Notas iniciais
III
Tudo do mundo é frágil, tudo passa
Quando dizem isto toda a graça
De uma boca divina fala em mim
De olhos postos em ti, digo de rastros
Podem voar mundos, morrer astros
Que tu és como Deus, princípio e fim
Fanatismo, Florbela Espanca
Preferiu surpreendê-la bem no local onde o caminho bifurcava: um dos lados seguindo para os terrenos do antigo clã Uchiha e o outro para os do clã Hyuuga. Acreditava que isso a faria se sentir mais segura e propensa a ouvir sua proposta, além do fato de ser uma passagem tranquila e pouco utilizada.
Tentando não chamar atenção, se camuflou na copa da árvore mais pŕoxima e, durante as muitas horas de espera, controlou o chakra com maestria. Se Naruto notasse sua presença e sua volta inesperada à vila, seu plano poderia ir por água abaixo. Apesar da famosa ingenuidade do loiro, Sasuke desconfiava que ele tinha conhecimento sobre seu passado com a Hyuuga e que não deixaria de estranhar esse retorno tão conveniente.
O sol já estava se pondo, pintando o céu de laranja, quando notou, então, os passos da kunoichi. Hinata se aproximava da divisão do caminho. Andava devagar, e, apesar da visível infelicidade, mantinha a cabeça erguida.
Sentindo-se ridículo por estar nervoso, o Uchiha segurou na bainha da espada, arrumou a capa preta e desceu da árvore com elegância, pousando de pé imediatamente à frente da mulher. Ela deu alguns passos para trás, parecendo surpresa, mas não assustada. Parou a um braço de distância e disse como confirmação e cumprimento:
ー Sasuke-kun.
O shinobi sentiu sua mente nublar; as luzes do poente deixavam-na ainda mais bonita. Os olhos perolados, porém, pareciam um pouco vazios, apáticos e quase fizeram com que se arrependesse do que tinha feito. Quase.
Não retornou o cumprimento, preferindo ficar quieto por alguns instantes. Precisava se concentrar. Toda sentença mal colocada destruiria qualquer mínima chance que tivesse e, apesar do preparo e cuidado que pensara em ter, acabou sendo vencido pela própria personalidade direta e franca.
ー Soube sobre Naruto e Sakura.
Suas palavras caíram sobre Hinata impiedosamente. Ela desviou o olhar, abaixou a cabeça e ergueu a mão na altura do peito esquerdo, como se estivesse se protegendo.
ー Hum… Sim… Sinto muito.
A voz feminina soou tão baixa e quebradiça que, se o ambiente não estivesse silencioso, não teria escutado.
ー Não é você quem tem que se desculpar.
ー Não… Não é isso. ー ela prosseguiu um pouco mais alto e firme. ー Mas… Sua noiva, seu melhor amigo… Você também está sofrendo, não é?
Tudo foi dito com tamanha suavidade que o Uchiha ficou completamente surpreso com o impacto que causou em seu âmago. Estava vulnerável para a empatia e não pode deixar de pensar no Uzumaki. Conhecia sua infância, sua fome desesperada por amor e aceitação e se aproveitou disso inescrupulosamente. Arquitetara e colocara em prática um plano para surrupiar da pessoa mais próxima que tinha na vida aquilo que ela mais desejava.
A Hyuuga o olhava, esperando uma resposta.
ー Você ainda o ama? ー perguntou sem rodeios e do mesmo jeito ela respondeu:
ー Sim.
ー Pretende retomar o compromisso?
O olhar perolado o atravessou. A kunoichi balançou a cabeça com delicadeza, mas a voz saiu resoluta:
ー Não.
ー Por quê?
ー Não há como voltar para o que não existe mais.
Sasuke apertou as sobrancelhas negras, confuso.
