Wake Me Up
23 Colegas de Quarto
Notas iniciais
Na manhã daquela segunda-feira Ty precisou se obrigar a levantar da cama. Tinha um trabalho sobre Nutrição Básica para apresentar e ele valia 30% de sua nota total do semestre, então, não poderia faltar.
Respirou fundo e reuniu toda a coragem que tinha, mas depois do que havia acontecido na festa de sexta, não estava com a menor vontade de ir para a aula. Aliás, não estava com a menor vontade de ir para lugar nenhum.
Havia passado o fim de semana inteiro trancado no quarto, remoendo todos os acontecimentos da festa e até tinha se arriscado a tomar uma das garrafas de vodca que Aaron mantinha escondidas no dormitório, mas nada daquilo foi suficiente para ajudá-lo a esquecer aquele desastre e, simplesmente, não queria ter de encarar as pessoas agora.
Sem ter outra opção, Ty se dirigiu ao banheiro, escovou os dentes, tomou um banho e vestiu o uniforme da Trinity College, antes de pegar seus materiais e se dirigir à lanchonete mais próxima para tomar o café da manhã, mas mal colocou os pés no estabelecimento e já foi recebido com olhares de esguelha e sussurros mal intencionados, então, decidiu pedir o café para viagem e procurar um lugar tranquilo e deserto para comer.
Quando foi para a aula a situação não melhorou muito. Por onde passava era recebido com olhares curiosos, cochichos e algumas risadinhas debochadas, mas se obrigou a entrar na sala e tudo o que fez foi mudar de lugar e se sentar em uma das cadeiras do fundo, de cabeça baixa.
Ninguém ousou falar com ele ou cumprimentá-lo, mas a aula transcorreu normalmente. A professora fez a chamada e deu alguns avisos, os alunos apresentaram seus trabalhos e tudo parecia muito bem até então, mas quando chegou a vez de Ty se apresentar as piadinhas recomeçaram.
Ele estava no meio de uma explicação sobre a importância de uma alimentação balanceada para o desenvolvimento físico e mental das crianças quando um de seus colegas de turma murmurou a palavra “veado” enquanto fingia pigarrear para limpar a garganta.
A turma inteira irrompeu em risadinhas baixas e disfarçadas e a professora fingiu não ouvir o insulto, enquanto fazia sinal para que Ty continuasse com sua apresentação.
Ele respirou fundo e recomeçou, mas mal havia pronunciado três frases quando outro estudante murmurou a palavra “bichinha” enquanto fingia um espirro e, dessa vez, as risadas que ecoaram pela sala não foram disfarçadas e a professora precisou se levantar e dar uma bronca na turma pelo péssimo comportamento, mas notando que Ty estava constrangido demais para continuar com a apresentação, ela lhe pediu que voltasse para seu lugar e a procurasse no fim da aula.
Ty obedeceu e seguiu de volta para seu lugar sendo acompanhando por sorrisinhos e olhares nada discretos e, quando se acomodou em sua cadeira, rapidamente uma folha de caderno começou a circular pela sala, arrancando mais risos dos alunos que a olhavam.
Ele tentou não dar importância àquilo, mas quando Callie Bennett, a garota que se sentava ao seu lado, fez questão de depositar a folha sobre sua carteira e ele viu o desenho horrível que haviam feito sobre ele, não conseguiu evitar que as lágrimas brotassem em seus olhos.
Ergueu a cabeça e olhou para todos os estudantes ali, que o encaravam com sorrisos debochados nos lábios e parou em Derek Wright, que abriu um largo sorriso perverso para ele e começou a fazer uma encenação obcena de sexo oral.
Sentindo-se humilhado e constrangido, Ty pegou seus materiais e saiu da sala sob um coro de risadas e uma série de tentativas frustradas de sua professora de tentar colocar ordem na sala e exigir que os alunos tivessem respeito.
Voltou para o dormitório sentindo as lágrimas escorrerem por suas bochechas e ainda teve que ouvir algumas piadinhas pelo caminho, de garotos e garotas que só faltaram agredi-lo enquanto ele passava.
Enfiou-se no quarto e bateu a porta atrás de si, tremendo de raiva e de angústia e então seguiu para o banheiro, na esperança de poder lavar o rosto e se acalmar um pouco, mas acabou levando um susto quando a porta se abriu, antes mesmo que ele tivesse tocado na maçaneta, e Aaron saiu de lá de dentro, completamente nu.
– Ai, meu Deus! – Ty exclamou pulando um passo para trás por causa do susto – O que diabos você está fazendo pelado aqui dentro?
– Eu estava tomando um banho. – Aaron respondeu, calmamente, enquanto se dirigia ao guarda-roupa – Não sei quanto a você, mas quando eu tomo banho, eu fico pelado mesmo.
