Vício M(eu)
3 Capítulo 2 - Ah, caralho.
Notas iniciais
Capítulo 2 – Ah, caralho.
Encaro por alguns instantes a página da web aberta. Um blog dedicado especificamente para mulheres, com várias palavras. Uma seguida da outra e em alguns casos, sendo separadas por alguma pontuação. Eram basicamente esses os fatores, que somados, resultavam num post relativamente grande. Reflito um pouco antes de iniciar a leitura, passo grosseiramente os olhos pela introdução e concluo que definir o tema de minha redação já é uma grande etapa. Portanto, o resto, pode esperar. Desligo o computador, jogo minha mochila em um ombro só e me dirijo à saída do colégio.
Resolvo fazer um caminho diferente para voltar ao meu doce lar. Passo na melhor na cafeteria da cidade e peço um cappuccino, sento-me a mesa mais escondida. No canto. E ao fundo. Vou beliscando meu café enquanto amasso e rasgo o guardanapo de papel. Estou tranquila, minha mente estranhamente não está barulhenta e frenética. Falar de menos, me faz pensar muito, talvez até em excesso.
Estou atrapalhadamente saindo da mesa e indo em direção à saída da cafeteria, mergulhada nos meus pensamentos sobre não estar pensando muito, quando sinto um líquido quente afrontando e batendo contra o meu peito. É café. E está quente.
–– Ah, meu Deus! Me desculpe! –– ouço uma voz masculina acima de mim. Olho para o alto e encontro comuns olhos castanhos com ar de um pedido de perdão e constrangimento me encarando. É Zack. Não sei o que dizer. Gostaria de falar que as palavras estavam trancadas na minha garganta e que era a minha voz que não estava funcionando, mas não. Não havia palavra alguma, minha garganta era oca.
–– Nã-não foi na... –– cadê a última silaba, Emily, cadê? –– da. –– ah, está aí, baby!
–– Como assim não foi nada? Eu te sujei toda! –– ele disse com os olhos arregalados, plantando um riso nos mesmos.
–– Eu estou bem, não foi nada. Mesmo! –– o riso dos seus olhos se enterrou na sua pele e subterraneamente foi cavando, até brotar nos seus lábios.
–– Olha, –– ele falou coçando a testa com o polegar –– eu moro aqui do lado, você pode pegar uma roupa da minha irmã...
–– Não! –– eu o interrompi num tom desesperado, que honestamente, era totalmente cabível ao momento. –– Não precisa... é só um pouco de café... –– eu não iria praticamente furtar uma roupa da irmã do Zack-leitor-de-poesia.
Ele deu uma leve e breve risada.
–– Não tem não. Vem! –– e saiu me arrastando porta a fora. Pelo menos ele não mentiu. Zack realmente morava ao lado da melhor cafeteria da cidade. Mas quando digo “ao lado”, eu quero dizer: Bem. Ao. Lado.
Sua casa tem dois andares, é azul-celeste-fosco tem uma varanda, duas portas de entrada, uma garagem aparentemente para dois carros, duas janelas no andar de baixo e duas sacadas no andar de cima. Ela é simpática e enorme.
Zack foi me puxando até chegarmos num quarto. O seu quarto. Branco e normal, bem simples na verdade. Uma cama de casal, criado-mudo, roupeiro e um puta de um rádio.
–– Aqui, veste isso, acho que vai servir. –– me alcançou um de seus moletons. Bem que eu estranhei ele estar procurando uma roupa de sua irmã no roupeiro dele.
–– Mas... isso é seu... –– digo num tom de “só um minuto, meus neurônios ainda estão processando o acontecimento”. Sinceramente, eu estava apavorada, sentia meu coração no fim garganta e meus batimentos sendo refletidos no meu lábio inferior.
–– É que, na verdade, eu não tenho irmã. –– ele dá um sorriso sem mostrar os dentes e abriga suas mãos nos bolsos da jeans. –– Olha, coloca isso, você me devolve quando der ok?
Como assim “quando der”? Será que ele sabe quem eu sou?
“É claro que não, Emily! Você é invisível! Entendeu? Por que raios Zack saberia quem é você?” –– decido que é uma ótima hora para se ter uma guerrinha interior.
“Porque ele vai à biblioteca e já me deu oi.” –– me dou um tapa na cara mentalmente.
“Emily, não viaja.”
Apenas coloco o moletom, me despeço de Zack e vou indo embora.
–– Ei, onde você vai? Eu te levo! –– Escuto Zack berrar da porta. Penso em negar a carona, mas não o faço por: A) Já é tarde. B) Sou cagona. C) Gostei de falar com alguém que me responde com outra fala numa língua que eu compreendo perfeitamente. Gostei de falar com alguém que não seja John.
–– Tchau, obrigada pela carona e pelo moletom. –– digo saindo do carro. Ele me responde com um outro sorriso sem a presença de seus dentes.
Paro em frente a porta de minha casa e começo a vasculhar minha mochila a procura de minhas chaves. Ouço duas buzinas breves.
–– Até amanhã, bibliotecária! –– grita do carro. Arranca. E vai embora.
Ah, caralho. Zack sabia o tempo todo quem eu era.
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