Wait In The Truck

9 S1E09: Hide My Gun


Anos após o casamento de David e Laura uma proposta para um novo projeto parecia promissora demais para ser recusada pelo escritório de David, que mais uma vez passava por um período de vacas magras. Uma construção monumental, complexa e ambiciosa, que poderia consolidar a reputação de David como um dos melhores arquitetos da sua área. Mas o que começou como uma oportunidade dos sonhos logo se transformou em um pesadelo interminável.

O canteiro de obras, localizado na cidade de Antlers (Oklahoma), exigia sua presença constante. Ele passava noites em claro revisando cálculos, resolvendo disputas contratuais e tentando manter o cronograma sob controle. Com o tempo, os desafios se acumularam – materiais de qualidade inferior, atrasos nas entregas, problemas estruturais que exigiam revisões custosas. O peso da responsabilidade era esmagador, mas ele se recusava a desistir. "Eu faço isso por nós, Laura. Por nosso futuro", ele dizia ao telefone, tentando convencê-la – ou a si mesmo – de que tudo valeria a pena no final.

Mas Laura não se sentia parte desse futuro. As ligações eram cada vez mais curtas, e os poucos encontros que tinham eram marcados pelo silêncio desconfortável. A distância física logo se transformou em um abismo emocional. "Você não está mais aqui, David", ela sussurrou certa noite, quando ele, exausto, mal conseguia manter os olhos abertos para escutar.

Então veio o desastre. Um colapso parcial antes da conclusão da obra. Um erro de cálculo, uma falha de supervisão – ninguém sabia exatamente quem era o culpado, mas todos olhavam para David. Em poucos dias, foi demitido e passou a ser investigado. Seu nome, antes sinônimo de excelência, agora estava manchado.

A pressão, o fracasso público e a incerteza do futuro foram demais para Laura suportar. Ela arrumou as malas e voltou para sua cidade natal, sem brigas ou grandes discursos – apenas a certeza de que não podia mais ficar.

(...)

David sentia o peso do fracasso esmagando seus ombros enquanto dirigia sem destino certo, os faróis de sua caminhonete cortando a chuva incessante. As gotas escorriam pelo para-brisa, refletindo os letreiros neon apagados de postos de gasolina vazios e bares decadentes ao longo da estrada. Ele não sabia exatamente para onde ia, apenas que precisava seguir em frente. O mundo ao seu redor parecia desligado, enquanto ele tentava ignorar a dor sufocante em seu peito.

Depois de horas de estrada, com os olhos ardendo de cansaço e a cabeça pesada pelo excesso de pensamentos, David parou em um posto de gasolina qualquer, um desses esquecidos no meio do nada. Acendeu um cigarro e ficou ali, encostado na caminhonete, o cheiro de terra molhada misturado à fumaça do tabaco. Em sua mente, tudo voltava para Laura. O jeito como ela olhava para ele, como ria das suas piadas ruins, como sempre soube quando ele estava mentindo sobre estar bem. E agora, ela tinha ido embora. Talvez para sempre.

Foi quando seu celular vibrou no bolso. Uma mensagem inesperada. Laura.

“Você tá bem?”

David hesitou por um instante antes de responder. Ele queria dizer que sim, que estava bem, que já tinha superado tudo. Mas isso seria uma mentira. Em vez disso, digitou algo simples:

“Não.”

Os minutos se arrastaram até que o telefone voltou a vibrar.

“Então me encontra.”

Ele não pensou duas vezes. Entrou na caminhonete e acelerou. O endereço que Laura enviara era de um motel de beira de estrada, longe da cidade, um lugar discreto, como se ela também estivesse fugindo de algo. Quando ele chegou, encontrou-a esperando do lado de fora, os cabelos molhados pela garoa fina, os braços cruzados como se tentasse se proteger do frio e de tudo que estava acontecendo entre eles.

David saiu do carro, jogou o cigarro no chão e o esmagou com a bota. Seus olhos encontraram os dela, e ali havia tanto amor quanto dor.

“Diz que você não sente mais nada e eu vou embora,” ele disse, a voz rouca.

Laura desviou o olhar, mordendo o lábio, mas não respondeu.

Ele se aproximou, hesitante. “Se eu tivesse feito algo imperdoável... algo que ninguém poderia saber... você esconderia isso por mim?”

Laura franziu a testa, confusa. “Que tipo de pergunta é essa?”

David abaixou a cabeça, soltando um suspiro longo. “Eu só... preciso saber. Se eu estivesse num buraco tão fundo que não conseguisse sair sozinho... você ainda estaria lá?”

Ela respirou fundo, encarando-o nos olhos. “Você está me pedindo pra esconder uma arma, David?”

Ele deu um riso amargo, balançando a cabeça. “Talvez. Ou talvez só esteja perguntando se ainda posso contar com você.”

Por um momento, o silêncio se instalou entre os dois. “David, você nunca precisaria me pedir isso..., mas você não é mais o David com quem me casei.”

(...)

Completamente sozinho e sem mais motivos para permanecer nas cidades onde sua reputação foi destruída, David pegou a estrada sem destino certo. A chuva batia forte contra o para-brisa, e as luzes da rodovia se distorciam em um borrão amarelo e branco. Sua mente ecoava palavras soltas, memórias confusas.

Ele e Laura já haviam dirigido por estradas assim, ouvindo música no rádio, sonhando sobre um futuro que agora parecia impossível. Ele apertou o volante com mais força. Sentia-se injustiçado, traído pelo destino, mas também incapaz de culpar Laura por ter ido embora. Ele mesmo já tinha partido antes de perceber.

Com um suspiro profundo, David jogou o telefone no banco do passageiro. Nenhuma mensagem. Nenhuma ligação. Só ele e a estrada.

'Se eu fizesse algo, você esconderia minha arma?'

Ele não sabia a resposta. Mas, pela primeira vez em muito tempo, não tinha certeza se importava.