– Isso está bastante óbvio. – Ty apontou para o corpo dele – Mas existe uma coisa chamada toalha de banho. Não sei se você conhece, mas as pessoas normais costumam usá-la quando saem do chuveiro.
– Ah, para de dar chilique, Andrews. Eu nem sabia que você estava aqui. Além do mais, eu não devo ser o primeiro cara que você vê nu e, muito provavelmente, também não serei o último, não é? – Aaron abriu um sorrisinho sugestivo e Ty corou quase instantaneamente.
– Esse comentário foi desnecessário. – reclamou antes de seguir para o banheiro – E não teve graça nenhuma, tá?
– Tá. – Aaron deu de ombros, sem se importar.
Ty lavou o rosto, passou um pouco de água pelo cabelo e fitou seu reflexo entristecido no espelho durante alguns instantes. Quando voltou para o quarto, Aaron já estava completamente vestido e terminava de calçar o tênis.
– Você ainda frequenta alguma aula? – Ty perguntou jogando-se sobre a cama e Aaron lançou a ele um olhar irritado antes de pegar sua carteira e guardá-la no bolso da calça.
– Por acaso eu te devo satisfação sobre a minha vida? – retrucou de mau humor, pegou a chave do carro e saiu.
Ty ainda ficou encarando a porta fechada por um breve instante, perguntando-se que pecado ele havia cometido para ter um colega de quarto como Aaron Greed, mas depois se enfiou debaixo das cobertas e decidiu que se não tinha como resolver aquilo, então pelo menos tentaria se desligar da tristeza e de todas as coisas ruins que estavam acontecendo em sua vida com várias horas de sono.
Quando acordou, o dormitório estava completamente envolto na penumbra e o relógio na parede mostrava que faltavam dez minutos para as sete da noite. Levantou-se e espreguiçou-se rapidamente, sentindo o estômago roncar, então, abriu o frigobar do dormitório a procura de qualquer besteira para comer, mas não encontrou nada. Pensou em telefonar para um fast food e pedir comida, mas achou que seria muita covardia ficar se escondendo no quarto para sempre, então decidiu sair para comprar algo.
O campus não estava tão cheio àquela hora quanto estava pela manhã, por isso, Ty não teve que enfrentar muitas situações desconfortáveis, exceto alguns poucos olhares e algumas risadas baixas.
Revirou os olhos, aborrecido, e se dirigiu até um restaurante japonês, não muito longe de seu alojamento, onde pediu uma porção de sushi com molho shoyu para viagem, porque o restaurante estava muito cheio e ele não queria ficar ali.
Já estava se felicitando pelo bom trabalho que fizera ao ignorar as pessoas que cochichavam a seu respeito e pela coragem que tivera ao sair do quarto e enfrentar todas elas de cabeça erguida, quando chegou à porta de seu dormitório e encontrou Derek Wright e outros três garotos de sua turma, enchendo toda a parede do lado de fora de seu quarto com panfletos que mostravam seu rosto colado no local onde deveria estar a cabeça de um veado, em um campo cercado por arco-íris.
Automaticamente, sentiu a raiva se espalhar por seu corpo e largou as sacolas de sushi num canto do corredor, antes de avançar até os garotos, arrancando os panfletos de suas mãos.
– Seu bando de idiotas! – gritou, enquanto rasgava uma parte dos panfletos ao meio e os jogava no chão – Vocês não tem nada melhor para fazer?
Os garotos apenas riram.
– Olha só, galera, parece que a bichinha está irritada hoje. – Derek provocou – Por acaso você está na TPM, Ty? Ou só precisa mesmo é de um bom pau para chupar, hein?
Antes que pudesse pensar no que estava fazendo, Ty avançou para cima dele e lhe deu um soco. Derek cambaleou para um lado, mas os outros três garotos que estava com ele partiram para cima de Ty e logo ele foi jogado no chão e agredido com chutes e socos, enquanto tentava, inutilmente, cobrir o corpo com as mãos para se proteger.
Um dos amigos de Derek acertou um chute em suas costelas e o próprio Derek, que já havia se recuperado do soco, acertou um chute em seu rosto que só não lhe deixou completamente desacordado porque Ty conseguiu erguer os braços a tempo de se defender do golpe.
Já estava se sentindo completamente dolorido e bem perto de perder a consciência, quando Aaron surgiu no corredor e se intrometeu no meio da confusão afastando os garotos dele.
– Que merda está acontecendo aqui? – Aaron perguntou completamente irritado com tudo aquilo – Que porra vocês acham que estão fazendo?
– Foi mal, Greed. A gente só estava brincando. – Derek se defendeu – Não queríamos causar confusão.
– Vocês chamam isso de não querer causar confusão? – Aaron apontou para os panfletos ao redor – De quem foi essa ideia brilhante?
