre ambos. – Acha que destruir esse romancezinho de merda que vocês têm é o grande objetivo da minha vida? Porque não é! Vocês são patéticos. Todos os dois. O A.J. ainda mais porque ele nem consegue perceber que os únicos que ele está ferrando com essa atitude covarde são o próprio irmão e a mamãezinha idiota dele.

— Por acaso isso é alguma ameaça, Joseph?

— Não, Rebecca, essa é apenas a mais pura realidade. Porque se o seu namorado acha que está protegendo alguém com essa decisão estúpida de não denunciar o meu pai, ele está muito enganado. O meu pai não se importa com ninguém e, enquanto o A.J. está aqui, se perguntando se deve fazer algo a respeito ou não, o meu pai está se reunindo com os advogados, procurando uma forma de tirar o Christopher e a Brianna da vida dele sem causar muito impacto financeiro.

— Do que está falando?

— Não é óbvio? O meu pai tem uma nova amante – Joseph confidenciou. – Provavelmente muito mais jovem que a Brianna e com bem menos bagagens indesejadas que ela também. Não é muito diferente do que aconteceu quando ele estava casado com a minha mãe. E sabe o que não combina com um relacionamento novo, Rebecca? Isso mesmo. Um relacionamento antigo. Uma esposa que já não é mais tão quente na cama quanto era há quinze anos, um enteado indesejado que você precisa suportar e sustentar só para agradar a essa esposa e um filho que está com metade do pé nessa vida e a outra metade no além porque tem a porra de um tumor no cérebro. Sabe o quanto tudo isso custa e o quanto seria muito mais vantajoso apenas se livrar desse peso morto? – Joseph riu. – Não, talvez você não saiba, mas o meu pai é um homem de negócios e ele sabe. Até porque não é a primeira vez que ele se livra de uma família, afinal.

— Ele não faria isso – Rebecca desacreditou, não porque não achasse que Erick Hamilton não era capaz, mas porque se recusava a acreditar que um pai deixaria o próprio filho e a mãe dele desamparados em um momento como esse. Christopher estava doente. Erick não podia ser tão canalha assim, podia?

— Ele me trancou em um hospício por seis anos porque não queria que eu arruinasse a imagem da nossa família criando uma polêmica quando decidi denunciar o meu tio Andrew por abusar sexualmente de mim quando eu era uma criança – Joseph disse, desvendando os pensamentos de Rebecca. – Acha mesmo que ele não faria isso?

E se antes ela não tinha palavras para expressar o quão grotesco Erick Hamilton era, agora é que as palavras lhe faltavam mesmo. Na verdade, até Mikhail e Vlad permaneceram silenciosos demais.

— O que está dizendo?

— O que você ouviu – Joseph reafirmou. – Começou quando eu tinha oito anos. No início ele apenas me tocava quando ninguém estava olhando, eu achava estranho e sentia vergonha, mas não entendia muito bem o que estava acontecendo e tinha medo de contar para o meu pai e ser repreendido por isso. Quando fiz dez, foi quando ele começou a me molestar de verdade. Era Natal, mas eu odiei cada segundo daquela noite e todas as outras que vieram depois dessa, sempre que eu precisava encontrar o meu tio em alguma confraternização estúpida de família.

— Eu... – Rebecca nem sabia o que dizer. Seu estômago estava embrulhado com tudo que tinha ouvido de Joseph e ela lutava contra a parte de si que queria acreditar que aquilo era apenas uma tentativa de manipulá-la para fazer o que ele quisesse. Joseph era uma pessoa sem escrúpulos, era verdade, mas duvidar da vítima em uma situação como essa era um ato cruel. Principalmente quando falava-se sobre uma criança que precisou lidar com algo tão abominável quanto um abuso sexual praticado pelo próprio tio.

