Vínculo
15 Capítulo 14
Hermione adentrou o prédio sem hesitação, carregando uma pasta executiva e profissional entre os braços. Era mais um dia de trabalho e, como fazia muitas vezes durante o mês, teria que procurar o jornal para entregar uma nota oficial assinada por Jean. Até gostava desses dias, podia passar em algum lugar para tomar algo, apesar do fato óbvio de ser uma funcionária exemplar.
Sequer parou na recepção, tão familiarizada já estava com o local. Entrou no elevador, desacompanhada, e apertou o número do andar que seria seu destino. A redação do caderno de economia estava trabalhando a todo vapor e Hermione se dirigiu para o escritório da editora-chefe, no fim do emaranhado de mesas e papéis que era aquela ala do prédio.
A sala de Paola Webber era um aquário e era possível vê-la discutindo com uma garota que não parecia ter nem 20 anos, provavelmente uma estagiária. Suas bochechas estavam vermelhas e seus olhos azuis arregalados de raiva. Hermione teve certeza que não era um bom dia quando ela bateu uma das mãos na mesa, fazendo a garota estremecer e sair da sala segurando o choro.
Paola tinha a personalidade forte e nem sempre conseguia segurar seus acessos de raiva e Hermione tinha certeza que, no auge de seus 50 anos, ela ainda não tinha sido promovida exatamente por isso.
Bateu na porta ao perceber que a mesma tinha os olhos fechados e massageava as têmporas com os dedos, na tentativa de se acalmar.
– Dia ruim? — Paola a olhou, suspirando, e levantou-se.
– E ainda nem chegamos ao meio-dia. — A mulher de cabelos grisalhos a cumprimentou com um abraço e bebeu de uma só vez uma pequena dose de uísque que se encontrava sobre sua mesa. — Como vai, querida?
– Eu estou bem, mas acho que você não deveria beber há essa hora.
– Meu organismo está acostumado. — Respondeu, sem se importar. — O que tem para mim?
– A nota oficial, assinada por Jean, sobre o transporte não autorizado dos ovos de dragão. — Entregou o envelope à mulher, que apenas sorriu de lado e deixou sobre sua mesa, displicentemente. — Irina deveria ser a responsável por isso, não?
– Sim, mas ela está viajando, como sempre, e o Departamento de vocês trabalha em conjunto. Certo?
– Ela deveria mencionar esses casos de tráfico na próxima visita a Bulgária.
– Ela, certamente, vai. — Paola sorriu de lado, a olhando com malícia, o que a deixou confusa.
– O que foi?
– Como sei que não lê esse tipo de coisa, fiz questão de guardar para você, ia mandar por correio-coruja, mas já que você veio...
Antes que pudesse perguntar, Paola jogou a revista à sua frente, em cima de toda aquela papelada que deveriam ser matérias novas e antigas, e Hermione viu seu nome em letras garrafais no canto da página associado ao de Draco. Muito associado.
Com os olhos arregalados, pegou a revista, quase sem acreditar no que via.
"Draco Malfoy e Hermione Granger: novo casal do mundo bruxo?"
– De onde tiraram isso?! — Paola deu de ombros.
– Você sabe como são essas revistas. Tem uma matéria de página inteira sobre o "novo casal do mundo bruxo". — A mulher riu, debochada e Hermione levantou-se, ajeitando a bolsa nos ombros.
– Eu tenho que ir.
– Está na página 28! — Hermione apenas a olhou, mal humorada, fazendo a mulher rir ainda mais.
Droga, droga, droga! Era tudo que Hermione pensava quando saiu da redação do jornal e ganhou as ruas. Finalmente estava entre trouxas. Eles, pelo menos, não a reconheceriam por causa de uma revista de fofocas. Por que Jean não a havia avisado? Ele vivia lendo aquelas porcarias!
Sentou-se em um café qualquer, pedindo um expresso, e depois de tomar fôlego por alguns segundos abriu a revista na página que Paola havia dito.
Gemeu em resignação ao ver a montagem de uma foto dela e de Draco, ambos com as roupas do dia da festa de Jean e sorrindo para os repórteres. Não pode deixar de se lembrar como ele estava bonito naquele dia e evitou um revirar de olhos para sua própria consciência antes de começar a ler.
Garotas de todo o mundo bruxo podem tirar seus hipogrifos da chuva, pois ao que tudo indica Draco Malfoy foi fisgado.
