Voo | O Chamado

30 XXVIII Oásis em meio ao deserto


Por algum motivo, algo dentro de mim havia me levado até a casa de minha avó, mesmo desorientado, algo dentro de mim sabia que aquele era o lugar certo para ir. Sentei no degrau e fiquei um tempo ali, apenas respirando, esperando minha divagante consciência retornar. Agora, havia uma tristeza enorme dentro de mim, como um vazio que me engolia, um buraco que me puxava para seu fundo, devastador, incontrolável. Fiquei ali por alguns minutos, me levantei e bati na porta. Minha avó abriu um tanto surpresa, logo seu rosto virou preocupação, eu enfim era fortemente golpeado. Lhe abraçando, o que dentro de mim era um buraco que me puxava, seu polo parecia repentinamente se inverter, me lançando bruscamente para fora como se optasse por me matar, assim, toda a minha estrutura vinha ao chão em um completo desespero. Lágrimas não, um mar salgado e infinito, um mar amargo como meu coração.

Lembrei-me sutilmente, do dia em que, aos meus seis anos de idade decidi escalar uma árvore até seu topo, ao subir destemidamente, me sentia um guerreiro, desbravador, forte. Fiquei por um tempo em uma galha e ao ouvir o chamado de minha mãe comecei a descer, então, em um breve desequilíbrio, um passo em falso, eu despenquei do meio daquela enorme árvore até tocar no chão. No primeiro momento meu cérebro nada entendia, eu simplesmente paralisei, sem ao menos respirar, era como se estivesse desfalecendo, aos poucos meu cérebro parecia gritar comigo ao ver um pequeno galho descer e tocar o chão, "reage! reage! faça algo!", a percepção de estar no chão vinha aos poucos, a dor que sinalizava pelo corpo, a lágrima que sentia descer no canto dos olhos, a sensação de uma pessoa rapidamente chegando ao meu lado, os cabelos longos de minha mãe voando, seu desespero distante, ela me pega me coloca sentado e me balança, ouço sua voz ecoar distante em meu ouvido, "Vamos Darwin, reage meu filho, vamos!", seus lábios se movem bruscamente, e ao notar uma lágrima escorrer em seus olhos, eu enfim suspiro longamente, dando em seguida um grito e liberando o choro em seus braços. Não me lembro de chorar como naquele dia. A sensação hoje, era a mesma daquele dia, com uma diferença, não sei se estou no chão, e se estiver nada me garante que ele não se abrirá. Estou morrendo, despencando, estou em plena queda e desta vez ninguém pode me salvar.

Deitado no sofá, recostado no colo de minha avó, agora um pouco calmo, podia perceber a pessoa detestável a qual aos poucos me tornava, percebia também que talvez pessoas detestaveis não se tornassem assim repentinamente, e que tão pouco nascessem assim. Mas, como não me tornar essa pessoa? Como lutar contra isso, quando o mundo parecia querer arrancar de mim o pior? Como não ceder?

Me sentia mal por refletir no quão babaca estava sendo ultimamente com Ozannia, com minha avó e com o pastor. Estava frio, distante, me isolava sendo rude com as pessoas que mas queriam me ajudar, que estavam dispostas a queimar comigo.

Tinha que haver uma forma de não ser assim, de ser diferente, ou me tornaria semelhante ao meu avô e meu pai, sem controle, amargo, arrependido em atitudes equivocadas.

Como não permitir que tudo isso me afetasse?

Subitamente lembrava que precisava voltar para casa, não podia deixar Ozannia e Deivy sozinhos, principalmente com Olavio.

Me levantava bruscamente agradecendo minha avó por tudo.

— Fique Darwin, é melhor passar a noite aqui, precisa de tempo para espairecer a mente, não é bom voltar para sua casa neste momento.

— Não posso deixar Ozannia e Deivy sozinhos vó, principalmente com Olavio presente.

Minha avó rapidamente retrucou:

— Sua tia Maura pode dormir com eles esta noite.

Não respondi nada, apenas pensava na hipótese, tentava chegar a uma conclusão. Não sei se era bom dormir fora de casa, depois do ocorrido com meu pai, Deivy estava ainda mais abalado, perdeu minha mãe repentinamente, e antes que se acostumasse com toda a mudança, com o fato de não ter mais minha mãe, meu pai desapareceu, ele andava muito assustado, qualquer coisinha ele chorava, andava muito alterado.

Minha avó ficou calada me olhando por um tempo até que quebrou o silêncio:

— Darwin, meu neto. Só posso ajudar se você permitir. Sei que neste momento, talvez a última coisa que queira ouvir é um conselho, mas um bom conselho pode ser sua salvação.

Ela deu uma pausa, olhando para mim.

Eu fixei os olhos nela, percebi que esperava uma autorização para prosseguir falando, queria ter a certeza de que eu a ouviria. Assenti com a cabeça, é no mesmo instante ela continuou:

— Você chegou aqui tão nervoso, não seria prudente retornar hoje. Após uma noite de sono você estará melhor, menos furioso. Sabemos que Olavio não está importando se algo vai tirar alguém do sério ou não, da forma que está, para Olavio te deixar irado e fazer com que perca a razão será muito fácil. Ozannia e Deivy, não só precisam de você, como precisam que esteja bem.

Claro que as palavras de minha avó eram certas, voltar para casa hoje era como cutucar pitbull com vara curta. Acataria o conselho de minha avó para o bem de todos.

Ao subir as escadas rumo ao quarto a qual passaria a noite, me encontrei com meu avô. Tinha lhe visto apenas uma vez, ele quase não saia devido o problema para andar, se arrastava muito de uma das pernas, meu avô também não gozava de saúde. Ele surpreendente me abraçou e lamentou:

— Sinto muito!

Senti que ele estava meio abatido, mas eu também estava exausto, trocamos apenas algumas palavras e subi rumo ao quarto. Minha avó me acompanhou, arrumou o ambiente, como só uma mãe arruma, ajeitando a almofada, colocando o lençol, pegando a melhor colcha, me lembrava que não estava sozinho. No fim, se despediu com um leve beijo em minha testa, a qual tive que me abaixar brevemente e desceu. Eu deitei na cama e apaguei, só precisava daquele momento de descanso e nada mais, um momento onde nada existisse, somente a escuridão, o silêncio, a pausa.

Deixo aqui, uma musica reflexiva, sobre alguns nãos que as vezes não queremos, mas que parecem ser necessários.

https://youtu.be/9piyJqA9pR4

Notas finais
"Há lugares que são o céu na terra, não pelo lugar em si, mas, pelas pessoas que nele habita. Nos deixa quentinhos, seguros, amados, aliviados por ali simplesmente estar. Pois estar, é uma ação, um ato revelado e direcionado ao outro, de presença, cuidado, amparo e amor, independente da presença de palavras."