Vínculo
45 Capítulo 44
Sentiu as mãos de Draco na base de suas costas, conduzindo-a em direção a porta de madeira muito vermelha e envernizada ao mesmo tempo em que repórteres os seguiam disparando perguntas e flashes de forma simultânea, todos a espera de uma declaração que ambos se recusavam a dar desde que tudo aquilo havia começado.
Dois aurores se encontravam posicionados estrategicamente ao lado da porta e as abriu assim que perceberam a aproximação, impedindo, entretanto, que os jornalistas presentes adentrassem o tribunal junto deles. O eco dos mesmos emitindo reclamações pela confidencialidade do julgamento, porém, foi ouvido de forma abafada após o fechar das portas, mas ainda assim Hermione pôde suspirar aliviada. Detestava aquele tipo de atenção da mídia e, por uma infelicidade do destino, não seria a primeira nem a última vez que passaria por isso.
A sala em que se encontravam não estava cheia, pois não se tratava de uma audiência pública, apenas as partes interessadas se encontravam posicionadas em seus devidos lugares e o réu ainda não havia sido levado até o banco onde deveria se sentar durante toda a audiência e aonde vinha se sentando regularmente em todas as outras que a antecederam, inclusive a que o havia condenado a dez anos de prisão por sequestro de incapaz e uso indevido da maldição Imperius.
— Hermione? – Ouviu a voz de Draco a chamando e só então percebeu que se encontrava completamente dispersa do que acontecia a sua volta. – Você já pode se acomodar no banco da acusação. Eu estarei aqui.
Não queria fazer aquilo sozinha, embora soubesse que era seu dever. Deveria estar presente durante todos os momentos daquela audiência para observar o comportamento dele, tentar enxergar algum resquício de culpa pelo que havia feito. A ela e Draco. Essa era sua esperança, embora não a externasse. Era o que esperava, e Draco sabia disso, mas ninguém se atrevia a tocar no assunto, pois era irracional demais que procurasse remorso na pessoa que a havia manipulado por capricho. Não depois de todas aquelas palavras.
Respirou fundo ao encaminhar-se para uma das extremidades da sala de tribunal, onde uma mesa de madeira maciça e escura, e poltronas confortáveis – as quais, aliás, parecia ironizar toda a situação em que encontravam – estofadas com veludo azul escuro haviam sido posicionadas com vistas para onde o juiz ficaria alto e imponente – refletindo justamente o trabalho de julgador que desenvolvia ali -, a mesa da defesa e o banco do réu, simples, de madeira dura, sem atenuantes.
O advogado que haviam contratado se encontrava relendo alguns documentos e Hermione, de qualquer forma, não fez questão de puxar assunto. Não era fácil procurar qualquer assunto enquanto todas as lembranças que os haviam levado até aquele momento convergiam em sua mente em uma profusão de lágrimas e gritos que ainda produziam ecos desagradáveis.
Uma porta lateral se abriu entre as arquibancadas e o escrivão adentrou com o juiz logo em seu encalço, levando todos os presentes a se levantarem em sinal de respeito, embora Hermione o estivesse fazendo de forma automática, do mesmo jeito que o encarava subir as curtas escadas com a intenção acomodar-se em seu devido lugar. Entretanto, quando foram dispensados a sentar-se novamente e o mesmo começou a ler os protocolos usuais do início da sentença, Hermione mergulhou em suas memórias. Verdadeiras. Confiáveis. E, até aquele momento, ainda absurdas para ela.
Três meses antes
O que Ginny dizia, com o rosto inchado e corado, completamente manchado e borrado por lágrimas, estava deixando-a tonta. Sua mente dava voltas e mais voltas, mas tudo que podia ouvir era a voz da ruiva repetindo.
— Foi tudo culpa nossa, Hermione.
