– Marie, leve Sophie para o quarto dela.

Percebendo o clima tenso que se instalara, a mulher a obedeceu sem questionar e Hermione fechou a porta, bloqueando o som com um feitiço prático. Cruzou os braços, em claro sinal de desconforto, e encarou o sorriso malicioso no rosto de Harry. Não entendia por que ele estava ali, não havia motivos para que ele estivesse ali, na cozinha de sua casa, conversando amenamente com sua filha.

– Não precisava ser rude assim. – Ele levantou as mãos, mostrando que vinha em paz e abotoando o próprio terno. – Soube que se meteu em uma grande encrenca.

– O que veio fazer aqui, Harry? – Perguntou impaciente, observando-o andar por sua cozinha como se fosse o dono.

– Conhecendo-a como a conheço, até que demorou bastante para algo acontecer. – Ele franziu o cenho, os olhos curiosos por trás dos óculos de aros redondos. — Vim lhe oferecer ajuda, é claro, é pra isso que servem os amigos.

– Não preciso da sua ajuda, seja lá o que for.

Ele riu irônico e mordeu um dos biscoitos de chocolate de Marie. Revirou os olhos pelo teatro que ele insistia em fazer, considerando que entre eles quem deveria ter sido internado numa clínica psiquiátrica era o próprio Harry. Ele se tornara cínico, manipulador e até mesmo frio, não lembrava em nada seu melhor amigo de infância.

– Foi o que imaginei. Mas veja só... Com a justiça do Reino Unido atrás de você e tentando utilizar diplomacia com a França para lhe extraditar de volta para casa, precisará de alguém influente ao seu lado. – Ele deu de ombros a encarando com seriedade. – Se eu fosse você, não dispensaria nenhum tipo de ajuda.

– E o que você ganharia com isso? Ajudar uma possível criminosa, colocar seu próprio pescoço na mira dos jornais, ser julgado pela sociedade novamente... Você não faria esse tipo de coisa sem receber algo em troca. – Concluiu, semicerrando os olhos, desejando que aquela conversa terminasse para que ele pudesse sair dali o mais rápido possível.

– O prazer de estar no jogo novamente contra Malfoy talvez seja algo pelo qual tudo isso valha a pena. – Hermione balançou a cabeça, incrédula.

– No que você se tornou? – O Harry que conhecia, de verdade, repudiaria aquele tipo de ação. – Quer me usar para atingir Malfoy, quer usar uma criança, o ponto mais fraco dele para desestabilizá-lo... Você está sendo o pior tipo de covarde que existe, Harry!

– Ele merece! – O moreno quase gritou, assustando-a pela súbita perda de controle. Ele respirou fundo e voltou ao normal, olhando-a com desdém enquanto referia-se a Draco. – Perder a filha foi apenas uma parcela do preço que ele pagou por tudo que fez, Hermione, não vê?

– Saia da minha casa, Harry. – O moreno bufou, parecendo não acreditar no que estava ouvindo. – Já tenho toda ajuda de que preciso.

Harry abaixou a cabeça, suspirando, gastando alguns segundos para voltar a encará-la. De modo frio, observou o perfil tenso, o maxilar apertado. Parecia querer dizer alguma coisa, o que lembrava sua adolescência quando ele mordia a língua para não retrucar os professores, quando tentava controlar a raiva ao presenciar algum tipo de injustiça.

Porém, o que não percebia é que havia cometido uma injustiça imperdoável com a própria Hermione. Ele a abandonara, ele se desfez da presença que se tornou inconveniente do modo mais fácil que encontrou e não esqueceria tal fato tão cedo.

– Só queria minha amiga de volta.

– Sinto muito. – Respondeu inflexível.

Já havia pensado, antes de todas as turbulências pelas quais sua vida estava passando, obviamente, em voltar à Inglaterra, retomar contato com seus antigos amigos, retomar sua vida de forma geral.

Entretanto, quando considerava que nenhum deles havia se esforçado para ajudá-la em seu momento mais difícil, que provavelmente muitos ficaram aliviados com sua ausência forçada, acabava desistindo. Possivelmente, era muito mais querida em Paris do que em qualquer outro lugar.

Viu Harry balançar a cabeça em concordância e encaminhar-se para a saída, parecendo derrotado. Pela primeira vez em muitos anos, o viu demonstrando seus sentimentos de forma verdadeira. Possivelmente, momentos como aquele eram raros e talvez devesse se sentir grata por, finalmente, deparar-se com seu lado humano novamente, mas não podia deixar-se abalar por que aquele não era mais Harry, mas sua versão adulta que certamente voltaria a ser o mesmo manipulador de sempre quando fosse embora. Definitivamente, não precisava de mais um problema.