— Eu tentei falar sobre isso várias vezes – Joseph se afastou dela, fazendo Mikhail relaxar também, embora esse sequer conseguisse encará-lo nos olhos agora. – Contei para a minha mãe mais de uma vez, tentei falar com o meu pai. Ninguém me ouvia, ninguém se importava e essa merda durou por anos! Eu tive que conviver com isso por anos, Rebecca, até que eu não aguentei mais e decidi que iria procurar a polícia e denunciá-lo, mas o meu pai não queria esse tipo de atenção sobre nós. Ele era um homem de negócios, uma figura pública e o meu tio havia se tornado reitor de uma das maiores universidades do mundo com a ajuda dele. Ele não podia deixar que eu sujasse o nome da nossa família assim e que colocasse a índole dele em duvida, por isso ele me internou naquela clínica e me manteve afastado de tudo e de todos. Varreu toda essa merda para debaixo do tapete sem nunca pensar no que eu havia sofrido nas mãos daquele filho da puta, então, se você acha que ele não seria capaz de fazer algo semelhante com o Christopher ou com quem quer que seja, pense de novo, porque ele é capaz e ele vai fazer.

— Joseph, isso é... é horrível – Rebecca se pronunciou por fim. – Ele é seu pai. Ele... Como ele...

— Meu pai não se importa com ninguém além de si mesmo, Rebecca. Família, esposa, filhos, amigos... tudo isso é descartável para ele e qualquer coisa que não esteja funcionando como ele quer ou que atrapalhe os planos dele, é considerado um obstáculo que deve ser removido. Eu precisei ser mandado para um hospício para entender que tipo de pessoa o meu pai é, mas o A.J. já devia saber disso, não? O pai dele enfiou uma bala na própria cabeça por um motivo.

Rebecca suspirou, enojada e indignada com tudo que acabara de ouvir. Não duvidava da história de Joseph – principalmente não agora que a morte de Andrew Hamilton trouxera à tona tantos fatos horripilantes sobre seu caráter –, mas não sabia o que devia fazer a seguir. Custava-lhe acreditar que Aaron havia mentido para si, mesmo com todas as provas disso escancaradas em sua conta de email e em cada uma das mensagens trocadas com o escritório de advocacia. Ela confiava em Aaron, confiava no julgamento dele e, em seu coração, Rebecca sabia que se ele tinha decidido não ir em frente com o processo judicial que prometera abrir contra Erick, ele devia ter uma boa razão. Ou, pelo menos, ela esperava muito que ele tivesse...

— Eu acredito em você, Joseph – Rebecca concluiu com toda a sinceridade que possuía. – Acredito em cada palavra do que me disse e sinto muito que tenha passado por algo assim, principalmente quando era tão jovem. Nem consigo imaginar o que você teve que suportar em todos aqueles anos, mas preciso perguntar: você saiu da clínica há quase um ano, porque não denunciou o seu tio durante todo esse tempo?

— E arriscar ser mandado de volta para aquele inferno? – Joseph a encarou. – Você não sabe como foram os meus anos lá dentro, Rebecca. Não sabe o quanto a fortuna do meu pai influenciava as pessoas que lidavam comigo – ele riu, mas não havia humor em seu tom de voz. – É verdade que algumas práticas foram abolidas do meio psiquiátrico há muito tempo, os pacientes podem até não receber mais eletrochoques ou serem expostos em jaulas como animais, mas há outras formas de tortura piores que essas, sabe? Há maneiras piores de mexerem com a sua cabeça e eu experimentei todas elas lá dentro. Não iria arriscar sofrer tudo de novo, não com o meu pai de olho em cada movimento meu e pronto para usar o dinheiro e a influência dele para me manter naquele lugar por outros seis anos.