Considerado o melhor partido de toda a França desde que passou a viver em nossas terras, Draco Malfoy vem arrancando suspiros por onde passa. Oriundo de uma das famílias bruxas mais tradicionais, Draco parece finalmente ter encontrado uma mulher para lhe colocar nos eixos. E, pasmem, ela não tem o sangue nobre que todas as gerações conhecidas da família Malfoy ostentam.
Hermione Granger, 29 anos, heroína da épica guerra entre Harry Potter e o bruxo das trevas autointitulado Lord Voldemort, mora na França há pelo menos 7 anos e trabalha no Departamento de CMI do Ministério da Magia. Ela não é nada desconhecida para nós e, muito menos, para Draco.
Segundo informações apuradas pela nossa redação, Draco e Hermione estudaram juntos na Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts, no Reino Unido, e não costumavam interagir devido ao sistema de casas que divide os alunos por personalidade.
Granger e Malfoy lutaram na 2° Guerra Bruxa, mas de lados diferentes e pareciam se odiar até então. Draco só se manifestou sobre a guerra após o julgamento que absolveu sua família de Azkaban: "Foi um erro e a família Malfoy verdadeiramente se arrepende de ter participado disso". Hermione foi internada numa clínica psiquiátrica devido aos traumas de guerra e nunca foi ouvida sobre sua colaboração no lado vitorioso. Ela se mudou para Paris assim que teve alta, quase dois anos depois.
Entretanto, eles parecem ter relevado o passado um tanto quanto sombrio que tiveram. Os dois foram vistos por testemunhas confiáveis em clima de romance em um café muito frequentado de Paris e, quando perguntados sobre a relação que teriam, negaram qualquer tipo de aproximação pessoal.
"Não passava de um encontro profissional" e "as pessoas gostam de se promover às custas dos outros" foi tudo que Hermione nos disse quando questionada. Draco, entretanto, foi mais categórico ao afirmar "ela sabe quais são os meus interesses e, para mim, está de bom tamanho".
Acho que Malfoy não estava se referindo a trabalho, certo? Agora, resta esperar para ver o capítulo final dessa novela. Nós, da redação do Diário das Bruxas, só temos uma coisa a dizer a Draco e Hermione: estamos torcendo por vocês!
E. Allen
Quando terminou de ler, Hermione estava com raiva, muita raiva. O café que pedira havia chegado e sequer tinha visto, tão concentrada estava no artigo. Deus, aquilo lhe lembrava tanto Rita Skeeter, aquela mulher odiável.
Olhou ao redor, respirando fundo para conter a irritação. Pela segunda vez na vida estava sendo alvo dos artigos de fofocas e detestava isso. Tinha consciência de que qualquer outra em seu lugar estaria amando ter um lugar nos jornais, que fosse para falar de sua vida pessoal, mas Hermione não. Odiava ter sua vida exposta daquela maneira, sem mencionar que fizeram questão de falar sobre sua internação, um assunto que sempre evitava.
Definitivamente, precisava de algo mais forte que café. Foi o que concluiu ao encarar a xícara à sua frente e fazer uma careta. Deixou o dinheiro sobre a mesa e estava para se levantar quando alguém sentou-se ao seu lado. Para sua surpresa, era Marc quem segurava seu braço, sorrindo amavelmente.
– Marc, oi! — Os olhos dele voltaram-se para a revista, levantando uma sobrancelha.
– Você não me parece bem. — Disse ele, sem fazer questão de cumprimentá-la por que a conhecia bem demais para precisar perguntar.
– Sempre odiei ser alvo de artigos como esse. — Suspirou, deixando os ombros caírem.
– Então, posso presumir que não é a primeira vez que isso acontece. — Marc riu e Hermione lhe deu um leve tapa no ombro. — Então... Você e esse Malfoy estão saindo?
– Tecnicamente, só saímos uma vez. — Disse Hermione, encarando a capa da revista.
– Mas...?
Quando ele percebeu que não estava a fim de falar sobre o assunto, virou seu rosto delicadamente para encará-lo. Marc era compreensivo e sabia falar as coisas na hora certa, o que às vezes a deixava um pouco desconcertada, já que sempre sabia o que ela estava pensando.
– Mas... Eu acho que gostei. E quero mais. — Confessou, vencida.
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