Quando já estava ao seu lado, uma das mãos sobre a maçaneta da porta, pronto para sair, ele virou-se respirando fundo e levantando a cabeça. É claro que não sairia de sua casa humilhado, nem poderia esperar que Harry se deixasse agir desse modo.

– Você ainda irá se arrepender dessa decisão, Hermione.

Antes que pudesse retrucar, ele bateu a porta e só pode respirar calmamente quando seus passos já não eram mais audíveis no chão de tacos do corredor. Para se acalmar, abriu a geladeira e encheu um copo d’água tomando-o todo de uma vez e tentando normalizar a respiração assim que o depositou sobre a pia. Olhou, enojada, para os biscoitos de Marie e resolveu ir atrás de ambas. Provavelmente, Sophie teria muitas perguntas sobre “o amigo da mamãe”.

– Não deixe Harry entrar aqui, Marie, nunca mais.

– Tudo bem.

A mulher deu de ombros, desconfiada e levantou-se, despedindo-se de ambas. Agora que Hermione estava de licença para tratar de assuntos pessoais, seu trabalho por ali era quase dispensável, mas recusava-se a demiti-la, pois Marie era quase uma avó para Sophie e as duas eram bastante apegadas.

Assim que ficaram sozinhas, a pequena loirinha encarou Hermione com os olhos semicerrados, esperando uma explicação. Suspirando, sentou-se no tapete ao lado dela, acariciando seus cabelos.

– Harry e eu fomos amigos quando eu era mais nova.

– E por que não são mais?

– Aconteceram muitas coisas, é complicado. – Conhecendo sua filha, sabia que ela odiava que lhe dissessem que algo “era complicado”, pois detestava ser privada de explicações devido a isso, exatamente como havia sido a própria Hermione quando criança. – Irá entender quando crescer. Enquanto isso, podemos ver um filme de princesas!

Sophie deu-se por satisfeita e ambas foram para seu quarto. Sabia como ela estava cansada, pois brincara com as crianças da vizinhança praticamente a tarde toda, então na metade do filme – ao qual Hermione nem se esforçava para se concentrar, apenas pensando na visita inesperada de Harry – a menina já estava a sono alto ao seu lado, completamente esparramada na cama.

Sorriu, ajeitando-lhe as cobertas e desligando a televisão. Jogou as pernas para fora da cama, um arrepio lhe correndo o corpo ao sentir o chão gelado sob seus pés, e abriu o guarda-roupa afastando todas as roupas para que pudesse ver a conhecida caixa de madeira branca bem no fundo do armário.

Sentando-se no tapete fofo e sob a luz do banheiro que estava ligada, observou os vários recortes de jornais da época de sua adolescência. Havia praticamente gravado o conteúdo de todas as notícias ali presentes e era, provavelmente, uma forma bastante eficaz de se auto torturar, mas não conseguia desfazer-se daquelas memórias, embora houvesse muito tempo que não as revivia. Com o coração apertado, pegou a que mais detestava e, ao mesmo tempo, que mais lhe fazia lembrar tudo que havia acontecido.

Hermione Granger: a heroína de guerra que sucumbiu a loucura

Não são incomuns os relatos de homens e mulheres que foram para a guerra e voltaram mentalmente devastados, Hermione Granger não foi exceção.

Como braço direito de Harry Potter na famigerada guerra contra Lord Voldemort, Hermione fez história como a garota mais inteligente de sua idade. Com apenas 18 anos enfrentou bruxos das trevas treinados em combate e viu Hogwarts ser quase que completamente destruída, mas sempre defendeu seus ideais e é por causa deles que hoje se vê internada na Clínica Psiquiátrica St. Leopold, um centro de tratamento trouxa.

Harry Potter nos confirmou a atual situação de sua amiga por meio de uma nota enviada à imprensa. Veja aqui:

“Devido aos traumas de guerra pelos quais todos nós sem sombra de dúvidas estamos passando, Hermione concordou em se internar em uma Clínica Psiquiátrica visando o afastamento do mundo bruxo no pós-guerra. Agradeceríamos se a imprensa colaborasse, respeitando sua privacidade neste momento delicado.”

Como podem perceber, Potter não entrou em mais detalhes, mas o Profeta Diário apurou e descobriu que Hermione é habitante do quarto de número 333. Pessoas não autorizadas estão proibidas de visitá-la, apesar de fontes seguras confirmarem que esta recebe seus amigos periodicamente. Nenhum funcionário do local se disponibilizou a falar sobre o estado mental de Granger.

