Wait In The Truck
11 S1E11: Hold On, Cowboy
A chuva caía pesada, e a dor dos ferimentos tornava cada passo um desafio. Megan caminhou por horas, seus pensamentos um turbilhão de medo e determinação. Eventualmente, a estrada deserta a levou a uma espécie de transe, onde ela simplesmente seguia em frente, sem saber o que esperar.
Seus pés descalços doíam contra o asfalto frio, e suas roupas encharcadas grudavam em sua pele, tornando cada movimento ainda mais difícil. O vento cortante fazia seu corpo tremer, mas ela não podia parar. Parar significava dar tempo para que Mark a encontrasse. Parar significava desistir. E isso, pela primeira vez em muito tempo, não era uma opção.
Foi nesse estado de desespero que os faróis de uma caminhonete se aproximaram, iluminando seu caminho. A luz forte fez Megan erguer um braço instintivamente para proteger os olhos. O instinto imediato foi fugir, mas seu corpo já não tinha forças para isso. Sentindo uma mistura de esperança e medo, Megan parou e esperou, os olhos fixos nos faróis que se aproximavam.
O motor roncou baixo antes que o veículo reduzisse a velocidade e parasse ao seu lado. O vidro do lado do motorista abaixou, revelando um homem de olhar cansado, mas solidário. Ele não era muito mais velho que ela, talvez na casa dos trinta, com barba por fazer e olhos profundos, que pareciam reconhecer algo nela. Algo que ele próprio conhecia bem demais.
— Tá tudo bem? — A voz dele soou firme, mas sem ser invasiva. Ele inclinou-se levemente para enxergá-la melhor sob a chuva.
Megan hesitou. Quantas vezes ouvira essa pergunta antes? Quantas vezes mentiu, dizendo que sim, estava tudo bem? Mas agora, sem ter para onde ir e sem ninguém para recorrer, a resposta pareceu pesar sobre seus ombros.
David percebeu a hesitação dela e não insistiu. Em vez disso, saiu do carro, puxando a jaqueta para protegê-la da chuva, e se aproximou com cautela. Ele viu os machucados, os olhos fundos, o jeito como Megan se encolhia, como se estivesse pronta para ser atacada a qualquer momento. Ele já conhecera aquele olhar antes — nos espelhos que evitava encarar. O olhar vazio, mas ao mesmo tempo carregado de algo que pesava nos ombros.
Viu o sangue seco no canto da boca, os hematomas que as mangas molhadas não conseguiam esconder. Reconheceu a postura de alguém que havia sido quebrado tantas vezes que a ideia de confiar em alguém de novo parecia insuportável.
Foi como se um fantasma do passado surgisse diante dele. Por um instante, ele não viu apenas Megan – viu Ana. A lembrança veio como um golpe seco no peito: a exaustão nos olhos dela quando tudo desmoronou, quando a profissão que tanto amava se tornou um peso, quando ele, por mais que tentasse, não pôde salvá-la da própria ruína. David baixou o olhar e percebeu um crachá preso à alça da bolsa encharcada de Megan, com letras desbotadas indicando o nome de algum jornal que ele não conhecia. O detalhe o atingiu como uma ironia cruel. Ana também era jornalista. Também batalhou contra as ondas até ser engolida. Ele não sabia pelo que Megan havia passado, mas reconhecia os sinais. E David sabia que não suportaria ver isso acontecer outra vez.
— Olha, não tô tentando te assustar, só… — Ele fez uma pausa, passando a mão pelo rosto, escolhendo as palavras com cuidado. — Sei que a vida pode dar coices fortes. Mas cowboys de verdade não desistem. Se precisar de um tempo pra respirar, pode entrar no carro. Tá quente lá dentro.
Cowboys. Aquela palavra fez algo dentro de Megan se remexer. Mark costumava dizer que era um cowboy. Forte, destemido, dono de si. Mas ele nunca a protegeu de verdade. Ele só a quebrou. Esse estranho na estrada, no entanto, falava de um jeito diferente. Como se ser forte não significasse apenas sobreviver, mas seguir em frente, apesar de tudo.
Ela hesitou mais um segundo, mas a chuva continuava fria, e seu corpo começava a ceder ao cansaço. Olhou para David novamente. Ele não parecia um perigo. Parecia alguém que entendia. Que sabia o que era estar perdido.
Com um suspiro trêmulo, Megan assentiu levemente e deu um passo em direção ao carro. David abriu a porta para ela, esperando até que estivesse dentro antes de voltar para o volante. O interior da caminhonete era quente e tinha o cheiro de couro e cigarro fraco. Megan se encolheu no banco, sentindo o calor começar a aliviar o tremor em seus músculos.
David não ligou o motor de imediato. Apenas olhou para ela de relance, sem pressa, sem cobrança. E então, com uma voz mais baixa, disse:
— Você não precisa me contar nada. Só… segura firme.
Megan fechou os olhos por um instante. Pela primeira vez em muito tempo, ela não se sentia sozinha.
A chuva continuava a cair, grossa e impiedosa, mas dentro de David uma decisão já havia sido tomada. Ele não perguntou o que havia acontecido. Não perguntou se ela queria ajuda. Apenas olhou para Megan, seus olhos escuros carregados de algo inabalável, e perguntou:
— Onde?
Megan piscou, surpresa. Não havia explicações, nem rodeios. Apenas a pergunta. Ela sabia exatamente o que ele queria dizer. Sentiu um arrepio percorrer sua espinha, não pelo medo, mas pela intensidade do momento. Mark sempre dissera que ninguém se importaria, que ninguém moveria um dedo por ela. Mas ali estava um homem que mal conhecia, disposto a ir atrás dele sem hesitar.
Os lábios de Megan tremeram, não pela chuva, mas pela avalanche de emoções que a invadiu. Ela podia dizer não, pedir para apenas ir embora. Mas, pela primeira vez em muito tempo, sentiu que talvez não estivesse tão sozinha quanto pensava.
Com um fio de voz, ela sussurrou o nome da cidade.
Fale com o autor