Vínculo
42 Capítulo 41
Londres, local não identificado
O ruído incômodo de uma porta antiga sendo aberta foi ouvido e, em seguida, o som de uma campainha quebrou o silêncio quase imaculado e muito bem vindo após um dia inteiro de ir e vir de pessoas.
A mulher ajeitou a bolsa ao redor do ombro e olhou ao redor com um brilho de saudade nos olhos. Naquele tempo, as coisas se resumiam a intrigas infantis sobre namoros igualmente infantis e quadribol. Gostava de quando tudo era mais simples, apesar da Guerra ter quebrado um pouco da beleza de ser criança e adolescente no mundo bruxo. Nessa época, pelo menos, não precisava se preocupar em consertar os erros dos outros para tentar conservar sua família.
Estava entretida encarando alguns produtos na estante da loja quando um homem de aparência jovial finalmente apareceu em uma das portas atrás do balcão que, provavelmente, dariam no cômodo de estoque. Ela sorriu e o abraçou com familiaridade conversando amenidades, ambos alimentando um acordo silencioso sobre rodear deliberadamente o assunto desagradável que realmente os levara ali, em primeiro lugar.
Todos os assuntos possíveis, entretanto, pareceram ter se esgotado depois de meia hora de conversa; a tensão presente nas feições do homem e da mulher provavelmente sendo a responsável por deixá-los desconfortáveis, apesar de nunca terem passado por situação parecida.
O homem trancou a porta com um aceno de varinha e contornou o balcão a fim de encaminhar-se para as escadas de madeira clara e polida que os levaria a um escritório onde poderiam falar com mais privacidade. Ele subiu à frente e ela o seguiu com os olhos pregados na vitrine de vidro na tentativa – inútil e amedrontada – de encontrar alguém os observando, o que sabia não ser possível.
Normalmente, sua personalidade forte não deixava que seu psicológico reagisse de forma acuada em situações parecidas, mas ali, dentro daquela loja abafada, após sair do conforto de sua casa para tratar de um assunto específico, sentia as paredes se fechando ao seu redor ao mesmo tempo em que imaginava olhos surreais a espiando e julgando.
O cômodo em que adentraram, apesar de destinado a ser um escritório, era completamente bagunçado, como já esperava. Pilhas de documentos estavam sobre os móveis de madeira enquanto vários objetos decorativos e coloridos demais – até mesmo infantis – se encontravam em um grande suporte preso à parede oposta a janela protegida por uma cortina gasta.
Resignada, sentou-se a uma das cadeiras que, apesar da aparência antiga, era bastante confortável, observando também como o outro parecia tão incomodado quanto ela por estar ali. Pigarreou e ajeitou-se na cadeira, a bolsa no colo e as mãos frequentemente mexendo nos cabelos compridos.
– Ele te falou alguma coisa?
– Não, mas desde que ela voltou está bastante perturbado. – Ela desviou o olhar. – Acho que está com a mesma impressão que nós: as coisas estão ficando mais complicadas do que podíamos ter previsto.
– Claro, jamais poderíamos ter previsto que eles iriam...
– Não estamos aqui para discutir isso. – Cortou o tom raivoso do outro de forma áspera, pois as coisas para ele sempre estariam relacionadas a uma rixa infantil entre casas. – O que vamos fazer?
O silêncio se fez presente novamente quando o homem suspirou e pareceu perder-se em pensamentos procurando alternativas enquanto batia as pontas dos dedos contra a superfície da mesa. Por fim, o viu levantar-se e dar as costas a ela, encarando a imensidão de telhados que se estendia abaixo de sua janela com as mãos escondidas no bolso.
– Me parece que já fizemos mais do que devíamos. – Ela concordou, pois todos agora concordavam que haviam passado dos limites.
– A questão é: não podemos deixar as coisas como estão ou seremos presos. – Ele a encarou de forma quase assustada, como se essa tivesse sido uma possibilidade que houvesse passado longe de seus pensamentos. É claro que ele subestimaria o poder do Ministério, mas, no fim das contas, todos teriam que pagar por seus erros de alguma forma se fossem descobertos.
– Podemos encontrar um culpado.
– Está louco?! – Ela também se levantou, ultrajada com a alternativa. – Vocês já disse que fizemos o bastante, incriminar uma pessoa por sequestro é demais.
