– Quem é Astoria?

Hermione olhou assustada para a figura curiosa de Sophie, parada no alto das escadas. Não esperava por aquela interrupção, muito menos que as coisas tivessem que se desenrolar dessa maneira. Sentiu os olhos de Draco, quase a fuzilando para que não tentasse se esquivar da pergunta da filha de maneira torta, pois ele não deixaria.

Se havia algo de que tinha certeza era que Draco não deixaria que mentisse para Sophie quanto à existência e a importância de Astoria na vida dela. Ele podia amá-la, mas ainda se compadecia por Greengrass e tudo que haviam passado juntos quando a filha deles fora sequestrada. E agora ele estava frente à frente com sua Gwen.

Além de ser bastante consciente de seus sentimentos em relação a tudo que estava acontecendo, também imaginava pelo que Draco passava. O encarou, percebendo com um aperto no coração o pedido silencioso em seus olhos. Deus, vê-lo implorar silenciosamente que contasse toda a verdade ali, doía tanto!

Saber de tudo que havia acontecido no passado do loiro e ainda lhe negar o direito de poder fazer parte da vida de Sophie por puro egoísmo era horrível. Nunca fez parte de sua natureza machucar os outros intencionalmente e fazê-lo com Draco ia contra todos os seus princípios, principalmente se levasse em conta tudo que haviam vivido juntos. O amava e ele merecia isso.

– Sophie, precisamos conversar.

– Por que eu a trocaria por essa tal de Astoria? – Perguntou a menina, ainda confusa. – Quem é ela?

Era completamente cruel presenciar Sophie falar da mãe biológica como se fosse uma estranha, percebeu pela primeira vez. Astoria deveria se perguntar todos os dias como estaria sua Gwen, enquanto Sophie não fazia ideia de quem ela era.

– Desça aqui, Draco e eu temos que lhe contar algo.

– Vocês voltaram?! – A menina desceu correndo as escadas, produzindo um grande ruído no chão de madeira e com um enorme sorriso no rosto ao jogar-se no colo de Hermione. – Será que poderiam me encomendar um irmãozinho? Não aguento mais brincar sozinha.

Draco riu, divertido, esperando Hermione responder constrangida. Era visível o quanto ficava desconcertada com as perguntas da menina sobre o relacionamento deles.

– Não, não voltamos. – Colocou-a sentada no sofá, tentando não prestar atenção na careta decepcionada da menina enquanto também se acomodava. – É algo um pouco mais importante do que isso.

– E que tem a ver comigo? – Perguntou a menina duvidosa ao encarar Draco, sentando-se ao seu lado.

– Só tem a ver com você. – Disse ele.

Hermione percebeu o olhar encantado no rosto de Draco e não conseguiu evitar um sorriso mínimo. Havia desejado tanto que ele, mesmo contra todas as expectativas contrárias, reencontrasse Gwen e pudesse recuperar o tempo perdido. Era muito surreal que Gwen fosse mesmo Sophie e que ele a olhasse com tanto carinho e veneração que chegava a doer.

– Você perguntou quem é Astoria, certo? – Começou Hermione, recebendo uma confirmação por parte da pequena loira. – Ela é a ex-mulher de Draco. Quando todos ainda vivíamos no Reino Unido, eles se casaram e... Depois de algum tempo, tiveram uma filha.

– Quer dizer então que você tem uma filha? Mais velha do que eu? Podemos brincar? – Sophie encarou Draco com o rosto cheio de expectativas, deixando-o desconcertado. Raramente o vira desconcertado, mesmo nos tempos de escola, e presenciá-lo totalmente desarmado era estranho.

– Sim, tenho uma filha, mas... Não acho que poderão brincar.

– Sophie, ouça a história e faça perguntas depois. – Disse Hermione. – Acontece que... A filha que Draco e Astoria tiveram foi raptada quando ainda era um bebê, eles nunca mais tiveram notícias da menina.

Viu Sophie baixar o olhar, constrangida demais para encarar um deles, talvez até mesmo um pouco triste. Foi então que teve orgulho do que havia feito com ela nos anos em que estiveram juntas. A menina era educada, inteligente e carinhosa, não poderia ter sido uma mãe melhor e, no fundo, achava que nem Astoria poderia ter sido, mesmo que seu julgamento não fosse minimamente imparcial.

– Eles nunca mais tiveram notícias da menina... Até algum tempo atrás. – Mordeu os lábios, sentindo o coração disparar de ansiedade, pois não tinha a mínima ideia de como a menina iria reagir a notícia. – Eles descobriram que Gwen, que é como a chamaram, poderia estar viva e... Chegaram até nós.

Viu o olhar confuso da menina e encarou Draco, que parecia não conseguir conter-se, mexendo os dedos a todo o momento sobre o colo.

– Sophie, você é a filha desaparecida de Draco e Astoria. – Disse lentamente segurando as mãos da menina. – Você é Gwen Malfoy.

Por um momento, o silêncio tomou conta da sala e apenas o olhar arregalado de Sophie sobre eles. A menina levantou-se lentamente, parecendo confusa com algum pensamento.

– Mas... Como posso ser? – Olhou Hermione. – Eu sou sua filha, eu saí de dentro de você!

Com os olhos lacrimejados, Hermione balançou a cabeça em negativo, evitando falar para que não caísse no choro quando precisava ser forte, quando sabia que Sophie – em suas dúvidas – precisaria dela.

– Escute, Sophie. Você é filha de Hermione, você sempre será e duvidar disso seria absurdo. – Percebendo o estado de ambas, Draco começou segurando a menina pelos ombros.

– Mas e Astoria? Não é possível ter duas mães.