Lembrou-se dela e de si mesmo quando crianças e do amargor e desprezo que sentiu em relação a todos após o massacre do clã, demorando para ser capaz de admitir e reconhecer as qualidades dos demais. Hinata tinha amadurecido e ficado mais forte, sim, no entanto, o que a distinguia sempre se fizera presente: o seu poder de enxergar a alma dos outros.
Exatamente como Itachi.
Ela tinha enxergado o valor de Naruto quando ainda eram pequenos e quase antes do que qualquer outra pessoa. O que será que via agora para falar daquela maneira?
De uma forma ou outra, essas reflexões não abrandaram o desejo do Uchiha ou o dissuadiram de seu intuito, pelo contrário, fortaleceram.
ー Onigiri.
Foi notável o espanto dela com a mudança repentina de assunto, mas esperou que ele seguisse, pacientemente.
ー Você levou para mim no hospital. Você se lembrou que eu gostava mesmo depois de tanto tempo ou alguém te contou?
O semblante da kunoichi suavizou e ela chegou a dar um pequeno e doce sorriso.
ー Eu me lembro que a sua mãe fazia com frequência quando íamos visitar o seu clã e você sempre acabava comendo o seu e o meu também. ー como se tivesse tido um pensamento ruim, seu rosto voltou a ficar sério e prosseguiu com uma dose de culpa. ー Espero não ter sido inconveni...
ー Não. ー interrompeu. ー Não foi.
Ficaram em silêncio. O shinobi incerto de como prosseguir. Ao mesmo tempo em que parecia natural que se unissem, dada as circunstâncias, não queria passar a impressão de que estava fazendo tudo aquilo para se vingar dos traidores, até porque seria o último a poder julgar e condenar o erro de qualquer um.
Queria que suas intenções ficassem inequívocas. Queria aquela mulher, pois era algo que seu pai tinha desejado para ele; pois era algo que fortaleceria os clãs e daria origem a um poder novo e superior. E, apesar disso, queria aquela mulher, principal e simplesmente, porque essa era a sua vontade.
Observou-a abrir os lábios com lentidão, talvez em uma tentativa de se despedir, e adiantou-se, desviando-se do planejado.
ー Hinata. ー o som de seu nome dançou em sua língua. ー Eu quero que você me permita algo.
ー O que? ー perguntou atarantada.
ー Permita que eu seja mais íntimo de você.
Olhos negros firmes. Olhos perolados arregalados.
ー E-eu acho que não… Acho que não… entendi.
Ela tinha entendido e muito bem. O leve rubor que tingiu suas bochechas jamais passaria despercebido por aquele homem; além do mais, Sasuke não era do tipo ambíguo. No entanto, se precisasse ser mais explícito, seria:
ー Não é incrível pensar que, de alguma forma, sempre estivemos ligados um ao outro, mesmo que através de outras pessoas? Os nossos clãs, os nossos pais, Naruto… De um jeito ou de outro, você e eu sempre estamos próximos, conectados.
Pausou para organizar seu discurso.
ー Quero deixar claro que isso não se trata de dar o troco. Como você, eu também fiquei mais forte e amadureci… E se, talvez, você se pergunte se o meu pedido se baseia, unicamente, em um sentimento de obrigação de fazer cumprir um dos últimos desejos da minha família, a resposta também é não. Não fiz esse pedido por qualquer outro motivo além do meu querer, do meu desejo e da minha vontade. Naruto e Sakura já fizeram tanto por mim, não seria difícil ignorar o que houve e seguir adiante, mas, então, eu perderia a minha maior chance de ser feliz com quem eu realmente quero. Da maneira que vejo, não há outros como nós, Hinata. Sinto que tudo o que passamos serviu para nos direcionar para esse exato momento. Nossos destinos sempre andaram de mãos dadas e talvez isso signifique que devemos fazer o mesmo.
Muito lentamente, Sasuke ergueu a mão para Hinata.
Ela o encarava impassível e não respondeu nada, mas deu um passo para frente.
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