II
Entre suspiros pode outro nome
Dos lábios te escapar
Terei ciúme até de mim
No espelho a te abraçar
Tua Cantiga — Chico Buarque
Assim que chegou no campo de batalha da Quarta Guerra Ninja, sentiu o olhar espantado e admirado de Sakura em suas costas. Ino correu para ele com abandono, impedida apenas por Chouji e Shikamaru, que deixaram claro que o jovem Uchiha não era nada bem-vindo. Mas ela ficou atrás de Kiba e Shino, observando a cena, confusa, sem julgamentos.
E estava bonita, tão bonita! O longo cabelo realçando suas finas feições e uma aura determinada que só unificava sua delicadeza.
Até falou aquela bobagem sobre se tornar Hokage e obteve reações de quase todos, mas dela, nada, nenhuma. O olhar perolado fixo ou no loiro sentado no chão ou nos companheiros do time 8.
Imprevisivelmente, o quadro se complicou. Por pouco conseguiu impedir Naruto de escapar da proteção de seu Susanoo e correr até ela para retirá-la do Tsukuyomi Infinito.
ー Naruto, agora não! ー disse segurando-o pelo ombro e sentiu que servia tanto para o amigo, quanto para si. Não podia ficar pensando sobre isso naquele momento, tinham problemas maiores. Analisaria a situação mais tarde.
O mais tarde chegou e bem diferente do que Sasuke planejara inicialmente.
Teve que voltar para a Vila a fim de receber tratamento médico e, por causa da superlotação do hospital, acabou dividindo o quarto com o Uzumaki.
Com raríssimas exceções, os antigos companheiros de Konoha vinham visitar Naruto e apenas Naruto. Para ele eram os doces, as flores e as palavras de animação e conforto. Para o moreno, os olhares de esguelha e cumprimentos frios. O garoto que um dia foi tão popular, agora completamente rejeitado.
Portanto, quando Hinata veio visitar pela primeira vez, Sasuke ficou inquieto. Qual seria a sua atitude? Ela o ignoraria? Sabia que sua natureza gentil a impediria de ser rude, mas não a impediria de ser indiferente e isso o deixava nervoso.
Observou-a entrar pela porta com a cabeça inclinada e uma sacola de pano debaixo do braço direito. Parecia abatida. Estava com os olhos fundos e baixos, mas pareceu contente ao ver o Uzumaki se recuperando. Ele, então, assim que a viu, só faltou latir de felicidade.
ー Bom dia, Naruto-kun, Sasuke-kun. ー desejou com a mesma voz suave de sempre e encarando a ambos. O Uchiha não respondeu. O loiro, por outro lado, compensou sua fingida falta de entusiasmo com um sorriso enorme e uma voz animada:
ー Hinata! Estou tão feliz que veio me ver.
Virou o rosto para o lado, sentindo o estômago queimar. O Uzumaki não tinha a menor dúvida de que ela estava ali por causa dele.
A Hyuuga corou levemente.
ー Infelizmente, não vou poder ficar muito, mas e-eu trouxe isso. ー disse puxando um recipiente retangular da sacola. Entregou-o a Naruto. ー Tsunade-sama disse que estava tudo bem agora… então…
O loiro abriu o recipiente e seus olhos brilharam.
ー Sopa de feijão vermelho! Você é mesmo demais, Hinata!
Sem que pudesse se conter, o moreno sentiu sua carranca se intensificar conforme a queimação da boca do estômago subia para o peito. Entretanto, tudo se desfez em segundos quando notou que Hinata também estendia um recipiente em sua direção.
ー Eu trouxe algo para você também, Sasuke-kun. Onigiri… Você gostava… Gosta, não é?
Sentiu como se mel quente tivesse sido derramado por todo o seu peito. Naruto olhava a cena parecendo achar tudo muito natural, fazendo com que o Uchiha se perguntasse se ela teria contado algo a ele. Algo sobre o passado deles.
Demorou alguns minutos para erguer a mão e aceitar o presente.
A Hyuuga, de fato, não demorou. Assim que entregou os recipientes, desejou a eles boa recuperação e despediu-se. Antes de fechar completamente a porta, porém, ela e o Uzumaki trocaram um sorriso e olhares cúmplices que fizeram com que a irritação de Sasuke voltasse de forma galopante.
Afundou-se na cama, segurando com força o presente de Hinata. Aquela seria uma batalha árdua; teria que calcular cada passo com cuidado e teria que ser paciente, algo completamente contrário à sua natureza.
Permitiria que Naruto aproveitasse um pouco da companhia de sua mulher, pois assim que estivesse pronto para reivindicá-la, faria questão de deixar em cinzas qualquer relação entre eles.
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