Mesmo que fizesse sentido, que tudo tivesse se encaixado após o relato da mesma, ainda não havia se dado conta. Ainda que os soluços dela se fizessem presentes em sua sala de forma perturbadora; ainda que Astoria a encarasse com ódio nos olhos estando posicionada com os braços cruzados perto da lareira; ainda que Draco andasse de um lado a outro, lutando para absorver tudo aquilo da melhor maneira possível; ainda que Narcissa analisasse Ginny impassível, o rosto não expressando nenhuma emoção, embora os olhos demonstrassem a preocupação crescente com Draco, a quem encarava em intervalos de poucos segundos em sua preocupação materna. Ela sabia o quanto ele havia se sentido culpado, ela havia presenciado, mais do que Astoria envolvida em sua própria dor, mais do que Hermione poderia imaginar em uma estimativa.
Harry era o culpado. Harry havia sido o responsável por todas as coisas boas e ruins que aconteceram em sua vida desde o fim da guerra. Apesar de não estar presente, ele era onipotente, sempre esteve lá. Achava estar segura na França, longe da pessoa manipuladora que ele havia se tornado, não tinha a mínima ideia de que até mesmo isso ele poderia ter influenciado ao modificar suas memórias após sequestrar a filha de Draco.
Não sabia mais onde suas verdadeiras vontades haviam deixado de valer e a vontade má intencionada de Harry se fizera presente. Merlin, não podia imaginar que ele pudesse ser capaz de algo do tipo, não contra uma amiga, alguém que o havia ajudado durante grande parte de sua vida. Pelos atos que Ginny descrevia, Hermione não conhecia aquela pessoa. Talvez nunca conhecera.
— Desde quando sabe de tudo isso? – Perguntou Draco.
— Eu sempre soube. – Ela lamentou. — Hermione e Harry realmente brigaram e esse foi o motivo da internação. Ela desmaiou... Aparentemente, sem motivo algum. Foi ao chegar em St. Mungus que Harry descobriu sobre o nascimento de sua filha, Malfoy... Ele não premeditou nada. Assim que levou Hermione ao hospital, ele nos chamou, mas Ron foi o primeiro a chegar. Eles ficaram furiosos por que você havia mobilizado o hospital inteiro em função de uma complicação de parto que Astoria sofreu.
— Foi quando ele decidiu que, já que estava ali, poderia armar todo esse teatro para sequestrar minha filha? – Disse Astoria de forma irônica.
— Eu não sei quando, como ou por que ele decidiu. Esse foi um assunto que resolvemos nunca tocar após o ocorrido. – Ginny voltou os olhos verdes para Draco. – Eles sempre o odiaram. E você saiu muito bem da Guerra...
— Realmente acredita nisso? – Draco manifestou-se, descrente.
— Harry achava injusto que você tivesse tantas regalias apenas por ter mais dinheiro que os demais e ser tratado daquela forma no hospital...
— Astoria estava morrendo! – Ele levantou a voz para que, talvez, dessa forma Ginny entendesse.
O silêncio se fez presente novamente e a ruiva soltou um suspiro, resolvendo manter-se calada em vista que todos ali estavam contra ela.
— Ginny... – Começou temerosa. – Por que resolveu contar tudo isso agora, depois de todos esses anos?
— Estou cansada de ter que guardar esse segredo comigo. De ter que lidar com o não dito entre mim, Harry e Ron. Quando Harry brinca com os nossos filhos e me encara, isso vem a minha mente, como uma maldição me lembrando de que o que ele fez foi errado e o que faço continuamente ao acobertá-lo é... Não há nada verbalizado, mas... Se eu penso nisso, ele também o faz. – Ela fechou os olhos por um momento, negando com a cabeça por um momento, como se os próprios pensamentos a estivessem desapontando. – Eu durmo todas as noites ao lado dessa pessoa, Hermione. E, quando ele acaricia os meus cabelos, eu esqueço por um momento, mas... Todas as manhãs, enquanto o vejo dormir, como se não fosse o responsável por desabar o mundo de alguém, eu me lembro do que ele é capaz e me culpo por amá-lo, ainda assim.
