Wait In The Truck

10 S1E10: Girl In The Mirror


Megan lembrava exatamente quando tudo começou a mudar. No início, Mark era atencioso, envolvente, alguém que parecia vê-la de um jeito que ninguém mais via. Mas, aos poucos, os elogios se tornaram críticas sutis, que logo evoluíram para exigências. Primeiro, pequenas coisas – a roupa que usava, as mensagens que recebia, os amigos que visitava. Depois, os toques ficaram mais pesados, as discussões mais violentas, e os pedidos de desculpas mais vazios. A primeira vez que Mark a machucou de verdade, ele jurou que nunca mais faria aquilo. Mas Megan sabia que algo tinha mudado. E, dali em diante, as marcas começaram a se acumular, tanto no corpo quanto na alma.

Agora, olhando seu reflexo na janela da sala, ela quase não se reconhecia. O rosto ainda trazia o resquício do último golpe – um corte já fechado no lábio, um roxo esmaecido na bochecha. Cicatrizes finas nas mãos e nos braços contavam histórias que ela nunca quis escrever. Os olhos, que um dia carregavam brilho, estavam pesados, cansados. Megan sentia que uma versão dela já tinha morrido dentro daquela casa. A única coisa que restava agora era a necessidade desesperada de fugir.

Naquela noite, a tempestade lá fora não era nada comparada ao caos dentro da casa. O som da chuva era abafado pelos gritos de Mark, cada palavra carregada de raiva e frustração. Ele estava mais furioso do que nunca. Megan sabia que, se não saísse agora, não sairia nunca. Com o coração acelerado e a adrenalina pulsando, ela encontrou um instante de descuido e correu. Saiu descalça, sentindo o impacto do asfalto frio contra os pés machucados, mas a dor era insignificante comparada ao pânico que pulsava em suas veias. A cada relâmpago que iluminava o céu, ela sentia que Mark poderia estar logo atrás, surgindo das sombras para arrastá-la de volta.

As palavras dele ainda ecoavam em sua cabeça, afiadas como lâminas: “Você nunca vai encontrar alguém que te aguente como eu.” Por tanto tempo, ela acreditou. Mark não apenas a isolou – ele a esvaziou de tudo que um dia a fazia sentir viva. A garota que se olhava no espelho anos atrás, cheia de sonhos e energia, agora se via refletida como um espectro, uma silhueta sem identidade. Os olhos, antes brilhantes, eram sombras pesadas de cansaço e medo.

A briga daquela noite fora pior do que as anteriores. Não apenas os gritos, não apenas os insultos. Dessa vez, o empurrão a fez bater a cabeça contra a parede, o gosto metálico do sangue preenchendo sua boca. Foi o momento de ruptura. Um instinto primitivo gritou dentro dela – corra. E ela correu.

Mark, por outro lado, não via seus atos como errados. Ele se considerava um homem forte, um líder. Megan precisava dele, mesmo que ainda não tivesse percebido. Ele a protegia dela mesma, das ilusões de independência que a fariam sofrer. Quando ela saiu correndo naquela tempestade, a fúria misturou-se com um desespero que ele não queria admitir.

Mark ficou parado no meio da sala, os punhos cerrados, o peito arfando. Megan fugindo era uma afronta. Pegou as chaves do carro e saiu, dirigindo pelas ruas molhadas com os olhos varrendo cada canto da cidade. Megan sempre voltava. Sempre. Era só uma questão de tempo.

Ele dirigiu pelas ruas vazias, os limpadores do para-brisa falhando em acompanhar a intensidade da chuva. Sabia que Megan não tinha muitos lugares para onde ir. Seus amigos se afastaram, sua família mal falava com ela e eles moravam em uma cidadezinha no meio do nada. Ele se certificara disso tudo ao longo do tempo. “Ela vai perceber que precisa voltar”, murmurou para si mesmo, as mãos apertando o volante até os nós dos dedos ficarem brancos.

Enquanto Megan continuava a correr sem destino, sua mente oscilava entre a culpa e o alívio. Ela se lembrava do começo, de como ele era carinhoso, de como a fazia se sentir única. E agora, aqui estava ela, fugindo do mesmo homem que um dia prometeu amá-la. A garota no espelho – aquela que usava vestidos bonitos, aquela que sorria sem medo – estava desaparecida. Ela amou Mark mais do que se amou. Isso ficou claro agora, sob a luz dos relâmpagos que cortavam o céu noturno.

Mark rodou a cidade por mais tempo do que gostaria de admitir, mas Megan parecia ter desaparecido. Ele rangeu os dentes, irritado. Onde diabos ela estava? Como ousava sair assim, como se tivesse escolha?

Um pensamento atravessou sua mente, tão rápido que quase passou despercebido: e se dessa vez ela realmente não voltasse? O que ele faria sem ela?

A ideia o incomodou. Por um instante, algo semelhante a culpa se insinuou, uma pontada incômoda no peito, mas ele a esmagou antes que pudesse criar raízes. Não. Isso não era sua culpa. Megan sempre exagerava. Ela precisava dele. Ela voltaria, como sempre fazia.

Com um xingamento abafado, virou a caminhonete e dirigiu de volta para casa.

Sentou-se na poltrona, a perna inquieta batendo contra o chão, os dedos tamborilando no braço da cadeira. O relógio marcava minutos que pareciam horas. Ele sabia que Megan voltaria. Sempre voltava.

E quando isso acontecesse, ele estaria esperando.