Nenhum dos garotos respondeu, então, ele respirou fundo e passou as mãos pelo cabelo, tentando se acalmar um pouco antes de dar um passo na direção deles.
– Eu vou perguntar só mais uma vez. – disse com seriedade – De quem foi a ideia?
Pressionados pelo olhar enraivecido de Aaron e por sua postura ameaçadora, os garotos se entreolharam e, depois de hesitar por um breve instante, Derek ergueu a mão.
– Fui eu. – disse contido – Eu só queria zoar com a cara dele. Achei que seria engraçado.
– Achou que seria engraçado? – Aaron o encarou – Isso parece engraçado?
Derek sustentou seu olhar, mas não respondeu nada, então, Aaron recuou um pouco para mais perto da parede de seu dormitório, que estava completamente coberta por panfletos coloridos e fez sinal para que ele se aproximasse.
Aborrecido, porém temeroso, Derek fez o que ele pediu, mas quando se aproximou foi rapidamente surpreendido por Aaron, que agarrou sua nuca e, com extrema violência, empurrou sua cabeça contra a parede, fazendo-a se chocar contra o concreto com um baque surdo. O golpe foi tão forte que um talho se abriu no nariz de Derek, que tombou para trás, assim que Aaron o soltou, segurando o nariz ensanguentado e quebrado entre as mãos.
Aaron deu uma última olhada para ele e, então, se dirigiu aos três garotos que observavam a cena, completamente horrorizados.
– Alguém mais acha isso engraçado? – ele perguntou fuzilando cada um dos garotos com o olhar e, imediatamente, eles começaram a acenar com a cabeça dizendo que não – Ótimo. Então, nós chegamos a um acordo. Agora, vamos deixar algumas coisas bem claras. – continuou, aproximando-se para encarar os garotos de perto – Se eu encontrar mais algum desses panfletos pelo campus, não me interessa se foram vocês quem os espalharam ou não, eu vou atrás de vocês e vou arrebentar as suas caras de uma forma que nem as suas próprias mães vão conseguir reconhecê-los depois, entenderam?
Os garotos assentiram apressadamente e Aaron deu mais um passo para perto deles, de modo que conseguia encará-los de cima.
– Perfeito. – disse maneira pausada e clara – Agora limpem a droga da minha parede e tirem esse lixo do meu corredor! – ordenou, dando um chute nas costelas de Derek que ofegou, sem fôlego, ainda segurando o nariz quebrado que já começava a formar uma pequena poça de sangue no chão.
A movimentação no corredor foi instantânea. Enquanto um dos garotos arrastava Derek para longe dali, os outros dois se apressaram em retirar todos os panfletos que haviam colado na parede e aqueles que haviam ficado espalhados pelo chão durante a briga. Aaron passou por eles, sem dizer uma palavra e entrou no dormitório, sem olhar para trás e Ty olhou pasmo para toda aquela cena, mas não ficou para conferir os resultados da autoridade de Aaron sobre os garotos. Simplesmente se colocou de pé, rapidamente e pegou a sacola onde estava seu jantar, correndo para dentro do dormitório, logo em seguida.
– O que foi tudo aquilo? – perguntou espantado, enquanto Aaron se concentrava em retirar a carteira e as chaves do carro de dentro dos bolsos.
–Isso aí na sua sacola é peixe? – Aaron questionou franzindo o nariz.
– Não muda de assunto. – Ty o encarou contrariado.
– Eu odeio peixe, sabia? – Aaron se voltou para ele calmamente – Quando terminar de comer joga a sacola no lixo lá de fora. Não quero esse cheiro de peixe impregnando o dormitório.
– Isso é sério?
– Claro que é sério.
Aaron se dirigiu para o banheiro, mas Ty não se deu por vencido e seguiu atrás dele, colocando-se entre ele e a porta rapidamente.
– Porque você me defendeu? – perguntou, ainda sem conseguir acreditar que aquilo realmente havia acontecido.
– É melhor sair da minha frente.
– Porque você não responde?
– Porque você não vai à merda? – Aaron retrucou e, sem pensar duas vezes, empurrou Ty para fora do caminho, entrando no banheiro e trancando a porta logo em seguida.
Ty ainda ficou parado ali, encarando a porta fechada por um breve instante, antes de resmungar e depositar sua sacola de comida sobre a cômoda para poder dar uma olhada nos hematomas em seu rosto em um pequeno espelho que havia ali.
Seu supercílio estava cortado e sangrando e havia alguns pequenos hematomas arroxeados surgindo em sua bochecha esquerda e em sua mandíbula, além de uma grande mancha roxa cobrindo suas costelas e parte de suas costas, até onde ele podia ver. Seus braços estavam um pouco arranhados e vermelhos nos lugares em que a sola dos tênis de Derek e de seus amigos o haviam atingido, mas, fora isso, estava tudo bem. Se Aaron não tivesse chegado e impedido os garotos de massacrá-lo, no entanto, talvez gora estivesse em uma ambulância a caminho de um hospital, provavelmente em um coma profundo.