Hermione levantou-se, apertando as mãos contra a boca para que Sophie não precisasse ver as lágrimas que desciam escancaradas por seu rosto. Sentiu a mão de Draco em seu cotovelo, fazendo com que se voltasse para os dois. A menina ainda tinha o olhar fragilizado e confuso, enquanto o loiro parecia preocupado e ao mesmo não conseguia esconder a felicidade pelo fato de aquilo estar acontecendo. Havia esperado muito tempo, afinal.

– A única diferença é que você não saiu daqui... – Ele apontou para o ventre de Hermione, que instantaneamente sentiu-se um pouco vazia por isso. Já havia pensado tanto nisso, mas ouvir essas palavras de outra pessoa era ainda mais doloroso do que sua constatação pessoal. – Mas vocês irão continuar sendo mãe e filha, nada anulará o fato de que foram por sete anos. Vocês se amam demais para isso. E sim, você pode ter duas mães. Não seria legal ter duas das mulheres mais legais que já conheci te mimando o tempo todo?

Sophie ficou em silêncio por algum tempo, a cabeça baixa enquanto parecia pensar. Encarou Draco, compartilhando com ele a espera do momento decisivo em que finalmente terminariam a batalha que haviam travado durante algumas semanas. Tudo pelo amor de Sophie.

Abruptamente, a menina desvencilhou-se de Draco e foi até Hermione abraçando-a apertado. Abaixou-se, conforme ela pediu e arrumou os cabelos loiros com cuidado enquanto a menina tentava secar suas lágrimas, o que só fazia com que chorasse ainda mais.

– Acha que posso ter duas mães? – Sophie sussurrou em seu ouvido, parecendo esperar sua permissão. Sorriu, abraçando-a ainda mais apertado.

– Desde que não me troque por Astoria, acho que podemos pensar nisso. – Tinha consciência de que Draco, mesmo com o esforço da menina em manter a conversa particular ouvia tudo.

– Eu amo você, mamãe.

– Eu também te amo, querida. – A loirinha desvencilhou-se de Hermione, que tentava secar suas lágrimas enquanto observava a menina voltar-se para um Malfoy visivelmente emocionado.

– Acho que posso lidar com esse lance de ter duas mães. – Declarou ela imperiosa, fazendo-os sorrir. – Então... Você é meu único pai?

– Sim. – Respondeu ele com a voz embargada.

– Não que eu queira outro por que estou bem satisfeita com o fato de você ser meu pai. – Disse ela, dando de ombros.

– É o que eu espero, mocinha. – Hermione percebeu que os olhos do loiro começavam a ficar vermelhos e ele se esforçava ao máximo para não chorar.

– Já que vocês agora são meu pai e minha mãe, eu acho que poderiam voltar a namorar e realmente exercer a função de seus cargos.

– Olha só, Malfoy, ela puxou a você na parte do oportunismo. – Hermione não conteve a língua enquanto Draco e Sophie riam e se abraçavam, finalmente como pai e filha.

Era uma cena realmente bonita de se ver, o loiro não conseguira mesmo conter as lágrimas enquanto apertava a menina em seus braços. Ele havia esperado tanto por tal momento que era completamente compreensível que estivesse tão abalado, Hermione só não podia deixar de se perguntar como as coisas seriam dali para frente agora que tudo estava, supostamente, se acertando.

A sensação de dever cumprido ao vê-lo abrir os olhos e pronunciar um “obrigado” silencioso por cima do ombro da filha era realmente boa, mas o sentimento de que estava perdendo uma parte do amor de Sophie era mais angustiante do que qualquer outra coisa.

– Mamãe... – Sophie desvencilhou-se dos braços de Draco e voltou-se confusa para Hermione. – Se fui raptada quando era um bebê, como vim parar aqui?

Notas finais
Oieee!! Sim, eu sei, vocês devem estar furiosas comigo e têm toda razão, mas é que não estava preparada realmente para escrever esse capítulo. Demorei tanto para decidir o que fazer com o "o destino" desses três. Então, por fim, percebi que seria muito injusto com Draco continuar escondendo as coisas de Sophie e o fato de ela ser filha dele, não? Ele esperou e sofreu tanto por isso. Sem contar que nosso casal precisa de um gancho, um motivo, para conseguirem colocar a relação deles no eixo. Não seria com Hermione sendo egoísta que isso aconteceria, não é? E então, gostaram da reação de Sophie? Vamos considerar que ela queria um pai há muito tempo e sempre adorou Draco, acho que a reação dela é até compreensível, acho que não conseguiria de qualquer forma fazê-la ficar brava com Hermione. Apesar da personalidade forte (vide sua última pergunta), ela ainda é uma criança de sete anos, certo? Enfim, me digam o que acharam sobre tudo isso. Gostaria também de dizer algo a vocês: quando pensei no formato que Vínculo teria mentalizei algo tipo novela das sete, sempre acontece algo importante, mas não que isso vá ser decisivo. A meu ver, todo capítulo é necessário, se estão achando que a história parece se arrastar podem me dizer, eu realmente não ligo e até gosto de saber; mas é que este é realmente o formato da história, bem diferente de "Memories" que, para mim, lembra muito mais um seriado (só fazendo comparações para entenderem melhor a dinâmica que eu tento passar nas minhas histórias kkkkkk). Acho que é isso ^^ Me digam o que acharam nos comentários e muito obrigada pelos últimos, agora a coisa está realmente se encaminhando para fecharmos todas as lacunas deixadas. Desculpem pela demora, de verdade, mas acho melhor demorar um pouco mais e trazer algo com qualidade (eu acho) do que fazer algo às pressas. Sou de Touro, não consigo me apressar!! Bem, até o próximo, bjão :D