Vínculo
35 Capítulo 34
O Ministério da Magia Inglês, por meio do Senhor Alan Cliff, Auror Residente na França, intima Vossa Senhoria a prestar esclarecimentos em procedimento investigativo para apurar denúncia sobre sequestro de menor indefeso.
Munido(a) desta intimação e de documentos pessoais, o(a) intimado(a) deve comparecer ao local, data e hora descritos abaixo. Caso o(a) convocado(a) se recuse a fazê-lo será imediatamente acusado(a) pelo crime de desobediência e/ou resistência tendo suporte no artigo 112 de 8 de setembro de 1914 e 567 de 24 de outubro de 1946, ambos autenticados pelo Código Penal Bruxo.
INTIMADO(A): Hermione Jean Granger
ENDEREÇO: Avenue du Maréchal Maunoury, n° 452, Paris, França
DATA E LOCAL PARA APRESENTAÇÃO: 13 de maio de 2009; Ministério da Magia Inglês, Departamento de Cumprimento dos Direitos Mágicos (5° piso), Quartel General dos Aurores.
AUROR CHEFE: Francis Lovejoy
AUROR OFICIAL RESPONSÁVEL PELA INTIMAÇÃO: Alan Cliff
DATA DE INTIMAÇÃO: 05/04/2009
Sob o olhar do auror, Hermione assinou duas cópias da intimação, uma que ficaria com ela e a outra que seria enviada de volta ao Ministério da Magia. Educadamente, ainda apertou a mão do auror antes de fechar a porta e voltar-se para Sophie, que a encarava curiosa.
Sorriu, respirando fundo e disfarçando o olhar aflito para a menina. Sentou-se ao lado dela no tapete e folheou o livro de contos de fada deixado de lado enquanto a própria Sophie ficava entretida com suas bonecas.
Poderia contar tudo, teria de fazê-lo em algum momento, mas não estava preparada. A questão é que nunca estaria preparada para dizer a Sophie que ela não era sua filha de verdade, que não saíra de seu ventre, que possuía outra mãe. Tinha medo que a menina considerasse Astoria uma mãe melhor, que ficasse tão encantada por Draco a ponto de esquecê-la, que passasse a idolatrar Narcissa assim que tomasse conhecimento de que esta era sua avó.
– Filha, temos que conversar. – Curiosa, Sophie a encarou por alguns segundos antes de deixar as bonecas de lado. – Eu... Irei para a Inglaterra daqui algumas semanas.
– Sério?! – Os olhinhos azuis brilharam de empolgação. – Vou poder conhecer seus amigos? Luna, os Weasley...
É claro, já havia falado sobre seus tempos de adolescente na Inglaterra, havia contado como viver em Hogwarts era quase um sonho, como tudo era surreal e interessante, principalmente para uma nascida trouxa que caíra de paraquedas naquele mundo. Sophie, porém, sabia apenas sobre as partes legais, as partes que não envolviam brigas e conflitos de opiniões, as partes que não envolviam um Harry controlador e intolerante.
– Er... Você terá que ficar aqui. Pelo menos, por enquanto. – Completou ao encarar o olhar desapontado, enquanto arrumava carinhosamente o cabelo da menina. – Tudo bem para você ficar com Jean e Elise?
– Por que não posso ir com você?
– Eu tenho que resolver alguns problemas e não conheço alguém de confiança com quem possa ficar, então... – Hermione suspirou e levantou-se, recolhendo as xícaras de chás e a bandeja com alguns bolinhos. – Não se preocupe, será só por alguns dias, logo estarei de volta.
– Que tipo de problemas, mamãe? – Disse Sophie, da sala, e Hermione precisou apoiar-se na pia para respirar fundo. Deus, ela tinha tanta sorte por não ter ideia!
– É complicado. – Podia até ver Sophie revirando os olhos. Qualquer um que convivesse o mínimo de tempo com ela sabia que odiava que lhe dissessem isso. – Logo irá saber, Sophie, só... Preciso de tempo.
Antes que a menina pudesse retrucar, a campainha soou e Hermione deixou as coisas sujas na pia para ir atender. Porém, antes que pudesse fazê-lo, Sophie já estava abrindo a porta e pulando, entusiasmada, sobre o visitante.
– Draco! – Levantou uma sobrancelha, indignada, enquanto o loiro colocava a menina no chão, ignorando-a. – Trouxe algo para você.
– Você e mamãe voltaram? – Perguntou ela casualmente, enquanto abria o pacote que Draco lhe entregara.
– Não, apenas vim conversar.
– Se quer voltar deveria ter trazido flores. – Draco escondeu as mãos no bolso e finalmente a olhou, esperando que formulasse uma resposta.
– Não sou o tipo de mulher que se vende por flores. — Respondeu orgulhosamente vendo o loiro disfarçar um sorriso enquanto fechava a porta atrás de si. – O que quer aqui, Draco?