Ela admitia que o amava, que havia traído a confiança de Hermione por escolher amá-lo em detrimento de fazer o que era certo. Ginny preferira seu conto de fadas, como se o que Harry tivesse feito com a ajuda dela e de Ronald fosse ser esquecido enquanto sua vida entrava nos eixos, com o casamento perfeito, a casa perfeita, o marido perfeito, e os filhos para fechar o pacote todo.
Assim, de algum modo estranhamente sádico, Hermione estava minimamente satisfeita que o que fizeram a assombrasse em seus momentos de felicidade, como um mau agouro, uma nuvem negra sob o paraíso.
— Você não respondeu a pergunta. – Narcissa manifestou-se pela primeira vez, sua voz uniforme demonstrando ser a pessoa mais emocionalmente controlada dentre todos os presentes. – Conviveu com a culpa por todos esses anos, com seu marido criminoso enquanto este se fazia de herói perante a sociedade. Além disso, chegou aqui chorando, não pode estar apenas cansada de manter o segredo... Então, por que contar a verdade agora?
— Harry e eu discutimos. – Ela respondeu com o tom de voz embargado. – Foi muito pior do que todas as outras vezes. Eu... Não concordei com o plano de incriminar um Comensal da Morte para abafar a história, ainda que tenha cometido as piores atrocidades. Ele e Ron acham... Justo.
— O conceito de justiça de vocês foi bastante distorcido pela fama. – Comentou Astoria.
— E... Eu descobri que estou grávida.
Assim, quando Ginny terminou sua história, Draco e Astoria saíram imediatamente para mobilizar os aurores à procura de Harry. A parte mais difícil foi convencê-los de que o Chefe da Sessão era o verdadeiro responsável pelo sequestro da herdeira de Draco Malfoy, anos atrás, e que estava manipulando os pausinhos para que Dolohov fosse considerado o culpado, segundo Draco lhe havia contado no dia seguinte.
Enquanto isso, a ruiva concordou em voltar à sua própria casa novamente, para confirmar a história dos aurores e para que eles efetivamente prendessem Harry. Ela não parava de chorar, seu rosto estava inchado e soluçava constantemente, mas Hermione tentou não se importar, não se sensibilizar com a antiga amiga grávida que estava subjetivamente condenando o marido a Azkaban.
Entretanto, embora tivesse isso em mente, não se obrigou a consolá-la, a abraçá-la ou lhe dizer uma palavra de conforto, pois Hermione não a tinha nem para si mesma. Havia acabado de descobrir que Harry Potter, o garoto que havia sido seu amigo por anos, por quem lutou em uma guerra sem precedentes para mantê-lo vivo, a manipulara de forma vil. A internação anterior a tudo, logo após a Guerra, não se comparava com o sequestro de um bebê recém-nascido e a manipulação de suas lembranças, enganando-a sobre o que pensava ser sua vida.
Foi quando Hermione respirou fundo para tentar driblar a náusea que sentia por toda a situação que a porta lateral, que ficava entre as arquibancadas de madeira polida, se abriu e Harry adentrou o Tribunal: seus cabelos negros e despenteados, como costumavam ser; óculos de aro redondo; uma face mais pálida que o normal. Segundo as informações do advogado, ele estava preso em uma cela considerada leve em Azkaban, visto que ainda esperava o último julgamento, o qual pleiteava a punição pela implantação das memórias falsas em Hermione.
Três meses antes
Hermione e Ginny chegaram à residência dos Potter antes dos Aurores. Lembrava-se que cogitou que eles pudessem se mostrar inflexíveis com as afirmações até então infundadas de Draco e Astoria, mas não dedicou muita atenção a isso, afinal a ruiva garantira que deixara Harry ali.
A casa dos Potter estava às escuras e o rangido da porta se abrindo foi quase fantasmagórico. Ginny, em algum lugar atrás de si, acendeu as luzes com um aceno de varinha e o que viram foi realmente assustador. Os móveis estavam revirados, poltronas de cabeça para baixo, objetos de vidro quebrados, quadros tortos na parede, porta-retratos caídos no chão com as imagens do que a família fora um dia acenando alegremente para as duas.
