Vício M(eu)

19 Capítulo 18 - Gravi e Dade


Notas iniciais
(Notas iniciais no capítulo)

Notas iniciais: GENTE!!!!!! Então, não tô morta. Adianta eu pedir desculpas? Sei que não, mas por favor me desculpem. Acho que até já deve ter aparecido que eu abandonei a fic. Mas eu não vou abandonar essa joça enquanto não terminá-la! Bom, vocês não sabem, mas além do fim de ano que pesa pra todo mundo, eu tava organizando uma gincana, e não se vocês sabem, mas sou atriz, e atualmente estou em dois grupos teatrais. Eu realmente fiquei sem tempo nenhum nesses último mês. Mas enfim, um muito obrigada para biihHutcherson, Baby e Marzipan! Para quem ainda acompanha a fic, se é que tem alguém, boa leitura e nos vemos lá em baixo! (Me desculpem se ficou uma merda, fiz super na corrida o cap, tava me sentindo super mal por nunca mais ter dado as caras por aqui. :/ ) ♥

Capítulo 18 – Gravi e Dade

Aquela segunda-feira se amanhecia com céu azul, mas se espreguiçava acinzentanda. Exatamente assim era o retrato que me doía quando abri os olhos naquela manhã.

Emi dormia serena e sensual ao meu lado, eu acordava seca. Oca. Vazia de tanto chorar. Chorar em todos os sentidos, planos, direções e intensidades. Chorava de dentro para fora, de fora para dentro. Numa contradição bela, trágica e poética.

Minha madrugada havia sido molhada e salgada, esvaziei todo mar que cabia em mim. Oh, meu Deus, quanta água eu tinha para inundar meu universo e o ombro de minha outra eu.

Mesmo com todo o desabafo, continuava explodindo de raiva de Zack, e essa era a única coisa que se passava e se instalava na minha mente. Não me importava mais nada, nem o teste, nem minha invisibilidade, tampouco o seu amor.

Naquele momento odiava o leitor com todas as forças que me restavam, mas mesmo assim ia em conquista de mais e conseguia odiá-lo mais um bucado.

Levanto de vez e vou para o banho. Um banho curto, sem drama e pausas para chorar. Apenas um banho. Apenas água, sabonete e shampoo. Não me preocupo em secar o cabelo, e só enxugo o grosso do corpo. Enfio uma jeans, uma camiseta, meu all star e desço para o café.

John me segue com o astral depressivo, ele não quer me animar, apenas me fazer companhia.

O clima na mesa é pesado, mesmo com Zack não estando presente.

–– Bom dia. –– digo esfregando os ombros de minha mãe que já está sentada.

Ela me responde com um beijo de na bochecha, penso que seu gesto me diz que gostou da minha defesa.

–– Bom dia, Dilan.

–– Bom dia, Emi. –– o homem me responde simpaticamente. Ainda estamos na fase da boa vizinhança.

Me sento no que parece ser o meu lugar e vou me servindo um café puro e torrada. Dali a algum tempo Emi aponta da porta já pronta, ela senta ao meu lado e rouba uma mordida do meu pão. Hoje minha outra eu está leve, com um vestido solto, rodado e florido que ia até um palmo antes de seu joelho. Nos pés, uma sandália preta de salto alto.

É quando estou na metade de minha torrada que Zack desmente sua ausência e se senta como se nada estivesse acontecido na noite passada.

Gravidade chega, com seu estilo gótico. Suas roupas extra grandes para modelar seu corpo obeso. Seu cabelo é volumoso, armado, com seus cachos bem feitos pesando, feito molas sendo esticadas por uma mão de ferro. Vejo a moça se duplicar, agora eram Gravi e Dade, as duas nos olhando de atravessado, com a cara carrancuda e a maquiagem negra borrada.

Sinto o nó se formando no meu estômago, na minha garganta e minha alma brincando de contorcionismo. Meu Ego sorri, sarcástico.

“Bom saber, dessa flexibilidade.” –– ele diz.

Encaro o leitor, irritada. Ele abaixa o olhar para seu prato vazio. Eu, por minha vez arrasto o meu mais para frente, demonstrando no mínimo insatisfação. Me levanto enfurecida e vou me dirigindo para a porta da casa.

–– Você não vai ir comigo? –– Zack me pergunta antes de eu sair da sala de jantar efetivamente.

Volto a encará-lo com raiva, mas não sai uma única palavra de minha boca. Apenas volto a me dirigir à porta. Emi dá uma leve corridinha para me alcançar.

