Notas iniciais
I
“Minh’alma de sonhar-te anda perdida
Meus olhos andam cegos de te ver”
Fanatismo, Florbela Espanca
Quando crianças, brincavam juntos. Ora nos territórios do clã Uchiha, ora nos do Hyuuga e sempre sob os atentos olhares de canto dos pais, que discutiam assuntos muito além da compreensão dos pequenos, embora os envolvessem.
O pai explicava a Sasuke que ambos os clãs descendiam da mesma árvore poderosa e que estava na hora de unirem-se novamente para dar origem a um novo futuro. O garoto não entendia exatamente do que se tratava e não achava que Hinata parecia poderosa, mas a achava adorável e sua personalidade calma o lembrava do irmão e disso gostava.
A brincadeira favorita do jovem Uchiha era correr atrás da herdeira Hyuuga, ouvir seu grito suave e ver seus olhos arregalados quando a alcançava com facilidade, mesmo após ter lhe dado vários minutos de vantagem na largada. Ela, por outro lado, gostava mais de jogos de estratégia e vencia sempre.
Diferente de Sasuke, que se gabava a cada vitória, ela simplesmente sorria com gentileza e falava:
ー Você jogou bem, Sasuke-kun.
Já naquela época odiava a sua condescendência.
Então, veio o massacre e toda a vida do garoto virou de cabeça para baixo.
Mesmo na vida adulta, Sasuke não tinha certeza se Hiashi conhecia ou não os planos do clã Uchiha. Fosse qual fosse a resposta, o chefe do clã Hyuuga não demorou para afastar a si e aos seus do único sobrevivente.
Lembrava-se com nitidez do dia em que voltou para a academia depois da tragédia. Hinata o encarou com uma estranha mistura de tristeza e força e estava se aproximando, segurando uma trouxa lilás à frente do corpo, quando um Hyuuga não muito mais velho entrou, repentinamente, em seu caminho. Sasuke a observou gaguejando alguma coisa e o outro balançar veemente a cabeça de um lado para o outro. Por fim, ela abaixou os olhos e se afastou.
Qual não foi a sua surpresa, porém, ao voltar para as terras do clã naquela tarde.
Diante da porta de sua casa, a mesma trouxa que, mais cedo, estava nas mãos de Hinata. Enrugou a testa confuso e levou o pacote para dentro. Dele desprendia um cheiro delicioso, impossível de ser ignorado por qualquer um e menos ainda por quem não sabia o que era comida caseira há algum tempo. Nunca cozinhou antes, estava aprendendo e não poderia dizer que isso fazia parte de suas habilidades.
Levou a trouxa até a mesa da cozinha e a abriu com delicadeza. Dentro, obentos organizados um em cima do outro e no primeiro, amarrado com fita branca, um bilhete escrito com a caprichada caligrafia da Hyuuga:
“Se cuide e fique forte.”
Se não houvesse derrubado todas as lágrimas que possuira pelos membros do clã e pelo, antes idolatrado, irmão mais velho, teria chorado.
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