Todavia, no meio de toda a bagunça, sentado no chão de madeira, com as pernas encolhidas contra o corpo e as costas apoiadas na porta baixa do armário que ficava embaixo da escada, estava Harry. O homem tinha os olhos perdidos em um ponto específico qualquer na parede à sua frente, mas duvidava que estivesse vendo qualquer coisa.
— Harry... – Ouviu o sussurro engasgado de Ginny, mas ela não se moveu para ir até ele.
Pela primeira vez em muito tempo o via com os cabelos bagunçados novamente, além do olhar alucinado que só possuía nos tempos de Hogwarts, quando adolescente. Ele sempre fora daquela maneira? Esse era o verdadeiro Harry? Hermione não enxergava o menino que ele havia sido no homem que se tornara.
— É assim, não é? – Ele soltou com a voz rouca, ainda sem encará-las. – Assim que tudo termina, certo?
— Eu não entendo. – Disse, soltando a respiração que nem sabia estar segurando. – Quais foram os seus motivos? Pois... Enquanto tento digerir tudo isso, só me vem à cabeça os mais fúteis possíveis.
— Você não entende. – Harry retrucou de forma debochada e em tom baixo, observando o modo como seus dedos brincavam com a varinha, como se estivesse pensando em um modo de usá-la. – Eu estava acabado quando a Guerra terminou...
— Todos nós estávamos.
— Exatamente! – Ele ergueu o tom de voz, finalmente encarando-a, o verde em seus olhos brilhando como se estivesse a ponto de soltar algumas lágrimas, embora duvidasse que ele se deixasse chegar a tal ponto. – Você era a pior, você foi a que mais sofreu, dentre todos, Hermione. E, enquanto tentávamos inutilmente curar todas as feridas, internas e externas, deixadas por Voldemort e seus Comensais, Draco Malfoy estava se casando com uma bela e rica herdeira.
— Você planejou tudo isso? – Perguntou em uma careta, enojada pela hipótese de um crime premeditado, que contrariava o que Ginny contara. No entanto, ele negou com a cabeça e continuou sua história.
— Foi... Uma coincidência. Havíamos brigado e estava me sentindo culpado por tê-la feito passar mal e... Ninguém daquele maldito hospital parecia apto a lhe atender adequadamente. Foi quando descobri que todos estavam ocupados e que o nascimento da filha de Malfoy estava monopolizando boa parte do corpo médico do hospital, visto que a Maternidade St. Valentim era uma adjunta ao St. Mungus.
“Foi nesse instante que pensei: ele poderia pagar realmente por todo o mal que sua família havia nos proporcionado, desde os primeiros anos em Hogwarts. O que os Malfoy perderam não foi nada em comparação ao que todos nós estávamos sofrendo. Além disso, você poderia se reconstruir, aos poucos, vivendo por um bebê que você aprenderia a amar...
— Devido a um maldito feitiço. – Interrompeu Hermione com os olhos cheios de lágrimas enquanto o ouvia falar.
— Não! – Harry voltou-se a ela de forma brusca, como se o que tivesse dito fosse absurdo. – Você aprendeu a amá-la pelo que ela era, como imaginei que seria desde o momento em que a vi pegando no colo pela primeira vez. Nunca foi o meu desejo machucar aquela criança de forma alguma.
— E se eu não tivesse amado, Harry? – Perguntou em um sussurro, dando-se conta vagamente da presença de Ginny ao seu lado, prestando atenção em cada palavra do marido, como se também tentasse entendê-lo. – E se eu nunca tivesse me apegado aquela criança para tentar colocar a minha vida nos eixos?
— Você... É você, Hermione. – Disse ele como se fosse óbvio, dando de ombros. — Eu sabia que se agarraria a ela como a um bote salva-vidas. Eu não pensei apenas em atingir Malfoy, também coloquei na balança o efeito que minhas ações provocariam em sua vida e na de Sophie. Eu não pensei apenas em mim, como deve supor, afinal essa criança seria criada em uma casa cheia de Comensais...