– Um comensal, que já está preso e tem motivos, além de escrúpulos para isso... Pense, seria perfeito! – Ela o encarou com a réplica na ponta da língua para descartar aquela ideia, mas, pensando melhor... – Só aumentaria a pena e ninguém precisaria ir preso.
– Eu não sei, preciso... Pensar sobre isso. – Ela colocou a bolsa de volta ao ombro. – Já fizemos coisas demais sem pensar nas consequências e isso pode nos prejudicar ainda mais.
– Pense bem, então, por que... Se disser a ele, certamente concordará com a minha ideia e nem você o impedirá de colocar em prática – Tinha certeza disso, tanto quanto o homem a sua frente.
– Não diga nada enquanto eu não tiver minha decisão.
– Fique tranquila.
Concordaram silenciosamente em esperar e ela se despediu de forma fria.
Londres, antiga casa da família Granger
Hermione ainda não havia se acostumado aquela casa novamente. Tudo fazia com que lembrasse seus pais e, além disso, o motivo para estar ali não era o melhor. No dia seguinte, estaria em uma audiência preliminar no Ministério para discutir a guarda de Sophie, pois no dia anterior um resultado de exame de DNA havia confirmado, embora nenhuma dúvida pairasse em sua cabeça, que Astoria era mesmo mãe biológica da menina.
Agora, a ex-esposa de Draco movia uma ação para conseguir a guarda provisória de Sophie. Porém, estava confiante, pois seu advogado lhe assegurara que o juiz levaria bastante em consideração os laços afetivos da menina, supridos pela figura de Hermione como uma mãe que havia preenchido todos os requisitos dessa posição.
Já era tarde e a menina dormia a sono alto. Hermione não conseguia deixar de encará-la deitada ao seu lado na cama de seu antigo quarto com papel de parede florido. Desde que todo esse pesadelo começara a possibilidade de perdê-la a afligia mais que qualquer outra coisa. Simplesmente não se imaginava vivendo sem ela, na França ou em outro lugar qualquer.
As investigações do Ministério não haviam dado em nada até o momento, pois suas memórias eram um pedaço mínimo de todo aquele quebra cabeça e ainda não podiam provar nada concreto. A única conclusão a qual os aurores haviam chegado era de que apenas alguém próximo poderia manipular as lembranças dela de maneira tão precisa, mas não havia como acusar ninguém. Então, na semana seguinte, os aurores iriam começar a interrogar aqueles que estavam presentes em suas memórias manipuladas e isso incluía Ginny, Ronald e até mesmo Harry – que não poderia fazer qualquer coisa para impedir por que todos estavam com as atenções voltadas para este caso.
Entretanto, seus pensamentos foram interrompidos pelo ruído da campainha e precisou levantar-se franzindo o cenho, pois já eram quase nove horas da noite segundo seu antigo despertador sobre a mesinha de cabeceira e não esperava ninguém.
Desceu as escadas, imaginando que pudesse ser Draco. Nos últimos dias haviam gastado bastante energia mobilizando o Ministério para investigar o verdadeiro culpado sobre o sequestro de Sophie, mas, além disso, ele precisava trabalhar e Hermione não estava mentalmente bem o suficiente para que bancassem o casal de adolescentes apaixonados, embora estivesse com saudades. De qualquer forma, ficaria bastante grata se fosse ele.
Porém, sua surpresa foi legítima ao abrir a porta: a figura à sua frente não poderia ser mais inesperada. Ginny Weasley estava parada embaixo de seu batente, a expressão insegura, assim como o sorriso vacilante enquanto a encarava esperando uma reação.
Seus cabelos vermelhos estavam tão compridos quanto se lembrava, embora seu rosto não aparentasse mais a característica expressão zombeteira da garota que conhecera e os traços em seu rosto fossem muito mais maduros. Supunha que ela fazia a mesma constatação ao examiná-la tão detidamente, quase como se estivesse se certificando de que era a mesma Hermione apesar dos anos terem passado.
A análise mútua terminou quando a ruiva cortou o pequeno espaço que as separava e a abraçou apertado. Dividida e com um bolo na garganta, Hermione ainda demorou a retribuir o gesto. Ginny era namorada de Harry na época em que fora internada, mas não se lembrava da reação dela quando eles decidiram que era melhor se livrar de Hermione.
