Vínculo
1 Prólogo
O sol começava a se pôr quando a mulher de cabelos cacheados virou a esquina da rua de sua casa, andando apressada. Apertou a bolsa ao redor dos ombros, olhando para os lados.
Após a guerra, andava sempre desconfiada de tudo e todos.
Chegou ao número 452 e abriu um pequeno portão de madeira. Tirou a chave de um compartimento externo de sua bolsa e abriu a porta. A casa era pequena e aconchegante na mesma medida. Havia um conjunto de sofás com estampas floridas ao redor de uma mesinha de centro de vidro. Na estante da televisão havia fotos de família. No canto perto da escada ficava um pequeno aparador para bebidas.
- Srta. Granger, chegou cedo! – Disse uma mulher de estatura baixa e cabelos escuros presos num coque rígido na nuca.
- Hoje não havia muito trabalho. – Respondeu Hermione no mesmo francês que ela. – Onde está Sophie?
- No quarto dela, disse que não comeria se chegasse tarde hoje. Não sei de quem está puxando essa rebeldia.
Hermione forçou-se a lançar um sorriso à mulher e virou-se para subir as escadas. Na segunda porta à direita ficava o quarto de Sophie e deu uma pequena batida antes de entrar. A menina estava sentada no chão penteando o cabelo de uma de suas bonecas, enquanto as outras estavam esparramadas ao seu redor.
- Posso entrar? – A loirinha apenas lhe lançou um olhar emburrado e continuou brincando. Suspirando, tirou os sapatos e sentou-se no chão de frente para ela. – Sophie, eu sei que não está chateada por eu chegar tarde.
- Prometeu me levar ao parque há dois dias e se esqueceu.
- Você sempre foi compreensiva quanto ao meu trabalho. – A menina soltou um suspiro dramático. Apesar da pouca idade, 7 anos, Sophie nunca questionara o trabalho de Hermione, pois sempre fez questão de explicar que precisava trabalhar para comprar bonecas, casas de bonecas e todos os brinquedos que ela pedia. – O que aconteceu?
- Semana que vem vai ter reunião de pais e mestres na escola. De novo. E eu não tenho um pai para me levar.
- Mas você tem a mim. – Disse ao sentir o estômago afundar.
- Todos os meus amigos tem pais, e só eu não. Por que eu tenho que ser diferente, mamãe?
- Você não tem que ser diferente, Sophie. Eu já te expliquei isso. Somos só eu e você, não precisamos de um pai resmungão que só sabe assistir televisão e reclamar.
Tentou brincar, mas a menina apenas torceu o nariz em desgosto. Hermione sabia que já tinha visto aquele gesto em algum lugar, mas não se lembrava de onde.
Seus dedos brincavam distraidamente com uma das bonecas de Sophie. Ela sabia que a menina nunca ia parar de perguntar e também sabia que chegaria um dia que Sophie não aceitaria apenas desculpas esfarrapadas. A questão é que nunca poderia contar onde estava o pai dela por que sequer sabia quem era o mesmo, mas Sophie também não acreditaria numa resposta tão simples. Ela nunca ficava satisfeita de saber as coisas superficialmente, queria sempre saber o porquê de tudo.
- Se eu tivesse um pai, ele poderia me levar ao parque.
- Eu te levarei ao parque no fim de semana, que tal?
- E se você arrumasse um namorado que eu pudesse chamar de papai? Seria perfeito! – Sophie a olhou com os olhinhos brilhando. – Nós poderíamos ir a todos os lugares juntos.
- As coisas não são tão simples assim.
- Você nunca teve um namorado.
- Não que eu gostasse a ponto de fazê-lo ser seu pai. – Tocou o nariz da menina com a ponta dos dedos percebendo que ela já estava mais animada.
- E você gostava do meu pai?
- Sophie, vamos fazer um combinado. Você não pergunta do seu pai e eu deixo você comer um cubinho de chocolate todos os dias depois do jantar.
- Sério? – A loirinha a olhou, desconfiada, e Hermione sorriu concordando. – Tudo bem, então.
- Agora vem aqui e me dá um abraço pra descermos para jantar.
Enquanto observava a menina comer silenciosamente, sabendo que Sophie pensava na promessa do doce depois do jantar e que ainda não havia esquecido a pequena discussão que tiveram, Hermione imaginava como ela poderia ser tão altruísta ainda com tão pouca idade.
É claro que imaginava que um dia ela perguntaria pelo pai, mas não tinha ideia que os questionamentos começariam aos 7 anos de idade! E Hermione não tinha se preparado para responder essas perguntas nesses anos todos.
Notas finais
Quem quiser dar uma passada nas outras histórias, aqui está os links:
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