Rebecca sentiu seu coração se apertar. Como uma estudante de Psicologia apaixonada por sua futura profissão lhe doía saber que alguns profissionais da área de saúde mental ainda realizavam esse tipo de tortura com os pacientes, principalmente quando eram movidos por algum tipo de suborno como aquele com que Erick Hamilton, certamente, havia comprado sua lealdade e silêncio. Era repugnante, abominável, principalmente porque ele havia feito aquilo com seu próprio filho, alguém que possuía seu sangue e seu sobrenome e, agora, ela conseguia entender porque Joseph era como era. Talvez a psicopatia do garoto nem fosse de um grau elevado antes, mas com Erick Hamilton como pai e com a criação cruel que devia ter recebido do mesmo, não lhe surpreendia que Joseph agora fosse capaz de machucar pessoas e assassinar animais.

Erick havia levado o próprio filho a se tornar um monstro.

— Me diga o que espera que eu faça – Rebecca pediu, recebendo um olhar preocupado de Vlad que, depois de ouvir toda aquela história, parecia ainda mais atemorizado com Joseph que antes. – Entendo porque quer se vingar do seu pai e quero ajudá-lo a fazer isso, pelos meios corretos, mas não sei como.

— Os documentos que entreguei ao A.J. são as únicas provas que tenho contra o meu pai, mas eles estão com o escritório de advocacia que o A.J. contratou. Preciso deles de volta ou preciso que o seu namorado faça o que me prometeu que faria. Você pode me ajudar com o que achar mais fácil.

— Não tenho como conseguir os documentos para você – Rebecca passou as mãos pelo rosto, sentindo-se cansada após tudo aquilo. – Só o Aaron pode pegá-los de volta e, mesmo que ele os pegue, eu duvido que ele vá entregá-los para você depois do que fez com ele hoje.

— Então, convença-o a ir em frente com o processo. Ele pode reaver a empresa pai dele e vai ter dinheiro suficiente para cuidar do Christopher e da Brianna quando o meu for preso. Não deve ser difícil, Rebecca. Ele ouve você, cofia em você – Joseph concluiu. – Vai fazer o que você pedir que ele faça.

— Mas eu não vou pedir que ele faça isso, Joseph.

— Porque não?

— Porque eu também confio nele – Rebecca respondeu. – O Aaron perdeu o pai por causa das fraudes do Erick, teve que abrir mão da própria família e pode não ter passado por uma situação como a sua, mas sofreu tanto nas mãos do seu pai quanto você. Eu sei— ela afirmou – que ele quer tanto quanto você colocar o seu pai atrás das grades e fazê-lo pagar por todas as coisas ruins que já fez, então, se ele decidiu não ir em frente com esse processo, eu sei que ele deve ter um bom motivo. E ele pode não ter confiado em mim o suficiente para me contar o que é, mas eu confio nele o suficiente para não precisar questionar.

Joseph reagiu tão rápido que Mikhail e Vlad quase não tiveram tempo de segurá-lo e mantê-lo afastado de Rebecca. Ele já não parecia mais o garoto que havia sofrido abusos na infância, desesperado por justiça – ou vingança – que era alguns minutos antes, tão pouco parecia com o irmão postiço irritante e frio que costumava ser naqueles dias em que se hospedou no apartamento de Aaron. Não. Aquelas máscaras enfim haviam caído e, agora sim, Joseph parecia o cara perigoso que todos diziam que ele era, alguém mais assustador que o cara que Rebecca encontrara na varanda da casa de Brianna, naquela fatídica noite de natal que passara em Londres onde ele a havia ameaçado e, quando ele a encarou dessa vez, ela sentiu o coração acelerar com um medo genuíno.

— Você é tão fraca quanto o seu namorado – Joseph disse com uma calma que contrastava assustadoramente com o frio assassino que emanava de seus olhos. – Eu nunca esperei muita coisa do A.J. e estava certo em não esperar muito de você também. Acho que, no fim das contas, vocês são um casal perfeito, então, eu espero que vocês continuem juntos, porque depois que eu acabar com o meu pai, eu virei atrás de vocês – Joseph ameaçou – e eu juro que vou aproveitar cada coisa que farei com você na frente do A.J., antes de cortar a garganta dele e a sua.