— Não importa! – Hermione quase gritou, a palma da mão batendo contra o aparador de madeira atrás do sofá sem que racionasse contra isso, uma atitude completamente irracional que transparecia toda a raiva que sentia no momento. – Isso não lhe dizia respeito. Você não dita o modo como os outros devem criar seus filhos, você nunca devia ter começado isso... Seja para me devolver um pouco da vida que me tirou quando me internou naquela droga de hospício, para Sophie ser criada de forma digna ou para atingir Draco.
— Você está sendo completamente ingrata!- Ele levantou-se em um rompante e aproximou-se com uma rapidez que Hermione não julgou que tivesse no momento, segurando-a pelos ombros e chacoalhando-a. – Eu ludibriei uma equipe inteira do hospital St. Mungus e daquela Maternidade para que tivesse uma vida descente...
— Você nos usou, a mim e a Sophie, para se vingar! – Gritou livrando-se das mãos dele e respirando rápido.
— Só teve uma vida normal, alegre e digna por que eu me arrisquei. – Ele estava fora de si.
— Não me importa o que diga a si mesmo para tentar se sentir menos culpado, Harry.
— Culpado?! – Ele soltou um riso debochado. – Eu não me sinto culpado por fazer Malfoy se sentir responsável pelo sequestro da própria filha por que ele mereceu por tudo que nos fez passar durante anos e apenas não consegue enxergar isso por que ele a fez cega. Não me sinto culpado por usar a filha de Malfoy para lhe dar uma vida feliz. Eu me sacrifiquei por você.
— Pois seu sacrifício foi completamente em vão. Olhe em volta, olhe em está.
Finalizou com a voz baixa ao ouvir o ruído de aparatação do lado de fora. Os Aurores haviam chegado e não demoraram a adentrar a residência, onde confirmaram com uma Ginny relutante toda a história contada por Draco e Astoria no Ministério.
O loiro, por sua vez, adentrou o hall em passos largos e pesados, corado de raiva e, encaminhando-se até Harry, antes que qualquer um fizesse menção de segurar, desferiu um soco no lado esquerdo do rosto do moreno, deixando amassada a armação de seus óculos e quebrando as lentes ao cair no chão.
— Você vai pagar muito caro pelo que fez, Potter.
— Eu pagarei. – O moreno concordou enquanto limpava um filete de sangue que escorria de seu nariz. – Mas nunca me arrependerei por um único dia das noites que o fiz passar em claro corroendo-se de culpa pelo destino da criança que Greengrass... Como era mesmo? – Harry encenou um ar pensativo, já com as mãos algemadas à frente do corpo e a face começando a arroxear. – Não pode nem pegar no colo?
Por fim, os Aurores tiraram o moreno dali rapidamente e sem nenhuma resistência antes que a própria Astoria conseguisse acertá-lo. Ainda ficaram ali por alguns minutos, cada um tentando lidar com seus próprios sentimentos e frustrações ou com o que viria a seguir agora que o culpado por tudo que haviam passado seria condenado.
Ginny parecia desolada e deslocada após o tumulto, porém, um último Auror apareceu para acompanhá-la até o Ministério e esclarecer sua situação de cúmplice do sequestro da filha de Malfoy e da modificação nas lembranças de Hermione. Desde então, Hermione não a vira mais, mas, segundo seu advogado, estava restrita ao espaço de sua residência em uma espécie de detenção enquanto esperava o julgamento do marido. Ela também se foi, sua mais antiga amiga, sem um adeus ou pedido de perdão.
Hermione saiu de suas lembranças no instante em que Harry confessava, em uma estratégia da defesa para diminuir sua pena, que havia realmente modificado e implantado falsos de memória em Hermione.
— E em que momento alterou as lembranças da Srta. Granger?