Lembrava-se que a ruiva a visitava esporadicamente no começo, embora não tanto como a Sra. Weasley – que parecia querer compensar sua decisão ao tentar lhe distrair do fato de estar presa em um quarto branco e sem vida, num hospital que não lhe ajudaria, pois não estava louca. Entretanto, as visitas acabaram ao mesmo tempo em que os assuntos que tinham em comum e após Ginny perceber que a culpava, em parte, por não ter feito nada quando a família dela a internara.
Apesar de tudo, deu-se por vencida quando se lembrou de que Ginny não possuía nenhuma influência quando formava um trio com Harry e Ron e também não teria quando foi embora. A decisão deles já estava tomada e tinha o apoio da Sra. Weasley, ela provavelmente não poderia ter feito nada.
A abraçou de volta, sentindo o característico aroma de flores familiar, recordando como era mais fácil estar perto dela dessa maneira há 15 anos atrás, se muito.
– Eu senti tanto a sua falta.
A ouviu dizer com a voz embargada quando a apertou mais uma vez antes de finalmente soltá-la. Os olhos azuis, tão parecidos com os de Ronald, estavam vermelhos e seu rosto molhado por lágrimas.
– Eu também. – Enxugou as lágrimas da outra, como uma irmã mais velha faria, e também como costumava fazer nos tempos de Hogwarts, quando Ginny ainda chorava por Harry estar apaixonado por outra garota. – Entra.
A outra hesitou por um momento, mas entrou ao sentir a brisa fria que anunciava uma tempestade arrepiá-la e bagunçar-lhe os cabelos. Quando Hermione fechou a porta, por um momento, ambas pareceram desconcertadas com a situação, mas logo anunciou que faria chá para as duas e Ginny a acompanhou até a cozinha sem se importar.
– Por algum tempo tive esperanças de que... Fosse me procurar quando voltou para a Inglaterra, mas... – Hermione estava colocando açúcar na água, certa de ainda tinham o mesmo paladar quanto ao chá, mas deteve o gesto e a respiração, erguendo os olhos para a outra, a qual parecia pensar nas palavras certas para usar. – Depois percebi que era um desejo tolo. Sei que ainda guarda mágoas pelo que aconteceu e, apesar de não deixar de me sentir triste por isso, não lhe tiro a razão. Em seu lugar, acho que faria muito pior.
– Não deixei de procurá-la como um ato de vingança ou qualquer coisa do tipo, Ginny. — Declarou, após conservar o silêncio por alguns momentos. – Estou de volta por necessidade e não direi que, em algum momento, pensei em voltar por que... Eu não pensei. Nunca estive pronta para encarar o passado.
– Eu a entendo. – Ginny suspirou e aceitou a xícara grande de chá que lhe oferecia, mexendo distraidamente no sachê enquanto parecia pensar. – Vim para pedir desculpas por tudo que fizemos. Acho que tentamos encontrar a felicidade da maneira errada.
– Foi há muito tempo, Ginny. – Hermione respirou fundo, sem querer adentrar aquele assunto, mas ela parecia querer falar.
– Não estou aqui em nome de Harry ou Ron! – Ela disse apressadamente, como se a possibilidade houvesse passado pela mente de Hermione. – Eu... Estou aqui por mim e... Por que acho que lhe devo isso.
Meneou a cabeça, considerando a atitude de Ginny e o modo como ela parecia sincera em seu pedido, apesar de também confessar que o fazia por ela por que se sentia culpada pelo que fizeram a Hermione no passado.
– Fico grata que não coloque Harry no meio disso, pois estou cansada do fato dele interferir em todos os ramos da minha vida, no momento em que deseja e como bem entende. – Ela pareceu encabulada e Hermione resolveu seguir a mesma linha e não envolver Harry ou Ronald naquela conversa. – De qualquer forma, não acho que seja justo culpá-la pelas escolhas de outros.
– Obrigada.
O silêncio se fez presente e incômodo novamente e ambas se entretiveram com seus chás por alguns minutos. Hermione não era do tipo que direcionava sua raiva a qualquer um sem distinções e sabia perdoar – Draco era exemplo vivo disso. Perdoar Ginny não significava que as coisas voltariam ao normal, as duas mulheres já eram experientes o suficiente para minar suas esperanças de que isso fosse acontecer, mas era importante que tudo fosse colocado em seu devido lugar e, por isso, até mesmo apreciava a atitude de Ginny ao procurá-la.