— Que porra você acabou de dizer? – Mikhail o empurrou para longe, disposto a enfiar um belo soco no rosto de Joseph, mas ele apenas pegou o casaco que havia jogado sobre a poltrona e se encaminhou para a porta.

— Eu volto – disse especificamente para Rebecca e se retirou do apartamento, sem olhar para trás.

— Qual o problema desse cara? – Vlad questionou inquieto e Rebecca só percebeu que suas mãos tremiam quando Mikhail as segurou, buscando os olhos dela com os dele.

— Você está bem?

— Precisamos levar os cães para a casa da Margareth – Rebecca disse meio dispersa. Sua mente estava totalmente absorvida pelas ameaças de Joseph e, naquele momento, ela sentia que só conseguiria funcionar direito se estivesse no automático.

— Podemos ir até a delegacia – Mikhail sugeriu. – O que esse Joseph falou foi bem grave, Rebecca. Você pode denunciá-lo e entrar com o pedido de medida protetiva. Ele acabou de te ameaçar de morte.

— Eu... Eu preciso levar os cães para a casa da Margareth e preciso conversar com o Aaron – foi o que Rebecca conseguiu dizer por fim. – Podemos pensar nisso tudo depois.

— Tem certeza? – Foi a vez de Vlad se aproximar e tocar o braço dela, como uma maneira de tentar confortá-la e tirá-la daquele estupor no qual ela parecia ter entrado.

— Tenho, sim – Rebecca deu um leve tapinha na mão dele. – Me ajuda?

Então, eles voltaram a tarefa de recolher as coisas dos cães e de colocá-los em suas respectivas coleiras para levá-los ao apartamento de Margareth, para quem ela deu uma explicação vaga e não muito condizente com a verdade quando pediu que a tutora tomasse conta dos animais por alguns dias.

Margareth não pareceu acreditar em uma virgula, mas algo no rosto de Rebecca fez com ela desistisse de fazer as milhões de perguntas que queria ter feito. Em vez disso, ela apenas abraçou Rebecca com força e disse, em voz baixa, que estaria lá para cuidar dela em qualquer situação.

Rebecca sentiu vontade de chorar ao ouvir as palavras da tutora, mas se segurou e agradeceu ao carinho de Margareth antes de voltar dirigindo para a universidade, sem realmente absorver o caminho que percorria. Ela teria muito tempo para chorar a noite, pelo que havia acontecido com Aaron, pela ameaça que recebera e, até mesmo, pela história de Joseph, na qual ela ainda acreditava mesmo depois de tudo que ele dissera contra ela. Rebecca só não esperava desabar no caminho entre o dormitório da Trinity College e o seu, mas não se envergonhou disso nem quando sentiu os braços de Vlad ao seu redor, amparando-a, enquanto ele murmurava que tudo ficaria bem.

Na verdade, ela se sentiu orgulhosa de si mesma, do quanto havia evoluído para conseguir enfrentar tudo aquilo, pois a garota que chegara em Oxford, meses antes, jamais teria forças para lidar com aquele tipo de situação.

Quanto a Vlad, ela estava grata por sua presença naquele momento. Não pode chamá-lo de namorado, mas agora sabia que sempre poderia chamá-lo de amigo.

Notas finais
E isso é tudo, por enquanto. Já comecei a escrever o próximo capítulo, não sei quando fica pronto, mas tentarei terminar o mais breve possível. Espero que tenham gostado dos capítulos, apesar de todas as tragédias que aconteceram neles e, se serve de consolo, ainda ha mais tragédias à caminho. Brincadeira. Quer dizer, tem mais tragedias a caminho mesmo, mas eu sei que isso não serve de consolo para ninguém. Enfim, vejo vocês em breve com mais uma atualização. Até lá ♥