Vínculo
33 Capítulo 32
Hermione encarava seriamente o semblante austero de Narcissa Malfoy. Sabia que a senhora não apareceria ali se não fosse um pedido especial de Draco, então temia que ela lhe dissesse coisas que poderiam lhe fazer hesitar. Não deixar com quem eles levassem Sophie era uma de suas convicções mais fortes, mas a mulher a sua frente era esperta como uma cobra. Caso Necessário, a levaria ao limite para ajudar o filho.
Sabia por experiência própria o que mulheres como Narcissa e ela eram capazes de fazer por suas crias. Hermione iria até as últimas consequências por Sophie, sem pressão, sem arrependimentos. A senhora soltou um riso discreto e sentou-se ao seu lado no banco de madeira, observando as pessoas que passavam pelo parque, a postura impecável clamando por atenção.
Estavam em um parque no centro, perto da pizzaria onde Hermione levara Draco num “encontro” por insistência dele. Não sabia exatamente o motivo, mas gostava daquele local. Era simples, quebrava um pouco da correria dos parisienses. Muitos se acomodavam nos bancos, embaixo das árvores ou no gramado perto do lago apenas para ler ou observar os demais. Escolhera ali, pois na situação em que se encontravam não deixaria Narcissa e Sophie no mesmo ambiente, nem mesmo se ela insistisse muito.
– Sinto muito pelo que você e Draco estão passando nos últimos tempos. – Meneou a cabeça, evitando ceder a vontade de entrar no assunto sobre seu relacionamento com Draco e deixando que Narcissa continuasse, sem interrupções. – Para um observador, é muito claro perceber o quanto se gostam.
– Não me chamou aqui pra isso, certo? Digo, o que Draco e eu tínhamos acabou...
– Há alguma chance de Sophie ser filha de vocês? – Interrompeu a mulher, direta como uma navalha, mas sequer subindo o tom de voz. – Tiveram algo em segredo quando moravam na Inglaterra? Por que eu tenho a impressão de que não está mentindo, Granger?
Hermione suspirou, engolindo o nó na garganta. Pela primeira vez alguém parecia se esforçar para acreditar nela e não podia expressar o quão grata estava por isso.
– Não, Draco e eu nunca tivemos nada, mas... Acho que encontrei a explicação para tudo isso. – Virou-se para a senhora, aflita. – Só tem que me prometer que não permitirá que Sophie seja afastada de mim.
Narcissa a encarou curiosa e, ao mesmo, cautelosa. Claramente, sabia sobre sua fama de sabe-tudo.
– Conte comigo.
Hermione sabia que poderia procurar Draco para lhe convencer de sua teoria, mas Narcisa a procurou, naturalmente à pedido do loiro, antes que pudesse encontrá-lo.
– Eu nunca soube quem era o pai de Sophie, sempre... Achei que ela havia sido fruto de um encontro de uma só noite. Mas... Isso nunca foi do meu feitio e eu sei que estava muito confusa naquela época. Havia acabado de sair de uma clínica psiquiátrica quando me vi grávida de Sophie. – Mordeu os lábios, hesitando ao perceber que estava se abrindo para uma estranha. Podia conhecer Narcissa, mas nunca tivera intimidade com ela. No entanto, a mesma parecia ponderar tudo que ouvia, seguindo seu raciocínio sem dificuldades. – Eu... Acho que minha memória foi alterada.
– O quê? – Ela certamente não esperava algo tão direto.
– Ginny me levou a uma festa trouxa após minha alta da clínica, foi a noite em que engravidei. Lembro-me de tudo, inclusive do teste de gravidez positivo, apenas... Não sei se isso é verdade. – Hermione respirou fundo. – É a única explicação plausível para o fato de o DNA apontar que ela seja filha de Draco, que ela... Seja Gwen.
– Isso irá acabar com ele. – Divagou Narcissa, parecendo preocupada. — Sei que existe um feitiço antigo, porém poucos sabem de sua existência. Quem teria motivos para manipular sua memória, fazê-la pensar que estivera grávida e roubar a filha recém-nascida de Draco?
– Alguém com razões para se vingar dele me usando. – Hermione deu de ombros. – Ou o contrário, quem pode saber?
– Merlim! – Podia ver o cérebro da senhora tentando encaixar todas as pontas soltas daquela história. – Eu... Astoria irá reabrir o inquérito.
– Pode ser o meio de encontrar o culpado de toda essa história, admito. Mas Sophie não sairá de Paris. – Narcissa simplesmente a encarou com frieza. – Nós temos cidadania francesa e precisam da minha autorização para tirá-la do país, aqui posso ter certeza de que a justiça estará do meu lado, então... Concordo em voltar para a Inglaterra e provar que todos nós fomos enganados nessa história, apenas exijo que minha filha fique como garantia de que não irão tentar tirá-la de mim.
Narcissa meneou a cabeça, semicerrando os olhos ao encará-la. Tinha consciência de que estava tentando manipular uma das mulheres mais espertas que conhecera e que era arriscado demais tentar jogar com ela, mas não estava com medo.