– Como estão seus filhos?
Então, certo brilho de admiração apareceu nos olhos da ruiva e ela desatou a contar todas as melhores histórias sobre seus filhos James e Alvo fazendo perguntas esporádicas sobre Sophie sempre que surgia uma oportunidade. Ginny até mesmo sugerira de forma sutil que organizasse um encontro entre as crianças para que elas se conhecessem, mas Hermione declinou do mesmo modo e a conversa seguiu para outros rumos, pois a ruiva parecia ávida por compartilhar informações sobre o que havia acontecido a ambas enquanto estiveram separadas.
Havia alguma estranheza, tinha impressão de que as duas sempre precisariam medir as palavras para não se ofendessem, mas não faria mal que tentassem retornar aos velhos tempos, embora a todo o momento precisasse fazer um esforço descomunal para esparramar a sombra de rancor que se fazia presente a todo instante. Porém, com o decorrer da conversa, estava satisfeita de perceber que ainda havia traços em Ginny da menina que havia sido um dia, coisa que não em Harry: ela ainda era corajosa, atrevida e animada, apesar dos percalços, e isso lhe deixava feliz.
Assim, já passava da meia-noite quando a mesma resolveu ir embora e isso apenas por que Draco aparecera, surpreendendo-as sentadas no chão da sala de forma confortável, como as duas adolescentes que haviam sido. Viu como olhou de uma para outra parecendo confuso e Ginny levantou-se, ajeitando as roupas amassadas e buscando os sapatos.
– Acho que já está na hora de ir.
– Não precisa ir por minha causa, Weasley. – Hermione sorriu enquanto o via colocar a mala que trazia dentro do hall, por que entendia que era grande passo estar ali com Ginny Weasley aparentando serem velhas amigas.
– Ah, não se preocupe com isso, é tarde e... Eu tenho que ir pra casa, de qualquer maneira. – Ela voltou-se para Hermione e a abraçou. – Boa sorte em sua audiência amanhã.
A ruiva ainda despediu-se de Draco formalmente antes de sair e ele pode finalmente trancar a porta e encará-la com uma sobrancelha levantada em interrogação. Hermione apenas deu de ombros, indo abraçá-lo, pois estava claro que ele havia acabado de chegar de Paris.
Enquanto a situação de Sophie não se resolvia, ele estava vivendo uma incrível ponte entre Paris e Londres, pois precisava ir trabalhar e voltava sempre que havia uma nova resolução do caso da menina. As olheiras visíveis embaixo dos olhos e o ar cansado denunciava que isso – e toda a situação que estavam vivendo – não estavam lhe fazendo bem, de forma alguma.
– Estamos ensaiando uma reconciliação. – Ela aspirou o conhecido perfume masculino quando Draco a apertou contra seu corpo. – Acho que estou cansada de manter a guarda alta com todos.
O beijou com saudade, mas podia senti-lo tenso sobre suas mãos, então simplesmente o levou para o quarto e fez com que tomasse um banho quente para tentar relaxar. Quando Draco saiu, usando apenas uma calça de moletom escuro e enxugando os cabelos molhados com uma toalha, Hermione já estava embaixo das cobertas e ante a visão do torso masculino ainda úmido sentiu uma conhecida pontada em seu baixo ventre.
– Conheço esse olhar, Granger.
Sorriu maliciosa em resposta e o loiro não demorou a se livrar da toalha de forma displicente antes de deitar-se ao seu lado e puxá-la para mais perto, beijando-a de forma ardente como não faziam há muito tempo.
Sentiu seus pelos eriçarem quando ele beijou e mordeu seu pescoço de forma lasciva e não hesitou em acariciá-lo com perícia ainda por cima da calça, fazendo-o morder seu seio com força e usar a língua para aliviar a dor momentânea. Hermione ofegou, mas não houve tempo para respirar, pois logo ele a estava beijando novamente, fazendo-a se esquecer por completo de todas as preocupações que lhe afligiam ao infiltrar os dedos dentro de seu short fino e tocá-la do jeito que sabia que gostava.
Como havia sobrevivido sem isso por tanto tempo?
Fale com o autor