Potter e a família Weasley não mencionaram o nome de Hermione Granger em entrevistas recentes e já avisaram que não o farão, pois a segurança e tranquilidade de sua amiga é o mais importante no momento. Mais informações exclusivas nos próximos dias.

Rita Skeeter

A repórter não ajudava, seu tom era maldoso e frio, pois historicamente não simpatizava com Hermione, mas as mentiras contadas ali com a ajuda de Harry eram inaceitáveis.

Não recebia visitas periódicas de seus amigos e não havia concordado em internar-se, ele o fizera a força. Harry convencera a todos de que precisava de tratamento quando a única coisa que realmente queria era o apoio deles. Não estava conseguindo lidar com toda a pressão do Ministério e da mídia após o fim da guerra, isso não fazia questão de negar, mas também não era louca. Demonstrava a todos o quanto estava bem, o quanto se esforçava para colocar as coisas em ordem, o quanto queria contribuir na reconstrução do mundo bruxo, apenas sofria de pesadelos e ataques de pânico ocasionais os quais não podia controlar, obviamente, e Harry não soube lidar.

Essa era a única verdade que conhecia: quando chegou a vez de ele cuidar dela, Harry escolheu a solução mais fácil para resolver o problema. A amizade entre eles durante todos aqueles, Hermione percebeu, havia sido uma via de mão única.

Há alguns quilômetros dali

Temeroso, Draco viu Narcissa calmamente abrir a porta de seu apartamento e entrar, desfazendo-se da bolsa e do casaco, praticamente o ignorando. Estava ansioso pelo que ela teria a lhe dizer sobre o encontro com Hermione, não conseguia nem mesmo mascarar tal fato.

A mulher estava calada demais, pensativa demais e, intimamente, Draco torcia para que ela tivesse algo de útil a lhe dizer, pois a carta de Astoria ainda estava sobre sua mesa lembrando-lhe a todo instante de que havia acabado de reabrir o inquérito sobre o desaparecimento de Gwen e principal acusada era, obviamente, Hermione Granger.

Estava tão nervoso que sequer conseguira trabalhar durante todo o dia, sua mente apenas repassando ininterruptamente o fato de que Narcissa poderia conseguir o que ele próprio não conseguira em todas aquelas semanas: ter coragem de falar com Hermione.

Queria ouvir a voz dela, mesmo que se recriminasse todos os dias tentando forçar sua mente a aceitar que ela poderia ter roubado Gwen, que ela poderia ser a responsável por todos os seus anos de sofrimento. Os momentos que passaram juntos pareciam fazer parte de outra vida, tão distantes se encontravam para Draco.

– Granger descobriu. – Narcissa sentou-se a sua frente, cruzando as pernas de forma elegante. – Ela tem uma teoria do que pode ter acontecido.

– Não seria Hermione Granger se não tivesse.

Notas finais
Olááá!!! Todos ficaram muito ansiosos com o fato de Harry aparecer e... Espero que tenham gostado! Ele foi tão detestável quanto vcs acharam que seria? O que podem me dizer desse "eu só queria minha amiga de volta" todo cheio de mistérios e oferecendo ajuda? kkkkkkk Me digam sobre isso! E a reação do Draco, todo ansioso para saber sobre o encontro, parecendo uma menininha esperando a amiga contar todos os detalhes, mas... A reação dele a tudo isso só virá no próximo por que sou má. Narcissa irá ser uma boa mãe e falará a verdade ou irá tentar tirar Hermione de vez da cabeça dele? :o O que acham? Como puderam ver, Astoria está ausente e eu não me aprofundei nisso por que não vi espaço, mas ela já reabriu o inquérito por que não perde tempo e a história tem que desenvolver, certo? Muito obrigada (MUITO OBRIGADA!) pelos comentários referentes a história e, principalmente dessa vez, pelos dedinhos cruzados pra eu entrar na faculdade, estou tão ansiosa! Muito obrigada mesmo! E (é tanta coisa para dizer nessa nota) para vocês que gostam do que eu escrevo tenho uma novidade. Uma nova fic!! Me apaixonei pela ideia e me empolguei escrevendo alguns capítulos, por fim, vi que tinha potencial para ser mostrada e primeiro capítulo foi postado semana passada. Quem gostar ou tiver críticas construtivas, comentem lá também! Espero que gostem, de verdade: http://fanfiction.com.br/historia/598585/Neurotica/ Bjão, até o próximo!! :))