Faz calor na rua, sei que será desagradável caminhar sob um sol intenso, mas uma carona com Zack, naquela altura do campeonato era algo inadmissível e que não iria acontecer. Penso que provavelmente ele não iria ficar para concluir o seu café da manhã, por isso resolvo não ir pelo caminho que o seu carro faz, opto pelo percurso mais longo, o que me obriga a passar por um boteco, enfeitado com velhos bêbados e tarados e por um edifício em construção, enfeitado com pedreiros de variadas idades, bêbados cerebralmente e tarados. Sei que vou ter que escutar muita coisa assim como também sei que não vou poder atravessar pro outro lado da rua, por ela ser movimentada demais e esperar para cruzá-la seria atraso na certa.

–– Pode começar a me repreender. –– digo, birrenta, para Emi. Ela para de caminhar e uma interrogação se forma em sua face.

–– Mas eu não disse nada. –– ela se defende.

–– Mas está pensando. –– rebato.

–– Vamos. –– continuo. –– Pode falar que eu não deveria ter recusado a carona do boy magia. –– debocho. Minha outra eu dá uma risada fundia numa bufada sarcástica.

–– Eu não vou dizer isso, não é o que penso. –– Emi esclarece.

–– Quem não queria não aceitar a carona era você, Emi. –– minha outra eu me irrita duplamente. Me chamando de Emi e dizendo a verdade.

Mas a verdade é divida em partes, e dessas apenas uma única realmente é verdadeira.

No meu caso, eu queria poder aceitar a carona de Zack, mas isso só viria se eu não o odiasse, e essa não era a situação. Simplesmente não compreendia o motivo de tanta raiva para com minha mãe. Aquilo tudo não fazia parte do leitor, ou talvez eu é que não soubesse o que fazia ou desfazia parte de quem ele realmente era.

Eu e a menina igual a mim caminhamos em silêncio por boa parte do percurso. A única coisa em que eu conseguia pensar era que eu não queria a noite passada tivesse acontecido.

–– Nervosa? –– Emi pergunta e sei que ela não quer só puxar assunto. Ela realmente estava interessada em conversar sobre o teste.

–– Não estou preocupada com o teste, você sabe disso.

–– Sei, mas quero que se preocupe. –– Emi arqueia a sobrancelha esquerda.

–– Lamento informar, mas isso não vai acontecer.

Minha outra eu me lança uma cara de “isso é o que veremos” enquanto esperamos para cruzar a esquina de uma rua paralela. Atravessamos pela faixa de segurança, passamos por uma casa verde de dois pisos, um condomínio vertical de uns 30 andares, uma outra casa verde, seguida por uma azul, amarela, amarela outra vez e uma ridiculamente rosa, e isso já era o suficiente para eu avistar o boteco. Lá estava ele, numa distância máxima de 20 passos de mim. Caindo aos pedaços, ocre, fedorento e nojento.

19 passos, 18, 17, 12, 8, 5, 3... e eu já passava pela sua frente.

–– Venha aqui, criança. Esse meu velho brinquedo ainda funciona.

–– Você parece um anjinho.

–– Parece minha mulher quando era nova, vem aqui vem.

E muitas outras coisas que intencionalmente eu bloqueei. Meus pés continuaram sempre em diante e depois de eu ter movido um pé após o outro algumas vezes, eu tinha a plena consciência de que eu já poderia me preparar para a enxurrada de comentários desagradáveis do prédio em construção.

Emi realmente tentava me fazer falar sobre o teste, e isso estava começando a me preocupar, com todo o stress eu não havia voltado a repassar a coreografia, e tinha certeza de que os passos já não estavam mais na minha cabeça, muito menos em qualquer outra parte do meu corpo.

Naquele momento, podia perfeitamente dizer que minha vida realmente estava um inferno, e o pior é que a única conclusão que eu conseguia chegar era que a culpa era única e exclusivamente do Zack. Logo o Zack.

Minha outra eu percebe meu pensamento e me faz parar de caminhar. Ela me trava, colocando as suas mãos nos meus ombros.

–– Hei, não preciso dizer que eu fico muito irritada te vendo assim, não é? –– Emi agarra meu queixo com sua mão direita, me puxando em direção a ela. A menina me dá um beijo de leve.

–– Vai dar tudo certo, confia em mim pelo menos uma vez na sua vida. –– ela conclui. Penso em dizer algo, mas Emi sabe que confiei nela desde a primeira vez em que nos vimos.

Continuamos o percurso e não demora muito para chegarmos à construção.

–– Porra, que linda!

–– Espera aí, você ainda não me deu o seu número.

–– Vai passar aqui amanhã de novo?

–– Ah, não faz assim, volta aqui!

–– Como é gostosa!

