Pela manhã como de costume antes do sol nascer estava de pé, assim que o galo cantava eu lanchava e saia para um novo dia de trabalho. Para a minha surpresa, ao descer, minha avó já estava na cozinha, preparava o desjejum.

Trocamos poucas palavras, pois o pau de arara me esperava para me levar a próxima missão.

Desta vez o caminho era um pouco mais longo que o comum, íamos onde tinha plantação, não importava a distância, esse era o nosso ganha pão; na traseira do caminhão, com o chacoalha e as conversas aleatórias de costume. Estava mais silencioso, pensava em minha irmã e em meu irmão Deivy, pensava em como estavam depois daquela noite tumultuada. Ozannia era forte, não tinha dúvida, mas não queria que ela fosse obrigada a ser forte o tempo todo, faria isso por nós, não poderia fraquejar e nem deixar Olavio me abalar, o que aconteceu ontem não poderia voltar a acontecer, alguém tinha que ser maduro, e eu só podia contar comigo mesmo, não havia ninguém por mim.

Desembarcamos em um milharal após duzentos quilômetros de estrada.

Peguei minha fileira de milheiros e segui reto, sem conversas, sem ninguém por perto.

Era por volta das onze horas da manhã, o sol já estava quase alinhado no centro do céu, no pique de sua força, o calor fazia o suor descer na testa, mas já estava acostumado, nada que incomodasse. De tempo em tempo parava para entornar a cabaça, no pique do dia, se hidratar nunca era demais.

Estava tranquilo e concentrado em meu serviço, era uma forma de ajudar a desestressar também, fazia com que minha cabeça não pensasse tanto. Catava a espiga e colocava no grande cesto, quando um senhor moreno, de cabelo liso grisalho, olhos puxados pretos, baixo, troncudo, apareceu do nada no meio de uma fileira de milhos, me fazendo assustar. Logo se aproximou de mim.

- Dia quente não é jovem?

Olhei para ele e acenei com a cabeça, logo em seguida voltei a pegar espigas.

Ele permaneceu um período em silêncio e após um curto intervalo voltou a falar comigo.

- Ora!

Expressava limpando o suor de sua face.

- Você tem água aí? Me ajude a matar minha sede, estou tão sedento.

Me virei novamente para ele, o mesmo franzia a testa como se implorasse.

Pensei em negar, mas ele era um senhor debaixo daquele sol escaldante, ficaria com peso na consciência se ele passasse mal. Mas que tipo de pessoa vem fazer uma colheita em uma plantação e não traz sua cabaça ou seu jarro, ou a moringa? Ficar sem água significa pedir licença para sair, andar o milharal todo até o irrigador mais próximo, que nunca estava por perto, isso se o responsável pela linha de plantação permitisse. Esse povo tinha um coração miserável, odiavam dar qualquer coisa que fosse, a água era do proprietário do milharal, era melhor que morrêssemos de sede, já achavam de mais nos pagar.

Por fim, pensei vagamente: "Será possível, não tenho um minuto de paz? A vida só pode estar brincando comigo. Aquele senhor deveria saber que vir a um milharal sem sua moringa ou cabaça, e como sair de casa sem suas calças."

Respondi vagamente entre dentes, "pega". Ele questionou.

- O que jovem? Estou ficando um pouco surdo.

- Pegue senhor!

Fui conciso e direto continuando meu trabalho.

Ele pegou a cabaça no chão, senti uma leve dor no coração, tirou a tampa e virou, virou de novo e tornou a virar.

"Ah! Que coisa! Ficarei totalmente sem água. Ainda tinha uma tarde inteira pela frente. Que senhor folgado!"

Ele voltou a colocar a cabaça no chão e colocou a tampa na boca da mesma, sorriu para mim e acrescentou:

- É tão bão matar a sede, não é?!

Acrescentou batendo em minhas costas. Eu, nem me virei, da forma que estava continuei.

Ele prosseguiu comigo durante o decorrer do dia, puxando assuntos bobos, falando sobre os milhos, sobre espigas boas, sobre terreno, eu segui fingindo que ouvia. Fez questão de comer a marmita do meu lado e ficou na mesma linha na plantação de milho no decorrer da tarde, eu segui fingindo que lhe ouvia, não podia fazer nada, já havia demonstrado que não queria conversa, mas ele não me deixava.

Após aturar aquele senhor por algumas horas, por volta das três horas da tarde depois de ficar um tempo silencioso ele sentou-se no chão ficou um tempo olhando para o céu e voltou a falar:

- É tão lindo ver os pássaros voando no céu, e uma sincronia perfeita, um show da natureza. Mas nem sempre foi assim para eles, admiramos e achamos tão lindo vê-los voando no céu majestosamente e acabamos esquecendo do processo que passam para poder alcançar o céu, são quarenta dias de processo, você sabe disso?

"Os pássaros vivem seu processo, depois desfrutam o céu, seu lugar reservado. O céu é o desejo de muitos, mas poucos habitam, requer leveza, adaptação, fluidez e ousadia."