Ty ainda não conseguia acreditar que Aaron o havia defendido daquela forma e também não entendia o porque, já que seu colega de quarto parecia odiá-lo, mas não ia deixa-lo escapar sem lhe dar essas respostas.
Seguiu para a cama, onde se sentou e tentou organizar a porção de sushi e os potes de molho sobre uma pequena bandeja de plástico, que mantinha no quarto para as vezes que em decidia comer na cama, e abriu o saquinho de papel onde ficavam os hashis.
Mal tinha levado dois rolinhos de sushi a boca, quando Aaron saiu do banheiro e retirou a roupa que usava, substituindo-a por uma blusa de frio cinza e uma calça esportiva preta. Sua postura dizia que ele não estava a fim de conversa, mas Ty preferiu ignorar o alerta.
– Porque me defendeu? – perguntou encarando as costas de Aaron, cujos músculos dos ombros instantaneamente se retesaram em resposta.
– Você não vai me deixar em paz?
– Se você responder a minha pergunta, talvez. – Ty respondeu, seriamente.
Aaron se virou para ele.
– Eu não te defendi. – respondeu irritado – Só não queria dormir em um quarto cujas paredes estavam cobertas pelo seu rosto e um monte de arco-íris. Além do mais, também não queria sujar os meus sapatos pisando no seu sangue espalhado pelo corredor.
– Foi a desculpa mais idiota que você já inventou. – Ty reclamou – Sério, Aaron. Porque não diz logo a verdade?
Aaron cerrou os punhos.
– Quer saber a verdade, Ty? Fiquei com inveja. – disse frio – Não gosto que outras pessoas brinquem com a sua cara. Esse é um direito reservado apenas a mim. Se alguém vai te fazer sofrer, esse alguém tem que ser eu. Não gosto que outras pessoas tirem a minha alegria.
Ty olhou para ele, chocado e quase começou a chorar novamente. Por um instante tinha imaginado que Aaron o havia defendido porque se importava com seu bem-estar, apesar de sempre agir com um idiota, mas estava enganado. Ele apenas não queria dar a outras pessoas o gostinho de tortura-lo. Era só a droga de um imbecil, sádico e sem consideração por nada nem ninguém.
– Você é um babaca. – Ty disse enraivecido – É por isso que ninguém gosta de você. Provavelmente nem os seus pais te suportam.
Aconteceu tão rápido que Ty nem teve como se defender. Em um instante estava encarando Aaron com todo o desprezo que possuía e, no outro, Aaron havia derrubado a bandeja de sushi sobre ele, deixando-o completamente coberto de rolinhos de peixe e de molho.
Ty o encarou por um segundo, completamente pego de surpresa, mas assim que conseguiu se recuperar do choque, partiu para cima de Aaron, derrubando-o no chão.
– Filho de uma... – o insulto foi interrompido quando Aaron o empurrou para longe, fazendo-o cair sobre a cama novamente, mas não demorou muito para Ty se recuperar e partir para cima dele de novo.
Os dois caíram no chão do quarto, trocando insultos, enquanto Ty tentava acertar Aaron com vários socos, mas ele não conseguiu acertá-lo em cheio nem uma vez e, logo, Aaron conseguiu se desvencilhar dele e rolar no chão, prendendo Ty embaixo de si.
– Bate! – Ty exclamou, furioso, quando Aaron fechou o punho fitando-o com raiva – Aposto que você quer fazer isso desde que nos tornamos colegas de quarto, então, vá em frente, Aaron. Faça o que tem que fazer!
Aaron o encarou enfurecido e Ty fechou os olhos quando ele moveu o punho em sua direção, mas o golpe não aconteceu. Ao invés de acertar seu rosto, Aaron socou o carpete ao lado de sua cabeça e quando Ty abriu os olhos, encontrou os dele ainda fervilhando de raiva.
– Eu nunca quis bater em você. – Aaron disse com seriedade – Se eu quisesse, você já estaria em coma a essa hora, então, não ache que sabe qualquer coisa sobre mim, Ty.
Ele se colocou de pé, calçou rapidamente seu par de All Star vermelhos e pegou suas coisas de cima da cômoda, saindo apressadamente do quarto. Seu fim de semana havia sido uma droga desde que Rebecca aparecera em seu apartamento e aquela segunda-feira não ficava atrás no quesito desastre.
Depois de tudo o que havia acontecido, precisava de uma bebida, então, entrou no carro e rumou para a loja de conveniência mais próxima. Raramente perdia o controle, mas naquela noite, ele só queria beber até que seu corpo estivesse completamente entorpecido.
Fale com o autor