Vínculo
41 Capítulo 40
– Harry, eu não irei voltar a trabalhar no Ministério. Essa discussão é inútil!
– De que adiantou sair da Clínica se não irá retomar sua vida?!
Hermione e Harry se encontravam na conhecida sala de estar da antiga casa de seus pais. Os tons de vozes exaltados faziam jus aos rostos corados de raiva que ambos exibiam. Até então, nunca havia explicitado daquele modo sua cólera sobre o moreno, mas havia chegado a um nível onde não aguentava mais a presença do mesmo em sua vida.
Enquanto a memória se fazia presente em sua mente, como em um filme um pouco difuso e antigo, Hermione lembrava-se claramente de que esse era seu pensamento na época: fugir das cordas invisíveis em que ele a prendia. Sentia-se como um fantoche ao ter cada passo seu antecipado por Harry, controlado por ele, ainda que inconscientemente.
– De que adiantou?! – Ela perguntou incrédula. – Eu não sou louca, Harry, eu não preciso estar numa clínica de reabilitação só por que não quero voltar a ser a Hermione que você gosta, que você idealizou ou algo do tipo... Eu irei viver minha vida, do jeito que bem entender, e você não tem nenhum direito de se intrometer nisso.
O silêncio tomou conta do ambiente enquanto Hermione tentava normalizar a respiração e apalpava o ventre saliente ao sentir uma pontada fraca. Por algum motivo, Harry ainda não havia aceitado sua gravidez, ele parecia evitar ao máximo encarar sua barriga.
– Eu só quero que fique bem, Hermione.
Ela iria ficar bem, mas na França, onde poderia aprender a viver novamente com a ajuda de sua filha.
A lembrança mudou novamente e a dor em sua têmpora esquerda pareceu se tornar ainda mais proeminente. Sentiu que tentou se mexer no divã em que se encontrava, mas seu corpo parecia pesado, não obedecendo, desse modo, as ordens de seu cérebro.
Assim, viu várias de suas memórias se misturando, como se estivessem bem diante de seus olhos. Coisas que a própria Hermione sequer se lembrava ou pensava com pouca frequência se misturavam a memórias recentes e mais importantes, pelo menos para ela, enquanto o obliviador procurava algo que pudesse configurar uma lembrança implantada.
Abruptamente, a confusão de gritos, risos e choros cessou e ela se viu ser ajudada por Ronald enquanto adentravam a maternidade do Hospital St. Valentim.
– Mantenha a calma, Hermione, estamos chegando lá.
Soltou um riso fraco, embora a dor em seu ventre apenas aumentasse cada vez mais, pois Ron parecia dizer aquilo mais para si mesmo do que para ela. Não esperava nada menos do ruivo.
Não demorou muito para que uma enfermeira viesse lhe ajudar e a colocasse em uma das macas que apareceram flutuando ao seu lado com um aceno de varinha da mulher de branco que informou que iria encaminhá-la para a enfermaria.
– Boa sorte.
Ainda ouviu a voz de Ron ao longe. Tinha a impressão de estar se distanciando, mas agora sabia que ele ainda estava ao seu lado e que sua voz arranhada parecia longe por que, sem a obrigação de concentrar-se na dor, sabia que estava perdendo a consciência.
De forma abrupta, o nada em sua mente foi substituído por batidas de uma música eletrônica que considerava irritante e, logo em seguida, vieram as luzes que a deixavam tonta, embora sentisse que dançava loucamente. Seus cabelos soltos flutuavam no ar e podia ver o reflexo dos cabelos vermelhos de Ginny ao seu lado, um copo de bebida na mão e risadas efusivas, quase bêbadas demais.
Não se lembrava desse dia — o que havia engravidado – apenas tinha em mente de forma clara a ocasião em que conversara com Ginny, semanas depois no antigo quarto da ruiva na casa dos pais:
– Está grávida. – Ela parecia lamentar enquanto encarava o teste de gravidez com o resultado positivo que tinha em mãos.
– Deve haver em engano, não pode ser...
Não poderia ter engravidado dias depois de sair de uma clínica de reabilitação, não na festa que comparecera para comemorar justamente tal fato. Mal sabia cuidar de si mesma... Além disso, não era de seu feitio entregar-se ao primeiro que lhe desse atenção.
– Não, não há!- Ginny exclamou com as duas mãos em seus ombros. – Você está com todos os sintomas, Hermione, e esse teste...
A lembrança mudou novamente de forma abrupta e seguiram-se várias outras, como a última, sem seguir uma lógica temporal, pois não apareciam na ordem em que haviam acontecido realmente. Possivelmente, o obliviador procurava por falhas entre as memórias, algo que considerasse suspeito ou adulterado, por isso não se dedicava a determinadas lembranças.