– Já pensou no que irá fazer quando a verdade vier à tona? Quando entregar Sophie a Draco e Astoria será eminente?
Hermione levantou-se com a intenção de ir embora por que não havia pensado nisso e estava evitando fazê-lo, não iria discutir o assunto com Narcissa e mostrar o quão vulnerável estava dentro de toda aquela história. Tinha apenas um trunfo e acabara de gastá-lo, apostando todas as fichas.
– Temos um acordo? – Narcissa a imitou e estendeu a mão direita para que pudesse apertá-la.
– É claro.
Ambas se despediram e tomaram seus caminhos. Hermione tinha o coração aos pulos, quando as coisas estivessem em seus lugares tudo iria depender da boa vontade de Narcissa, não iria admitir perder sua filha. Mesmo que todas aquelas memórias sobre gravidez fossem faltas, todas as outras não o eram e afastá-la seria cruel para mãe e filha.
– Hermione Granger... Srta. Granger? – Virou-se, deparando-se com uma garota de cabelos ruivos extremamente cacheados e vestes confortáveis.
– Sou eu. – Respondeu confusa, aquela garota não parecia ter mais 20 anos.
– Desculpe incomodar, meu nome é Andy Collins e sou fotógrafa profissional. Eu estava no parque fazendo umas fotos há algumas semanas quando vi você e seu namorado. – Andy sorriu encabulada. Seu nariz parecia grande demais para o rosto delicado, mas ainda assim era muito bonita. – Sei que era um momento íntimo, mas não resisti e... Fotografei o momento. Fui até a pizzaria depois, pois os tinha visto sair de lá, a dona disse que era cliente, mas não sabia o seu endereço, então...
– Você pode respirar um pouco.
– Desculpe. – Ela sorriu e começou a remexer na própria mochila, ao mesmo tempo em que continuava a falar. – As fotos ficaram tão lindas, eu gostaria de pedir a autorização de vocês para colocá-las em minha exposição. Chama-se “Exceções do dia-a-dia nas grandes cidades”, a ideia é mostrar esses momentos que se destacam na correria de uma cidade como essa.
– Draco não é mais meu namorado, mas por mim tudo bem, pode expô-las sem problemas. – Disse, recebendo um pacote pardo das mãos da garota. – Terá de pedir autorização a ele. Se quiser anotar o endereço...
– Claro! Obrigada, muito obrigada. – Andy buscou agilmente um bloquinho de anotações e escreveu o endereço que Hermione lhe disse. – Na verdade, é uma das melhores fotos. Sinto muito por não estarem mais juntos, vocês faziam um belo casal.
– Obrigada. – Hermione forçou um sorriso e fez menção de lhe dar as costas. — Eu tenho que ir, boa sorte com a exposição.
– Há um convite junto com a cópia das fotos, entrada vip.
– Okay, até mais.
Assim, Hermione resolveu pegar um táxi pra ter tempo de ver aquelas fotos antes de chegar em casa. Abriu o pacote pardo com cuidado e mordeu os lábios ao ver a primeira. Mostrava Draco olhando para ela enquanto saíam da pizzaria, raramente o vira a admirando daquele jeito e sequer imaginara que ele o havia feito já naquele dia, quando dissera que o odiara só pra se fazer de difícil e o levara a uma pizzaria, quando não tinham nada.
– Moça, está tudo bem? – Perguntou o taxista simpático ao parar em um semáforo. Provavelmente sua cara não era nada boa.
– Claro.
Passou para a segunda foto, percebendo que nesta estavam muito próximos, seus lábios quase colados. Draco era pouco maior que ela, de modo que seus corpos juntos faziam um quadro bonito. Nem um deles sorria, mas o clima era palpável para qualquer um. Até as luzes da cidade ajudavam. Uma lágrima escorreu por seu rosto e a enxugou antes de passar para a última foto.
Draco sugava seu lábio inferior enquanto ela acariciava sua nuca e tinha seu corpo colado ao dele. As mãos em volta de sua cintura eram possessivas e exigentes, lembrava-se perfeitamente. Deus, por que tudo tinha de ter saído errado para eles?
– Senhora, chegamos.
– Tudo bem, obrigada.
Guardou as fotos no envelope e procurou o homem antes de sair do táxi. Sem pressa, engolindo o bolo em sua garganta, destrancou a porta de entrada de casa e se desfez do casaco, mas estacou ao ouvir a voz conhecida vinda da cozinha.
– Seus biscoitos são muito bons mesmo, Marie. Você gosta deles, Sophie?
– São os melhores! – Respondeu a menina, animada.
– Sua mãe demora muito para chegar?
– Ela está de licença, apenas saiu para resolver problemas de adultos. Já deve estar chegando. – Disse a menina, despreocupada.
Nesse momento, Hermione adentrou a cozinha deparando-se com uma cena que jamais imaginara. Sentado à mesa, tomando chá e comendo os biscoitos recém-saídos do forno de Marie estava Harry Potter, em vestes casuais e parecendo completamente à vontade.
– O que você está fazendo aqui?
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