–– Vem aqui vem.

–– E o meu beijo?

–– Bom dia, loira que devia estar na minha cama.

E muitas outras coisas que intencionalmente eu bloqueei. Meus pés continuaram sempre em diante e depois de eu ter movido um pé após o outro algumas vezes, eu tinha a plena consciência de que eu já poderia me preparar para a enxurrada de comentários desagradáveis que a minha mente iria ficar fazendo, em relação a tudo o que está acontecendo, durante a aula inteira.

Só foi preciso dar mais alguns passos para que eu finalmente chegasse à escola.

Nos corredores não vi ninguém, nem Zack, nem Sofie, nem os grupinhos de ambos, que acabam se fundindo num só. Acho que essa será a minha maior sorte do dia. Sou profundamente grata a ela.

As aulas se arrastavam uma a uma. Elas se levantavam e se colocavam numa longa muralha, todas elas, gigantes, esticadas e concretas. Espremidas, se vigavam e me espremiam, como se eu tivesse alguma culpa pela falta de organização dos professores e dos horários. Mas não, elas não compreendiam isso, talvez, algum dia tenham tal capacidade. Por enquanto, apenas conseguiam apontar os dedos de gessos para mim.

Escuto o sinal que finda a aula, como um pequeno sino, que chama as pessoas da Idade Média para ver o enforcamento em praça pública. Meu coração se aperta e acelera. Era a hora do teste.

Começo a me mover devagar em direção ao vestiário feminino para me trocar. Não entendo como meus pés se mexem, se meu cérebro não havia lhes enviado comando algum, mas estão percebo que Emi me puxa pela mão no meio da multidão alunesca do corredor principal.

Saímos do prédio pela porta dos fundos e começamos a descer o gramado que nos leva ao campo e ao ginásio. Ambos os vestiários ficam dentro do local que abriga a quadra de basquete, mas em lados opostos. Sendo que o feminino é o mais longe.

Conforme vamos descendo, consigo ver que boa parte do colégio já se reúne nas arquibancadas do campo, enquanto os meninos treinam. Com certeza, Zack está entre eles. Faço de tudo para não ser vista por ninguém do time, e acho que cumpro minha missão com louvor, já que não escuto nenhum “Hei, lorinha!”, fico feliz por isso e continuo seguindo para o ginásio.

O chão encerado da quadra de basquete me recebe com receio e angústia, mas crio coragem, controlo minha ânsia de vômito, e, sentindo minhas batidas cardíacas ecoando por toda minha caixa torácica, cruzo a quadra de basquete, indo em direção ao vestiário feminino.

O local está cheio de meninas seminuas, vestindo suas roupas de pseudo-cheer desesperadamente. Elas conversam, riem, dão gritinhos e demonstram nervosismo histericamente. Fico mais apavorada com elas do que com o teste em si.

Como não quero me vestir na frente de nenhuma delas, e seria muito estranho eu me esconder nos boxes, fico num canto, fingindo procurar algo na minha mochila, enquanto espero, pouco a pouco, cada uma delas sair. É apenas quando ficamos só eu e minha outra eu, que me permito ter um ataque de nervosismo.

–– Emi, eu não vou conseguir. –– digo, escorregando escorada na parede, lentamente.

–– Todos vão rir de mim. –– meus olhos lacrimejam.

–– Vai ser horrível. –– duas lágrimas caem.

–– Minha vai ser pior do que já é. –– muitas lágrimas caem.

–– Eu nem lembro a coreografia. –– levanto e sacudo a menina pelos ombros.

Desespero me abraça, numa tentativa frustrada de me consolar, tenho me libertar, mas ele me aperta mais. Não sinto mais o ar entrando nos meus pulmões, não consigo pensar. Estou em pânico. A única vontade que tenho é de sair correndo de lá, mas o rapaz não me deixava ir, a cada tentativa de fuga minha, ele me trancafiava com mais e mais segurança.

Emi me dá dois tapas seguidos na cara.

–– Eu não quero saber se você lembra ou não da porra dessa coreografia, mas você vai agora tirar essa roupa, vestir essa –– ela atira em mim o presente do pessoal do puteiro ––, e vai lá fazer a porra desse teste! –– a menina igual a mim grita, ela realmente estava com muita raiva. Eu apenas a obedeço.

Assustada com Emi, começar a tirar, lentamente minhas peças de roupas, substituindo-as pelo top e pela minissaia. Estou constrangida, tem muita pele minha exposta, isso é muito mais do que estranho. Minha outra eu sorri, vendo o resultado. Nós duas caminhamos até a saída do ginásio. Meu coração se acelerava cada vez mais.