Viu-se, então, na cozinha de sua casa, mais gordinha do que se lembrava de ter estado um dia – exceto nas imagens que tinha de sua suposta gravidez – com uma vasilha de brigadeiro à sua frente e o Profeta Diário em uma das mãos. A matéria de capa não a surpreendia em nada: Filha recém-nascida de Draco e Astoria Malfoy desaparece da maternidade St. Valentim.
Sabia que, na época, considerara a notícia um tanto quanto triste, pois nem mesmo Draco Malfoy merecia passar por um sofrimento como este, mas logo o choro infantil lhe chamou a atenção e, sorrindo, deixou o jornal e o brigadeiro de lado para ir até Sophie, que dormia entre almofadas no tapete fofo da sala.
Só então percebeu que a casa estava repleta de caixas de papelão onde se podiam ver descrições indicando o que havia dentro delas. Preparava sua mudança para Paris, dois dias depois – pôde ver quando o obliviador focou em um calendário em cima do console da lareira – do sequestro de Gwen.
Antes que pudesse processar tudo que havia visto, entretanto, Hermione abriu os olhos de forma confusa encarando as luzes do consultório do obliviador enquanto a pontada de dor em sua têmpora a alertava de que agora poderia fazer algo quanto a isso.
Com a ajuda do outro, sentou-se no divã e aceitou uma poção que ele justificara como sendo para dor. Sem palavra alguma, o obliviador andou até sua escrivaninha e passou a fazer algumas anotações enquanto Hermione se recuperava da invasão em sua cabeça.
Lembrava-se de todos aqueles detalhes, lembrava-se de entrar em trabalho de parto enquanto tinha sua pior briga com Harry, mas não sabia por que era Ron quem estava lhe acompanhando até o hospital. Não se lembrava da ocasião em que havia engravidado, mas tinha em mente que Ginny a havia acompanhado em todos os momentos até o dia em que se desentendera de vez com o marido dela.
Tudo isso estava tão claro em sua mente que não podia considerar como falso, não quando se recordava claramente de todas as sensações que sentira durante a gravidez de Sophie. Porém, não havia outra explicação, nada se encaixava além da hipótese de que alguém muito talentoso lhe implantara diversas memórias falsas e roubara a filha de Draco para entregar a ela como se fosse sua.
– Srta. Granger... – Começou o obliviador lhe chamando a atenção ao mesmo tempo em que soltava a pena de escrever sobre a escrivaninha. – Sinto muito em lhe informar que todas essas memórias que você revisitou são falas. Nenhuma delas segue uma linha temporal clara e realmente me esforcei para tentar encontrar o ponto de partida. Ainda assim, pelo que conclui suas reais memórias terminam assim que sai da clínica de reabilitação. Todo o período de sua gravidez e o que antecede a ela, e com isso quero dizer a ocasião em que supostamente engravidou, é falso.
Era como um balde de água fria em sua cabeça agora que tinha um especialista lhe dizendo isso com todas as letras, o que também significava que o que realmente aconteceu neste período estava completamente apagado de sua memória. Não havia nada mais frustrante para Hermione, no momento, do que não ter uma real ideia sobre o que aconteceu em seu passado.
– Não pode descobrir quem fez isso, não é?
– Não é minha especialidade. – Ele continuou, analisando-a. – Acho que já havia chegado a essa conclusão, certo?
– Após ficar comprovado que Sophie era filha biológica de Draco, eu imaginei que era este o motivo.
– Bem, eu irei encaminhar o relatório o mais rápido possível aos aurores e você estará livre de problemas bem mais rápido do que todos esperavam.
Concordou sem mais delongas e despediu-se do obliviador antes de sair e encontrar Draco brincando com Sophie no corredor de mármore escuro do Ministério. Eles interromperam a brincadeira, entretanto, e andaram até ela com um olhar preocupado.
– É verdade, todas as memórias que tenho sobre... – Olhou o rosto inocente de Sophie, sem consciência nenhuma sobre a atrocidade que haviam feito a ambas, e voltou-se para Draco respirando fundo. – Todas elas são falsas.
Draco também pareceu inquieto ao ouvir a verdade escancarada a sua frente, mas a encarou de forma compadecida enquanto tantas hipóteses passavam pela mente de Hermione. Porém, não conseguia focar em nenhuma delas quando estava tão sobrecarregada com tudo que havia acontecido/descoberto há pouco.
– O que vai fazer agora? – Agora que o Ministério, Astoria ou quem quer que deseje não poderia mais processá-la. Era um alívio de certa forma, mas ainda tinha batalhas para lutar.
– Vou colocar quem fez isso em Azkaban.
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