– Esse é o brasão de Hogwarts! – Exclamou Sophie ao encarar o desenho que estampava seu novo moletom branco. Toda criança bruxa que conhecia era encantada com Hogwarts e todas as lendas que a cercavam, é claro que Draco não poderia perder uma chance de agradar. – É fantástico, obrigada!
– Sabia que ia gostar.
Hermione percebeu que ele estava visivelmente emocionado ao encarar Sophie, parecia querer gravar na memória tudo que ela fazia ao mesmo tempo em que procurava sinais que indicavam que se tratava de Gwen ali. Gestos e semelhanças que só Hermione, depois de muito refletir, sabia que existiam. Como, por exemplo, os rostos finos e angulares; o mesmo formato dos olhos; os cabelos loiros que não chegava ao tom dos de Draco, mas ainda assim eram muito claros; o modo austero como a menina se expressava e até mesmo suas expressões faciais. Quando descontentes, ambos franziam o nariz exatamente da mesma maneira.
– Er... Acho que vou para o meu quarto. – A menina se pronunciou, ganhando a atenção de ambos e fabricando um sorrisinho amarelo. – Vocês sabem, experimentar meu presente.
Antes que pudessem responder, Sophie subiu correndo as escadas e Hermione pode ouvir claramente quando a porta de seu quarto foi batida, indicando que estava realmente sozinha com Draco.
Resignada, encarou o loiro e revirou os olhos antes de encaminhar-se para a sala, consciente de que ele não iria embora mesmo que pedisse. De propósito, sentou-se em uma poltrona o mais longe possível dos demais sofás, demonstrando claramente que não queria contato mais íntimo, embora seu coração quase gritasse o contrário.
– Narcissa me contou sobre sua teoria. – Começou ele, parado próximo a janela da sala.
– E a que conclusão chegou?
– Pode ser possível. – Ele deu de ombros ao mesmo em que a surpreendia. – A questão é: não tem ideia de quem pode tê-lo feito.
– Alguém que odiasse a nós dois, talvez. — Ele meneou a cabeça, parecendo não concordar de todo, no que Hermione semicerrou os olhos. – Acredita mesmo em mim? Acha que... Não fui eu quem sequestrou sua filha?
– Quero acreditar nisso.
Ele estava tentando, concluiu abaixando a cabeça. Sua atitude era louvável, mas Hermione não conseguia parar de pensar que ainda assim Draco continuava desconfiando.
– E o que pretende fazer? – Perguntou resolvendo esquecer tais pensamentos, pois ele estava ali, na sua sala, depois de todas as divergências, depois de todas as acusações, depois de tudo que haviam dito um para o outro.
– Eu ficarei do seu lado. – A declaração a surpreendeu, assim como o gesto de Draco, que se ajoelhou a sua frente, olhando-a intensamente. – Não tenho a intenção de lhe tirar Sophie, sei o quanto a ama e direi ao tribunal se for preciso, mas temos de fazer o que é justo...
– Não a entregarei a Astoria! – Disse incrédula enquanto se levantava, sendo seguida por ele. – É isso que veio fazer aqui? Me convencer a fazer um acordo para abrir mão da minha filha?! Eu criei Sophie por sete anos, não vou simplesmente entregá-la a outra pessoa, mesmo que seja sua mãe biológica, só por que um juiz mandou.
– Eu quero um acordo onde todas as partes saem ganhando, inclusive Sophie. – Ele expirou, passando a mão pelo rosto e bagunçando os cabelos. Ambos sentiam na pele o quanto toda a situação era extremamente e como estavam estraçalhados por dentro devido a tudo que estava acontecendo, mas Hermione iria resistir até quando conseguisse. – Astoria merece conhecê-la, Hermione, você sabe disso. Pense em tudo que ela passou...
– E tudo que eu estou passando?! – Perguntou indignada, vendo o olhar dele suavizar por alguns instantes. – Não é você quem tem que olhar para Sophie todos os dias e pensar que pode perdê-la por algo que sabe que não tem culpa. Eu apenas a amei durante todos esses anos e tudo que recebi em troca foram acusações injustas! Você não quis nem me ouvir e ainda mandou sua mãe por que não teve sequer coragem para me encarar. Agora quer fazer um acordo? Assim, de repente?! Conheço você, Draco, por que está fazendo isso?
– Sabe por que estou fazendo isso, Hermione! – Sim, ela sabia e era uma idiota por perguntar. Nesse momento, Draco segurou seus ombros e manteve o tom conciliador. Foi então que percebeu que não estiveram tão próximos em semanas e lembrou-se de que o perfume dele era completamente inebriante. – Sophie jamais a trocaria por Astoria, mas ela merece a chance de tentar obter uma pequena parcela desse amor.
– Quem é Astoria? – Perguntou Sophie do alto das escadas, assustando a ambos.
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