A realeza do colégio forma uma banca de avaliação num dos cantos co campo, obviamente Sofie está sentada na mesa do meio. Há uma fila de meninas esperando para fazer o teste na lateral dessas mesas, e uma porção de gente está fazendo um circulo na volta do espaço, enquanto pouco a pouco os meninos vão parando de treinar e se fundindo nesse mesmo círculo. Enxergo Zack e mais todo o seu time, mas acho que nenhum deles me viu ou reconheceu.

Vejo Linda chegando atrasada, dando uma corridinha para sentar no seu lugar de avaliadora. Sofie cochicha algo no seu ouvido, e pela sua cara, não é nada muito agradável. Mas no outro segundo todas estão sorridentes, afinal não podem deixar transparecer nenhuma imperfeição.

–– Ok, meninas! Vamos começar. –– a Deusa do colegial anuncia.

–– Nessa mesma ordem da fila, vocês vão vir aqui. –– ela se levanta e se posiciona na frente as sua mesa, apontando a marcação correta. –– Vão dizer o seu nome e idade, e depois vão nos mostrar o que vocês preparam para nós. –– ela explica.

–– Alguma dúvida? –– Sofie pergunta, só por garantia. Algumas balançam a cabeça em sentido negativo, mas ninguém diz nada. –– Então, a primeira já pode vir. –– decreta.

Antes de mim há exatamente 16 meninas, e pelo visto serei a última a me apresentar. Isso é ruim, isso é muito ruim. Oh, meu Deus, isso terrível. Desespero me acena de longe, mas eu viro a cara. No entanto, consigo perfeitamente sentir a sua presença.

O número 16 vai se desmanchando e diminuindo aos poucos. Quando ele se transforma no 1. Emi me puxa e percebo que está com uma roupa igual a minha. Estamos ridiculamente iguais.

–– Desculpe ter gritado com você antes, mas você ia ter um ataque. –– ela se explica.

–– Mas agora, Emily, vou precisar de toda a sua atenção. –– Emi continua. –– Sei que você está com muita raiva do Zack, mas você ainda lembra o motivo de estarmos fazendo esse teste? Por favor, não esquece que o leitor também faz parte desse grupinho nojento. –– ela cospe as palavras.

–– Passar nesse teste, é apenas o começo da sua vingança. –– Emi conclui.

–– Próxima! –– Sofie grita.

Desespero sai correndo sem se despedir, não entendo, mas depois vejo, de rabo de olho Convicção escorada no canto da arquibancada. Ela vem até mim. Andamos Emi, eu e Convicção de braços dados até a marcação correta. A mulher que expulsara Desespero deseja sorte a mim e a minha outra eu, nós agradecemos e ela vai se sentar para assistir o show.

–– Emily Fox, 16 anos. –– digo. Linda anota numa prancheta e me lança um sorriso de confiança.

Eu e Emi começamos de costas. Na primeira batida nos viramos, e enquanto dá a introdução de Bang Bang, inclinamos o tronco para frente, fazendo um movimento circular, lento. Emendamos passos básicos do cheer em meio a rebolados. Sentia o meu quadril se movimentar num oito perfeito, apesar de não querer admitir, eu estava me achando sexy e quase podia ver a boca de todos se abrindo enquanto me assistiam. No refrão viramos uma para outra enquanto mexíamos os ombros e depois rebolávamos até o chão. Me divertia muito, e pelo incrível que pareça, eu sabia a coreografia inteira. Eu e minha outra ríamos entre os passos, entrelaçando com caras e bocas. As pessoas ao nosso redor começaram a bater palmas e dançar no ritmo da música. A sensação de poder era maravilhosa. Alguns segundos antes do fim da música comecei a dar estrelinhas para trás freneticamente, enquanto Emi ia rebolando se ajoelhar atrás de mim. Peguei impulso nos seus ombros e virei um mortal sobre ela, repousando três segundo depois, perfeitamente com as pernas esticadas e os braços apoiados na minha cabeça, exatamente quando a canção terminou. Só então percebi que a pessoas em que eu tinha ganhando impulso não era minha outra eu, mas sim Jake, o capitão do time.

Um segundo de silêncio se estendeu e eu pensei que havia feito algo muito ridículo, mas no mesmo instante uma onda de palmas e gritos se levantou. As pessoas erguiam os braços para cima, pulavam e faziam sons, que me traziam uma sensação maravilhosa. Minha respiração estava ofegante, meu coração acelerado e eu não acreditava no que havia acabado de fazer.

Mas como disse Emi, esse era apenas o começo da minha vingança.

Notas finais
Seria ótimo se vocês me contassem o que acharam!