— Foi logo após ter... – Ele pigarreou envergonhado, parecendo abatido pelos últimos acontecimentos. – Amaldiçoado a enfermeira com a Imperius. Após ter certeza de que realmente executaria o que tinha em mente.
— O Sr. Ronald Weasley e a Sra. Potter tinham conhecimento de seu plano?
— Não.
— No entanto, foi a Sra. Potter quem trouxe à tona todo o caso. – Continuou o promotor do caso com a intenção de instigar Harry a contar toda a história.
— Achariam estranho que Hermione aparecesse com um bebê sem qualquer explicação plausível.
— E o senhor considera... Segundo suas próprias palavras, plausível o que fez?
O silêncio pareceu esmagador quando Harry não respondeu a pergunta e não demorou a que seu advogado protestasse contra a pergunta insinuante da outra parte. O juiz acatou sem mais delongas, anunciando que iria fazer um intervalo de uma hora para definir a sentença.
Hermione suspirou cansada e encaminhou-se até onde Draco se encontrava. Seu pescoço doía, seus músculos se encontravam tensos e tinha certeza que sua expressão estava fechada como um dia nublado. Ainda assim, porém, achou forças para abrir um sorriso mínimo quando o loiro a convidou para tomarem um café nos arredores trouxas do Ministério da Magia enquanto esperavam dar a hora de voltarem para o tribunal.
Decidiram acomodar-se em um pub que ficava em uma esquina movimentada onde, infelizmente, muitos outros bruxos frequentavam. Podia sentir os olhares seguindo-os enquanto encaminhavam-se à mesa escolhida – ao fundo, sem colocá-los em evidência desnecessária. Draco não demorou a se sentar ao seu lado lhe oferecendo uma xícara de chá e tomando para si uma dose de conhaque.
— Não está assim apenas devido ao julgamento. – Entrelaçou seus dedos aos dele sobre seu colo, embaixo da mesa.
— Sophie e Astoria juntas por tanto tempo me preocupa, sabe disso.
Havia concordado em deixar a menina na companhia de Astoria, mas exigido que Narcissa estivesse junto delas. Draco lhe convencera que seria melhor conduzir tudo de maneira amigável com sua ex-mulher e que, de uma forma ou de outra, ela merecia isso. Forçou-se a aceitar a situação, mas a antipatia e o ciúme eram palpáveis demais quando a Greengrass apareceu para buscar a menina ao lado da Sra. Malfoy.
A questão da guarda ainda não fora decidida, visto que este era um processo que esperava a decisão do relativo ao Harry, apesar de não haver dúvidas quanto a sua culpabilidade. Era tudo muito burocrático, mas Hermione esperava que estivesse chegando ao fim, pois não aguentava mais lidar com tantos problemas.
— O que tem com Sophie... – Ele pensou por um momento, claramente escolhendo as palavras certas para se fizer ser entendido da maneira certa. – É grande demais para ser anulável por qualquer ação de Astoria, Hermione. Você é a primeira figura materna que ela teve, você foi a pessoa que lhe proveu tudo... Você já tem um lugar no coração de Sophie, Astoria ainda precisa conquistar o seu.
— Espero que esteja certo.
Apertou os dedos de Draco entre os seus, sem discordar, por que suas palavras realmente refletiam a realidade, mas a angústia em seu peito não aplacou. Enquanto não estivesse junto de Sophie, enquanto não verificasse por si mesma como sua menina estava após passar algum tempo com Astoria, não estaria mais tranquila.
Draco sabia disso e, por isso, desviou o diálogo para qualquer amenidade que não tivesse relação com Sophie ou o julgamento ao qual era obrigada a comparecer. O relacionamento deles parecia mais leve após tudo parecer trilhar para uma resolução da questão do sequestro de Sophie/Gwen, após descobrirem sobre Harry, Ginny, Ron e todo o resto, apesar de no começo terem lutado para se adaptar a nova realidade.
O loiro ainda continuava dividindo seu tempo entre a França e a Inglaterra, mas já havia dito a Hermione que, quando finalmente conseguissem voltar para a casa, queria ela ao seu lado, assim como Sophie. Foi logo após uma pequena discussão a respeito de uma visita de Marc – o antigo caso de Hermione, que, aliás, ainda era casado – que Draco externou isso.
Hermione havia acabado de cercar sua cintura com as pernas, trazendo-o para mais perto de seu corpo, quando Draco interrompeu o beijo ardente que trocavam para encará-la de forma séria.
— Venha morar comigo. – Ela o analisou por um tempo, surpresa demais para se pronunciar sobre isso. Não era o ideal que Draco se mantivesse longe por boa parte da semana e do modo como as coisas vinham acontecendo não esperava que ele quisesse dar esse passo tão rápido. – Acredito que não tenha planos de permanecer aqui quando tudo terminar.
— Sim, mas... – Ela ajeitou-se embaixo do peso confortável do corpo dele sobre o seu. – Eu não tinha parado para pensar sobre isso... Quer dizer, não tão rápido.
— Hermione, somos quase casados. – Ela levantou uma sobrancelha para o tom sabe-tudo que ele usara. – E quando voltar a Paris isso vai se agravar ainda mais, não vou sair da sua casa.
— Agravar? – A morena correu as unhas pelos braços de Draco mantendo o tom risonho pela palavra que ele usara para descrever o andamento do relacionamento deles futuramente.
— Agravar. – Ele concordou enquanto distribuía beijos molhados e mordidas pelo seu pescoço, obrigando-a a fechar os olhos para apreciar o carinho. Era um privilégio que pudesse desfrutar de momentos leves e despreocupados como aquele nos últimos tempos. – Não me vejo mais sem você... Ou Sophie... Ou o que temos.
Ela sorriu e interrompeu as carícias para beijá-lo rapidamente e encará-lo seriamente enquanto deslizava os dedos pela linha do queixo bem desenhada. O que tinham, ele dizia... Tudo que tinham estava sendo construído em meio a tantas tormentas. Queria que tudo que tinham se mantivesse em paz quando voltassem para a França, queria que as tempestades dessem lugar à calmaria e não via por que não fazer isso vivendo juntos efetivamente, como uma família.
— Vamos morar juntos, então.
Hermione encarou Draco por um segundo, recordando-se de como os olhos azuis brilharam de forma espontânea na noite em que concordou que poderiam seguir com “tudo que tinham” morando juntos. Gostava da forma como ele só tinha aquele olhar para ela e mais ninguém e gostava mais ainda da ideia de ter esse olhar dirigido a ela todos os dias. Não estava nada arrependida de sua decisão.
— O que foi? – Perguntou o loiro assim que terminou a dose de conhaque que pedira em minutos anteriores ao sentir que ela o olhava insistentemente.
— Quero que tudo acabe logo para voltarmos a Paris. – Pela primeira vez no dia viu as linhas de expressão no rosto masculino se suavizarem enquanto ele compreendia o que estava dizendo.
— Eu também. – Ele colocou uma mecha de seu cabelo cacheado atrás da orelha e depositou um beijo casto em seus lábios. – Por que, quando isso acontecer, esperarei que cumpra religiosamente a promessa que me fez, Srta. Granger.
— Draco...
— Mas, por enquanto, vamos resolver os assuntos mais urgentes. – Ele não deu a ela tempo para responder e logo levantou-se, estendendo a mão esquerda. – Temos que voltar ao Ministério.
Ainda o encarou por um segundo, pensando na promessa que fizera em um momento de quase insanidade, mas considerando também tudo que tinham, tudo que iriam ter daquele dia em diante e a importância da promessa para ambos.
Entretanto, o próximo passo só seria dado com o fim do julgamento de Harry dali alguns minutos. Por isso, ainda relutante devido aos sentimentos conflituosos que ainda tinha pelo moreno, aceitou a mão que Draco lhe estendia e dirigiu-se para fora do pub na expectativa do que viria na página seguinte.
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